sexta-feira, outubro 30

A minha gente

No campo da escassez eu via abundância no cuidado com o que se colhia, punha na mesa, guardava, o pão, mais que tudo o pão, banha, figos, melancia, cavala, brados à estrada para encomendar o peixe, água fresca dos cântaros, de vez em quando caça, perdiz, lebre, coelho, bravos, o meu tio Ventura era um bom caçador, Fernandes todos, José, Rosa, Ventura, Adélia, Ezequiel, Gervásio, avós, tios, primos, das suas mãos provinha o meu céu, minha religião sagrada, terra, céu, sol, lua, estrelas, mar, a natureza derramada em suas vozes temperadas pelas duras tarefas da sobrevivência honrada. A marca do seu nome ficou gravada no meu, todo um mundo de gente com o mundo dentro.

quinta-feira, outubro 29

A escassez

Os tempos eram de escassez, hoje à distância de pelo menos uma geração reconheço-o em pequenos estilhaços da memória e por escassas imagens que, entendo-o hoje, eram evitadas em favor das dos dias de festa. O que resta? Os lugares, sol, terra, água, rostos, animais, árvores. A natureza resplandecente povoada a duras penas pelos descendentes dos mouros que ficaram da reconquista. Nunca me libertei dessa memória antes a guardei cultivando-a acima das curvas da vida. E não esqueço o amor que me foi dedicado pelos ancestrais com gestos de profunda humanidade. Como explicar que a bondade não seja um valor reconhecido como inerente à vida, num lugar supremo entre todos os valores.

terça-feira, outubro 27

Aniversário

Chegou a hora de me preocupar mais comigo do que com os outros. Neste início de outubro de 2026 a longa jornada de trabalho chegou ao fim. Não sei se serei capaz de escrever mais do que banalidades. O tempo faz mossa, essa ideia de que se ganha experiência com a passagem do tempo é uma treta. Pode ser, em parte, verdade, mas quem manda é a memória. A propósito quase todos os dias faço exercícios de memória. As mais longínquas surgem naturalmente. As mais próximas exigem um esforço suplementar. Mas faço-o. Lembro nomes de pessoas. Antes de deitar ou já deitado, inquieto-me quando não me surgem rápido os nomes que inscrevo na lista, mas acabam por emergir, sem mnemónica. Também vejo o que não está presente, um pequeno cobertor enrolado em cima do sofá, olhei-o de relance e vi o meu gato morto faz anos. Seria mais o gato do meu filho ausente que hoje faz 36 anos. A memória deles abraçados fez o meu dia feliz.

Desgoverno

Não me espanta o silêncio de Seguro, supondo que lhe compete tomar posição, os acordos de regime que proconiza não passam pela rua, suposto lugar de refúgio de todos os radicalismos. Mas as manifestações a que assistimos até ao presente são menos radicias do que muitos comportamentos no parlamento, incluindo insultos e assaltos. Assim como na administração da coisa pública onde se passam coisas inomináveis. Como diria o outro, isto anda tudo ligado. Desgoverno!

segunda-feira, outubro 26

LULA

Lula resistiu, resistiu e ganhou. Um grande feito, sinal de esperança para a democracia!

domingo, outubro 25

Governo a caminho do fim

A administração deste governo é desastrosa, mais tarde saberemos o resultado, hoje as impressões ainda são difusas. O MAI é um polícia, está tudo dito, sob um véu de palavras democráticas, esconde-se um ego autoritário. Aconteceu inúmeras vezes na história. Adivinho o racional das medidas repressivas diretas e espetaculares: mostrar força bruta para manter a ordem, exemplar para a rua do protesto e, ao mesmo tempo, corresponder aos instintos primários dos adeptos da extrema direita. E, no momento certo, amealhar argumentos para a comissão parlamentar de inquérito ao próprio MAI que fez intervir a polícia que tutela. É uma pescadinha com rabo na boca. Resta saber se o governo não deu um sinal decisivo do seu declínio. (Fotografia de manifestação em Lisboa num dos dias do imediato pós 2ª guerra.)

quinta-feira, outubro 22

Memórias de família

Pedra tumular do meu primo Pedro Eurico Nery Graça assassinado, e sepultado, em Angra do Heroísmo em outubro de 1954. Cumpria serviço militar.

quarta-feira, outubro 21

A direita treme com pouco

A direita através de seus arautos, em todos os meios, treme de medo com meia dúzia de manifestações pacificas, nem sequer muito imaginativas. Imaginem se o chão tremer a sério...

segunda-feira, outubro 19

Ronaldo

Tinha dito a mim mesmo que não diria nada acerca do tema mais mediático deste nosso tempo. Há razões para isso atenta a portentosa carreira de Ronaldo e o impato global da sua imagem. A nossa triste tradição despreza o sucesso individual, a inveja reina, destroi o consenso em torno dos vencedores. Carregado de defeitos, que não a sua fortuna não herdada, mas construida a pulso, Ronaldo não pode ser apeado do pedestal onde se ergueu por mérito próprio. Mas o futebol profissional é um antro de mentiras e negociatas das quais nasceu o castigo irrisório que lhe foi aplicado mais parecendo um perdão envergonhado. O final não vai ser feliz e perdemos todos, mas Ronaldo é o único que fica na história.