domingo, junho 25

INCÊNDIOS/


Uma semana passada sobre o fatídico incêndio de Pedrógão sucedem-se as ondas de choque. Faltam apurar, da forma mais rigorosa possível, as causas e as falhas. Tratar-se-á de um desastre natural? É o mais certo. Que tenham confluído no tempo e no espaço todas as condições adversas incluindo falhas no sistema de prevenção? É possível. Que vão resultar consequências a todos os níveis? É inevitável. O mais importante é não perder tempo a tomar medidas para evitar, da forma mais certeira possível, próximas catástrofes. Que podem resultar das mais diversas origens e assumir as mais diversas formas. As pessoas em primeiro lugar, desde os responsáveis aos cidadãos comuns. E nas eleições autárquicas, cuja campanha já está em marcha, que se faça o escrutínio dos programas e respetivas ações concretas na prevenção de catástrofes. Será que alguém vai reparar nesse pormenor?
(Está neste momento a ocorrer um incêndio calamitoso no sul de Espanha - Huelva. A ver se o jornal El Mundo encomenda artigo ou reportagem ao seu jornalista anónimo especialista na matéria!)

sábado, junho 17

CALOR/INCÊNDIOS

Verdadeiramente notável, por estes dias, deste apagado mês de junho é o calor dando inicio, inevitavelmente, à época dos incêndios. E logo virão as mesmas imagens, queixas, e tudo o mais próprio desse terrível flagelo. Estejamos preparados. Ao fim de tantos anos uns habituam-se, outros lucram e todos nos cansamos.
(Escrito antes de ter conhecimento da tragédia que resultou do incêndio de Pedrógão.)

sábado, junho 10

10 de junho

10 de junho, uma data simbólica. Como são importantes os símbolo! O atual PR, Marcelo Rebelo de Sousa, entende essa importância, tal como os atuais titulares dos mais altos cargos (PM, António Costa e o PAR, Eduardo Ferro Rodrigues) por razões que têm a ver com a cultura e o percurso pessoal, e politico, da cada um. Seria interessante fazer uma digressão pelos respetivos percursos para se entender melhor as suas opções em cada momento, face a cada situação e problema concreto. A saída das fronteiras físicas de Portugal para a celebração do Dia de Portugal corresponde ao reconhecimento da realidade de um país e do seu povo que desde há séculos emigra tendo constituído uma diáspora com significado a todos os títulos. Não somos caso único, bastando para tal conhecer a dimensão, por exemplo, das comunidades estrangeiras no Brasil (alemães, italianos, japoneses ... e a sua dimensão) mas, no caso do Brasil, Portugal, bem ou mal querido, é mais do que um país de destino de emigrantes portugueses.

domingo, junho 4

Atentados

Atentados em Londres. Terrorismo. Um fenómeno antigo. Todos os dias ocorrem atentados em lugares menos mediáticos, uma guerra económica, religiosa e politica geral, na qual ninguém se pode eximir a responsabilidades, quer a ocidente, quer a oriente. O dado novo neste puzzle é a eleição do novo presidente dos USA que introduziu nesta guerra global fatores de imprevisibilidade nunca antes vistos. As condições para uma confrontação generalizada amadurecem a uma velocidade estonteante.

quarta-feira, maio 24

CENTENO E TUDO

No meio da tormenta, após tanta desconfiança e violência verbal, nos espaços da politica e na sociedade civil, Centeno (Ministro das Finanças) emerge como figura pública de reconhecido prestigio técnico e honorabilidade pessoal. Não era sem tempo e chegou a tempo pois os ciclos económicos são traiçoeiros. Desde sempre que nos meios académicos todos sabiam que Mário Centeno é um economista de elevado nível mas poucos poderiam adivinhar que pudesse afirmar-se na politica, arte na qual julgo nunca tivera uma experiência relevante. Pode dizer-se que são as circunstâncias que o ajudaram, retirando-lhe o mérito profissional e as qualidades pessoais. Mas todos sabemos que não há milagres na gestão da coisa pública ainda para mais neste conturbado e frenético tempo que é o nosso. Quanto durará a sua áurea não sabemos, mas sabemos que o país se apresenta, hoje, perante os portugueses, a europa e o mundo de cara lavada, não por ter subitamente enriquecido mas, a meu ver, por ter encontrado um equilíbrio politico e social que raramente, na nossa história recente, é possível vislumbrar. O que se espera? Que dure quanto baste, seja qual for o vento que sopre mostrando-se capaz de honrar o compromisso democrático e a defesa da liberdade.

domingo, maio 14

13 maio

Nestes últimos dias o espaço público do nosso país foi ocupado por acontecimentos com significado e impacto na opinião pública. Ao contrário do que tantas vezes tem acontecido nos últimos anos não se trata de desastres, crises, crimes....
Uma parte da intelectualidade de esquerda mantém um ruidoso silêncio ou emite opiniões de desagrado. Julgo que ressoa ainda no seu pensamento o mito dos três efes do Estado Novo: Futebol, Fátima e Fado. Mas os nossos tempos são outros e, neste 13 de maio de 2017, qualquer destes efes não se pode assemelhar ao "soporífero social" do outro tempo.
O Futebol internacionalizou-se, continua a ser uma modalidade desportiva fascinante e não é mais uma bandeira, no plano politico, de uma ditadura. Fátima neste centenário, para além da questão da fé, trouxe a Portugal o Papa Francisco e a sua palavra que está nas antípodas de qualquer totalitarismo. O Fado, neste dia, cedeu o lugar a um estilo musical contemporâneo que se distingue pela diferença, lançando um desafio à própria indústria musical. Os "Velhos do Restelo" não escolhem quadrantes políticos e ideológicos...

segunda-feira, maio 8

A minha mãe Tolentina


A minha mãe foi batizada de Tolentina, nascida na freguesia de S. Estêvão de Tavira, de família de camponeses remediados, vivendo dos proventos do cultivo de uma terra de sequeiro a que se juntou, mais tarde, uma horta que, no conjunto, produziam desde os frutos secos aos mimos típicos das produções algarvias. Sempre conheci aquele campo, como lhe chamávamos, convivi com os meus avós maternos, Rosa e José, o meu tio Ventura, os meus primos Gervásio e Ezequiel, todos, sem exceção, dedicados à agricultura. Gente com mãos rugosas e faces marcadas pelas agruras do mister. A minha mãe, pelo casamento, saiu do campo para a cidade cedo, mantendo o espirito de camponesa e fortes os laços que a ligavam à família. Era uma mulher desabrida, obstinada, solidária e crente em que era sempre possível ir mais além. Morreu num dia de aniversário do meu filho Manuel, em minha casa, depois de uma divertida festa na qual animadamente participou. Foi assim cumprido, estou certo, o seu desejo. E vive no meu coração.

segunda-feira, maio 1

1º de maio

Com que então libertos, hein?

Com que então libertos, hein? Falemos de política,

discutamos de política, escrevamos de política,

vivamos quotidianamente o regressar da política à posse de cada um,

essa coisa de cada um que era tratada como propriedade do paizinho.

Tenhamos sempre presente que, em política, os paizinhos

tendem sempre a durar quase cinquenta anos pelo menos.

E aprendamos que, em política, a arte maior é a de exigir a lua

não para tê-la ou ficar numa fúria por não tê-la,

mas como ponto de partida para ganhar-se, do compromisso,

uma boa lâmpada de sala, que ilumine a todos.

Com o país dividido quase meio século entre os donos da verdade e do poder,

para um lado, os réprobos para o outro só porque não aceitavam que

não houvesse liberdade, e o povo todo no meio abandonado à sua solidão

silenciosa, sem poder falar nem poder ouvir mais que discursos de salamaleque,

há que aprender, re-aprender a falar política e a ouvir política.

Não apenas pelo prazer tão grande de poder falar livremente

e poder ouvir em liberdade o que os outros nos dizem,

mas para o trabalho mais duro e mais difícil de - parece incrível -

refazer Portugal sem que se dissipe ou se perca uma parcela só

da energia represa há tanto tempo. Porque é belo e é magnífico

o entusiasmo e é sinal esplêndido de estar viva uma nação inteira.

Mas a vida não é só correria e gritos de entusiasmo, é também

o desafio terrível do ter-se de repente nas mãos

os destinos de uma pátria e de um povo, suspensos sobre o abismo

em que se afundam os povos e as nações que deixaram fugir

a hora miraculosa que uma revolução lhes marcou. Há que caminhar

com cuidado, como quem leva ao colo uma criança:

uma pátria que renasce é como uma criança dormindo,

para quem preparamos tudo, sonhamos tudo, fazemos tudo,

até que ela possa em segurança ensaiar os primeiros passos.

De todo o coração, gritemos o nosso júbilo, aclamemos gratos

os que o fizeram possível. Mas, com toda a inteligência

que se deve exigir do amadurecimento doloroso desta liberdade

tão longamente esperada e desejada, trabalhemos cautelosamente,

politicamente, para conduzir a porto de salvamento esta pátria

por entre a floresta de armas e de interesses medonhos

que, de todos os cantos do mundo, nos espreitam e a ela.


Jorge de Sena

SB, 2/5/74

POEMAS "POLÍTICOS E AFINS" (1972-1977)

In "40 ANOS DE SERVIDÃO"