A B S O R T O
Deixar uma marca no nosso tempo como se tudo se tivesse passado, sem nada de permeio, a não ser os outros e o que se fez e se não fez no encontro com eles,
Editado por Eduardo Graça
sábado, setembro 12
Jornal Esquerda Socialista - 52 anos
Em épocas de revolução o tempo ganha uma dimensão proporcionalmente inversa ao empolgamento dos protagonistas. Quanto mais fervor revolucionário mais o tempo parece escasso. Todos os sonhos parecem realizáveis e as vozes conciliadoras, ou que se atrevam a apelar ao realismo, tendem a ser silenciadas ou desprezadas.
.
Apesar do seu temperamento afectuoso e, ao mesmo tempo, irascível, César de Oliveira, uma grande figura de intelectual da esquerda portuguesa do século passado, abandonou a direcção interina do “Esquerda Socialista”, após a edição dos seus seis primeiros números, sob a pressão de uma maioria radicalizada que, considerava o jornal ”politicamente ambíguo”, “graficamente confuso” e “financeiramente desastroso”.
Acusações tanto mais injustas, digo-o hoje sem contemplações, atentas as dificuldades em reunir, à época, as condições para erguer qualquer órgão de imprensa partidária (e mesmo generalista!), fora da esfera de influência do PCP e dos grupos marxistas-leninistas-maoistas, ainda por cima, em oposição, ideológica e política, aos princípios essenciais da orientação político-partidária daquelas organizações.
Foram aliás essas dificuldades que explicam o longo tempo, quatro meses e dez dias (uma eternidade!), que mediou entre o surgimento público do MES, anunciado no pano artesanal que desfilou na grande manifestação do 1º de Maio de 1974, e o dia 11 de Setembro desse ano quando saiu do prelo o nº 0 do “Esquerda Socialista”. O cartaz dizia “Movimento de Esquerda Socialista (em organização) ”, uma fórmula impensável à luz das regras tradicionais do marketing político, mas que explica, em duas palavras, as delongas no surgimento do jornal.
Era preciso dar corpo a uma ideia que andava no ar, ou seja, estabelecer as bases programáticas e organizativas de um partido, criando-o de raiz, a quente, na bigorna da revolução, não deixando perder as energias de tantos e tão promissores movimentos de luta sectorial e o entusiasmo dos militantes que exigiam aderir a um movimento político que nem os seus fundadores sabiam muito bem ao que vinha e nos quais não constava, que me lembre, uma única personalidade relevante ligada à imprensa.
Que experiência mais apaixonante se poderia desejar na volúpia da revolução, que fervilhava nas ruas, do que responder ao desafio de criar um partido de “esquerda socialista” despojado, à partida, de recursos materiais e de apoios internacionais? Mas como encontrar energias para fundar, do nada, o mais depressa possível, um órgão de imprensa que lhe desse rosto e voz?
Ao fim de muitas, e acesas, discussões, nas quais o César de Oliveira se enfurecia amiúde, lançaram-se as bases de uma equipa de trabalho para elaborar o “Esquerda Socialista”, arranjou-se uma sede provisória na Rua Garrett, que a partir do nº 8 passou para a Rua Rodrigues Sampaio e a partir do nº 30 para a Av. D. Carlos I, convenceu-se a Renascença Gráfica a vender “fiado” os trabalhos de edição e impressão, contratou-se uma distribuidora e o “Esquerda Socialista” foi para a rua.
Esta aventura, FAÇA-SE JUSTIÇA, não teria sido possível sem o empenho do José Manuel Galvão Teles e como, ainda hoje, não sei se alguém lhe agradeceu o suficiente daqui lhe envio o meu tardio obrigado!
No decurso da 2ª fase da sua existência, de Dezembro de 1974 a Julho de 1975, a direcção do “Esquerda Socialista” foi atribuída, pela Comissão Política Nacional (CPN) a Augusto Mateus, tendo sido editados mais 27 números, do nº 12 ao 38, com periodicidade semanal, compostos por 12 páginas a 2 cores e ao preço de venda ao público de 3$00. (a única excepção foi um nº especial, a propósito do 11 de Março de 1975, que saiu apenas com 4 páginas ao preço de 1$00).
Se não erro, pois não tenho a colecção completa na minha frente (não sei que é feito dela), foram editados, contando com o nº 0, quarenta números do “Esquerda Socialista”, com uma tiragem, no seu ocaso, entre 17.000 e 20. 000 exemplares, mesmo assim bastante relevante acerca da presença política do MES no processo revolucionário em curso, como era da praxe dizer-se.
O jornal “Esquerda Socialista”, carregando, em particular, nesta derradeira fase, as marcas próprias da sua época, mais criativo e anarquizante, na sua primeira fase, constitui um testemunho interessante para uma análise política, e cronológica, do período revolucionário compreendido entre o 28 de Setembro de 1974 e a aprovação do “Plano Aliança Povo-MFA, em Junho de 1975.
Mas ainda não tinha acabado a aventura do “Esquerda Socialista” e já tinha sido criado o “Poder Popular”, o outro órgão de imprensa do MES, que se pretendia mais próximo da luta das classes populares, porta-voz de um programa político do MES que nunca deixou de reflectir, a partir do final de 1976, embora sem expressão pública, a luta interna entre facções que se digladiavam no seu seio.
PUBLICADO EM 29 DE DEZEMBRO DE 2008
sexta-feira, setembro 11
quinta-feira, setembro 10
Governo?
Como li num titulo algures o governo passou à oposição, a propósito de medidas anunciadas recentemente e que implicam aumento da despesa. Parafraseando a senhora Ministra do ambiente a propósito dos combustíveis, um dia acordamos e não há governo ...
segunda-feira, setembro 7
Uma singela nota de descrença
O governo minoritário do PSD odeia os socialistas. Esse ódio dimanado do partido está presente no quotidiano das suas práticas. Pode ser que um dia destes quem conheça os meandros das decisões faça relatos pungentes. Sabemos que o regime politico vigente assenta nos partidos e nas maiorias que se formam em eleições livres. O nosso regime é, pois, um regime de partidos e muito bem. Mas daí até à mais primária das partidocracias vai uma grande distância. Dirão que sempre assim foi e será, mas hoje por hoje é paradoxal que um partido que odeia os socialistas careça do seu apoio para sobreviver. Sempre se suscitarão dúvidas acerca da bondade deste apoio sem que se anteveja a vontade para celebrar um acordo de regime em bases progressistas que minimize a ameaça da extrema direita. O poder presidencial neste regime é fraco por natureza e Seguro pela sua persona não lhe acrescenta força. Receia-se o pior.
domingo, setembro 6
Citações (in) atuais
"O governo está gasto, sem autoridade, sem prestígio, sem crédito, sem vigor, sem alma para actuar com um ar de quem tem as malas feitas, a conta do hotel paga, e aguarda na gare a partida do comboio ..." Franco Nogueira, diário 28 de julho de 1968, in "Os dias e os anos", Marcello Duarte Mathias
quinta-feira, setembro 3
O meu pai Dimas
Amanhã 4 de setembro é o dia de aniversário do meu pai Dimas. Nunca esqueço este dia ao contrário de tantos outros dias. O meu pai nem era homem de muitas conversas e ainda menos de confidências. Guardava prudente reserva dos afetos mas os seus gestos não me enganavam. Levava-me pela mão às mais incriveis aventuras como a de acompanhar o cortejo de Humberto Delgado na sua campanha eleitoral no Algarve. Aspirar à liberdade era um grande e dificil desafio e ele, de diversas e subtis formas, ensinou-me esse caminho.
quarta-feira, setembro 2
Glória
O elevador da glória é toda uma tragédia. O numero de indeminizações entregues às vitimas é minimo. O inquérito está atrasado à espera das atrasadas pericias. O anúncio da entrada em função de um novo aponta para 2029... Parece uma linha de TGV...
domingo, agosto 30
Nepal
As notícias acerca da tragédia do Nepal são abundantes, e justificadas, pela dimensão ambiental e humana. Sabemos da existência no nosso país de uma considerável comunidade nepalesa acerca da qual a opinião geral é muito positiva. No entanto o Estado português face aquela tragédia limitou-se aos minimos protocolares. Talvez um pouco mais de empatia e de apoio concreto, ou seja, mais gestos próprios da solidariedade de um país de emigrantes.
Subscrever:
Mensagens (Atom)






