terça-feira, março 31

ACERCA DA CRISE

Carlos Tarrats

A crise financeira internacional vai revelando um infindável cortejo de aberrações na gestão dos empórios financeiros e industriais, um magma, por vezes indecifrável, de aberrantes privilégios que só podem encontrar justificação na crença cega nas virtudes do mercado como antes, com o império soviético, muitos acreditaram cegamente nas virtudes da propriedade colectiva dos meios de produção. O problema é que, sob as mais diversas formas, a crise faz sempre engrossar as fileiras dos extremistas. Os cidadãos trabalhadores, em todos os níveis da escala social, crentes na vantagem do regime democrático, exigem que os governos eleitos não distribuam os recursos de todos em favor dos “ladrões do templo”. Os governos democráticos não podem ceder às facilidades de apoiar, indiscriminadamente, quem mais alto grita a sua aflição. Não quero sequer pensar que aqueles que pagam, a tempo e horas, os seus impostos, contribuições, taxas e afins, os cidadãos cumpridores das suas obrigações perante a comunidade, sejam espoliados por uma aliança espúria entre políticos eleitos e ladrões com estatuto de empreendedores. É preciso desmanchar a trama. E para surpresa de muitos que acreditaram, com boa fé, nos amanhãs que cantam, têm que ser os partidos do centro esquerda a tomar a iniciativa de empreender políticas regeneradoras. A direita fará sempre renascer a especulação desenfreada, a esquerda da esquerda os mitos do colectivismo empobrecedor. É preciso, nesta época difícil, como aconteceu outras vezes no passado, ter a coragem de defender as reformas centradas no bom senso, na conciliação dos interesses, na defesa de um modelo de radicalismo centrista. A alternativa é o populismo que conduz à guerra. Mas como os políticos do ocidente, seja qual for o seu quadrante político, nos dias de hoje, não têm a memória da guerra era uma boa terapia que frequentassem a rua e ouvissem, na pastelaria, a conversa da mesa do lado. Um exercício simples mas eloquente para informar políticas. Como Obama confessava, numa entrevista recente, faz-lhe falta ouvir a rua e essa falta, na verdade, é um handicap terrível para os políticos da era mediática.
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segunda-feira, março 30

25 de Abril de 1974 - três momentos fascinantes

Foto de Bruno Barbey
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A rendição de um PIDE

Num post anterior, publicado em 16 de Março, aniversário do «Golpe da Caldas» descrevi, de forma mais sucinta possível, a minha insólita participação na coluna de Salgueiro Maia na madrugada do 25 de Abril.

Nessa madrugada já após termos ultrapassado a coluna de Salgueiro Maia não sei já se na Rua do Arsenal, ou na Av. Ribeira das Naus, entrámos, ia alta a noite, no Quartel do Campo Grande e desde essa madrugada, até depois do dia 1º de Maio de 1974, não saí do quartel senão uma única vez.

Não vivi na rua a verdadeira festa do 25 de Abril após a consumação da vitória da revolução. Não assisti à enxurrada de manifestações populares nem participei, com muita pena minha, na manifestação do 1º de Maio de 1974. Os soldados ficaram, horas a fio, alinhados nas casernas, por detrás das janelas de armas apontadas para a rua, preparados para o que desse e viesse. Alguém tinha que cuidar desses detalhes da «cozinha» da revolução.

Num desses dias, estava de oficial de dia o António Dias, quando foi procurado por alguém que da rua pretendia falar. Era um agente da PIDE que se queria entregar. Foi recebido com deferência. Identificou-se e fez a entrega da arma. Uma bela pistola que, devo confessar, me suscitou cobiça e nunca mais esqueci.

De seguida coube-me a tarefa de o escoltar a caminho da Ajuda onde o entreguei em «Cavalaria 7» ou «Lanceiros 2». Foi a minha única saída do quartel em todos aqueles dias de brasa.

No percurso, realizado em jipe, nem uma palavra se trocou. Lembro-me de ter cumprido a missão, com rapidez, respeitando e defendendo, do primeiro ao último momento, a dignidade de um homem aterrorizado que tinha passado, de um dia para o outro, de agente do poder a prisioneiro do poder.
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O passo em frente

Os dias que se seguiram ao 25 de Abril foram de ansiedade e expectativa. Nas ruas a euforia disfarçava o nervosismo mas nos quartéis o ambiente não era de certezas definitivas. O Oficial que assumiu o Comando da minha unidade, certamente o Major Azevedo, mandou reunir os oficiais milicianos.

Formámos um semi-círculo e o comandante perguntou se alguém estava contra, ou tinha reservas, face ao Movimento das Forças Armadas. Quem estivesse contra daria um passo em frente. Gerou-se um ambiente de silêncio e passividade total.

Eis senão quando o Graça (Mário), o de Moçambique, deu um passo em frente. Ficámos sem saber o que pensar. Mas ele explicou. Não tinha a certeza se os militares levariam até ao fim o processo de libertação do povo português e a descolonização.

Ficamos mais descansados e destroçamos com sorrisos. Na prática todos os oficiais milicianos do quartel estavam com o MFA.

Mário Viegas

Mas o oficial miliciano mais fascinante do meu Quartel era o Mário Viegas. O seu estatuto no serviço militar era apropriado ao seu talento de actor.

Vivemos em comum aqueles momentos inesquecíveis em que a liberdade foi devolvida aos portugueses. Tinha por ele um natural fascínio que sempre me retribuiu até à sua morte prematura.

Por um daqueles dias entre o 25 de Abril e o 1 de Maio de 1974, se não erro, no Quartel do Campo Grande, assisti ao espectáculo mais extraordinário de toda a minha vida. Havia que festejar o que agora comemoramos com nostalgia. O refeitório foi transformado numa sala de espectáculos. Nele se reuniu toda a gente de serviço no quartel.

Imaginem o elenco daquela festa improvisada: Carlos Paredes, Zeca Afonso e Mário Viegas. Todos mestres geniais na sua arte. A certa altura o Mário Viegas subiu para o tampo de uma mesa e a poesia brotou, em palavras ditas, como se diante de nós se revelasse um novo mundo ou tivéssemos da vida renascido.

[A partir de um conjunto de posts publicados no Absorto em Março/Abril de 2004.]
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Fascistas de vanguardia

[Também em IraoFundoeVoltar]
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domingo, março 29

El error Ratzinger se agiganta

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Vivemos num mundo em que é preciso escolher sermos vítimas ou carrascos e nada mais.

“Antinomias políticas. Vivemos num mundo em que é preciso escolher sermos vítimas ou carrascos – e nada mais. Esta escolha não é fácil. Pareceu-me sempre que na realidade não há carrascos, há apenas vítimas. No fim de contas, bem entendido. Mas é uma verdade que está pouco espalhada.
Gosto imenso da liberdade. E para todo o intelectual, a liberdade acaba por confundir-se com a liberdade de expressão. Mas compreendo perfeitamente que esta preocupação não está em primeiro lugar para uma grande quantidade de europeus, porque só a justiça lhes pode dar o mínimo material de que precisamos, e que, com ou sem razão, sacrificariam de bom grado a liberdade a essa justiça elementar.
Sei estas coisas há muito tempo. Se me parecia necessário defender a conciliação entre a justiça e a liberdade, era porque aí residia em meu entender a última esperança do Ocidente. Mas essa conciliação apenas pode efectivar-se num certo clima que hoje é praticamente utópico. Será preciso sacrificar um ou outro destes valores? Que devemos pensar, neste caso?” (Texto escrito entre Setembro e Outubro de 1945.)

“Antinomies politiques. Nous sommes dans un monde où il faut choisir d´être victime ou bourreau – et rien d´autre. Ce choix n´est pas facile. Il m´á toujours semblé qu´en fait il n´y avait pas de bourreau, mais seulement des victimes. Au bout du compte, bien entendu. Mais c´est une vérité qui n´est pas répandue.
J´ai un goût très vif pour la liberté. Et pout tout intellectuel, la liberté finit pour se confondre avec la liberté d´expression. Mais je me rend parfaitement compte que ce souci n´est pas le premier d´une très grande quantité d`Européens parce que seule la justice peut leur donner le minimum matériel dont ils ont besoin et qu´à tort ou à raison ils sacrifieraient volontiers la liberté à cette justice élémentaire.
Je sais cela depuis longtemps. S´il me paraissait nécessaire de défendre la conciliation de la justice et de la liberté, c´est qu´à mon avis là demeurait le dernier espoir de l`Occident. Mais cette conciliation ne peut ce faire que dans un certain climat qui aujourd´hui n´est loin de me paraître utopique. Il faudra sacrifier l´une ou l´outre de ces valeurs ? Que penser, dans ce cas ? »*


Vivemos num mundo que não escolhemos
foi-nos dado viver nele e buscar um destino
ser colhidos como uma flor nascida acaso
na beira da estrada ou no canteiro florido
do lugar que não escolhemos para nascer

vivemos num mundo sombrio onde a luz
alumia um só caminho que não sabemos
percorrer lugar perdido em que é preciso
escolher toda a vida o incrédulo absurdo:
sermos vítimas ou carrascos e nada mais.

* Citação de 1945, in versão portuguesa dos Cadernos de Albert Camus – Caderno Nº 5 (Setembro 1945 – Abril de 1948) - página 131, edição Livros do Brasil; in versão original francesa “Carnets (1935 – 1948) – “Cahier V (Septembre1945- avril 1948) – página 1026, Oeuvres complètes – II. (Mesmo quando surgem duvidas tenho mantido sempre a tradução original.) [Também no Caderno de Poesia.]

sábado, março 28

VAMOS LÁ A MAIS 1 HORA E MEIA DE SOFRIMENTO


O futebol está mais polémico do que nunca. No mau sentido. Quanto mais a crise aperta mais se aguça o engenho para ganhar a qualquer custo. O negócio esmaga absolutamente o jogo. Duvidamos do carácter aleatório dos resultados – o grande encanto do jogo. Pairam suspeitas com cada vez mais evidências empíricas acerca da verdade desportiva. Até há pouco tempo as selecções nacionais pairavam – ao menos na aparência – acima desta descrença. Mas as selecções nacionais, que podiam ser um último reduto benévolo de um nacionalismo são, tornam-se, pouco a pouco, numa réplica, com bandeira e hino, dos negócios de ligas, sociedades anónimas desportivas e empresários. O passo seguinte é acabar com as selecções em nome da competitividade e da salvação do futebol. Parece-me que está tudo ao contrário! Entretanto vamos ver se o Prof. Queiroz com aquele ar de deputado, deambulando nos Passos Perdidos, consegue fazer um esforço para transmitir um sopro de entusiasmo à selecção. Neste jogo Portugal (10ª selecção no ranking da FIFA, com 1025 pontos) confronta-se com a Suécia (25ª, com 782 pontos). Se não ganharmos confirma-se uma fase de declínio que aparenta ter tomado conta dos destinos da selecção e do futebol português. Se ganharmos acende-se uma luz ao fundo do túnel.
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Clarice Lispector

No dia 31 de Março estreia no Chapitô, a peça teatral "Que Mistérios tem Clarice" que aborda a vida e obra de uma das escritoras brasileiras mais emblemáticas do século XX. Com esta peça, Rita Elmôr recebeu a indicação para o prémio Shell de melhor actriz no ano de 1998.

A seguir, nos dias 1 e 2 de Abril, realiza-se na Casa Fernando Pessoa um colóquio sobre a escritora que contará, entre outros, com a presença da Profª Nadia Gotlib (Universidade de São Paulo) - autora da fotobiografia de Clarice da qual foram retiradas as imagens que compõem a mostra "Clandestina Felicidade" que poderá ser vista de 01 de Abril a 15 de Maio também na Casa Fernando Pessoa - e do Prof. Carlos Mendes de Sousa (Universidade do Minho), especialista em literatura brasileira, autor do livro: Clarice Lispector. Figuras da Escrita.

Como um recital, o espectáculo "Que Mistérios tem Clarice" reúne fragmentos de contos, entrevistas, cartas, reflexões e crónicas da autora. A peça busca as vivências mais quotidianas da escritora que tinha uma extraordinária capacidade de abordar o universo feminino a partir das suas próprias experiências.Rita Elmôr ressalta que a peça destaca textos onde Clarice falava sobre si mesma, a sua relação com a família e com o ato de escrever.

Confissões explícitas nos seus relatos escritos entre 1968 e 1973.

A encenação de Luiz Arthur Nunes, foi centrada no texto e privilegiou a palavra. A montagem se propõe a levar o espectador numa viagem imaginária para dentro da casa da escritora, conversando com ela, compartilhando momentos íntimos e desfrutando de sua inteligência, delicadeza e ironia, num clima de mistério e fantasia.
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sexta-feira, março 27

Maneiras Cooperativas de Pensar e Agir - Contributo para a História do Cooperativismo

Fotografia de Hélder Gonçalves

O José Hipólito dos Santos vai lançar um livro acerca de um tema interessante e muito pouco estudado: a história do cooperativismo. É na Universidade Lusófona – Campo Grande – em Lisboa, no dia 3 de Abril, pelas 18,30 horas. O edifício desta Universidade é o mesmo onde estava instalado o 2º Grupo de Companhias de Administração Militar (2ºGCAM) onde eu prestava serviço militar aquando do 25 de Abril de 1974. Coincidências.
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terça-feira, março 24

ANTÓNIO QUADROS

Leio em Da Literatura que o governo aprovou, no passado mês de Janeiro, a Fundação António Quadros. Fez bem o governo. Dão-se alvíssaras a quem, nos vários quadrantes político-partidários, emita um juízo, uma opinião …!
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PLAYBOY

“Playboy” desnuda os seus arquivos na Internet – o “Público” presta um verdadeiro serviço público.
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sábado, março 21

DIA MUNDIAL DA POESIA

Fotografia de Hélder Gonçalves

Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já
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É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.
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És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.

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No: ¡No digas nada!
Suponer lo que dirá
Tu boca velada
Es oirlo ya
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Es oir lo mejor
De lo que dirías.
Lo que eres no viene a la flor
De las frases y de los días.
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Eres mejor de lo que tú.
No digas nada: ¡Sé!
Gracia del cuerpo desnudo
Que invisible se ve.

Fernando Pessoa (5/6-2-1931)

[Pelo Dia Mundial da Poesia a minha homenagem aos sites poesias coligidas de F E R N A N D O P E S S O A, edição bilingue, português/espanhol e HARTZ, Revista Digital Española de Poesia que muito contribuem, de forma séria e persistente, para a divulgação da poesia e, em particular, da poesia portuguesa.]
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sexta-feira, março 20

A imortalidade é uma ideia sem futuro.

“Privado daquilo que é pecado, o homem não poderia viver; mas viveria perfeitamente privado do que é são.” – A imortalidade é uma ideia sem futuro.

“Privé de ce qui est péché, l´homme ne saurait vivre; il ne vivrait que trop bien privé de ce qui est saint. » - L´immortalité est une idée sans avenir.*


Viver a vida inteira. O muito. O pouco.

O nada. O que se queira.


Feliz é viver a vida inteira

sem memória.


Infeliz é morrer com a obra

no cabouco.


A imortalidade é uma ideia sem futuro.


* Citação de 1941, in versão portuguesa dos Cadernos de Albert Camus – Caderno Nº 3 (Abril de 1939 – Fevereiro de 1942) - página 168, edição Livros do Brasil; in versão original francesa “Carnets (1935 – 1948) – “Cahier III (avril 1939 – février 1942) – página 922, Oeuvres complètes – II.

[Também no Caderno de Poesia.]
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quinta-feira, março 19

Uma coisa bem esgalhada!



E porque não fazer uma projecção para o ano 3000?

Carlos Tarrats

O futuro é assim tão longe? E porque não fazer uma projecção para o ano 3000, ou mesmo para o ano 10000, assim para uma época indefinível, um mundo imperscrutável, com pessoas que podem ter recomeçado a rastejar com as árvores mortas sem memória dos frutos que delas pendiam, gente vivendo em escafandros que as protegem de temperaturas impensáveis. Mas está bem, qual foi o ano escolhido para esta projecção do INE? 2060! O meu filho festejará, se sobreviver a todas as vicissitudes da vida, as suas 78 primaveras e aposto que será um jovem com um futuro radioso à sua frente. Esta actividade do INE é ciência da pura, categoria das ciências ocultas. Porque é que não se dedicam a fazer previsões assim à distância do tempo da vida que cada um de nós!

quarta-feira, março 18

MOMENTOS FELIZES

O meu amigo Eduardo Aleixo publicou o poema que dá o título ao livro “Há um momento em que a juventude se perde. É o momento em que os seres se perdem. E é preciso saber aceitar. Mas esse momento é duro.” Num dos comentários simpáticos deixados no blogue dele, e que bom é ler comentários simpáticos, alguém mostra vontade em encontrar o livro. Não o vai encontrar pois se trata de uma micro edição que não foi colocada no mercado. Tenho alguns (poucos) exemplares que enviarei pelo correio, a título de oferta, a quem me enviar a morada exacta para o endereço electrónico que consta deste blogue (em cima, à direita, clicando em "ver o meu perfil completo"). Enviarei por ordem de chegada dos pedidos, portanto já sabem que se não receberem é porque acabou … Esta ideia de dar alguma coisa pode parecer uma loucura mas não é … pelo menos para mim. Olhem que, outro dia, no sítio onde trabalho descobri que uma funcionária tinha aberto em cima da mesa um livro de poesia. Seria falta de zelo? Perguntei-lhe o que lia: Florbela Espanca. Uma paixão! Achei que era uma boa escolha e disse-lhe: espere aí que lhe vou oferecer um livro meu. Ofereci-lhe este do qual o Eduardo Aleixo retirou o poema que publica. O comentário que aquela funcionária me enviou, por correio electrónico, no dia seguinte, vale uma fortuna pelo que mostra de bom gosto, dignidade pessoal e desejo de partilha. São as surpresas felizes da vida no trabalho …
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GEMMA GEMMA ...

grilus falantis

QUANDO A CIDADE GANHA MAIS ALEGRIA COM A PUBLICIDADE ESTÁTICA.
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segunda-feira, março 16

Como participei na coluna de Salgueiro Maia na madrugada do 25 de Abril de 1974

Com o João Mário Mascarenhas na Porta de Armasdo 2º GCAM, no Campo Grande, em Lisboa.

Pelo 35º aniversário da revolução, em homenagem aos meus companheiros de armas (Para Os Caminhos da Memória)
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Capitão Teófilo Bento

Quando eclodiu o 25 de Abril, cumpria serviço militar, como oficial miliciano, desde finais de 1971, no quartel do Campo Grande, em Lisboa. Nunca soube a razão de não ter sido mobilizado para uma das frentes da guerra colonial. O destino reservou-me passar quase três anos a ministrar instrução militar a recrutas de toda a sorte, alguns deles, por sinal, bem ilustres.

Foi o Capitão Teófilo Bento que me contactou no início de 1974 e não sei já como chegou até mim. Talvez tenha sido após o «Golpe das Caldas», em 16 de Março, pois, nesse dia, foi-me dada ordem para permanecer no quarto. Na manhã do dia seguinte, se bem me lembro, lá me mandaram sair. O golpe tinha fracassado.
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Falei, por esses dias, com o Capitão Teófilo Bento num carro estacionado próximo do 2º GCAM, no Campo Grande. Ele queria saber se havia algum oficial miliciano de confiança no Quartel-general de Lisboa.

Tratava-se, pelo que percebi, de um ponto fraco na rede dos militares que preparavam o golpe. Mas não havia um único miliciano de confiança, que eu conhecesse, em serviço no Quartel-general. Após este encontro fiquei com a certeza da inevitabilidade de que algo de sério ia acontecer.
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Estava, de facto, em marcha uma acção de envergadura para derrubar o regime. Mantive a maior descrição. Não falei a ninguém acerca desse encontro. Mas tomei as minhas providências. O ambiente era de medir forças dentro dos quartéis. Após o fracassado «Golpe das Caldas» todos os movimentos eram observados e o ar que se respirava estava povoado de ameaças.

Na expectativa do combate

Os dias que se seguiram ao 16 de Março foram de expectativa e tensão crescentes. Sabia que alguma coisa iria acontecer. Os contactos multiplicavam-se e os boatos inundavam as conversas.

Soube, em meados de Abril, após o contacto com o Capitão Teófilo Bento, mas não por ele, que o golpe seria para os finais de Abril. A informação havia chegado pela via política e não pela via militar.

Teriam que ser tomados os cuidados adequados a uma situação de confronto armado em que poderia correr sangue. Ninguém acreditava que o regime caísse sem oferecer feroz resistência. Seria mais que provável o confronto militar pelo que era prudente estarmos preparados para essa situação.

Os camaradas de armas

Os militares, oficiais do quadro, que preparavam a revolta tinham a consciência da inevitabilidade do confronto militar. E os milicianos também. Era um confronto que havia que preparar com todo o cuidado. Fiz contactos discretos com os amigos que colaboravam no que havia de vir a ser o MES.

Deixei mensagens e recados mais ou menos enigmáticos. Muitos dos avisados fizeram vigília no dia errado ou foram surpreendidos no dia certo. Nada disse à minha família.

Mas alguém tinha de ser avisado para que na minha unidade militar, o 2º GCAM, se pudesse apoiar, com eficácia, a tomada do poder. Avisei o João Mário Anjos e o António Dias, meus camaradas de armas. Devemos ter acertado, entre nós, os passos a dar naqueles dias.

O último aviso

No dia 24 de Abril fomos contactados no quartel por um colega do curso de oficiais milicianos. As últimas dúvidas quase se tinham dissipado. A acção militar ia ser desencadeada na próxima madrugada.

Fui a casa do Eduardo Ferro Rodrigues, meu amigo de juventude e de todas as militâncias, na Travessa do Ferreiro, para o avisar de que alguma coisa (o golpe) se iria passar nessa noite. Era fim da tarde. A RTP transmitia um jogo do Sporting, com um clube da Alemanha de Leste, para uma eliminatória das competições europeias de futebol. Deixei o recado e pus-me a caminho.

O combinado era reunir um pequeno grupo de que faziam parte o João Mário Anjos, o António Mil-homens (já falecido) e o António Dias, na casa deste, em Benfica, aguardando o sinal musical (E depois do Adeus) que anunciaria o desencadear da operação, a nível nacional.

Era perto de minha casa e lá fui preparado para o que desse e viesse. Mas o sinal nunca mais surgia e adormeci deitado no chão.

A espera sem fim

Nessa espera sem fim, na madrugada de 24 de Abril de 1974, a certa altura alguém me acordou com incontida emoção. Tinha passado a canção. Era mesmo a sério. A noite ia alta. Saímos os três. Eu e o João Mário Anjos metemo-nos no carro do António Dias que, conduzido por ele, caminhou para a 2ª Circular a caminho do Campo Grande. O António Mil-homens saiu para a baixa da cidade.

O nosso objectivo era tomar posição dentro do 2º GCAM (2º Grupo de Companhias de Administração Militar) o mais cedo possível. Mas, ao contrário do que aconselhava a prudência, não o fizemos logo. Antes fomos dar uma volta de carro pelas redondezas a ver o que se estaria a passar na EPAM.

Passamos defronte da EPAM (Escola Prática de Administração Militar) e conseguimos ver o Teixeirinha junto ao muro, equipado de arreios, preparado para integrar o grupo que ocuparia a RTP. Não observámos nenhum outro sinal da acção iminente.

Regressámos à 2ª Circular para reforçar a observação do movimento começando a desconfiar que ia ser um novo 16 de Março. Um fracasso. Encetamos, de novo, o caminho do quartel do Campo Grande. Ao entrar no Campo Grande surgiu, inesperadamente, diante de nós, uma coluna militar.

Finalmente sinais de acção

Retenho muito viva na memória a imagem do carro do combate que encabeçava a coluna irrompendo diante de nós. Tinha surgido da escuridão uma coluna militar que tomaria a direcção do centro da cidade. Vislumbramos um carro «nívea» da polícia na penumbra que não esboçou qualquer movimento.

O Campo Grande não era como hoje. Havia um desnível e o carro de combate que vinha na nossa direcção deu um salto rápido para tomar contacto de novo com o chão. Foi uma espécie de salto mágico que desde esse momento, com frequência, me assalta a memória. A emoção que senti é indescritível. Era um sonho que se tornara realidade. Fomos, certamente, os únicos que assistimos, ao vivo, a esse momento.
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Soubemos, mais tarde, que aquela era a coluna, oriunda de Santarém, comandada pelo Capitão Salgueiro Maia. Naquele momento colocava-se a opção de cumprir o nosso objectivo e entrar no quartel ou seguir atrás daquela surpresa entusiasmante.

Na peugada da coluna de Salgueiro Maia

Perante o dilema de entrar, de imediato, no Quartel do Campo Grande, ou seguir atrás da coluna militar, tomamos a opção de nos incorporarmos na coluna. Mas antes deixámos o João Mário Anjos no quartel. Eu com o António Dias ao volante do Datsun 1200, matrícula HA-79-46, segui atrás da coluna de Salgueiro Maia.

A caminho da Avenida da República pensei com os meus botões na fraqueza aparente da força militar que havia de ser decisiva no destino do 25 de Abril. Um soldado que era visível num dos carros apresentava um aspecto de uma fragilidade impressionante. Era uma coluna militar pouco convincente, pelo aspecto exterior, ostentando sinais de fraca capacidade militar.

Na Avenida da Liberdade lembro-me de ter visto um polícia tomar a iniciativa de mandar parar um ou outro carro para não perturbar o avanço da coluna. A madrugada ia alta e saíam clientes do «Cantinho do Artista» no Parque Mayer. Éramos, certamente, os únicos perseguidores da coluna cuja missão concreta desconhecíamos.

Rua do Arsenal

Tomada a decisão de ver com os próprios olhos o desenvolvimento da acção militar, fomos sempre atrás da coluna atravessando a baixa no sentido do Terreiro do Paço. Chegada à Rua do Arsenal a coluna parou. Os tanques posicionaram-se no terreno.

Havia um vaso de guerra no Tejo e a discussão era se estava a favor ou contra o movimento revoltoso. Decidimos que chegara a hora de abandonar o local pois não era aquela a nossa guerra. Não podíamos ficar mais tempo sacrificando a nossa própria missão.

Ultrapassámos a coluna facilmente e seguimos em frente. Sempre fiquei com a convicção que a vitória da Revolução foi decidida na Rua do Arsenal antes dos acontecimentos do Largo do Carmo. O povo ainda não tinha descido à rua.

Estávamos na fase das puras operações militares, propriamente ditas, sem as quais não seria possível desencadear o verdadeiro processo político que precipitaria a queda do regime. Afinal as forças armadas estavam a prestar um serviço público que poderia redundar num pesadelo para os seus protagonistas.

O renascimento da liberdade

Era a velha questão da liberdade que se jogava naquelas horas. Participei, com os meus dois camaradas, João Mário e António, num daqueles momentos da história em que algo de essencial muda.

A mudança do destino da vida de toda uma comunidade e de um povo. Um daqueles momentos raros de fusão em que um regime, que no dia anterior parecia inexpugnável, cai fulminado como se nunca tivesse tido apoiantes e seguidores.

Assistimos e participámos, ao vivo, a uma página ímpar da nossa história, aos últimos minutos de um regime de opressão e ao renascimento de um regime de liberdade.

De saída daquela situação de acompanhantes anónimos da coluna militar, comandada pelo Capitão Salgueiro Maia, ainda nos cruzámos com a coluna de Cavalaria 7 que vinha ao encontro dos revoltosos. Era comandada, soube depois, pelo meu conterrâneo Brigadeiro Junqueira dos Reis.

O caminho de regresso ao nosso objectivo passou pela Ajuda onde o pessoal da Polícia Militar (PM) discutia o que fazer na estrada de Monsanto. Ao longo desta digressão pela cidade, sempre pensei que a desproporção de forças era demasiado grande, enorme e arrasadora, e que a coluna revoltosa não seria capaz de resistir a um ataque determinado. Receei que fosse destroçada em poucos minutos.

Salgueiro Maia

Afinal o Capitão Salgueiro Maia era um homem de coragem. No confronto decisivo da Rua do Arsenal foi o sangue frio de Salgueiro Maia que tornou vitoriosa a revolução. A sua serenidade face à força inimiga obrigou a que o soldado atirador, sob ordens de um subordinado do brigadeiro, não fosse capaz de premir o gatilho. A serenidade do Capitão Salgueiro Maia, sabendo que tinha a sua cabeça na mira do atirador, congelou a situação.

Acredito pelo que presenciei que só a conjugação da coragem do Comandante da força revoltosa de Santarém, o desespero do comandante da força do regime e a recusa do soldado em disparar permitiram o desenlace feliz daquela situação que, no plano militar, era absolutamente desfavorável aos revoltosos.

Assim se decidiu o destino da revolução. Entretanto tínhamos prosseguido o nosso caminho e entrámos pacificamente no 2º GCAM.

A liberdade

Nos momentos de ruptura é necessário fazer escolhas. No período pós 25 de Abril as nossas escolhas resultaram, algumas vezes, de erros de avaliação resultantes de apressadas opções ideológicas e intelectuais.

Nunca duvidei, pessoalmente, da primazia que a liberdade deve tomar no confronto com a justiça. Mas, em todos os tempos, em épocas de crise, em períodos pós guerra ou pós revolução, se suscita a questão da relação entre a justiça e a liberdade.

Camus escreveu, no período pós 2ª guerra mundial, algo que sintetiza, com clareza, o alcance deste dilema: «Se me parecia necessário defender a conciliação entre a justiça e a liberdade, era porque aí residia em meu entender a última esperança do Ocidente. Mas essa conciliação apenas pode efectivar-se num certo clima que hoje é praticamente utópico. Será preciso sacrificar um ou outro destes valores? Que devemos pensar, neste caso? (…) Finalmente, escolho a liberdade. Pois que, mesmo se a justiça não for realizada, a liberdade preserva o poder de protesto contra a injustiça e salva a comunidade…»

Foi este, em síntese, também o nosso dilema. A nossa escolha, neste dilema histórico, foi a liberdade. Hoje não me interessam tanto as pessoas com as quais partilhei os acontecimentos do passado. Interessam-me mais aquelas com as quais possa partilhar os acontecimentos do futuro.

Mas não esqueço as marcas gravadas a fogo na minha memória pelo 25 de Abril de 1974 nem as pessoas admiráveis com as quais vivi esse sonho inigualável que foi a reconquista da liberdade. Se a nossa consciência de homens livres tem algum valor, preservemos a capacidade de não nos deixarmos aprisionar pelo esquecimento e pelo medo. Para que nunca se cumpra o receio que Jorge de Sena, um dia, expressou nos seus versos: «Liberdade, liberdade, tem cuidado que te matam.»

(Transcrição de alguns posts de uma série publicada no Absorto em Março/Abril de 2004 com algumas precisões e remissão para uma breve cronologia: AQUI.)
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Comentários depositados nos blogues:

Li com emoção (mesmo com uma lagrimazinha), este seu bem sentido reviver da operação que nos daria a liberdade!Muito obrigado!
[ABarroso]

É sempre nostálgico recordarmos esses dias já tão distantes, em que ainda nos sentíamos com força para mudar o mundo.Colegas do ISCEF, com um ano de diferença, recordo o trio Eduardo Graça#Ferro Rodrigues#Félix Ribeiro que, já com um forte discernimento político, nos conseguiam explicar o que era a Liberdade; recordo os Cursos Livres e a agitação daqueles anos de 1968 e 1969...Em 1974, estava já em Nampula e lá ia recebendo alguns comunicados do Movimento dos Capitães, através de oficiais do QP. No 25 de Abril, recebemos instruções para nada fazer, com receio de alguma intervenção dos EUA ou da África do Sul, pelo que nos limitávamos a ouvir a BBC ou, já mais tarde, a EN em onda curta. Foram dias (e noites) inesquecíveis...Um abraço do ex-colega
VV [Vítor Ventura]

Que bom recordar esses dias distantes mas bem presentes nos que lutaram pela liberdade. Vivi dias e dias em manifestações na rua e recordo com saudade o regresso a Santarém do corajoso Salgueiro Maia bem como outros camaradas.Obrigado pelo recordar do tema.Um abraço
[Elisabete]

Caro Eduardo:Quero agradecer-lhe o prazer que me proporcionou ao ler o seu texto. Foi um momento de viagem histórica ao tempo de valores e dignidade.Cumprimentos
[Carlos Santos]
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Uma pequena corrrecção à aventura que todos os que não vivemos invejamos não ter vivido. Trata-se da acção de Salgueiro Maia. Na verdade, o momento que o Eduardo Graça descreve aconteceu na Avenida da Ribeira das Naus e não na Rua do Arsenal, onde, de facto, também ocorreu um episódio importante nessa manhã do nosso contentamento.
[Jorge Martins] - De facto o esquadrão de Cavalaria 7 estaciona na Av. Ribeira das Naus onde decorreram os acontecimentos que descrevo.
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Caro Eduardo,
Li vários dos seus artigos que relatam as suas vivências na noite/dia 25 de Abril. São concerteza impossíveis de descrever. Eu estava, na altura em Santarém, mas não vim para Lisboa.
Realço o momento de alta tensão, na Ribeira das Naus, em que o Brigadeiro dá ordem ao Alferes para disparar sobre o Salgueiro Maia e os que o acompanhavam. Esse Aferes tem nome, chama-se Fernando Sottomayor. Recusou-se a disparar e todos os subordinados o acompanharam na sua decisão. Decidiu-se aqui o curso dos acontecimentos do 25 de Abril, que viriam a ser vitoriosos.
Levámos 35 anos a encontrar o Fernando Sottomayor. Fizemos agora, 18 de Abril de 2009, um almoço de camaradas da Escola Prática de Santarém, na Mealhada, com a presença do herói daquele dia. Estiveram presentes deste antigos furriéis até Generais.
Um abraço emocionado de quem viveu, por dentro, o dia mais difícil e mais feliz da sua vida.
António Rafael
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RANIA RAÍNHA

Rania al-AbdullahRaínha da Jordânia no Youtube

Uma singela homenagem aos detractores do culto da imagem na política.
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domingo, março 15

Um luxo de ricos A solidão

“23 de Setembro [1937].
Solidão, luxo dos ricos.”

23 septembre.
Solitude, luxe des riches.”


Estar só
Ausência inteira
Solidária
A sós consigo própria
Só a nossa sombra
Nos olha

Estar só
Nada mais além
De nós
Próprios despidos
De tudo o resto
E de outros

Estar só
Absolutamente nós
Vigiados
Pela nossa voz
Ressoando
No pensamento

Estar só
Caminhar além
Do fim
Aquém da memória
Dos outros
Que vivem em nós

Estar só
O sobressalto
Do vazio
Nunca sonhado
Depois de tudo
Ter perdido

Estar só
Não é anunciares
A minha
Partida
É não te anunciares
Nunca

Estar só
É estar perdido
E não saber
Que me perdi
Deixar a tua mão
Por apertar

Estar só
Quero estar
Só uma única vez
A da palavra
Final
E nunca mais

Estar só
Sem ninguém
É partilhar o silêncio
Raro
Um luxo de ricos
A solidão


* Citação de 1937, in versão portuguesa dos Cadernos de Albert Camus – Caderno Nº 2 (Setembro de 1937 – Abril 1939) - página 61, edição Livros do Brasil; in versão original francesa “Carnets (Mai 1935 – Décembre 1948) ” – “Cahier II (Septembre 1937 – avril 1939) – página 836, Oeuvres complètes – II.

[Também no Caderno de Poesia]
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CONTRADIÇÕES

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sexta-feira, março 13

MAGALHÃES

albert lemoine

O Pedro Rolo Duarte escreve o que já me apeteceu escrever, melhor ou pior do que ele, provavelmente pior, acerca do Magalhães. Há um mundo de Barreto – o velho mundo dos estimáveis intelectuais urbanos – e o admirável mundo novo das novas tecnologias de informação que rompem todas as barreiras entre grupos e classes sociais. É arrepiante escrever acerca disto porque nos faz aproximar da repulsa pelo pensamento daqueles que julgávamos depositários de uma ideologia humanista de progresso. Esta linguagem é antiga, e tem as suas limitações, mas é a que me ocorreu para tornear a palavra esquerda. Combater o Magalhães, denegrir o Magalhães, achincalhar o Magalhães, excomungar o Magalhães, é um luxo de gente que não quer – por snobismo – ou não precisa – por status social – do Magalhães para nada!
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quinta-feira, março 12

VIOLÊNCIA/ESCOLA


Há muitos tipos de violência e de vários graus. Em Portugal, nos últimos anos, a violência na escola tem merecido bastante atenção pública assim como das autoridades públicas. Nenhum país, nem instituição, está a salvo de actos de violência brutais como este que ocorreu ontem na Alemanha.

Mas julgo que não é errado afirmar, empíricamente, que não há uma correlação directa entre o nível de desenvolvimento sócio económico dos países, das comunidades e famílias, e o número e gravidade dos actos de violência praticados nas escolas.

Estranho, hoje, que aqueles que estão sempre na primeira linha da denúncia da violência nas escolas em Portugal não aproveitem – face a este acontecimento -para discorrer acerca da violência na escola.

Sabemos que a violência é indesejável e deve ser combatida por todos os meios legítimos e disponíveis. Mas o título da notícia do El Pais, reproduzindo uma frase de um amigo do jovem assassino, identifica, porventura, o essencial das motivações imediatas do tresloucado e dá que pensar: "Era un tipo aburrido, no tenía amigos y le dejó su novia"

O que é que podem os governos, as polícias, as magistraturas, os professores, as vigilâncias electrónicas … fazer para prevenir e combater a violência na escola? Talvez a solução possível esteja na mistura da acção de todos os cidadãos e autoridades, ou seja, da comunidade, na educação fora da escola através, em primeira linha, da acção da família, dos amigos e das "redes sociais".

Talvez o mundo dos afectos e emoções dos jovens, construído fora da escola, tenha mais importância do que pensam muitos ideólogos da escola de sucesso.
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quarta-feira, março 11

UMA CORRENTE


O Tomás Vasques embrulhou-me na corrente Página 161, quinta frase. Um vírus acabou de apagar todos os meus contactos do Hotmail e todos devem ter recebido, ontem durante a noite, uma mensagem mais ou menos estúpida. Estava mesmo agora a reconstruir a coisa de forma artesanal o que até me permite fazer uma limpeza. As crises têm o seu lado virtuoso.

Já quase me tinha esquecido das correntes e o livro que tenho à mão – alguns vão sorrir! – intitula-se "primeiros cadernos", de Camus, uma velha edição da “Livros do Brasil” que não os volumes da “Colecção Miniatura”. Tem, graças a Deus, 461 páginas o que me evita a busca de uma alternativa.

No entanto a página 161, atenta a natureza fragmentária do texto, torna difícil definir com rigor a quinta frase. Escolho aquela que eu próprio identifico como tal, e assim seja...

Aí vai:

“Léger. Essa inteligência – essa pintura metafísica que reflecte a matéria. Curioso: desde que se reflecte a matéria, a única coisa permanente é justamente a que produziu a aparência: a cor.”

Caderno nº 3 – Abril 1939/Fevereiro 1942
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terça-feira, março 10

IMAGEM E COMUNICAÇÃO (II)

José Mourinho doutorado Honoris Causa

Estas coisas da imagem e comunicação, como demonstra, todos os dias, José Mourinho são fáceis. É uma questão de escola e de compreensão do ar do tempo.
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IMAGEM E COMUNICAÇÃO


Estas coisas da imagem e comunicação como demonstra, todos os dias, a Dra. Manuela Ferreira Leite são muito complicadas.
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segunda-feira, março 9

AS VIAS DA IRA


Caminhando pelas auto-estradas deste nosso Portugal pude verificar quilómetros e quilómetros de obras com supressão de vias, desvios, obstáculos e limitações de velocidade. Em tempos foi aprovado um diploma legal que pretendia proteger o consumidor pagador de portagens em auto estradas e outras vias em obras. Querem ver? Importam-se de me explicar como na prática se pode obter o reembolso do pagamento?
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domingo, março 8

Maria Teresa Horta - "Poesia Reunida"

Minha senhora de mim

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

recusando o que é desfeito
no interior do meu peito

Minha Senhora de Mim,
Editorial Futura, 1974 - Lisboa, Portugal

Hoje, Dia Internacional da Mulher, lembrei-me que Maria Teresa Horta lança um livro que reúne a sua obra poética. Aqui está um verdadeiro acontecimento cultural, de âmbito nacional, que deveria merecer manchetes, documentários e públicos festejos.
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SONDAGENS, CURVAS E CÍRCULOS

James Friedman

Tendências de longo prazo das sondagens desde Janeiro de 2005 até à actualidade: “estimativas mensais, controlados "house effects". Será que as curvas, mantendo-se as actuais lideranças do PS e PSD, se vão cruzar nos escassos meses que restam até às eleições legislativas? Não parece provável a não ser que ocorra uma hecatombe!

Os resultados do PS, nas sondagens mais recentes, situam-se sempre próximo dos 40%. A quebra do PS é pequena considerando as “campanhas cirúrgicas”, os efeitos da usura do tempo sobre a governação e o impacto da crise financeira global na economia real. Tudo parece jogar-se no peso do “voto de protesto” à esquerda e à direita.

A maneira como são apresentados os resultados, pela comunicação social, é outra coisa, como diz Pedro Magalhães - Este é o tipo de resultados que, suspeito, os jornalistas detestam: nada para dizer a não ser falar de "subida de 0,1 pontos percentuais".

Aximage, 2-5 Mar, N=600, Tel.

Resultados com redistribuição proporcional de indecisos:
PS: 40,2% (40,0%)
PSD: 25,2% (24,9%)
BE: 13,2% (12,6%)
CDU: 9,5% (9,6%)
CDS: 7,1% (8,1%)
OBN: 4,7% (4,9%)

Eurosondagem, 26 Fev-3 Mar, N= 1018, Tel.

PS: 39, 0% (40, 3%)
PSD: 28, 3% (29, 1%)
BE: 10, 4% (10, 1%)
CDU: 9, 6% (8, 8%)
CDS-PP: 7, 7% (6, 9%)
OBN: 5, 0% (4, 8%)
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sábado, março 7

O homem que eu seria se não houvesse sido a criança que fui

“O homem que eu seria se não houvesse sido
a criança que fui !”

“L´homme que je serai si je n´avait pas été l´enfant que je fus !"*


O homem que eu seria aberto generoso
Olhando os outros homens de frente
Se não tivesse nascido no tempo dos silêncios
Que deram consentimento à tirania

O homem que eu seria ousado em cada gesto
E buscando o sucesso em cada passo
Se não me tivesse assomado o medo
Que tolhe inteira toda a verdade

O homem que eu seria esclarecido
A cabeça povoada de ideias de mudança
Não fosse a memória da mulher ao postigo
Afastando a cortina de chita às cores

O homem que eu seria se os homens
Fossem uma criação divina e não o fruto natural
De outros homens seres originais nascidos
Do prazer carnal ou social obrigação

O homem que eu seria se não me tivessem
Em criança forçado a fazer os deveres
Cortado o cabelo e não me tivesse crescido
O corpo uma medida acima do normal para a época

O homem que eu seria se não fosse fruto tardio
De um amor que não agradeci o suficiente
E me faz pensar no homem que eu seria
Se não houvesse sido a criança que fui

* Citação de 1945, in versão portuguesa dos Cadernos de Albert Camus – Caderno Nº 4 (Janeiro de 1942 – Setembro 1945) - página 126, edição Livros do Brasil; in versão original francesa “Carnets (1935 – 1948) – “Cahier IV (janvier 1942 – septembre1945) – página 1025, Oeuvres complètes – II. (Mesmo quando surgem duvidas tenho mantido sempre a tradução original.)

[Também no Caderno de Poesia]
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sexta-feira, março 6

"Romance sobre a justiça."


A propósito de justiça e tanto que, por vias abertas e ínvias, se tem discutido acerca dela, seus protagonistas e incidentes, vítimas e carrascos, tantas vezes sendo apresentados, ou apresentando-se, a si próprios, no lado errado da barricada, apeteceu-me transcrever este breve fragmento dos Cadernos de Albert Camus, escrito por volta de finais de 1944:

“Romance sobre a justiça.

O tipo que estabelece as ligações entre os revolucionários (Com.) depois de julgamento ou suspeita (porque é precisa unidade), dão-lhe imediatamente uma missão na qual toda a gente sabe que irá morrer. Aceita porque é o seu dever. Morre, pois.
Id. O tipo que aplica a moral da sinceridade para afirmar a solidariedade. A sua imensa solidão final.
Id. Matamos os melhores do outro lado. Eles matam os melhores do nosso lado. Restam apenas os funcionários e os medíocres. O que é ter ideias."
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Endividados, desempregados e revoltados

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quinta-feira, março 5

AVARIA? COINCIDÊNCIA?

Generacion Y de Yoani Sanchez e outros blogues cubanos, críticos do regime, estão “em baixo”. Pode ser uma avaria! No mesmo dia foram divulgadas cartas de auto-crítica, enigmáticas, de dois altos, e prestigiados, dirigentes do PC cubano demitidos por Raul Castro. Pode ser coincidência!
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MES - Anti-autoritário e de esquerda toda a vida…


Para os Caminhos da Memória

Na sequência do IV Congresso do MES, realizado a 8 de Julho de 1979, marcado pela vitória da moção intitulada “Nova Prática, Novo Programa, Outro Caminho”, foi aberto o caminho para a auto-crítica em relação à orientação política anterior e para uma demarcação, assumida e sem regresso, do MES face à chamada “Esquerda Revolucionária”.

Foi Vítor Wengorovius quem assumiu as funções de porta-voz desta ruptura que haveria de anteceder a extinção do MES, formalizada em 7 de Novembro de 1981, no emblemático jantar/festa realizado no pavilhão sobrevivente da Exposição do Mundo Português (ironias da história!).

Na política nada acontece por acaso, apesar dos imponderáveis que o acaso dita, e das idiossincrasias, por vezes bizarras que, em cada época, os dirigentes políticos ostentam. Tudo isto para dizer que, no caso do MES, não fui o primeiro a assumir a autocrítica dos seus erros, mérito que Nuno Brederode Santos, simpaticamente, me atribuiu, mas Vítor Wengorovius em entrevista concedida, em 19 (?) de Novembro de 1979, ao extinto diário “Portugal Hoje”:

“ (…) Entre os erros cometidos interessa hoje sublinhar, não tanto os derivados de discutíveis atitudes pessoais ou de relativa inexperiência devida à juventude da maioria dos seus dirigentes, mas os próprios estratégicos ou os mais importantes a nível táctico.

Contrariando as vantagens das suas origens (…) o MES veio a enredar-se rapidamente no confronto apressado em torno do marxismo-leninismo, a querer construir voluntaristicamente um partido desse tipo, a querer disputar a cintura industrial de Lisboa, dando muito pouca atenção quer ao operariado de outras zonas do país quer aos trabalhadores de serviços, quer à juventude (…) e a perder assim o seu papel original. Vogou depois ao sabor das oscilações do processo revolucionário (…).”

Nessa mesma entrevista VW, em nome do MES, explicou também, com detalhe, as razões da decisão tomada na reunião da sua Comissão Política, realizada em 18 de Novembro desse ano, que consagrava o rompimento definitivo, com a chamada “esquerda revolucionária”.

Embora mantendo em aberto, em teoria, uma via estreita para a criação de uma futura força partidária de esquerda “democrática, socialista e independente” (do PS e do PCP), que nunca viria a passar do papel, VW anunciou, publicamente, a 19 de Novembro de 1979, a decisão do MES de não concorrer às eleições legislativas intercalares de 2 de Dezembro de 1979 aconselhando, ao mesmo tempo, “aos partidos de esquerda com menores possibilidades de elegerem deputados” que desistam a favor do PS ou da APU” tendo em vista o “voto eficaz contra a direita” que concorreria unida na “Aliança Democrática” (AD).

Em declarações prestadas à imprensa, nesse mesmo dia, VW explicou as razões que levaram ao fracasso das negociações entre o MES, a UDP e a UEDS tendo em vista a criação de uma “frente eleitoral” alternativa, destinada a concorrer às eleições intercalares que se avizinhavam: “ E tal aconteceu (…) devido às posições de auto-afirmação partidária tomadas quer pela UDP quer pela UEDS, vindo estas a apresentar candidaturas isoladas que de forma nenhuma respondem às condições mínimas de uma candidatura unitária com verdadeira credibilidade.[Diário de Lisboa de 21/11/79.]

Na verdade o IV Congresso do MES fez emergir uma orientação política que não podendo já fazer regressar o MES às suas origens de força política de “esquerda socialista”, desempenhando um papel de “charneira” entre as diversas esquerdas, assumiu como inevitável o fim da sua breve, empolgante e solitária aventura partidária.

Talvez o MES tenha morrido não uma, mas três vezes: com a ruptura do I Congresso, em Dezembro de 74; com o apelo ao voto no PS, ou na APU, nas eleições intercalares de Dezembro de 79 e, finalmente, em apoteose, no Jantar/Festa de extinção, em Novembro de 81. Anti-autoritário e de esquerda toda a vida...
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quarta-feira, março 4

DO JORNALISMO POR UM JORNALISTA

Entrevista com Jean Daniel

A capacidade de fazer o mal que tem o jornalista é devastadora. Em um dia ou em uma hora se pode desmontar uma reputação. É um poder terrível.

Não é a frase antecedente que me conduz a postar a entrevista com Jean Daniel. É o cruzamento, a propósito dela, da vida dos protagonistas cujo percurso e obra sempre me interessaram muito. Neste caso cruzam-se Jean Daniel, um velho jornalista, no activo, e Albert Camus, apresentado como seu inspirador, na sua faceta de jornalista. O tema é de uma actualidade desarmante e a sua simples abordagem mostra a actualidade de princípios éticos antigos. Um sinal de esperança.

[Também no ir ao fundo e voltar.]
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terça-feira, março 3

O EURO ... DEPRESSA!


Les déclarations se multiplient à l'Est, pour demander à l'Union européenne (UE) de "simplifier les procédures d'adhésion à la zone euro", selon les termes du premier ministre polonais, Donald Tusk, quelques jours avant le sommet des Vingt-Sept, à Bruxelles dimanche 1er mars. Sur les dix pays de la région ayant rejoint l'UE depuis 2004, huit ont toujours leur propre monnaie. Les trois pays baltes ont intégré le mécanisme de change MCE II, antichambre de l'entrée dans la zone. Seules la Slovénie et la Slovaquie ont adopté l'euro, partagé par 16 Etats membres de l'UE.
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UM LUGARZINHO NO CÉU

estreia dia 6 de Março na Guilherme Cossoul

O altaCena, grupo de teatro da histórica Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, estreia o seu novo espectáculo, Um Lugarzinho no Céu , cuja acção se passa na rua, numa zona ribeirinha e que tem como personagens centrais três arrumadores e uma empregada doméstica. Um deles, Mirov, é ucraniano e num longo telefonema que faz para a sua mulher, fala em russo. Esse telefonema não tem (propositadamente) tradução para português.

Fidélio, o Toxicodependente, Casimiro, o Jornalista, Mirov, o Ucraniano e Anunciada, empregada doméstica. O que é que os une naquela zona onde ninguém passa, onde ninguém vive? Será a tragédia que se avizinha?

SINOPSE

Fidélio, Casimiro e Mirovic são arrumadores. Anunciada, empregada doméstica, é namorada de Fidélio, trazendo-lhe todos os dias dinheiro, comida e cigarros. Fidélio é o patrão da zona e é ele que comanda o trabalho de Mirov e Casimiro. Embora Mirov faça tudo para passar despercebido, já que o seu único objectivo é arranjar dinheiro para voltar para casa, acaba por ser o alvo do ciúme de Fidélio, já que Anunciada manifesta por Mirov um carinho especial. Dá-lhe comida e cigarros. Fidélio começa a ficar desconfiado aumentando a sua agressividade para com Mirov. Anunciada, preocupada, decide pagar uma viagem de camioneta para a Ucrânia, de modo a acabar com o seu drama. Fidélio apercebe-se e vem pedir contas a Casimiro, com quem Anunciada tinha combinado tudo. No calor da discussão tira de uma ponta e mola e, quando o ataca, Mirov atravessa-se à frente e morre. Fidélio é preso, Mirov morre e consegue finalmente regressar à sua terra, num caixão pago pela embaixada do seu país. Anunciada tem direito ao seu momento de glória ao ser a protagonista de uma notícia que saiu no jornal.

FICHA TÉCNICA E ARTÍSTICA

Texto:
Joaquim Paulo Nogueira
Encenação: Joaquim Paulo Nogueira, Joana Lobo (Assistente de encenação /Dinâmicas de corpo e voz)

Actores: Ana Gil, Filipe Luz, Miguel Santos, Rui Pereira e José Carlos Pontes (pianista)
Música original: José Carlos Pontes
Espaço Cénico e Figurinos: Isabel Alves Mendes
Espaço sonoro: Hugo Guerreiro
Graffitis: Marco Almeida
Iluminação: Marinel Matos
Sonoplastia: Dina Marques
Luminótecnia: Carlos Casimiro e Élio Luís
Cartaz/Programa: Tiago Alves Mendes /Magnésio
Direcção de Produção: Élio Luís
Retroversão do telefonema de Mirov: Valentina Naumyuk do Grupo RefugiActo
Fotografia: David Marçal e Daniel Lobo Antunes

Produção: AltaCena
Ideia original: Joaquim Paulo Nogueira, José Boavida e Pedro Alpiarça
Duração: 1h30
Classificação etária: M12
Preço: 7,5 € e 5 €
Apresentações: Março: 6,7,13,14,21,27,28 Abril: 3,4 de às 21h30
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