sexta-feira, julho 24

Norah Jones - Live At LPR, NY

FÉRIAS - julho - dia 24

A época de férias aí está para os cidadãos que as podem gozar. As férias são uma aquisição recente dos trabalhadores, ao contrário do que muita gente pensa, mais por desmemória do que por outra razão qualquer. Na verdade foi o governo da frente popular, no ano de 1936, em França, que instituiu, alargando às grandes massas de trabalhadores, essa banalidade dos nossos dias que são as férias (pagas). Este ano, uma vez mais, as férias serão a antecâmara de eleições (legislativas e presidenciais) com os episódios próprios das disputas eleitorais. Mais vale o ruído, incómodo para alguns, das refregas eleitorais democráticas do que o pesado e cúmplice silêncio das tiranias.

quarta-feira, julho 15

Grécia . julho - dia 15

Não quero escrever da Grécia senão acerca de sentimentos pois sei que pouco, ou nada, sei acerca da realidade. A situação que nos é dada a conhecer através dos relatos, como sempre acontece nas mudanças verdadeiramente decisivas, é estranhamente original. Sinto-a como sinal de ameaça para a democracia e interrogo-me acerca das razões, e objectivos, de quem mexe os cordelinhos - não sejamos ingénuos - se uma qualquer máfia ou a pura incompetência de políticos sem alma. Sinto a Grécia e as suas circunstancias como uma semente de guerra, uma frincha que se abre à confrontação irracional ou ao surgimento de uma ditadura militar, ou ambas as coisas. Na Europa da paz e dos sonhos federais - da moeda à governação - alguém muito poderoso terá desistido de perseverar pela concórdia, pela aposta no diálogo, pela crença na superioridade da democracia. Sempre me lembra o desembarque na Normandia, a epopeia dos milhares de americanos, canadianos, australianos e dos resistentes europeus, que morreram, faz agora precisamente 70 anos que esse pesadelo terminou, para devolver a liberdade e a paz à Europa. Espero que seja somente um sonho mau.

terça-feira, julho 7

CRISE - dia 7 de julho 2015

Nós sabemos pouco dos meandros, encontros e desencontros, da politica que se compõe de uma sobreposição de vontades, interesses, doutrinas ... , que se entre-chocam no tempo e no espaço, hoje mais do que nunca a uma velocidade alucinante. Nós cidadãos comuns somos espectadores de um jogo do qual conhecemos as regras gerais mas que raramente jogamos. Em democracia somos eleitores o que não é nada pouco, e representa um avanço civilizacional brutal, mas é assustador o quanto transparece de medo ao sufrágio popular por parte dos lideres europeus. Ao ponto a que se chegou a Grécia, salvo qualquer milagre, vai ser um teste à sobrevivência do € e da própria UE, tal como a conhecemos no presente. Os americanos rezam para que não se abra uma nova fronteira de crise militar nos flancos da Europa da NATO (poucos falam em guerra, mas a guerra está presente em todo o cenário da presente crise politica), os países membros da UE, cada um a seu modo, temem os nacionalismos radicais quando as respectivas lideranças já não foram engolidas por eles, incluindo a Grécia. Assim resta esperar que reine o bom senso e que, numa linguagem antiga, e fora de moda, seja possível fazer emergir nas lideranças europeias, com suficiente massa critica, um verdadeiro e forte sentido de estado supra nacional...

domingo, julho 5

BEETHOVEN - Symphony no. 9 "CHORAL" - Leonard Bernstein (4)

Grécia - 5 de julho, 2015

Não sabemos o que vai acontecer na Grécia, e ao povo grego, após o dia de amanhã. Alguns afirmam que não somos a Grécia, pois é verdade, mas todos opinam acerca dos acontecimentos da Grécia. A Grécia tornou-se o epicentro da crise da politica europeia, revelando as fragilidades da moeda única e do próprio projecto da UE. Estamos perante um ruptura politica que pode ser de baixa intensidade e com efeitos restritos ou, o mais certo, o inicio da criação de uma convicção, em largas camadas da opinião pública europeia, da necessidade de repensar o € (ou sair dele) e o próprio edifício da UE. Certamente muitos responsáveis políticos já preparam o caminho de mudanças profundas que correspondam à necessidade de combater o avolumar na descrença de uma cada maior parte dos europeus no próprio projecto da UE. A UE não pode existir sem democracia. Os povos não podem ser desapossados do direito ao voto livre. Nem à liberdade de expressão do pensamento. Nem à liberdade de imprensa. O valor supremo que deve ser preservado em quaisquer circunstâncias, a defender pelos democratas, é o da liberdade. Inquieto-me ao pensar que a guerra da propaganda em que se envolveram os dirigentes das potências europeias na questão grega possa despertar não o ressurgimento politico das forças moderadas do centro mas avolumar o peso, quiçá a vitória, das forças anti europeístas hegemonizadas pela extrema direita - na Grécia e não só. Aí a tentação da intervenção militar pode ganhar, para os incautos, uma surpreendente e inesperada força. A ver vamos!

terça-feira, junho 30

A Grécia em Guerra - 30 de junho - 2015

A Grécia está desde alguns anos mergulhada numa guerra pois o que é a guerra senão os efeitos dela. Os indicadores falam por si e não falo deles aqui pois deverão hoje ser bem mais desoladores do que há uma semana atrás. É verdade que faltam as acções militares na Grécia, conforme nos habituamos a entender as acções militares. Nada que não possa vir a acontecer um dia destes como tantas vezes aconteceu na Grécia num passado não muito longínquo. Aliás a guerra está presente ao longo de boa parte das fronteiras da Europa e a Grécia é uma das suas fronteiras mais sensíveis. A Grécia, por estes dias, é um tema que suscita - tal como em qualquer teatro de guerra - uma intensa actividade de informação, e contra informação, que se estende a nível global. Por isso me previno de acreditar nas notícias da guerra.

domingo, junho 28

Junho - dia 28

A crise grega - uma faceta radical da crise da UE - permite-nos ficar a conhecer muita coisa. Por exemplo que a reunião dos ministros das Finanças dos países que adoptaram o € é informal quando, no que me toca, sempre pensei que era uma instância cujas decisões, obrigatoriamente unânimes, "subiam", após aprovadas para decisão de instâncias superiores. Afinal é uma instância informal... mas que deve, certamente, reger-se por regras próprias escritas e ... formais. Se assim não for como se justificam as despesas em viagens e estadias, além do tempo gasto pelos ministros das Finanças para participar nessas reuniões? Mas mostra que a UE é, paradoxalmente, menos burocrática do que quer fazer crer... Também toda a gente ficou a saber que não está previsto, nos tratados, que um país saia do €, tendo sido criado um modelo no qual só estão previstas adesões ao €. Há porta de entrada mas não há porta de saída! Nesta semana de finais de Junho, inícios de Julho de 2015, vão ensaiar-se, pois, um conjunto de experiências sem enquadramento nas normas que regem o funcionamento da UE. Assim parece. O mais curioso - se não fosse dramático - será assistir-se aos dirigentes dos países do norte da Europa envolvidos num processo que apela mais ao "improviso organizacional", próprio da cultura dos países do sul, do que à "previsibilidade racional" da cultura dos alemães e dos povos do norte da Europa. Afinal ainda existe, e continuará a existir, em toda a sua diversidade, UE!

domingo, junho 21

Dvorak - Symphony No. 9 "From the New World" - II (part 2)

O MURO

Acontecem, por estes dias, coisas assustadoras por essa Europa fora. O governo de um país da UE anunciou que vai levantar um muro na fronteira do país que governa (Hungria)com a Sérvia. Para evitar ou, pelo menos, conter a entrada de migrantes! Um muro não virtual mas que deverá ser de betão, ou assim, com uma dimensão de cerca 170 KM. Na União Europeia! E as gerações vivas de alemães que assistiram ao derrube do muro que dividia a Alemanha em duas, desde a final da II Guerra, toleram a um governo de um país da UE que venha a construir um muro que separe um país da UE de um outro país que, apesar de não a integrar, faz parte desta mesma Europa? Se for possível construir este muro, sem consequências politicas para os seus construtores, adeus UE!

terça-feira, junho 16

junho. Dia 16

A Grécia. Desde quando se não falava tanto da Grécia! Hoje num comentário na TV Vitorino (António) gracejou acerca da Grécia enquanto berço da democracia. Não gostei. Antes, ou depois, já não me lembro, fez uma declaração de interesses para se pronunciar acerca da privatização da TAP. Integra o escritório de advogados contratado pelos vencedores. Não é obrigatório ser uma má pessoa para exercer advocacia de negócios. Mas advogar um negócios em concreto, o que é próprio da profissão de advogado, e emitir opinião num espaço público de opinião, como um canal de TV, acerca do dito, não me parece eticamente muito promissor. Não gostei. A liberdade de opinião condicionada, ou aprisionada, pelos interesses.

domingo, junho 14

Junho - dia 14


Um dia após o 13 de junho numa época em que o simbolismo das datas sofre tratos de polé. As fronteiras externas da UE após a euforia do alargamento, e com a emergência da crise, são o epicentro de uma crise não já financeira, mas politica. Os sinais são bastante explícitos mesmo para um leigo em ciência politica. A criação da moeda única sem orçamento único (fosse qual fosse o calendário da sua implementação e o modelo de gestão), e o arrastamento consequente do debate acerca de soluções politicas, de feição federalista, tornaram as regiões de fronteira da UE, cada uma com suas especificidades, bombas ao retardador - Ucrânia, Grécia, Portugal, Espanha, Itália... Não se vislumbram sinais de convergência no sentido de conciliar as democracias representativas, e seu fortalecimento, e os interesses estratégicos das grandes potências. Não é possível, todo o tempo, subalternizar o resultado politico de eleições democráticas sem por em causa o próprio modelo democrático. Se os povos concluírem que de nada vale, através do voto, escolher os governos, e respectivas politicas, não é de admirar que seja o próprio sistema democrático a entrar em colapso. Está a aproximar-se um tempo de grandes escolhas que se podem sintetizar em poucas palavras: guerra ou paz? democracia ou tirania? O que até há pouco tempo parecia um cenário de equações improváveis e longínquas torna-se cada vez mais presente até nos discursos dos mais altos responsáveis pelos estados.

sábado, junho 13

Dia 13 de junho. 2015

Noite de Santo António, 2015. Por vezes penso naqueles que foram ficando pelo caminho. Naqueles que sofrem as dores de doenças difíceis de suportar. Dos caminhos que cada um de nós foi trilhando, de suas venturas e desventuras. Um mundo complexo de decisões, vivências e acontecimentos que a geração do "baby boomers" marcou de uma forma muito particular. Resta um pavio de energia por consumir que, por junto, representa muita experiência, saber e força disponível em prol da defesa dos valores da liberdade e da democracia. Uma geração mais jovem será capaz de erguer uma nova esperança. Sei que essa geração está a despontar, dispensa paternalismos bacocos, espera somente que a deixem fazer o seu caminho. Mais do que tudo o que lhe podemos deixar de herança, são exemplos. Uma persistente defesa dos valores da dignidade humana, da valorização do trabalho honesto, da demonstração prática de que é possível ascender socialmente pelo mérito, da solidariedade cívica nas dificuldades do momento, da coragem de abraçar o futuro sem renegar o passado.

domingo, junho 7

Maio de 2015, dia 7

Eu sei que as expectativas são baixas para a maioria das gentes e muitas as suas aflições; sei que se temem as politicas sejam elas quais forem, qualquer um que mantenha o discernimento, cidadão desperto para a vida que o rodeia, percepciona o desencanto, salpicado pela crença ingénua dos que sempre acreditam no futuro, ou que beneficiam das benesses do presente. Eu sei que o mundo não vai acabar amanhã, que a politica ocupará o seu lugar, e se regenerará pela participação de uma nova geração que ainda dela não participa, que a descrença pode durar muito tempo mas não se eternizará. O que terão pensado, e sentido, os portugueses em 1580? Como se acomodaram à perda de independência nacional, que aconteceu ao patriotismo, como se transformou e se readquiriu, sessenta anos passados. Portugal quer queiram, ou não, os eurocratas, (não os europeístas), tem língua (que evoluiu) e fronteira física (que se manteve na Europa) faz muitos séculos. Arvorou o estandarte nacional em muitas praças, por esse mundo fora, e manteve capital em cinco cidades (Guimarães, Coimbra, Lisboa, Rio de Janeiro e Angra do Heroísmo), tendo em todas as épocas, a mais das vezes conturbadas, sobrevivido a variadas e fortes desditas. Ninguém desvalorize a crise contemporânea de Portugal no seio da Europa, nem facilite na hora de traçar os caminhos do futuro. Mas, uma vez mais, se formos capazes de exercer essa extraordinária capacidade de inventar o futuro, persistiremos na feitura de uma história própria na partilha com o diverso.