terça-feira, março 9

O BANQUEIRO DOS POBRES

Impulsionado pelo dever do ofício estou a terminar a leitura atenta de um livro que já deveria ter lido, na íntegra, mais cedo. Não admira, pois sou tardio em tudo. O livro é “O banqueiro dos Pobres” de Muhammad Yunus. A descrição de uma experiência de luta contra a pobreza.

Deixo alguns sublinhados de leitura a começar pela primeira frase do primeiro capítulo: “ O ano de 1974 marcou-me para sempre.” Também a mim! No caso de Yunus a razão foi “o ano da terrível fome que se abateu sobre o Bangledesh” no meu caso, está claro, foi o 25 de Abril.

Os bancos diziam-me que os pobres não eram dignos de crédito. A minha primeira reacção foi responder-lhes: “Como é que sabem isso? Nunca lhes emprestaram nada. Não serão talvez os bancos que não são dignos das pessoas.” [A desilusão antecipada perante o modelo financista neste caso levada ao limite.]

Os programas de microcrédito insuflaram a energia da economia de mercado nas aldeias e populações mais deserdadas do planeta. Ao abordar-se a luta contra a pobreza numa óptica de mercado, permitiu-se que milhões de indivíduos saíssem dela com dignidade.” [Numa só frase identifica-se uma das maiores dificuldades da apropriação pela esquerda da filosofia do modelo de Yunus: “a luta contra a pobreza numa óptica de mercado.”]

Aprendi também que as coisas nunca são tão complicadas como se imagina. É a nossa arrogância que tem tendência para procurar soluções complexas para problemas simples.” [Uma réstia de esperança.]

(Continua.)
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2 comentários:

isabel.martinsalves disse...

Não leve a mal ,mas eu gosto de ir ao ginásio todos os dias às 10h. Amanhã,com calma leio e comento

Galeota disse...

Claro,que há Esperança.
"36-A actividade económica não pode resolver todos os problemas sociais através da simples extensão da lógica mercantil.Esta há-de ter como finalidade a prossecução do bem comum, do qual se deve ocupar também e sobretudo a comunidade política.Por isso, tenha-se presente que é causa de graves desequilíbrios separar o agir económico-ao qual competiria apenas produzir riqueza-do agir político,cuja função seria buscar a justiça através da redistribuição.Desde sempre a Igreja defende que não se há-de considerar o agir económico como anti-social.Por isso mesmo, o mercado não é, nem se deve tornar, o lugar da prepotência do forte sobre o débil.A sociedade não tem que se proteger do mercado, como se o desenvolvimento deste implicasse ipso facto a morte das relações autenticamente humanas.É verdade que o mercado pode ser orientado de modo negativo , não porque isso esteja na sua natureza,mas porque uma certa ideologia pode dirigi-lo em tal sentido. Não se deve esquecer que o mercado, em estado puro, não existe;mas toma forma a partir das configurações culturais que o especificam e orientam. Com efeito, a economia e as finanças, enquanto instrumentos, podem ser mal utilizadas se quem as gere tiver apenas referências egoístas. Deste modo,é possível conseguir transformar instrumentos em si mesmos bons em instrumentos danosos; mas é a razão obscurecida do homem que produz estas consequências, não o instrumento por si mesmo.Por isso, não é o instrumento que deve ser questionado, mas o homem, a sua consciência moral e a sua responsabilidade pessoal e social.
A doutrina social da Igreja considera possível viver relações autenticamente humanas de amizade e camaradagem, de solidariedade e reciprocidade, mesmo no âmbito da actividade económica e não apenas fora dela ou "depois" dela.A área económica não é nem eticamente neutra nem de natureza desumana e anti-social.Pertence à actividade do homem; e, precisamente porque humana, deve ser eticamente estruturada e institucionalizada.
O grande desafio que temos diante de nós-resultante das problemáticas do desenvolvimento neste tempo de globalização, mas revestido-se de maior exigência com a crise económico-financeira-é mostrar,a nível tanto do pensamento como dos comportamentos, que não só não podem ser transcurados ou atenuados os princípios tradicionais da ética social, como a transparência, a honestidade e a responsabilidade, mas também que, nas relações comerciais o princípio
de gratuidade e a lógica do dom como expressão da fraternidade podem e devem encontrar lugar dentro da actividade económica normal.Isto é uma exigência do homem no tempo actual, mas também da própria razão económica.Trata-se de uma exigência simultaneamente da caridade e da verdade."
in Caritas in Veritate-terceira Carta encíclica de S.S.Bento XVI
Paulus Editora-2009