domingo, novembro 8

MES - uma data simbólica

Na sequência do IV Congresso do Movimento de Esquerda Socialista (MES), realizado a 8 de Julho de 1979, marcado pela vitória da moção intitulada “Nova Prática, Novo Programa, Outro Caminho”, foi aberto o caminho para a auto extinção do partido. A extinção do MES foi anunciada em 7 de Novembro de 1981 no emblemático jantar/festa realizado no pavilhão sobrevivente da Exposição do Mundo Português (ironias da história!).

Camus

Albert Camus nasceu em 7 de Novembro de 1913 em Mandovi (Argélia). No primeiro capítulo da sua obra póstuma, “O Primeiro Homem”, Camus descreve a viagem de carroça, empreendida pela família, perante o parto iminente, para uma região vinícola, perto da fronteira com a Tunísia, uma quinta a oito quilómetros de Mandovi. O pai de Albert, Lucien August Camus, trabalhava, na Argélia, para uma empresa vinícola francesa, mudando de residência conforme as necessidades da actividade a que se dedicava. Em “O Primeiro Homem”, Camus adopta, pela primeira vez um registo autobiográfico, podendo entender-se, a verdadeira importância dos seus pais, ou talvez melhor, a importância da “ausência” deles, na sua obra. O pai morreu, no hospital militar de Saint-Brieuc, em 11 de Outubro de 1914, depois de ter sido ferido, em Setembro, em combate, na batalha de Marne. No 2º capítulo de “O Primeiro Homem”, intitulado “Saint-Brieuc”, Camus descreve, detalhadamente, a visita que realizou, 40 anos depois da morte do pai, ao cemitério onde este se encontra sepultado. “Foi então que leu na sepultura a data de nascimento do pai e descobriu ao mesmo tempo que até agora a ignorara. Em seguida, leu as duas datas, “1885-1914” e procedeu a um cálculo mental: vinte e nove anos. Surgiu-lhe de súbito uma ideia que o fez estremecer. Tinha quarenta anos. O homem sepultado sob aquela pedra, e que fora seu pai, era mais jovem do que ele.

sexta-feira, novembro 6

O Estado do Estado

Compreendo a ideia de "bloco central" que poderia ser concretizada sob diversos formatos, tendo subjacente a manutenção do acordo de regime que vem da Constituição de 76. Mas... tudo aponta para que PSD e PS sejam hoje partidos com programas aparentemente irreconciáveis com as atuais lideranças. Repare-se como o PSD e o governo que nele assenta tem vindo sistemáticamente a responsabilizar o PS por todos os males do país rompendo com qualquer ideia de continuidade de politicas centrais na governação. A parte social democrata do PSD perdeu influencia no próprio partido que guinou para a direita, sendo hoje dominado por ideias e interesses liberais e nalguns aspetos ultramontanos em coincidência com ideias de extrema direita. Além do mais a respeito do pessoal dirigente da administração pública, a todos os níveis, o PSD executou, num curto periodo de tempo, uma purga que deixa um lastro de ressentimento dificil de tornear, viabilizando no terreno qualquer aliança PSD/PS. Só mesmo através de mudanças profundas nos próprios partidos (todos), desde logo nas suas lideranças, o que está longe do horizonte, a não ser os movimentos sociais em fase de ensaio, como aconteceu diversas vezes ao longo da história, se apresentem de forma poderosa. Ao contrário de algumas inefáveis vozes de democratas de vários quadrantes não está em curso nem se vislumbra qualque revolução. Em Portugal todas as revoluções, desde, pelo menos, 1640, tiveram sempre na sua génese, e modo operacional, os militares. Hoje a tropa não tem massa critica para mexer um dedo. Assim fiquem descansados...o Estado vai continuar na sua profunda letargia e os grandes interesses economico/financeiros prosperarão.

quarta-feira, novembro 4

Eleições

Um grande dia para a humanidade, o dia das eleições intercalares nos Estados Unidos, ontem, 3 de novembro. Parece uma coisa pequena. A vitória clara dos democratas, na sua enorme diversidade, assinala uma saída para o interregno autoritário da administração Trump. Será que a Europa aprende a lição?

terça-feira, novembro 3

Mulheres

Em qualquer lugar, no tempo da memória, as mulheres ocupam o meu imaginário são o centro do mundo. O ponto cardeal em torno do qual volteiam todos os devaneios. Desfilam pela minha memória os seus rostos, vozes e cheiros. Na família tradicional que era (e é) a minha, as mulheres parece que nunca desertam dos seus deveres, nunca morrem, permanecem no centro da vida, lugar da vida, origem da vida. Se tivesse sido iluminado pelo dom de uma qualquer arte dedicar-lhes-ia um monumento, uma obra-prima, um prolongado aplauso.

domingo, novembro 1

Raízes

Deitei-me a pensar da razão de escrever nesta fase tardia da vida, longe de me debater com preconceitos idiotas, e de me fugir a pena tantas vezes para as memórias. A razão resume-se numa palavra: raízes. A família está na primeira linha da memória neste divertimento sério, avesso da obrigação, que é a escrita. Do lado da ascendência materna é o campo, a terra, o chão da minha memória. Eram camponeses e imperava a família alargada da qual a minha mãe foi a primeira a sair, pelo casamento, para a cidade. A memória fotográfica que me chegou remonta ao inicio do século XX e nela estão todas e todos retratados a propósito de um qualquer dia de festa.

sexta-feira, outubro 30

A minha gente

No campo da escassez eu via abundância no cuidado com o que se colhia, punha na mesa, guardava, o pão, mais que tudo o pão, banha, figos, melancia, cavala, brados à estrada para encomendar o peixe, água fresca dos cântaros, de vez em quando caça, perdiz, lebre, coelho, bravos, o meu tio Ventura era um bom caçador, Fernandes todos, José, Rosa, Ventura, Adélia, Ezequiel, Gervásio, avós, tios, primos, das suas mãos provinha o meu céu, minha religião sagrada, terra, céu, sol, lua, estrelas, mar, a natureza derramada em suas vozes temperadas pelas duras tarefas da sobrevivência honrada. A marca do seu nome ficou gravada no meu, todo um mundo de gente com o mundo dentro.

quinta-feira, outubro 29

A escassez

Os tempos eram de escassez, hoje à distância de pelo menos uma geração reconheço-o em pequenos estilhaços da memória e por escassas imagens que, entendo-o hoje, eram evitadas em favor das dos dias de festa. O que resta? Os lugares, sol, terra, água, rostos, animais, árvores. A natureza resplandecente povoada a duras penas pelos descendentes dos mouros que ficaram da reconquista. Nunca me libertei dessa memória antes a guardei cultivando-a acima das curvas da vida. E não esqueço o amor que me foi dedicado pelos ancestrais com gestos de profunda humanidade. Como explicar que a bondade não seja um valor reconhecido como inerente à vida, num lugar supremo entre todos os valores.

terça-feira, outubro 27

Aniversário

Chegou a hora de me preocupar mais comigo do que com os outros. Neste início de outubro de 2026 a longa jornada de trabalho chegou ao fim. Não sei se serei capaz de escrever mais do que banalidades. O tempo faz mossa, essa ideia de que se ganha experiência com a passagem do tempo é uma treta. Pode ser, em parte, verdade, mas quem manda é a memória. A propósito quase todos os dias faço exercícios de memória. As mais longínquas surgem naturalmente. As mais próximas exigem um esforço suplementar. Mas faço-o. Lembro nomes de pessoas. Antes de deitar ou já deitado, inquieto-me quando não me surgem rápido os nomes que inscrevo na lista, mas acabam por emergir, sem mnemónica. Também vejo o que não está presente, um pequeno cobertor enrolado em cima do sofá, olhei-o de relance e vi o meu gato morto faz anos. Seria mais o gato do meu filho ausente que hoje faz 36 anos. A memória deles abraçados fez o meu dia feliz.

Desgoverno

Não me espanta o silêncio de Seguro, supondo que lhe compete tomar posição, os acordos de regime que proconiza não passam pela rua, suposto lugar de refúgio de todos os radicalismos. Mas as manifestações a que assistimos até ao presente são menos radicias do que muitos comportamentos no parlamento, incluindo insultos e assaltos. Assim como na administração da coisa pública onde se passam coisas inomináveis. Como diria o outro, isto anda tudo ligado. Desgoverno!