domingo, maio 31

Falsos absolutos

A coisa é antiga mas persiste e aponta para o fundo. Eleições de lideres partidários por 95% de votos, com 70% de abstenção, um quase deserto de participação. Falsos absolutos. O comentariado omite o definhar da democracia interna dos partidos, a partidocracia vai matar a democracia e a liberdade de escolha. Surgem vozes dissonantes que são interpretadas como mera vontade de participar. Tenham pena dos pensantes. O que nos vale é que a tropa já não tem força, nem de gente nem de armas, pois todas as revoltas, golpes e revoluções sempre a tiveram como ponta de lança. Organizem-se!

sábado, maio 30

Edgar Morin - morreu aos 104

Il n’aura cessé de penser les événements de l’histoire dans un corps-à-corps haletant avec le siècle. Attaché à relier les savoirs afin d’élaborer sa « pensée complexe », cet intellectuel populaire, ancien résistant profondément humaniste, militait pour une insurrection des consciences. Il s’est éteint vendredi 29 mai à Paris. (Le Monde, hoje). A vida é, portanto, um processo de desordem permanente, de desorganização, de desintegração, inseparável da reintegração. A sociedade não é um rochedo num mar de desordem. É antes feita de esforços sempre recomeçados, por parte de indivíduos que, eles próprios, se reorganizam incessantemente. Tudo o que existe deve viver no risco permanente, no limiar da sua própria morte. Devemos adquirir uma concepção pela qual assumamos muito mais o risco, as potencialidades da existência. É esta uma concepção que deve romper totalmente com a visão burocrática e a falsa ideia de segurança contra todos os riscos. Isto não quer dizer que seja preciso suprimir os seguros, a segurança social … É preciso, antes pelo contrário, ter seguranças materiais, mas a nossa vida mental, psíquica, é uma vida decorrida no risco profundo. A criatividade constitui-se nas fronteiras da loucura e da morte. É preciso mudar de visão. Aceitar na vida o risco, o inevitável, porque isso é a oportunidade de criar, de se expandir, de comunicar e de amar. Edgar Morin In “Pensar o Milénio com Edgar Morin” (excerto de uma entrevista antiga de João Fatela).

terça-feira, maio 26

O padeiro de Alcácer

Já passaram uns dias sobre o episódio das crianças francesas lançadas ao abandono "como cães" (dizia-se antigamente). A extrema direita não vociferou pela invasão de estrangeiros, eram caucasianos e não vieram em busca de trabalho que é, no essencial, o que acontece com os estrangeiros que nos procuram. O padeiro de Alcácer fez emergir uma narrativa disruptiva mostrando que a solidariedade e a bondade afinal não morreram.

sexta-feira, maio 22

Governar?

"Governo fez tiro a Seguro, mas não quer hostilizar o Presidente". Esta é muito boa, não é? Através do Expresso o governo faz contenção de danos. Foi um ataque pontual não uma estratégia de ataque! Algumas pessoas nunca serão capazes de governar, não são governantes.

terça-feira, maio 19

Sindicatos

O ataque aos sindicatos é um sinal preocupante da saúde da democracia. No debate acerca das alterações à legislação laboral tem sido recorrente esse ataque por parte do governo e das forças que o apoiam. Sindicatos fortes sgnificam em toda a parte e, em todos os tempos, menos desigualdade. Sindicatos fortes significam maior capacidade para acomodar e enquadrar o descontentamento social logo menos crispação civica. Não nos deixemos enganar deixando passar em claro estes sinais preocupantes originados no ataque ao sindicalismo livre.

domingo, maio 17

Associação livre

Há muitos sinais de tirania no mundo, em cada região e país. As leis são atacadas, as instituições ameaçadas, os pesos e contrapesos que garantem o funcionamente do processo democrático são postas em causa. Entre as instituições denegridas, subalternizadas e atacadas estão os sindicatos e as associações de todos os tipos, pois elas são o substrato e fundamento da liberdade e da democracia autênticas. A tirania odeia a associação livre.

quinta-feira, maio 14

Ivo Rosa

https://expresso.pt/sociedade/2026-05-14-ivo-rosa-escreve-a-seguro-e-descreve-a-perseguicao-de-que-foi-alvo-pelo-mp-como-um-caso-de-estado-de-direito-que-a-todos-diz-respeito-2ebaaa83
Vital Moreira aborda o caso Ivo Rosa a propósito da carta que este dirigiu ao PR, denunciando a perseguição de que foi vitima por parte do MP. É um caso da maior gravidade que deveria acender todas as luzes de alerta para o estado da nossa democracia.

terça-feira, maio 12

Maio (de novo)

"Maio. Não nos separarmos do mundo. Não se perde a vida quando a colocamos à luz do dia. Todo o meu esforço, em todas as posições e desgraças, as desilusões, é para recuperar os contactos. E mesmo nesta tristeza que há em mim, que desejo de amar e que enebriamento apenas perante a visão de uma colina na aragem do fim da tarde. Contactos com o verdadeiro, a natureza em primeiro lugar, e depois a arte daqueles que compreenderam, a minha arte se a consigo alcançar. De contrário, a luz e a água e a embriaguez estão ainda na minha frente, e os lábios húmidos do desejo. Desespero sorridente. Sem saída, mas que exerce sem cessar um domínio que se sabe inútil. O essencial: não nos perdermos, e não perder aquilo que, de nós, dorme no mundo." (Texto de Maio de 1936) Albert Camus, in Cadernos, "Caderno n.º 1 (Maio de 1935/Setembro de 1937) - Edição Livros do Brasil

sábado, maio 9

Aniversários

Em Maio, o ar dos pobres diabos que deambulam pelos passeios. O pólen que se desprende das flores. As árvores erectas quais bandeiras desfraldadas. As efemérides tristes e empolgantes. A morte e a vida que ganham a cor clara dos longos fins de dia. Maio é uma sinfonia de sentimentos desencontrados. Já não há revoltas e rufam os tambores da guerra. O que escrevem os poetas? Nunca se sabe o que escrevem os poetas mesmo que mostrem o que escrevem. Hoje é o aniversário da morte do Agostinho. No mesmo dia do aniversário de minha mulher. Maio, mês de todas as desilusões e promessas felizes.

Os nazis capitularam

Kapitulation in Berlin-Karlshorst 9. Mai 1945 um 00.16 Uhr: Generalfeldmarschall Wilhelm Keitel unterzeichnet die bedingungslose Kapitulation des Deutschen Reiches. Capitulação em Berlim – 9 de Maio de 1945 – 00,16 horas. O Marechal Wilhelm Keitel assina a declaração de rendição incondicional do Reich. A rendição do Reich deu-se a 7 de Maio de 1945; a Guerra terminou, de facto, a 8 e a capitulação ocorreu a 9. São os detalhes cronológicos de um acontecimento verdadeiramente dramático e fundamental para o futuro da vida dos povos, nações e cidadãos da Europa e do todo o mundo. A barbárie tinha cedido perante a luta determinada dos defensores da liberdade e da democracia.

sexta-feira, maio 8

Solidariedade europeia

Um paquete com cerca de 150 viajantes com vocação de observadores da vida selvagem, a partir de uma morte a bordo, desvalorizada pelo comandante, lança o pânico. Não é preciso muito, basta um virus aliás conhecido, para inundar os serviços noticiosos globais. A OMS assume a liderança da investigação. Mas a Argentina que parece estar na origem do problema, saiu da OMS em 2025, seguindo os USA. Os passageiros que ainda estão a bordo precisam de ser desembarcados mas a solidarieddae europeia mostra-se em todo o seu esplendor... de preferência seria de os deixar no meio do oceano.

quinta-feira, maio 7

IRS Jovem

A tomada de posição do FMI, após uma visita a Portugal, acerca do IRS Jovem é muito relevante. Funciona ao contrário do objetivo traçado, ou seja, estimula a procura, logo os preços por escassez de oferta, é injusto e não desestimula a emigração dos jovens. Nada que não tenha sido apontado em tempo. Ninguém vai ligar coisa nenhuma e a banca sorri.

terça-feira, maio 5

Integração

Estranha dança das medidas e discursos securitários e pró nacionalistas. No caso das sociedades europeias, e não só, se não se cuidar, em primeira linha, da integração dos estrangeiros caminharemos para a irrelevância demográfica. As tarefas da integração nunca, ou raramente, são colocadas na primeira linha das politicas, embora saibamos que são forte preocupação de quem está no terreno. Só a igreja católica assume um discurso coerente na abordagem do tema.

domingo, maio 3

Mãe

Reconheço o amor nos olhos que me olham com desmedida atenção enquanto durmo. Os olhos de minha mãe adoravam ter esperança no futuro no qual jogava a sua crença de ir mais longe. A primeira mulher da minha vida. A mais ousada na sua imprevisível arte de romper barreiras e chegar mais além. A fonte da força que me mantém de pé contra todas as adversidades. Uma mulher de um só homem que não era homem de uma só mulher. A fidelidade nascida da tradição que não da fraqueza ou da futilidade. A irreverência herdada da rudeza do campo, das agruras da natureza à força de puxar a besta e de encaminhar a água à raiz certa não fosse perder-se uma gota. A escola da escassez sonhando a fartura que havia de vir fruto do trabalho honrado. Não perder tempo chorando o tempo perdido. Fazer do tempo um passeio para espairecer e voltar ao arado da vida com sonhos lá dentro. A mulher que se fez a si própria descobrindo os outros e o que se pode e se não pode fazer com eles. Aceitar mudar e escolher o caminho da mudança. Tactear o caminho levando ao colo os seus amores. A primeira mulher que acreditou no caminho hesitante que me havia de fazer homem. Sem saber para onde ia ao certo. Nem ninguém sabia, ninguém nunca sabe, mas não duvidou que havia de chegar a um lugar onde brilharia o sol e sou capaz de a lembrar como a minha primeira mulher. Aquela que mais me amou, sempre me amou além do que a vida pode conter de riqueza material. Um dia ao fim de uma longa caminhada sem sequer saber dos meus males escolheu morrer nos meus braços. A mais sublime homenagem que alguém pode prestar a alguém. De súbito suavemente, na alegria da celebração da juventude, deixou para sempre a esfusiante tradição de me abraçar como se fosse a criança que para ela nunca deixara de ser. [21/1/2008]

Transparência

Eis uma causa pela qual vale a pena lutar, sem amarras a ideologias e preconceitos. A transparência. Ou seja, em palavras simples e diretas, à publicitação do património e interesses dos politicos e dirigentes da administração. Assim como do financiamento dos partidos politicos por pessoas e entidades não públicas. Não basta declarar, é necessário assegurar o acesso à informação de forma aberta. A campanha em prol da opacidade diz muito dos perigos da captura de poder por grupos de interesse mas também da erosão da democracia. As pessoas decentes não podem deixar passar em claro as manobras em curso que têm ramificações em todos os níveis do poder.

sábado, maio 2

Maio

Maio. No algarve de visita à terra para uns dias de férias. O jardim está florido de cores fortes, o cheiro ao jeito árabe ateneou por efeito da baixa da temperatura. Nas ruas o tempo corre com aparente calma nas vésperas de tempestades.

sexta-feira, maio 1

1 de maio

Hoje é dia de Maio, dizia-se no campo de meus avós, tão longe no tempo, tão perto na memória. Hoje passam 52 anos sobre a data em que se desfizeram muitas dúvidas acerca da natureza da revolução de Abril. Por toda a parte ressoaram os passos de milhões de manifestantes. Num repente um povo submisso parecia ter-se transformado num povo rebelde. Mas as revoluções só sobrevivem naqueles breves momentos de fusão em que tudo parece ser possível. Torga, apesar do seu cepticismo, vigilantemente crítico, escrevia, pouco tempo depois, no seu Diário: “Aveiro, 9 de Junho de 1974 – A caminho da Costa Nova, com a sensação de que os barcos navegam no meio dos milheirais.” E, ainda antes, a propósito das suas incursões pela política: “Coimbra, 1 de Junho de 1974 – Discurso num comício socialista. Ainda hei-de escrever meia dúzia de linhas a propósito da situação trágico-cómica de um poeta em bicos de pés num estrado cívico, a esforçar-se por estar à altura da sua reputação e ao mesmo tempo a saber que ninguém o ouve.” Jorge de Sena, na América, escreveu em 2 de Maio de 1974 o poema “Com que então libertos, hein?...”: “Falemos de política, / discutamos de política, escrevamos de política, /vivamos quotidianamente o regressar da política à posse de cada um /essa coisa de cada um que era tratada como propriedade do paizinho. /Tenhamos sempre presente que, em política, os paizinhos/ tendem sempre a durar quase cinquenta anos pelos menos. /E aprendamos que, em política, a arte maior é a de exigir a lua/ não para tê-la ou ficar numa fúria por não tê-la, / mas como ponto de partida para ganhar-se, do compromisso, /uma boa lâmpada de sala, que ilumine a todos. (…)". A fotografia, a preto e branco, sobreviveu 52 anos tal como alguns de nós que nela se podem rever. Eu continuei no quartel, como tantos outros, vigilantes, mas hoje arrependo-me de não ter saído à rua num dia assim. QUE VIVA O 1º DE MAIO!

quarta-feira, abril 29

Greve geral - nunca menosprezar

“A revolução de 1905 principiou pela greve de uma tipografia moscovita cujos operários pediam que os pontos e as vírgulas fossem contados como caracteres na avaliação “por peça”. O Soviete de Saint-Peterburgo em 1905 apela para a greve aos gritos de abaixo a pena de morte.”” Albert Camus, in Caderno nº 6.

segunda-feira, abril 27

Transparência

Na véspera do meu aniversário com 52 anos de participação em eleições democráticas, tendo votado em todas, ponho em causa futuras participações se o financiamento dos partidos politicos por particulares não for publico, ou seja, se não for conhecida publicamente a identidade dos doadores e o valor das doações, seja qual for a sua natureza. ( A ilustração é um desenho do meu filhe em criança.)