Deixar uma marca no nosso tempo como se tudo se tivesse passado, sem nada de permeio, a não ser os outros e o que se fez e se não fez no encontro com eles,
Editado por Eduardo Graça
terça-feira, maio 30
segunda-feira, maio 29
PEQUENA HISTÓRIA TRÁGICO-TERRESTRE
Fotografia de Jérôme Sevrette (Le désordre des masses noires)(…)
Sou um homem da palavra aquilo que mais passa
e ao mar e ao vento imolo o que na areia escrevo
subida a escadaria dos poetas que antes conduzia
a reais paços de rondós e redondilhas
No limiar do sono sondo a noite e só depois a luz
mais natural na lâmpada que na lua ou dia
Luz solar um momento necessito caminhar
voar aos vários ventos deste ameaçado tempo
sentir a sedução das grandes capitais
em meu vibrátil pulso de poeta
(…)
Ruy Belo
PEQUENA HISTÓRIA TRÁGICO-TERRESTRE
País Possível
HIPOCRISIA
AlcoutimApetecia-me falar disto. O PR, o povo e, ao fundo, o ministro Vieira da Silva sorridente. Denunciar a hipocrisia. Fica para sexta-feira.
domingo, maio 28
JANTAR DE EXTINÇÃO DO MES - JUVENTUDE
(Clique na fotografia para ampliar)
Da esquerda para a direita -1ª Fila: Mário Trigo, Pedro Félix, Guida Veloso, Pedro Torres e Carlos Vitorino. 2ª Fila (de pé): "Tolinhas", Ana Ramalhete, Paulo Trigo, Guida Faria, Ana Cordovil, Xana e Paulo Bateira.
Esta é uma imagem de juventude retratando alguns participantes no jantar de extinção do MES que eram estudantes liceais aquando do 25 de Abril de 1974.
O MES era um partido jovem mesmo pelo facto de ter sido, desde a origem, o movimento estudantil um dos principais alfobres de onde provinham os seus militantes.
É interessante verificar que nenhum dos retratados, em plena pujança das suas capacidades intelectuais e profissionais, exerce, na actualidade, funções políticas executivas relevantes. Nem os mais jovens, representados nesta fotografia, nem, no presente, ao que julgo, nenhum de nós.
Como diz o povo “o futuro a Deus pertence” mas este jantar de extinção ressoa, na minha consciência, a um grito comum de recusa da política no sentido que Camus resumiu numa frase lapidar: “Não sou feito para a política pois sou incapaz de querer ou de aceitar a morte do adversário.
2º OLHAR DE CÃO
Fotografia de PachacutiEu sou um cão; e como tal
Por vezes mesmo bem demais tratado
Ninguém peça a ninguém mais do que pode dar.
E o cão, por meu bem ou por meu mal,
Para continuar a sê-lo e a parecê-lo,
Tem de ladrar e morder o seu bocado
E quem me passa a mão pelo pêlo
Nem sempre vê p´ra quem eu estou a olhar.
José Blanc de Portugal
ENÉADAS – 9 Novenas
Imprensa Nacional – Casa da Moeda
MOVIMENTO DE ESQUERDA SOCIALISTA
MES – Baixo AlentejoColecção de Conceição Neuparth – Depositada no Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra
Em 1971 o país ainda vivia na esperança de uma solução política para a crise do Estado Novo. Sabíamos que o futuro não podia esperar muito mais. Mas não sabíamos quanto iria ainda durar a ditadura apesar das timoratas tentativas de abertura política de Marcelo Caetano.
O MES (Movimento de Esquerda Socialista) nasceu da confluência de três movimentos que despontaram e ganharam corpo ao longo da década de 60 ganhando força a partir do simulacro de eleições em 1969: o movimento operário e sindical, o movimento católico progressista e o movimento estudantil.
A cumplicidade entre um numeroso grupo de activistas que actuavam, com autonomia, contra o regime, nestes diversos movimentos sectoriais, foi sendo reconhecida por alguns de nós o que, a certa altura, desembocou na consciência de que estávamos perante um movimento político informal. Daí até à ideia da sua institucionalização foi um pequeno passo.
Lembro sempre entre os esquecidos criadores do movimento o designer Robin Fior, um estrangeiro em Lisboa. Foi ele que desenhou o símbolo do MES, o único, adoptado pelos partidos portugueses, com uma declarada feição feminil. Robin foi também o autor da linha gráfica do jornal “Esquerda Socialista” e concebeu um conjunto de cartazes surpreendentes pela sua ousada modernidade.
Quantas horas passadas na sua companhia, e de sua mulher, desenhando uma imagem que ficou agarrada à minha memória. Admirável Robin...
[As fotografias e respectivas legendas do Jantar de Extinção do MES vão continuar. No dia em que passa mais um aniversário do golpe militar de 28 de Maio de 1926 que abriu o caminho para a instauração da ditadura em Portugal, para que se compreenda melhor do que falamos, quando falamos do MES, aqui fica uma variante de um post publicado em Março de 2004 no qual se fala de Robin Fior.]
sábado, maio 27
ALBERT CAMUS
Imagem daquiLettre Duperray. « Les syndicalistes révolutionnaires continuent à se donner à leur activité essentielle : chercher les raisons de se séparer sur des principes communs. »
Albert Camus
“Carnets – III” - Cahier nº VIII (Août 1954/Juillet 1958)
Gallimard
JACARANDÁS
Fotografia in OFÍCIO DIÁRIOOntem, a caminho do Teatro da Trindade, para ver “1755 – O Grande Terramoto”, passei defronte de um conjunto imponente de jacarandás floridos. A cidade se ilumina com as cores da primavera e respira os cheiros que a tornam feminina. Esta Lisboa que se reergueu depois de destruída e, formosa, resiste.
RUY BELO
Fotografia de Angèle(…)
Ah portugal país sem pátria por trás
cabo do mundo eterno fim do ano
em ti me senti sempre encurralado
como se lá no extremo fosse o meu último dia
(…)
Ruy Belo
FILOLOGIA-FILOSOFIA OU TALVEZ LA MESSE
SUR LE MONDE OU O TESTEMUNHO A FAVOR
DE UM ENTUSIASTA DO CAMPO
Transporte no Tempo
quinta-feira, maio 25
JANTAR DE EXTINÇÃO DO MES - FILOMENA AGUILAR
Fotografia de António Pais (Clique na fotografia para ampliar)
Raquel Lopes e Filomena Aguilar Ferro Rodrigues
Esta fotografia foi outra grande surpresa. Agradável. Nada sei da Raquel. A Filomena é a minha amizade mais antiga entre todas as mulheres. Está tudo dito. Mas acrescento que o tempo não mata a beleza. Amadurece-a por entre as vicissitudes da vida.
O DIÁLOGO E O COMUNICADO
Fotografia de AngèleMandar é respirar, não é desta opinião? E até os mais deserdados chegam a respirar. O último na escala social tem ainda o cônjuge ou o filho. Se é celibatário, um cão. O essencial, em resumo, é uma pessoa poder zangar-se sem que outrem tenha o direito de responder. «Ao pai não se responde», conhece a fórmula? Em certo sentido, ela é singular. A quem se responderia neste mundo senão a quem se ama? Por outro lado, ela é convincente. É preciso que alguém tenha a última palavra. Senão, a toda a razão pode opor-se outra: nunca mais se acabava. A força, pelo contrário, resolve tudo. Levou tempo, mas conseguimos compreendê-lo. Por exemplo, deve tê-lo notado, a nossa velha Europa filosofa, enfim, da melhor maneira. Já não dizemos, como nos tempos ingénuos: «Eu penso assim. Quais são as suas objecções?» Tornámo-nos lúcidos. Substituímos o diálogo pelo comunicado.
Albert Camus
A Queda, in CADERNOS DE CAMUS
(Sublinhados de Ana Alves)
quarta-feira, maio 24
ABDICAR
Segundo a Lusa: “O Prémio Camões, o maior galardão literário da língua portuguesa, não tentou Luandino Vieira que, segundo o escultor José Rodrigues, seu grande amigo, vive "completamente despojado dos bens materiais" no Alto Minho.”
Um convite à reflexão!
SOBRE UM VERSO REENCONTRADO
Fotografia de AngèleDe vez em quando reencontro uns versos
Perdidos na soleira dos livros
Que começados não se perdem,
E recomeçam porque assim decidi.
De vez em quando largo as palavras a meio
Não lhes encontro o nexo
Nem me reencontro nelas e desejo perdê-las,
E recomeçam porque assim decidi.
De vez em quando mudo as palavras de lugar
Olho os livros neles procurando o desejo
De reencontrar os versos que não escrevi,
E recomeçam porque assim decidi.
De vez em quando desencontro-me
Com as palavras e deixo o tempo passar
Na espera que se faça silêncio na memória,
E recomeçam porque assim decidi.
Lisboa, 20 de Agosto de 2004
JANTAR DE EXTINÇÃO DO MES - "TOLAS"
(Clique na fotografia para ampliar)
Da esquerda para a direita: João Mário Anjos, João Esteves (“Tolas”) e Afonso de Barros.
Esta série de fotografias reporta-se a um evento, tem autor identificado, cujo nome surge sob cada uma, e não pretende, assim como os textos que acompanham as fotografias, ser um exercício saudosista, nem reavivar ideias que, na sua essência, são datadas e associadas a uma circunstância histórica singular e irrepetível.
Mas tenho a convicção que os protagonistas retratados não esquecem o passado nem se esquecem mutuamente, não querem, e não podem, apagar as memórias, embora se assumam nas recusas, nas dúvidas e nos desafios do tempo presente.
Revemo-nos, assim, no simbolismo de um gesto de abdicação realizando, através desta poderosa rede de comunicação, um reencontro impossível de concretizar de outro modo.
Esta fotografia é um fragmento que tem a novidade de retratar, ao centro, o João Esteves (“Tolas”). Quando o António Pais me enviou esta fotografia, e a abri, foi como se tivesse visto o “Tolas” pela primeira vez, vivo, na amenidade de um convívio que se não interrompeu.
Da esquerda para a direita: João Mário Anjos, João Esteves (“Tolas”) e Afonso de Barros.
Esta série de fotografias reporta-se a um evento, tem autor identificado, cujo nome surge sob cada uma, e não pretende, assim como os textos que acompanham as fotografias, ser um exercício saudosista, nem reavivar ideias que, na sua essência, são datadas e associadas a uma circunstância histórica singular e irrepetível.
Mas tenho a convicção que os protagonistas retratados não esquecem o passado nem se esquecem mutuamente, não querem, e não podem, apagar as memórias, embora se assumam nas recusas, nas dúvidas e nos desafios do tempo presente.
Revemo-nos, assim, no simbolismo de um gesto de abdicação realizando, através desta poderosa rede de comunicação, um reencontro impossível de concretizar de outro modo.
Esta fotografia é um fragmento que tem a novidade de retratar, ao centro, o João Esteves (“Tolas”). Quando o António Pais me enviou esta fotografia, e a abri, foi como se tivesse visto o “Tolas” pela primeira vez, vivo, na amenidade de um convívio que se não interrompeu.
terça-feira, maio 23
PAISAGEM
Fotografia de CatherineVejamos:
Seis metros quadrados de janelas;
a árvore; verdes; cachos amarelos.
Telhados (um de madeira) e céu –
um céu desmaiado, azul aguado.
Aves não, nenhumas.
(Lagartos adivinham-se).
Gente inexistente.
Sons: um avião; cigarras.
E, de repente,
uma grande tristeza sem motivo.
(…)
In “ENÉADAS – 9 Novenas”
Imprensa Nacional – Casa da Moeda
15.1.57
JOSÉ BLANC DE PORTUGAL
(Lisboa, 1914 – 2000, Lisboa)
JANTAR DE EXTINÇÃO DO MES - "IR ATÉ AO FIM ..."
Fotografia de António Pais (Clique na fotografia para ampliar)
Da esquerda para a direita: Luís Mergulhão, Pedro Pais, Albano, (?) e Nazaré.
Julgo que nesta fotografia está representado o pessoal do ISCSP (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas).
É notável como, invariavelmente, os rostos ostentam um sorriso de serena felicidade e alegria. O encerramento de uma experiência fascinante poderia ser celebrado com melancolia ou crispação mas, no caso do jantar de extinção do MES, aconteceu o contrário.
Muitos anos passados, cada um de nós, ainda se revê, com prazer, nas imagens daquele momento simbólico de renúncia à continuidade de um projecto político. Porque nos libertamos? Porque fomos capazes de assumir o fracasso? Porque sabíamos que éramos, individualmente, capazes de prosseguir novos caminhos e abraçar novos desafios? Porque, afinal, nos reconciliávamos connosco próprios, reconstruindo os nossos sonhos utópicos?
Como disse Camus: “Ir até ao fim, não é apenas resistir mas também não resistir.”
segunda-feira, maio 22
CARREIRISMO
Mário-Henrique LeiriaApós ter surripiado por três vezes a compota da despensa, seu pai admoestou-o.
Depois de ter roubado a caixa do senhor Esteves da mercearia da esquina, seu pai pô-lo na rua.
Voltou passados vinte e dois anos, com chofér fardado.
Era Director Geral das Polícias. Seu pai teve o enfarte.
---------------------------------------------------------------------
Mário Henrique Leiria nasceu em Lisboa em 1923. Frequentou por pouco tempo a Escola de Belas Artes. Entre 1949 e 1951 participou nas actividades da movimentação surrealista em Portugal. Teve vários empregos: marinha mercante, caixeiro de praça, operário metalúrgico, construção civil. Viajou. Em 1961 foi para a América Latina onde desenvolveu várias actividades, entre as quais a de encenador de teatro e de director literário de uma editora. Voltou nove anos depois. Colaborou em várias revistas e jornais nacionais.
REMBRANDT
Rembrandt (1606 - 1669)Self Portrait as a Young Man - 1634 Uffizi, Florence
« Rembrandt : la gloire jusqu´en 1642, à 36 ans. À partir de cette date, la marche à la solitude et à pauvreté. Expérience rare et plus significative que celle, banale, de l´artiste méconnu. Sur une telle expérience on n´a encore rien dit. »
Albert Camus
“Carnets – III” - Cahier nº VIII (Août 1954/Juillet 1958)
Gallimard
Subscrever:
Comentários (Atom)





