quinta-feira, agosto 17

Verão Quente

Verão quente! Onde já ouvi esta frase? O mundo mediterrânico arde como se fosse uma terra maldita, em desertificação, abandonada pelo seu povo, ressequida, em boa parte a caminho de ser deserto. Incluindo o sul de Portugal. Alguns falam em terrorismo. Não creio. As mortes dramatizam. Mas os incêndios são recorrentes nestas regiões. Desde que escrevo nas redes sociais com regularidade, pelos finais de 2003, já escrevi inúmeras vezes acerca de incêndios florestais. Não conheço o suficiente do assunto para pronunciamentos de saber feito. Creio somente, por intuição, que a raiz da irrupção dos incêndios está na conjugação da seca com a desertificação humana. Como combater o fenómeno? Invertendo o ciclo da seca e da desertificação. Ocupar humanamente o território e irrigá-lo. Tudo são ideias que levam a politicas consideradas impossíveis ou mesmo utópicas. Esta arreigada descrença em mudanças profundas, assumidas coletivamente, assentes em politicas que valorizem modelos de organização coletiva (não coletivistas), é o travão a qualquer verdadeira mudança. Verão quente! Numa das suas primeiras obras, de juventude, Camus escreveu no capítulo “As amendoeiras”, de Núpcias, o Verão: (…) A primeira coisa é não desesperar. Não prestemos ouvidos demasiadamente àqueles que gritam, anunciando o fim do mundo. As civilizações não morrem assim tão facilmente; e mesmo que o mundo estivesse a ponto de vir abaixo, isso só ocorreria depois de ruírem outros. É bem verdade que vivemos numa época trágica. Contudo, muita gente, confunde o trágico com o desespero. “O trágico”, dizia Lawrence, “deveria ser uma espécie de grande pontapé dado na infelicidade”

terça-feira, agosto 8

Férias...

De regresso de umas curtas férias na terra, no meu caso no Algarve, quase retemperado de longos meses de trabalho extenuantes e pejados de dificuldades. Nas organizações são as pessoas o mais importante ativo mesmo que se anuncie, reiteradamente, o discurso do fim trabalho feito diretamente pelo homem. O tempo não tem parança. Nem a energia é inesgotável. As convicções autenticas não morrem. A vontade de participar não esmorece. O verão continua, as férias serão repartidas, imprevisíveis, tal como a vida em sociedade. Continuar a trabalhar, alongar o tempo todo o tempo.

sábado, julho 22

NOVO TEMPO

A politica em Portugal sofreu uma mudança de qualidade com a entrada em cena da fórmula politica pós eleições legislativas de 4 de outubro de 2015. Quanto mais tempo ela durar, ao que tudo indica poderá durar a legislatura completa, mais se acentuará a deriva populista com expressão partidária - à falta de um partido de extrema direita - nos partidos mais à direita do espetro politico tradicional. Estamos a assistir, no nosso país, a um fenómeno novo que consiste na emergência de um discurso populista, explorando temas, desde há muito assumidos por partidos da extrema direita europeia, mas que em Portugal parece encontrarem acolhimento em partidos do sistema. Poderá tratar-se de um fenómeno pontual ou, provavelmente, o inicio do processo de criação de uma formação politica assumidamente de extrema direita. Não creio que o PSD possa vir a transformar-se nessa formação quer pela sua história, quer pela natureza da sua base social, quer pelo seu enquadramento internacional. Mas no presente contexto algo terá que acontecer no sentido do reajustamento partidário. Estamos no inicio de um novo tempo politico.

quarta-feira, julho 19

ALBERTO MARTINS

A luta politica é uma expressão do debate de ideias em torno de interesses materiais conflituantes, ou opostos, de conceções doutrinárias, ou filosóficas, divergentes no que respeita à organização da sociedade ou à própria vivência individual. Em democracia o debate, e combate politico, é realizado de forma pacifica, ou seja, pelo confronto de ideias sendo as decisões tomadas através do voto.
Hoje o Alberto Martins, exercendo o mandato de deputado eleito pelo PS, anunciou no Parlamento, para minha surpresa, o abandono da vida politica ativa.
Dei por mim a pensar que a democracia representativa em Portugal atingiu, com todos os seus defeitos, a idade madura. Pois foi possível que um ativista da luta contra a ditadura (que ganhou reconhecimento, e notoriedade, por ter, publicamente, desafiado a autoridade do "mais alto magistrado da nação", na crise académica de Coimbra, em 1969) tenha encerrado um ciclo completo de intervenção politica, desde os anos 60 do século passado, através de sucessivas conquistas, num ambiente de normalidade institucional, em plena liberdade.
Acrescento para os menos bem informados, que são quase todos os fazedores de opinião, jornalistas profissionais, ou outros, como hoje ficou demonstrado, que Alberto Martins não foi sempre militante do PS.
Após o 25 de abril de 1974, durante largos anos,(não sei precisar até quando)foi destacado militante, e dirigente do MES (Movimento de Esquerda Socialista),tendo, posteriormente, aderido ao PS, por opção própria, tal muitos outros entre os quais me incluo.
Para o Alberto Martins os meus desejos de felicidades pessoais, com um abraço fraternal.

domingo, julho 9

SMO

Republico um post de 29 de setembro de 2004. Acerca de um tema pouco popular - o Serviço Militar Obrigatório - que ganhou atualidade pelas piores razões, que sempre defendi ou, em alternativa, o serviço civico obrigatório. Qualquer dos modelos, em diversas modalidades, existe em países da UE desde há muito ou está a ser retomado.

Serviço Militar Obrigatório

O Dr. Portas surge, ufano, a proclamar o fim do Serviço Militar Obrigatório (SMO). O acontecimento aparece aos olhos da grande maioria como uma grande conquista civilizacional. Em particular aos olhos da juventude. As juventudes partidárias rejubilam.

O Dr. Portas ostenta um orgulho que estaria nas antípodas das suas próprias convicções caso fosse um verdadeiro patriota. No momento em que se consagra o fim do SMO quero afirmar que sempre fui a favor da conscrição, ou seja, do “alistamento militar”.

Acho que o fim do SMO é uma cobardia moral e um sinal de resignação patriótica.

A partir de agora o país ficará a dispor de forças militares profissionais. A maioria dos jovens nunca terá acesso à experiência militar. Nunca saberá manejar uma arma. Nunca terá a noção real do que é a defesa nacional. O país perderá um dos últimos redutos onde se exercitava o sentimento de pertença à comunidade nacional.

Ficam os ex-combatentes para o exercício da demagogia patrioteira. Ficam as compras de armamento para o aumento da despesa pública. Ficam os edifícios e os terrenos militares devolutos para combater o deficit.

O patriotismo virou negócio por grosso e a retalho. E negócio chorudo!

sexta-feira, julho 7

CATIVAÇÕES

Escrevo após um intervalo demasiadamente grande para meu gosto que se deve a sobrecarga de trabalho profissional. Nem os acontecimentos que têm feito as notícias nas últimas duas semanas, nem qualquer menos interesse em preencher este espaço que persiste, a duas mãos (as minhas)desde 2003.
O que me apetece escrever tem a ver com a politica que me envolve, fascina ou revolta, conforme os estados de espirito e a disponibilidade de cada momento. Para dizer que os mesmos que reclamavam por cortes na despesa pública (atacar as chamadas "gorduras do estado") não têm autoridade para atacar o governo em funções por ter adotado uma orientação na gestão orçamental que vai nesse sentido - mas por outro caminho diverso do que foi seguido no tempo da troika.
Como muitos economistas já explicaram as cativações não são cortes, são um espécie de suspensão de parte da despesa que, em qualquer momento, pode vir a ser executada permitindo medir, ao longo do tempo, os seus efeitos no deficit. Somente resta um debate técnico acerca da qualidade da execução que quase nunca se faz. Mas isso é um debate sério pelo qual a politica não se interessa.

domingo, junho 25

INCÊNDIOS/


Uma semana passada sobre o fatídico incêndio de Pedrógão sucedem-se as ondas de choque. Faltam apurar, da forma mais rigorosa possível, as causas e as falhas. Tratar-se-á de um desastre natural? É o mais certo. Que tenham confluído no tempo e no espaço todas as condições adversas incluindo falhas no sistema de prevenção? É possível. Que vão resultar consequências a todos os níveis? É inevitável. O mais importante é não perder tempo a tomar medidas para evitar, da forma mais certeira possível, próximas catástrofes. Que podem resultar das mais diversas origens e assumir as mais diversas formas. As pessoas em primeiro lugar, desde os responsáveis aos cidadãos comuns. E nas eleições autárquicas, cuja campanha já está em marcha, que se faça o escrutínio dos programas e respetivas ações concretas na prevenção de catástrofes. Será que alguém vai reparar nesse pormenor?
(Está neste momento a ocorrer um incêndio calamitoso no sul de Espanha - Huelva. A ver se o jornal El Mundo encomenda artigo ou reportagem ao seu jornalista anónimo especialista na matéria!)

sábado, junho 17

CALOR/INCÊNDIOS

Verdadeiramente notável, por estes dias, deste apagado mês de junho é o calor dando inicio, inevitavelmente, à época dos incêndios. E logo virão as mesmas imagens, queixas, e tudo o mais próprio desse terrível flagelo. Estejamos preparados. Ao fim de tantos anos uns habituam-se, outros lucram e todos nos cansamos.
(Escrito antes de ter conhecimento da tragédia que resultou do incêndio de Pedrógão.)