terça-feira, novembro 3

Mulheres

Em qualquer lugar, no tempo da memória, as mulheres ocupam o meu imaginário são o centro do mundo. O ponto cardeal em torno do qual volteiam todos os devaneios. Desfilam pela minha memória os seus rostos, vozes e cheiros. Na família tradicional que era (e é) a minha, as mulheres parece que nunca desertam dos seus deveres, nunca morrem, permanecem no centro da vida, lugar da vida, origem da vida. Se tivesse sido iluminado pelo dom de uma qualquer arte dedicar-lhes-ia um monumento, uma obra-prima, um prolongado aplauso.

domingo, novembro 1

Raízes

Deitei-me a pensar da razão de escrever nesta fase tardia da vida, longe de me debater com preconceitos idiotas, e de me fugir a pena tantas vezes para as memórias. A razão resume-se numa palavra: raízes. A família está na primeira linha da memória neste divertimento sério, avesso da obrigação, que é a escrita. Do lado da ascendência materna é o campo, a terra, o chão da minha memória. Eram camponeses e imperava a família alargada da qual a minha mãe foi a primeira a sair, pelo casamento, para a cidade. A memória fotográfica que me chegou remonta ao inicio do século XX e nela estão todas e todos retratados a propósito de um qualquer dia de festa.

sexta-feira, outubro 30

A minha gente

No campo da escassez eu via abundância no cuidado com o que se colhia, punha na mesa, guardava, o pão, mais que tudo o pão, banha, figos, melancia, cavala, brados à estrada para encomendar o peixe, água fresca dos cântaros, de vez em quando caça, perdiz, lebre, coelho, bravos, o meu tio Ventura era um bom caçador, Fernandes todos, José, Rosa, Ventura, Adélia, Ezequiel, Gervásio, avós, tios, primos, das suas mãos provinha o meu céu, minha religião sagrada, terra, céu, sol, lua, estrelas, mar, a natureza derramada em suas vozes temperadas pelas duras tarefas da sobrevivência honrada. A marca do seu nome ficou gravada no meu, todo um mundo de gente com o mundo dentro.

quinta-feira, outubro 29

A escassez

Os tempos eram de escassez, hoje à distância de pelo menos uma geração reconheço-o em pequenos estilhaços da memória e por escassas imagens que, entendo-o hoje, eram evitadas em favor das dos dias de festa. O que resta? Os lugares, sol, terra, água, rostos, animais, árvores. A natureza resplandecente povoada a duras penas pelos descendentes dos mouros que ficaram da reconquista. Nunca me libertei dessa memória antes a guardei cultivando-a acima das curvas da vida. E não esqueço o amor que me foi dedicado pelos ancestrais com gestos de profunda humanidade. Como explicar que a bondade não seja um valor reconhecido como inerente à vida, num lugar supremo entre todos os valores.

terça-feira, outubro 27

Aniversário

Chegou a hora de me preocupar mais comigo do que com os outros. Neste início de outubro de 2026 a longa jornada de trabalho chegou ao fim. Não sei se serei capaz de escrever mais do que banalidades. O tempo faz mossa, essa ideia de que se ganha experiência com a passagem do tempo é uma treta. Pode ser, em parte, verdade, mas quem manda é a memória. A propósito quase todos os dias faço exercícios de memória. As mais longínquas surgem naturalmente. As mais próximas exigem um esforço suplementar. Mas faço-o. Lembro nomes de pessoas. Antes de deitar ou já deitado, inquieto-me quando não me surgem rápido os nomes que inscrevo na lista, mas acabam por emergir, sem mnemónica. Também vejo o que não está presente, um pequeno cobertor enrolado em cima do sofá, olhei-o de relance e vi o meu gato morto faz anos. Seria mais o gato do meu filho ausente que hoje faz 36 anos. A memória deles abraçados fez o meu dia feliz.

Desgoverno

Não me espanta o silêncio de Seguro, supondo que lhe compete tomar posição, os acordos de regime que proconiza não passam pela rua, suposto lugar de refúgio de todos os radicalismos. Mas as manifestações a que assistimos até ao presente são menos radicias do que muitos comportamentos no parlamento, incluindo insultos e assaltos. Assim como na administração da coisa pública onde se passam coisas inomináveis. Como diria o outro, isto anda tudo ligado. Desgoverno!

segunda-feira, outubro 26

LULA

Lula resistiu, resistiu e ganhou. Um grande feito, sinal de esperança para a democracia!

domingo, outubro 25

Governo a caminho do fim

A administração deste governo é desastrosa, mais tarde saberemos o resultado, hoje as impressões ainda são difusas. O MAI é um polícia, está tudo dito, sob um véu de palavras democráticas, esconde-se um ego autoritário. Aconteceu inúmeras vezes na história. Adivinho o racional das medidas repressivas diretas e espetaculares: mostrar força bruta para manter a ordem, exemplar para a rua do protesto e, ao mesmo tempo, corresponder aos instintos primários dos adeptos da extrema direita. E, no momento certo, amealhar argumentos para a comissão parlamentar de inquérito ao próprio MAI que fez intervir a polícia que tutela. É uma pescadinha com rabo na boca. Resta saber se o governo não deu um sinal decisivo do seu declínio. (Fotografia de manifestação em Lisboa num dos dias do imediato pós 2ª guerra.)

quinta-feira, outubro 22

Memórias de família

Pedra tumular do meu primo Pedro Eurico Nery Graça assassinado, e sepultado, em Angra do Heroísmo em outubro de 1954. Cumpria serviço militar.