quinta-feira, abril 28

ANIVERSÁRIO

“ – Meu corpo, quem mais receias?
- Receio quem não escolhi.”

Jorge de Sena, in Vilancete “Amor” – “Pedra Filosofal” – Poesia I

terça-feira, abril 26

25 de abril - um dia depois

Ontem, dia 25 de abril, quer queiram ou não queiram, na efeméride da restauração da democracia e da liberdade, foi o dia de Marcelo, Presidente da República. Para muitos foi a surpresa, para alguns o engano, para a maior parte o reconforto. Por palavras, e gestos, Marcelo (como sempre será chamado) foi o reverso das ideias, e posturas, da direita revanchista. Num só dia assumiu, com meridiana clareza, o seu compromisso com o regime democrático – plural e dialogante – assim como honrou os ideais dos que lutaram, quase cinco décadas, contra a ditadura. E ainda mais homenageou, por inteiro, sem cinismo, alguns dos que encarnam essa luta: os militares de abril, Salgueiro Maia, Manuel Alegre e António Arnaut. Acham pouco? Eu acho muito! Em poucas palavras, não lhe tendo dado o voto, aqui lhe deixo a minha homenagem.

segunda-feira, abril 25

25 de Abril - uma cerimónia

Pela primeira vez desde o 25 de abril de 1974 assisti hoje ao vivo, na Assembleia da República à celebração oficial do seu 42º aniversário. Na verdade nunca havia desejado partilhar a celebração formal de uma revolta, que o povo transformou em revolução, no ambiente formal de um parlamento. Mas o Presidente da AR, Eduardo Ferro Rodrigues, no exercício das suas funções, decidiu por amizade antiga e forjada na luta politica contra a ditadura, ter a delicadeza de me endereçar o convite. Não o podia recusar e não me arrependo. Neste dia, tantos anos passados, pude apreciar a energia, moldada ao ambiente institucional da AR, de uma evocação do 25 de abril pela voz, e presença simbólica, de alguns dos seus mais destacados protagonistas. Muitas faces presentes, muitas memórias de ausentes, e sempre a liberdade forjada por uma multidão de gestos generosos que se não podem, nem devem, esquecer. A liberdade fica mais forte quando os democratas a cortejam e exaltam. Uma cerimónia onde fiquei a saber, quase sem margem de engano, que as duas mais altas figuras do estado, por caminhos diferentes, convergem na defesa dos valores da democracia politica e da liberdade, valores que o 25 de abril, que eu próprio vivi, restituiu à comunidade.

DIA 25 DE ABRIL DE 1974

No interior da “porta de armas” do quartel do Campo Grande (2º GCAM) – João Mário Mascarenhas (à esquerda) e eu próprio. Outras imagens inesquecíveis destes dias:

Os soldados deitados nas camaratas do quartel, em posição defensiva, vigiando a rua ou o recital de poesia do alferes Mário Viegas no refeitório do quartel.

O popular, de bicicleta, levantando nas mãos a bandeira nacional aos gritos: Liberdade, Liberdade, Portugal, Portugal!

sábado, abril 23

sexta-feira, abril 15

Os dias após estado de graça

Passados os primeiros meses é sempre difícil para qualquer governo manter a áurea flamejante do sucesso. Sempre assim foi, e será, ainda para mais quando as soluções politicas de governo são originais e exigem debate permanente e concertação afinada, em democracia no pleno exercício das liberdades públicas. As diferenças de opinião, e a expressão livre das mesmas, é mil vezes melhor do que a tirania. Os governos democráticos, eleitos pelo voto popular, sob diversos modelos de representação, estão sempre sob escrutínio da opinião pública, da imprensa e da oposição politica. Assim deve ser. O que os distingue entre si, além das opções politicas, doutrinárias e ideológicas, é a capacidade de lidar com as diferenças não perdendo nunca a capacidade de fazer delas a sua força e não a sua fraqueza. Uma liderança forte não cede perante a maledicência. Para ser forte tem que ser capaz de manter intato o núcleo duro no qual repousa a sua força, ou seja a credibilidade dos seus principais dirigentes. Raras vezes estou de acordo com Fernando Ulrich que disse, numa entrevista recente, que o mais importante para a credibilidade da banca é a qualidade humana dos seus gestores. Assim é para tudo na vida e também, por maioria de razão, na politica.

segunda-feira, abril 11

Luis Filipe Castro Mendes - Ministro da Cultura

Já passado algum tempo desde o anúncio o meu regozijo pela nomeação de Luís Castro Mendes como Ministro da Cultura.

Os amantes obscuros

Nossos sentidos juntos fazem chama:

e as fantasias nossas vão soltar

os desejos desertos de quem ama

e em verso ou coração se quis tornar.


Nossos sentidos são matéria prima

de um canto que é mais leve do que o ar;

o mundo todo não nos adivinha:

somos sombra sem luz, sequer luar.


Que o corpo quebre a noite desolada,

que o corvo ceda a voz à escuridão:

mil luzes são o nome da amada;

quem se perdeu no verso é sem perdão.


Luís Filipe Castro Mendes

(Poema para o projeto "A Poesia Está na Rua" - pelo 25º aniversário do 25 de abril de 1974 - de iniciativa do INATEL. Em homenagem ao cidadão e ao poeta que vai assumir a função de Ministro da Cultura.)

Fotografia de Hélder Gonçalves

sexta-feira, abril 8

Contas e contagens

Entre tantas minudências da nossa vida em sociedade deixamos, muitas vezes para trás, questões nas quais reparamos mas que, por uma qualquer razão, não tomamos a sério mesmo quando sentimos que nos prejudicam. Sei que um dos pontos do memorando da Troika, de má memória, se referia aos chamados bens e serviços não transacionáveis. Buscando, de forma expedita, uma definição são a maior parte dos serviços prestados a particulares, o fornecimento de bens públicos tais como o saneamento, a iluminação pública ou o fornecimento domiciliário de água, telecomunicações, etc.... Sempre que reparo mais atentamente nas faturas que os respetivos operadores fazem religiosamente chegar-me às mãos, me espanto, e comigo a maioria se espanta, com o elenco dos itens que respeitam ao bem ou serviço fornecido bem assim como às alcavalas que nada têm a ver com ele. Não dou exemplos que não vale a pena. Mais recentemente tem vindo a tornar-se escandaloso a meus olhos o modelo de faturação assente nas estimativas de consumo. Ora imagina uma casa com contador de consumo de água, no exterior e com acesso livre, que durante 6 meses não é contada pelos respetivos serviços municipalizados. Ao fim de um tempo surge uma conta astronómica para pagar. O cidadão paga, sob pena de corte e, mais tarde, repara, após a contagem, que, na prática, fez um empréstimo forçado aqueles serviços que durante meses beneficiam a seu belo prazer do dinheiro alheio. Estes bens e serviços são fornecidos a milhões de cidadãos por fornecedores, incluindo municípios, ou serviços municipalizados, a preços exorbitantes, em paridade de poder de compra, contas faturadas de formas pouco transparentes, e passam os anos, os governos, as vereações, sem se ouvir bulir uma agulha no caminho. Falem-me mais do panamá...

terça-feira, abril 5

O nosso tempo

As pessoas honestas, aquelas que ao longo da vida, com suas virtudes e defeitos, vivem e trabalham segundo princípios de convivência cidadã assentes no respeito pelo outro e por si próprias, sentem fugir-lhe o chão debaixo dos pés. Sei que as pessoas honestas são a maioria e não aceito os maniqueísmos que colocam os pobres no altar da probidade e os ricos na antecâmara do crime. Onde está a raiz do mal? A razão do aumento das desigualdades económicas e sociais? Do saque da riqueza alheia sob a capa da aplicação de regras impostas pelos mais fortes? Da guerra e do desrespeito pelas diferenças? Dizem alguns, ostentando estudos e pareceres que, afinal, hoje, o mundo até está melhor. Não creio que existam critérios de medida que permitam comparar as conquistas da ciência e da tecnologia de nossos dias, e sua apropriação pelas sociedades, com as grandes fomes e pestes do passado. O progresso só vale se medido pelo avanço da qualidade de vida do homem no seu espaço de vida natural e social. Se uma ultra minoria de cidadãos do mundo acumula riqueza material à conta da exploração, e em prejuízo, da esmagadora maioria todo os apelos à revolta podem ser apresentados como legítimo mesmo contra a democracia e a liberdade. Como fazer? Mantendo firme, em permanência e por todo o lugar, a luta contra a ignorância, o populismo, o fanatismo, o racismo, a xenofobia, a violência e o medo. O homem, sendo parte da natureza, sempre encontrou solução para os males do homem regenerando-se a si próprio e a natureza com ele. O nosso tempo será para os vindouros, como em todos os tempos, um tempo passado com seus defeitos e virtudes.

sexta-feira, abril 1

O FUTURO INCERTO

Toda a gente já entendeu que se adensam as nuvens no horizonte no que respeita à paz no mundo. É difícil, sem entrar em especulações, saber quais as origens da crise que ameaça os equilíbrios herdados no pós 2ª guerra. Há muita literatura séria acerca do tema e não quero elaborar teses simplistas. Mas a crise financeira mundial pós 2008, a reemergência do terrorismo como fenómeno banal, as guerras civis da Síria, Líbia, ..., com suas terríveis consequências, incluindo as ondas migratórias, as crises politica em grandes países emergentes como o Brasil, a "bolha" em enchimento na China, que um dia destes rebentará, o crescimento da extrema direita na Europa ocidental (em países da UE, vide Hungria e Polónia, por ex.), o fenómeno Donald Trump nas eleições presidenciais americanas, faz-me temer o pior. Qualquer vaga esperança de um paraíso decalcado nos 30 anos gloriosos acabou. Preparemos-nos para um tempo de violências e de incertezas, a não ser que uma nova vaga de dirigentes políticos, com envergadura de verdadeiros homens de estado, se revele entre as novas gerações nascidas após o inicio dos anos 90, e ganhe as rédeas do poder.