quarta-feira, janeiro 28

Liberdade 5



Liberdade



Como se de asas se tratasse
invoco teu nome liberdade.

Acendo silenciosamente no teu corpo
o gesto puro de apenas despir-te
e em ti encontrar-me.

Procuro nos teus seios de lava
palavras nuas à beira da morte.
Âncoras de sol,
frutos indistintos que prometam
um porto com a forma do corpo.

Casimiro de Brito
In Jardins de Guerra


(Transcrito da edição original editado pela Portugália Editora em Novembro de 1966.
Foi o primeiro livro de poesia que comprei em Março de 1967)

terça-feira, janeiro 27

Ambiente e Desenvolvimento Sustentável


Presidência Aberta


Em todos os países os recursos disponíveis são sempre, em cada tempo, escasso e, em todos os tempos, finitos. Portugal não é excepção.
O território do país é constituído por uma multiplicidade de recursos, naturais e culturais, que são o bem mais precioso que as gerações contemporâneas devem salvaguardar para legar às gerações do futuro. É este o princípio no qual se alicerça o conceito de desenvolvimento sustentável.
O Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, iniciou hoje uma Presidência Aberta dedicada ao tema do ambiente e desenvolvimento sustentável. Bem-haja.
Volto a ele para reafirmar que os desafios do crescimento contínuo e sustentável do turismo, não podem ser prosseguidos a "pensar pequeno", sem ambição de futuro, atropelando os valores ambientais e à margem de uma efectiva integração em projectos de desenvolvimento local e regional.
Estes são, em Portugal, princípios de aceitação geral mas de prática excepcional, situados fora da ortodoxia dominante, que carecem ser valorizados para que venham, num futuro próximo, de forma séria e estruturada, a servir de "grelha" de avaliação ao mérito dos projectos turísticos inclusivé para a obtenção de apoios e incentivos financeiros do Estado.
Que a cegueira do lucro rápido, a pretexto da actividade turística, não contribua para que se continue a delapidar, em extensão e profundidade, o património natural e cultural do país, inviabilizando o futuro de uma actividade em que Portugal pode ser competitivo à escala internacional.


segunda-feira, janeiro 26

Cadernos de Camus - 4


Os meus sublinhados da leitura de juventude dos Cadernos salta, por razões que não sou capaz de explicar, para o Caderno nº5. A edição portuguesa dos "Livros do Brasil" (Colecção Miniatura), apresenta uma configuração diferente da francesa, das Edition Gallimard, como é explicado no volume intitulado Cadernos III: "Por motivos de ordem técnica, Carnets II foi dividido, na edição portuguesa, em dois volumes: Cadernos II (já publicado nesta colecção sob o número 162) e Cadernos III, que é o presente volume".

Os extractos do Caderno 5 que se seguem constam, pois, dos Cadernos III dizendo respeito ao período Setembro de 1945/Abril de 1948.
Estes extractos são, por vezes, mais longos do que nas anteriores incursões por este registo de leitura o que se deve ao facto de terem sido leituras posteriores a Abril de 68, provavelmente de 69/70, no período da crise académica na qual participei activamente.

"O ar de pobres diabos que têm as pessoas nas salas de espera dos médicos".

"Conversações com Koestler. O fim não justifica os meios senão quando a ordem de grandeza recíproca for razoável. Posso mandar Saint-Exupéry em missão mortal para salvar um regimento. Mas não posso deportar milhões de pessoas e suprimir toda a liberdade por um resultado quantitativo equivalente e estipular previamente o sacrifício de três ou quatro gerações.
- O génio: Não existe.
- A grande miséria do criador começa quando se lhe reconhece talento (Já não tenho coragem de publicar os meus livros)."

"1947
Como todos os fracos, as suas decisões eram brutais e de uma firmeza insensata".


"Que vale o homem? Que é o homem? Depois de tudo o que vi, enquanto eu viver, hei-de ficar sempre com uma desconfiança e uma inquietação fundamental a seu respeito."


"Terrorismo.
A grande pureza do terrorista estilo Kalyaev, é que para ele o homicídio coincide com o suicídio (cf. Savinkov: Recordações de um terrorista). Uma vida paga-se com outra vida. O raciocínio é falso, mas respeitável. (Uma vida ceifada não vale uma vida dada.) Hoje o homicídio por procuração. Ninguém paga.
1905 Kaliayiev: o sacrifício do corpo. 1930: o sacrifício do espirito."

"Que é impossível, a respeito de quem quer que seja, dizer que é absolutamente culpado e, por conseguinte, impossível pronunciar um castigo total."


"25 de Junho de 1947
Tristeza do êxito. A adversidade é necessária. Se tudo me fosse mais difícil, como dantes, teria mais direito a dizer o que digo. O que vale é que posso ajudar muitas pessoas - entretanto."

(No ano de 1947 Camus abandona a redacção do jornal Combat e publica o romance "A Peste" que o torna célebre o que, sem dúvida, explica esta reflexão acerca do êxito. Nos meus sublinhados verifico a curiosidade de ter colocado entre aspas a frase "A adversidade é necessária". Um sublinhado do sublinhado).

Extractos, in "Cadernos" (1964-Editions Gallimard), tradução de António Ramos Rosa, Colecção Miniatura das Edições "Livros do Brasil", Caderno nº5 ( Setembro de 1945/ Abril de 1948).










D. Januário


Tenho reflectido e acompanhado, de perto, a questão da imigração como resultado de meu envolvimento pessoal e profissional na questão do envelhecimento demográfico. Hoje o bispo D. Januário Torgal Ferreira, numa entrevista ao Público , mostra o seu desconforto com as decisões recentes do Governo acerca desta matéria.
O próprio tom do discurso mostra, mais do que desconforto, discordância face ao que considera uma política restritiva, na contemplação do acolhimento de imigrantes em Portugal, contida na regulamentação da legislação recentemente aprovada.
Tenho da acção da Igreja no terreno da acção social, em particular, nas áreas da saúde e do apoio aos imigrantes, uma ideia muito positiva. Julgo que este sentimento é geral e resulta de um efectivo trabalho da Igreja no terreno ao lado das pessoas que carecem verdadeiramente de ser apoiadas.
D. Januário crítica os que se intitulam de cristãos (nos partidos do governo) afirmando que "esperava que aparecessem igualmente com a capacidade de utopia e de exigência que faz parte dos critérios do Evangelho".
Face à questão de um discurso político que identifica "os imigrantes com o espectro do desemprego dos portugueses", D. Januário diz o essencial: "Essa lógica restritiva é de pessoas que não conhecem o terreno...". A Igreja, não tenham dúvidas, conhece-o melhor do que ninguém. É certamente mais difícil trabalhar no terreno do que fomentar o populismo...

domingo, janeiro 25

Cadernos de Camus - 3



Em sequência dos meus sublinhados da primeira leitura de juventude dos Cadernos aqui deixo os excertos que mereceram a minha admiração no Caderno nº 2 (22 de Setembro de 1937/Abril de 1939).

Assinalo que Camus ingressou no Partido Comunista Argelino em 1934, no mesmo ano do seu casamento com Simone Hié. Entre 1934 e 1937 conclui a licenciatura em Filosofia, separa-se de Simone Hié e, em 1937, é expulso (ou abandona voluntariamente) o Partido Comunista. Este breve apontamento biográfico serve para chamar a atenção para o facto de, por vezes, num futuro aprofundamento deste projecto, ser necessário acompanhar a "acção" com a biografia pois não foi por acaso que Camus adoptou a designação de "Cadernos" e não de "Diário". Camus tinha uma verdadeira aversão a retratar a sua vida pessoal não existindo nos Cadernos quase nenhumas referências directas às suas vivências pessoais. Mas elas estão lá em abundantes referências indirectas e aos seus projectos de trabalho.
Eis os meus sublinhados neste Caderno nº2 que, por sinal, são escassos.

"Huxley."No fim de contas, vale mais ser um burguês igual aos outros que um mau boémio ou um falso aristocrata, ou que um intelectual de segunda ordem…""
(Deveria eu ter acabado de ler "O Admirável Mundo Novo" e uma enorme emoção resultou dessa leitura.)

"Aquele que ama neste mundo e aquela que o ama com a certeza de se lhe juntar na eternidade. Os seus amores não estão no mesmo plano."

"O parzinho no comboio. Ambos feios. Ela agarra-se a ele, ri, excitada, seduzindo-o. Ele, de olhar sombrio, sente-se embaraçado por ser amado diante de toda a gente por uma mulher da qual não se orgulha."

"A Argélia, país a um tempo medido e desmedido. Medido nas suas linhas, desmedido na sua luz."


"Aquela manhã cheia de sol. As ruas quentes e cheias de mulheres. Vendem-se flores a todas as esquinas das ruas. E esses rostos de raparigas que sorriem."
(Esta frase, com outras que constam neste Caderno, e que não sublinhei, manteve-se muito viva na minha memória pois despertou, e desperta, as mais fortes ressonâncias afectivas da minha infância, no campo, e na pequena cidade de Faro, na distante província que era o Algarve rural dos anos 50.)

Extractos, in "Cadernos" (1962-Editions Gallimard), tradução de Gina de Freitas, Colecção Miniatura das Edições "Livros do Brasil", Caderno nº2 ( Setembro de 1937/ Abril de 1939).

José Viale Moutinho


Recebi dois livros e um opúsculo do JVM com dedicatórias. Agradeço a atenção e retribuo com esta entrada que leva nas entrelinhas um abraço. As publicações são um opúsculo respeitante ao "Centenário da Publicação do In Illo Tempore de Trindade Coelho" (Câmara Municipal de Coimbra), uma antologia intitulada "Os Melhores Contos Portugueses do Século XIX", editada pela Landy Editora , por sinal, um belo livro para o mercado do Brasil que as (os) amigas (os) brasileiras (os) gostarão de ler, podendo procurá-lo a partir desta referência e finalmente um livro de belíssimos poemas, editado pela Afrontamento, "Outono: entre as máscaras", que já li, e do qual reproduzo este.

quinze

preparo-me para o regresso, revejo notas, roupas, afino o]
olhar cansado, conto as moedas, apago o sol, bebo um]
copo de água morna, o comprimido do coração]
afoga-se-me na garganta, arrumo a cabeça, digo adeus]

ao romance: as vozes do trabalho, são sempre vozes,]
fazem-me vibrar as têmporas, esfrego as mãos secas,]
começo a levantar-me, a apagar os silêncios, a boca]
atraiçoa-me, o travo amargo é uma lâmina de carne,]

nos bolsos procuro, em vão, um lenço branco limpo, para]
dizer adeus só um lenço assim, ou uma lágrima, mas do]
corpo apenas se afasta a mão fechada, a mão que faz o]
cimento e afaga as chamas, a mão do finado, de cera,]

fecho a janela, tanto tempo esteve aberta, corro a cortina,]
apaga-se a encosta, desaparecem o penedo branco, as aves,]
as árvores, os pratos sujos do almoço, o sol, as vacas, essa]
sórdida incomodidade da contemplação: é o outono, afinal.]




Experimentar


Ontem (sábado) foi um dia dedicado ás experiências destinadas a fazer avançar um pouco mais a qualidade do absorto. Foram dados alguns passos - em parte invisíveis - com as ajudas preciosas do turing e do Helder Gonçalves testando a introdução de imagens com algumas fotografias de sua autoria. O resultado não foi absolutamente brilhante mas resolvemos não esconder as dificuldades. Obrigado.

sábado, janeiro 24

Entardecer Urbano

Entardecer Urbano


Helder Gonçalves



Cadernos de Camus 2



Não há qualquer dúvida acerca da edição portuguesa da "Livros do Brasil" ao contrário do que um participante dos Cadernos de Camus parece fazer crer. Por outro lado a "Breve Nota Prefacial", de António Quadros, inserta nos "Cadernos II", com todo o respeito, não acrescenta nada de essencial ao trabalho de Camus, nem ao actual projecto "Cadernos de Camus" que tem como objecto essencial, ao que me parece, o próprio Camus e a sua "aventura" de criador de um blog "avant la lettre". Anoto que cada volume da edição portuguesa é traduzido por uma personalidade diferente: Gina de Freitas, António Quadros e…António Ramos Rosa.

O meu segundo contributo, na fase experimental do blog, é a transcrição do conjunto das frases sublinhadas, no próprio livro, aquando da minha primeira leitura. As restantes foram transcritas na anterior participação. Desta forma "invento" um critério para esta série de excertos do 1º caderno (Maio de 1935 a 15 de Setembro de 1937).

"Abril.
Primeiros dias de calor. Sufocante. Todos os animais estão deitados. Quando o dia começa a declinar, a natureza estranha da atmosfera por cima da cidade. Os ruídos que nela se elevam e se perdem como balões. Imobilidade das árvores e dos homens. Pelas esplanadas, mouros de conversa à espera que venha a noite. Café torrado, cujo aroma também se eleva. Hora suave e desesperada. Nada para abraçar. Nada onde ajoelhar, louco de reconhecimento.

(Nesta página escrevi à mão em frente a Abril: "3-1968-Faro-Cais". O ambiente da Argélia natal de Camus tem algo a ver com o ambiente de Faro, a minha cidade natal. Devia ser o período das Férias de Páscoa. Curiosamente nas vésperas do "Maio de 68")

"Os sentidos e o mundo - Os desejos confundem-se. E neste corpo que aperto contra o meu, aperto também essa alegria estranha que vem do céu em direcção ao mar"

"Perna partida do carregador. A um canto, um homem novo que ri silenciosamente."

"Maio.
Estes fins de tarde em Argel em que as mulheres são tão belas."

"Intelectual? Sim. E nunca renegar. Intelectual=aquele que se desdobra. Isto agrada-me. Sinto-me contente por ser ambos. "Se isto se adapta?" Questão prática. É preciso meter mãos à obra. "Eu desprezo a inteligência" significa na realidade: "não posso suportar as minhas dúvidas". Prefiro manter os olhos abertos."

"Fevereiro.
A civilização não reside num grau mais ou menos elevado de requinte. Mas numa consciência comum a todo um povo. E essa consciência nunca é requintada. Ela é mesmo completamente sincera. Fazer da civilização a obra de uma elite, é identificá-la à altura, que é uma coisa diferente. Há uma cultura mediterrânea. Pelo contrário, não confundir civilização e povo."
(Fevereiro de 1936)

"Narrativa - o homem que não se quer justificar. A ideia que se faz dele é a preferida. Ele morre, único a guardar consciência da sua verdade. Futilidade dessa consolação."
(Uma nota de pé de página assinala: "Tema de L´Etranger.")

"Maio.
Erro de uma psicologia de pormenor. Os homens que se procuram, que se analisam. Para nos conhecermos bem, temos que nos afirmar. A psicologia é acção - não reflexão sobre si próprio. Definimo-nos ao longo da vida. Conhecermo-nos perfeitamente, é morrer."

"Os casais: o homem tenta brilhar diante de terceiros. A mulher imediatamente: "Mas tu também…", e tenta diminui-lo, torná-lo solidário da sua mediocridade."

"Mulheres na rua. A besta arrebatada do desejo que trazemos enroscada na cavidade dos rins e que se agita com uma suavidade estranha."

Extractos, in "Cadernos" (1962-Editions Gallimard), tradução de Gina de Freitas, Colecção Miniatura das Edições "Livros do Brasil", Caderno nº1 (Maio de 1935/Setembro de 1937).





sexta-feira, janeiro 23

Cadernos de Camus


Enviei a primeira contribuição para o José Pacheco Pereira que tomou a iniciativa de criar os Cadernos de Camus , blog provisório destinado a dar corpo a este aliciante projecto. Aqui reproduzo o texto enviado.
Releio o Caderno nº 1 (Maio de 1935/Setembro de 1937) e anoto os meus sublinhados vigorosos, aquando da primeira leitura, na segunda metade dos anos 60. Achei que nesta primeira abordagem não os devia ignorar. Eis o meu primeiro sublinhado:
"Jovem eu pedia às pessoas mais do que elas me podiam dar: uma amizade contínua, uma emoção permanente.
Hoje sei pedir-lhes menos do que podem dar: uma companhia sem palavras. E as suas emoções, a sua amizade, os seus gestos nobres mantêm a meus olhos o seu autêntico valor de milagre: um absoluto resultado da graça."
Tenho dificuldade em interpretar as razões que me levaram, com 20 anos, a fazer esta escolha mas seria capaz, hoje, de sublinhar de novo com acrescidas razões.
Com respeito às escolhas de JPP é curioso que os meus sublinhados de juventude se situam imediatamente antes e depois das citações escolhidas por JPP. Sublinhei a frase imediatamente anterior à citação de JPP com o título "A civilização contra a cultura", ou seja,
"As filosofias valem aquilo que valem os filósofos. Maior é o homem, mais a filosofia é verdadeira."
E ainda mais extraordinário a coincidência de ter sublinhado as citações imediatamente anterior e posterior daquela outra que JPP escolheu com o título: "Poder consolador do inferno", quais sejam:
"Combate trágico do mundo sofredor. Futilidade do problema da imortalidade. Aquilo que nos interessa, é de facto o nosso destino. Mas não "depois", "antes"."
E esta outra:
"Regra lógica. O singular tem valor de universal.
-ilógica: o trágico é contraditório.
-prática: um homem inteligente em certo plano pode ser um imbecil noutros."
As minhas escolhas de juventude podiam ser as minhas escolhas actuais. As minhas escolhas actuais vão mais além mas encaminham-se, quase sempre, para uma faceta da reflexão em que Camus olha a natureza e os outros com assumido desprendimento pelas coisas materiais sempre deixando transparecer um problema nunca resolvido na sua vida: a sua relação com o sucesso. Como transparece no texto final deste Caderno nº 1 quando escreve:
"…Não é necessário entregarmo-nos para parecer mas apenas para dar. Há muito mais força num homem que não parece senão quando é preciso. Ir até ao fim, é saber guardar o seu segredo. Sofri por estar só, mas por ter guardado o meu segredo venci o sofrimento de estar só. E hoje não conheço maior glória que viver só e ignorado. Escrever, minha profunda alegria!..."
Extractos, in "Cadernos" (1962-Editions Gallimard), tradução de Gina de Freitas, Colecção Miniatura das Edições "Livros do Brasil", incluindo: Caderno nº1 (Maio de 1935/Setembro de 1937), Caderno nº2 (Setembro de 1937 a Abril de 1939) e Caderno nº3 (Abril de 1939 a Fevereiro de 1942).


O peregrino do optimismo


A imagem é interessante. Ela surgiu algures a propósito da visita do PR a alguns concelhos do distrito de Aveiro. Li também que o PR tinha "saído animadíssimo de Sever do Vouga" e que estava farto do pessimismo. Ainda bem. Conheço o peregrino, admiro-o, sei que é capaz de enfrentar as dificuldades e de honrar os compromissos. Peregrinar tem o sentido de viajar por terras distantes, "por países longínquos". De facto uma viagem ao Portugal profundo (que pode muito bem ser no litoral) assume, de certo modo, o sentido de peregrinação. Tempos atrás fiz uma viagem em que percorri todos os concelhos raianos de Vila Real de Santo António a Caminha. Foi uma experiência extraordinária pois perante nós se apresenta um país onde se vê a TV espanhola, as rádios idem, as redes de telemóveis, idem, o comércio, idem…o que nos permite, sem contemplações, compreender as razões do nosso relativo atraso. O pequeno Portugal de antanho torna-se imenso, quando as gentes envelhecem, minguam as actividades agrícolas, as escolas ficam vazias, os Correios vão para as Junta, etc., etc.… Por estas e por outras o peregrino do optimismo corre o risco de se transformar no peregrino do pessimismo ao contrário. É que a estratégia do pessimismo não é inocente. Ela, nos nossos dias, como sempre na história, trás no bojo a aspiração ao poder dos salvadores da pátria. Os déspotas. Não lhes ponho sinal ideológico. Os déspotas para atingirem os seus fins costumam inventar uma ideologia. Claro que demora o seu tempo, se lhes derem tempo. Nos nossos regimes de democracia representativa o despotismo apresenta-se em todo o seu esplendor através das denúncias anónimas, das fugas de informação, com origens diversas, da corrupção consentida, da promiscuidade entre o poder político e os media, que desemboca nos julgamentos populares com as televisões no lugar das câmaras de gáz, … Em democracia é preciso saber suportar os incómodos da diferença, prezar a opinião oposta, apreciar a honorabilidade dos cidadãos, as suas ideias e realizações, mesmo discordantes, assim como as opções dos governos que nos antecederam. É penoso construir um caminho virtuoso de progresso, em democracia, por cima da humilhação e do assassinato de carácter, ético ou, no limite, físico dos adversários. Mas é a política tradicional! Não é? O peregrino do optimismo corre, assim, o risco de se transformar, contra os desejos dos seus amigos e da maioria esmagadora do povo português, num figurante desta estranha situação portuguesa: uma espécie de regresso a casa depois do funeral de um familiar de que não se gostava muito mas que, afinal, nos fazia muita falta…

Blog - Cadernos de Camus


Surgiu o prometido tiro de partida para este estimulante projecto de que se não sabe, ao certo, o destino. Esse é um dos seus encantos. Os diversos interessados que venham a ser participantes terão os seus objectivos a atingir. A maioria será, certamente, constituída por "franco atiradores" como eu. Alguns outros (poucos) serão especialistas na obra de Camus, porque não há muitos. A "matéria-prima" (os cadernos propriamente ditos) é de primeira qualidade e ajustada ao jogo. Os jogadores/participantes não os conheço à partida. Mas isso não tem grande importância. São participantes disponíveis, como eu, é quanto basta. Resta formar a equipa coordenadora que é com o JPP que, através do abrupto, foi o mentor da ideia. Pela minha parte utilizarei a velha edição portuguesa, um bocado amarelecida, mas em bom estado, recentemente restaurada e encadernada, com capa dura, através da ajuda preciosa da Manuela EP que acompanha estas manobras lá do Porto. Vou procurar dar um contributo que gostaria que contivesse uma componente de criatividade e originalidade através do trabalho de uma equipa a dois. Já fiz o convite. Hoje só queria reafirmar a minha disponibilidade. Nos próximos dias dou mais notícias acerca do tema.
.

quinta-feira, janeiro 22

Tradução 3


A carta de Roger Sulis publicada por JPP no abrupto esclarece, a partir de um artigo de Jorge de Sena, a questão da tradução que este realizou da obra poética de Cavafy (a partir do inglês). Acrescenta Sulis algumas considerações entre as quais uma referência ao longo poema de Sena "EM CRETA, COM O MINOTAURO" (1965) para comprovar, pelas palavras do próprio, a sua ignorância do grego.
Eis o "capítulo" integral do referido poema aliás extraordinariamente violento:

III
É aí que eu quero reencontrar-me de ter deixado]
a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia]
aquele pobre diabo que o Minotauro não leu, porque,]
como toda a gente, não sabe português.]
Também eu não sei grego, segundo as mais seguras informações.]
Conversaremos em volapuque, já]
que nenhum de nós o sabe. O Minotauro]
não falava grego, não era grego, viveu antes da Grécia,]
de toda esta merda douta que nos cobre há séculos,]
cagado pelos nossos escravos, ou por nós quando somos]
os escravos de outros. Ao café,]
diremos um ao outro as nossas mágoas.]
….






quarta-feira, janeiro 21

Tradução 2


A poesia dos poetas brasileiros não precisa de tradução? Nalguns casos sim, noutros não. A mesma língua pode não ser entendida por todos os falantes dessa língua. Quando um português fala para uma plateia de brasileiros, não eruditos, fica sempre a sensação de que os ouvintes não estão entendendo nada. Quase se poderia exigir tradução. O contrário não é tão evidente. São os mistérios da língua. Vejam como Adélia Prado (Divinópolis, Minas Gerais, 1935) poeta brasileira da minha predilecção, em Ensinamento, sem necessidade de tradução, valoriza o amor "essa palavra de luxo".

Ensinamento


Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.