sexta-feira, julho 13

O JOÃO MÁRIO MORREU


O João Mário Anjos morreu. Desde os anos 60 do século passado que partilhamos muitas causas e militâncias. Sempre foi discreto e descobri com o passar do tempo, desde cedo, a sua inteireza de caráter e coragem excecionais. Não dá para explicar com muitos detalhes neste momento mas em muitas circunstâncias ele foi o primeiro a alinhar na linha da frente sem vacilar. Por ter tido um pressentimento cumpri há pouco tempo um dever que me tinha imposto a mim próprio e fui visitá-lo a casa. Estava doente mas no contexto da doença gostei de o ver e de lhe falar na companhia de sua dedicada mulher Adelaide. Hoje chorei com a notícia da sua morte e nunca se sabe ao certo o que nos leva, na verdade, a chorar por uns e a não chorar por outros. Será do nosso próprio estado de espirito mas no caso do João Mário é mais do que isso, uma torrente de memórias que nos faz acreditar na imortalidade. Mas dizia Camus "A imortalidade é uma ideia sem futuro". Que os deuses te abençoem!

domingo, julho 1

MUNDIAL

No futebol, enquanto jogo, não há vencedores anunciados. Batota à parte, no final dos jogos a eliminar, é inevitável existir um vencedor e um vencido. Mesmo os mais fortes,vencedores nas previsões, pelo histórico e pala fé, por vezes, perdem. Os apreciadores saboreiam o jogo jogado e aceitam o resultado. Ponto.

domingo, junho 24

BATALHA DE SÃO MAMEDE - UMA EFEMÉRIDE ANTIGA


Há exactamente 890 anos, no dia 24 de Junho de 1128, travou-se a batalha de São Mamede que é tomada como tendo sido o início do reinado de Afonso Henriques. Diz a lenda que, ao primeiro embate, com as forças do conde de Trava, seu padrasto, Afonso Henriques teria fugido. O relato mais conhecido acerca do começo do reinado de Afonso Henriques atribuía a vitória de São Mamede aos nobres e não ao Infante:

É este o relato na versão mais antiga da IV Crónica Breve de Santa Cruz em texto que data do princípio do século XIV:

“A fazenda foi feita, e foi arrincado Afonso Anriques e foi mui maltreito. E el, indo a ua légua de Guimarães, achou-se com Soeiro Meedes Mãos d’Água, que o viinha ajudar em a fazenda, e disse-lhe: “como viides, senhor, assi?” Respondeu Afonso Henriques: “Venho mui mal, ca me arrincou meu padrasto e minha madre, que está na fazenda com ele.” E Soeiro Meedes lhe disse: “Nom fezeste siso, que aa batalha fostes sem mim, mas tornade-vos comigo e prenderemos vosso padrasto e vossa madre co ele”. E el disse: “Deus aguise que seja assi,” E Soeiro Mendes lhe disse: “ vós verêes que assi seerá.” E tornou-se entonces com el a batalha, e venceu-a e prendeu seu padrasto e sua madre.” (Simplifiquei alguma pontuação.)

Eis o relato que concede à lenda o seu lugar na história da batalha de São Mamede e aos nobres o papel decisivo na vitória de Afonso Henriques que, assim, teria ficado na sua dependência.

José Mattoso, de cuja biografia de Afonso Henriques retiro os elementos que aqui vos deixo, remata o capítulo 3 da sua obra, intitulado: “Os primeiros passos de um jovem príncipe”, com as seguintes palavras:

“ (…) Tomando como fundamento a evolução dos sinais de validação usados na chancelaria régia, dir-se-ia que só mais tarde, a partir dos anos 1150-1160, se atribuiria à autoridade do fundador da monarquia o carácter de um carisma pessoal. Estes indícios devem relacionar-se com o papel que os barões portucalenses desempenharam na “revolução” que expulsou os Travas e deu o poder a Afonso Henriques, deixando-o, todavia, dependente da nobreza nortenha até ele se emancipar da sua influência, à medida que foi assumindo um papel cada vez mais decisivo na condução da guerra santa.”

In “D. Afonso Henriques” de José Mattoso, ”3. Os primeiros passos de um jovem príncipe”, pgs. 47 e 57 (15).

sábado, junho 23

Solstício de verão

O solstício de verão ocorreu no passado dia 21 de junho, pelas 11,07 h, ia eu a caminho de Santarém. O dia mais longo do ano carregado de simbolismo que se perde na profundidade do tempo. Caminhamos sobre uma pelicula fina que separa uma civilização fundada nos valores da liberdade, da democracia e da paz e uma deriva populista que, se não for travada a tempo, nos conduzirá para a tirania e a guerra. Os homens, no tempo que é o seu, cada um individualmente considerado, e todos, enquanto comunidade, são os responsáveis pela escolha do modelo de sociedade em que querem viver.
Fotografia de Hélder Gonçalves

quarta-feira, junho 13

FERNANDO PESSOA

Fernando Pessoa, nascido, na cidade de Lisboa, em 13 de junho de 1888


324

“Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos.
Atingirás assim o ponto supremo da abstenção sonhadora, onde os sentidos se mesclam, os sentimentos se extravasam, as ideias se interpenetram. Assim como as cores e os sons sabem uns a outros, os ódios sabem a amores, e as coisas concretas a abstractas, e as abstractas a concretas. Quebram-se os laços que, ao mesmo tempo que ligavam tudo, separavam tudo, isolando cada elemento. Tudo se funde e confunde.”

325

"Ficções do interlúdio, cobrindo coloridamente o marasmo e a desídia da nossa íntima descrença.”

“Livro do Desassossego” – Fernando Pessoa, aliás, Bernardo Soares, Ajudante de Guarda-Livros na Cidade de Lisboa

Edição Richard Zenith, Parque Expo 98 SA

sábado, junho 9

O FUTEBOL

Após um longo intervalo volto aqui para assinalar que estamos nas vésperas do Mundial de Futebol que vai ocupar o espaço mediático durante um longo período de tempo tanto mais longo quanto Portugal chegar mais longe. Claro que, em conjunto com os acontecimentos no seio da "família leonina", vai ocorrer uma espécie de apagão noticioso. Assim vamos cantando e rindo ...

sábado, maio 19

CAMUS - Sublinhados e releituras

Albert Camus. Releio o Caderno nº 1 (Maio de 1935/Setembro de 1937), edição portuguesa da Livros do Brasil. Anoto, uma vez mais, os sublinhados da minha primeira leitura pela segunda metade dos anos 60. Acrescento breves notas pessoais e, desta vez, corrijo, pontualmente, a tradução. Os sublinhados surgem sempre em itálico. O último fragmento sublinhado, no Caderno nº 1, foi escrito em Julho de 1937.

Jovem eu pedia às pessoas mais do que elas me podiam dar: uma amizade contínua, uma emoção permanente.
Hoje sei pedir-lhes menos do que podem dar: uma companhia sem palavras. E as suas emoções, a sua amizade, os seus gestos nobres mantêm a meus olhos o autêntico valor de milagre: um absoluto resultado da graça.
[pág. 12]

(Tenho dificuldade em interpretar as razões que me levaram, com 20 anos, a escolher este excerto mas seria capaz, hoje, de o sublinhar de novo com acrescidas razões.)

Abril.
Primeiros dias de calor. Sufocante. Todos os animais estão deitados. Quando o dia começa a declinar, a natureza estranha da atmosfera por cima da cidade. Os ruídos que nela se elevam e se perdem como balões. Imobilidade das árvores e dos homens. Pelas esplanadas, mouros à conversa na espera da noite. Café torrado, cujo aroma também se eleva. Hora suave e desesperada. Nada para abraçar. Nada onde ajoelhar, louco de reconhecimento.
[pág. 25]

(Nesta página escrevi à mão em frente a Abril: "3-1968-Faro-Cais".

O ambiente da Argélia natal de Camus tem algo a ver com o ambiente de Faro, a minha cidade natal. Devia ser o período das Férias de Páscoa. Curiosamente nas vésperas do "Maio de 68")

Os sentidos e o mundo – Os desejos confundem-se. E neste corpo que aperto contra o meu, aperto também essa alegria estranha que vem do céu em direcção ao mar. [pág. 25]

Perna partida do carregador. A um canto, um homem novo que ri silenciosamente. [pág.26]

Maio.
Estes fins de tarde em Argel em que as mulheres são tão belas.
[pág.27]

Intelectual? Sim. E nunca renegar. Intelectual = aquele que se desdobra. Isto agrada-me. Sinto-me contente por ser ambos. "Se isto se adapta?" Questão prática. É preciso meter mãos à obra. "Eu desprezo a inteligência" significa na realidade: "não posso suportar as minhas dúvidas". Prefiro manter os olhos abertos. [pág. 35]

Fevereiro. (de 1936)
A civilização não reside num grau mais ou menos elevado de requinte. Mas numa consciência comum a todo um povo. E essa consciência nunca é requintada. Ela é mesmo completamente sincera. Fazer da civilização a obra de uma elite, é identificá-la à cultura, que é uma coisa diferente. Há uma cultura mediterrânea. Mas há também uma civilização mediterrânea. Pelo contrário, não confundir civilização e povo.
[pág. 32]

Narrativa – o homem que não se quer justificar. A ideia que se faz dele é a preferida. Ele morre, único a guardar consciência da sua verdade. Futilidade dessa consolação. [pág.33]

(Com uma nota: "Prefiguração do tema chave de “O Estrangeiro”.)

Maio.
Erro de uma psicologia de pormenor. Os homens que se procuram, que se analisam. Para nos conhecermos bem, temos que nos afirmar. A psicologia é acção - não reflexão sobre si próprio. Definimo-nos ao longo da vida. Conhecermo-nos perfeitamente, é morrer.
[pág.34]

As filosofias valem aquilo que valem os filósofos. Maior é o homem, mais a filosofia é verdadeira. [pág. 36]

Combate trágico do mundo sofredor. Futilidade do problema da imortalidade. Aquilo que nos interessa, é de facto o nosso destino. Mas não "depois", "antes". [pág. 37]

Regra lógica. O singular tem valor de universal.
-ilógica: o trágico é contraditório.
-prática: um homem inteligente em certo plano pode ser um imbecil noutros.
[pág. 37]

Os casais: o homem tenta brilhar diante de terceiros. A mulher imediatamente: "Mas tu também…", e tenta diminui-lo, torná-lo solidário da sua mediocridade. [pág. 41]

Mulheres na rua. A besta arrebatada do desejo que trazemos enroscada na cavidade dos rins e que se agita com uma suavidade estranha. [pág. 43]

Extractos, in "Cadernos" (1962-Editions Gallimard), Colecção Miniatura das Edições "Livros do Brasil", Caderno nº1 (Maio de 1935/Setembro de 1937).


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