domingo, maio 1

À MINHA MÃE TOLENTINA

Reconheço o amor nos olhos que me olham com desmedida atenção enquanto durmo. Os olhos de minha mãe adoravam ter esperança no futuro no qual jogava a sua crença de ir mais longe. A primeira mulher da minha vida. A mais ousada na sua imprevisível arte de romper barreiras e chegar mais além. A fonte da força que me mantém de pé contra todas as adversidades. Uma mulher de um só homem que não era homem de uma só mulher. A fidelidade nascida da tradição que não da fraqueza ou da futilidade. A irreverência herdada da rudeza do campo, das agruras da natureza à força de puxar a besta e de encaminhar a água à raiz certa não fosse perder-se uma gota. A escola da escassez sonhando a fartura que havia de vir fruto do trabalho honrado. Não perder tempo chorando o tempo perdido. Fazer do tempo um passeio para espairecer e voltar ao arado da vida com sonhos lá dentro. A mulher que se fez a si própria descobrindo os outros e o que se pode e se não pode fazer com eles. Aceitar mudar e escolher o caminho da mudança. Tactear o caminho levando ao colo os seus amores. A primeira mulher que acreditou no caminho hesitante que me havia de fazer homem. Sem saber para onde ia ao certo. Nem ninguém sabia, ninguém nunca sabe, mas não duvidou que havia de chegar a um lugar onde brilharia o sol e sou capaz de a lembrar como a minha primeira mulher. Aquela que mais me amou, sempre me amou além do que a vida pode conter de riqueza material. Um dia ao fim de uma longa caminhada sem sequer saber dos meus males escolheu morrer nos meus braços. A mais sublime homenagem que alguém pode prestar a alguém. De súbito suavemente, na alegria da celebração da juventude, deixou para sempre a esfusiante tradição de me abraçar como se fosse a criança que para ela nunca deixara de ser. [21/1/2008]

HOJE É DIA DE MAIO

Hoje é dia de Maio, dizia-se no campo de meus avós, tão longe no tempo, tão perto na memória. Hoje passam 48 anos sobre a data em que se desfizeram muitas dúvidas acerca da natureza da revolução de Abril. Por toda a parte ressoaram os passos de milhões de manifestantes. Num repente um povo submisso parecia ter-se transformado num povo rebelde. Mas as revoluções só sobrevivem naqueles breves momentos de fusão em que tudo parece ser possível. Torga, apesar do seu cepticismo, vigilantemente crítico, escrevia, pouco tempo depois, no seu Diário: “Aveiro, 9 de Junho de 1974 – A caminho da Costa Nova, com a sensação de que os barcos navegam no meio dos milheirais.” E, ainda antes, a propósito das suas incursões pela política: “Coimbra, 1 de Junho de 1974 – Discurso num comício socialista. Ainda hei-de escrever meia dúzia de linhas a propósito da situação trágico-cómica de um poeta em bicos de pés num estrado cívico, a esforçar-se por estar à altura da sua reputação e ao mesmo tempo a saber que ninguém o ouve.” Jorge de Sena, na América, escreveu em 2 de Maio de 1974 o poema “Com que então libertos, hein?...”: “Falemos de política, / discutamos de política, escrevamos de política, /vivamos quotidianamente o regressar da política à posse de cada um /essa coisa de cada um que era tratada como propriedade do paizinho. /Tenhamos sempre presente que, em política, os paizinhos/ tendem sempre a durar quase cinquenta anos pelos menos. /E aprendamos que, em política, a arte maior é a de exigir a lua/ não para tê-la ou ficar numa fúria por não tê-la, / mas como ponto de partida para ganhar-se, do compromisso, /uma boa lâmpada de sala, que ilumine a todos. (…) As quatro fotografias, a preto e branco, sobreviveram 48 anos tal como algunsde nós que nelas se podem rever. Nesta última, entre muitos dos activistas do MES que, publicamente, se anunciava, vejam se conseguem reconhecer o Eduardo Ferro Rodrigues! QUE VIVA O 1º DE MAIO!

sábado, abril 30

O CARTEL

O capital financeiro, a Banca manda em tudo, é juiz supremo da vida das nações. Em Portugal com a particularidade de termos chegado ao fim da linha, com desenho surrealista, de um capitalismo sem capital, capitalistas sem banca própria, reduzidos à pública CGD que, imagine-se!, vai partilhar sede com governo, tudo o resto (que é quase tudo) tomado pelo capital estrangeiro (salvo Montepio e Caixa de Crédito Agrícola, pequenos bancos da economia social, originários da 1ª república, sempre na mira da voracidadde alheia.) "Não há sentença judicial final ...!
"Não há sentença judicial final do cartel da banca, porque o processo vai ter de ir para esclarecimentos para o Tribunal de Justiça da União Europeia. O caso será suspenso até vir a resposta desta instituição europeia ao Tribunal de Concorrência, Regulação e Supervisão, em Santarém."

quinta-feira, abril 28

ANIVERSÁRIO

Aniversário, num tempo repleto de novos desafios, ameaças à paz entre os povos e as nações, sinais de guerra que me convocam para espreitar oportunidades e vontade agir pela mudança do modelo de sociedade onde impera a crescente desigualdade social. Sempre mantendo viva a memória dos outros sem os quais não somos ninguém. Aos meus, avós, pais, irmão, companheira, filho, família alargada de todos os ramos que em mim desaguou e sempre me enriqueceu. A todas, e todos, as amigas, e amigos, que me deram o privilégio de comigo conviverem e me oferecerem com sentido de dádiva parte de suas vidas. Quantas alegrias e sofrimentos partilhamos, olhares em flecha postos no futuro radioso que sonhámos, e tantas vezes vimos florescer ou desiludir. Sempre com o olhar posto na vida vivida com esperança no futuro e os revezes encarados como oportunidades de novas conquistas. Como soe dizer-se, otimista na vontade, pessimista na razão. Aniversário que escrevo como se fora a primeira palavra de um dicionário aberto a todas as inscrições que celebrem a vida.

segunda-feira, abril 25

25 ABRIL - QUE VIVA!

Neste 25 de abril escrevo aqui bem perto da casa onde nasci, dia claro e temperado, como naquele longinquo dia em que as circunstâncias fizeram com que tivesse participado na ação militar que derrubou a ditadura. Um golpe militar que desaguou numa revolução popular, singular, como havia sido singular a ditadura que caiu com estrondo em poucas horas. Não vem ao caso dissertar acerca destas singularidades, mas apetece-me reafirmar que fizemos, todas e todas os que dicidiram por vontade própria participar ativamente no derrube da ditadura, o que tinha que ser feito, honrando a memória dos que desde 1926 tentaram por todos os meios, com sacrificio da sua liberdade e, quantas vezes, da vida, restaurar a democracia perdida com o 28 de maio de 1926 que derrubou a 1ª República. No dia seguinte ao da vitória eleitoral de Macron em França, o 25 de abril celebrado como dia da libertação em Portugal e em Itália, podemos saudar a França, as francesas e franceses, que com o seu voto permitiram manter aberta aquela pequena frincha pela qual se ilumina a vida dos povos que aspiram a viver am liberdade. Que Viva o 25 de Abril!
(Na porta de armas do quartel do Campo Grande em Lisboa, com o João Mário Mascarenhas, num dos dias entre 25 e 30 abril de 1974)

25 ABRIL - O GOSTO DA LIBERDADE

No dia 25 de Abril de 1974 em que a história, o imaginário e o simbólico se fundiram, num magna único, as raízes falaram mais alto. Uma das recordações mais fortes do 25 de Abril, que persistem em mim, foi a preocupações em telefonar, naquela manhã, do quartel onde ficara enclausurado, para casa de meus pais. Talvez seja incompreensível a persistência desta memória mas ela explica-se pelo facto de ter vivido, a maior parte da minha vida, longe da família, rodeado pela memória das paredes brancas, da luz do sul, dos cheiros da terra com vista para o mar. Das vozes e dos olhares que me viram crescer. Das ruas que conheço de cor e sou capaz de imaginar ao pormenor. Do rosto daqueles que são o rio no qual desagua o meu imaginário. Naquele momento mágico, a madrugada do 25 de Abril de 1974, em que o sonho de gerações de portugueses se transformou em realidade veio ao cimo das minhas preocupações o que, em regra, nunca constituía preocupação: falar com a família para lhes dar a boa nova, trocar uma palavra de regozijo, ofertar um cravo imaginado, abraçar o futuro, verter uma lágrima, agradecer a liberdade que me tinham oferecido mesmo antes dos cravos brilharem nos canos das espingardas. Reparei então como não somos nada sem as raízes que nos prendem ao chão das nossas origens. O 25 de Abril foi uma vertigem de libertação que ainda mais despertou em mim o gosto da participação cívica. Ganhei esse gosto pela iniciativa do meu irmão Dimas à época em que todos os pais hesitam acerca do destino dos seus filhos. Os gostos não são inatos. Não nascem connosco. São uma construção na relação com o mundo que nos rodeia. Sendo um filho tardio recebi dos meus pais a liberdade de escolher a minha vida e do meu irmão a discreta cumplicidade para que me afirmasse, no que quer que fosse, com respeito pelos princípios da liberdade e da democracia. O 25 de Abril foi a confluência de uma miríade de vontades libertadoras, um momento singular, que honraremos cultivando o gosto da liberdade. (Publicado em 23 abril de 2006)

domingo, abril 24

25 ABRIL - COMENDAS

É para dizer que estou de acordo com a decisão do PR de condecorar todos os militares que participaram no 25 abril. Não faria sentido que fosse de outro modo sabendo que os havia de todas as tendências politicas e ideológicas. Muitos deles, como não poderia deixar de ser, vinham do tempo da ditadura, tinham-na apoiado, tendo pelas mais diversas razões, e não pouco relevante por razões corporativas, apoiado o movimento que derrubou a ditadura. Mas cinquenta anos depois o que interessa catalogar em prateleiras ideológico-políticas os que participaram do movimento militar que fez implodir a ditadura? Ficarão a faltar os milicianos, oficiais, sargentos e soldados (que eram quase todos), ou seja, a "carne para canhão" utilizada na guerra colonial. Para colmatar essa falta grosseira seria necessário condecorar coletivamente uma multidão de milicianos. Não sei como...mas serão imjustiçados.
"Decisão do Presidente da República de condecorar todos os militares de Abril, que tem sido alvo de polémica, não foi submetida a parecer. Conselheiros em silêncio." (In "Expresso")

25 ABRIL - A VÉSPERA

Por esta hora neste dia, 24 de abril de 1974 (era uma 4ª feira), estaria no quartel, já informado que havia chegado o dia. Com os companheiros de armas mais chegados – António Cavalheiro Dias e João Mário Anjos – entramos em estado de prontidão para o que desse e viesse. Outros, por diversas vias, estariam também alerta. Já não me lembro com precisão quem terá sido o mensageiro, certamente, um oficial do quadro permanente. Conversas e contactos discretos, temperatura primaveril, tensão crescente sem contra ordens. Acertámos encontrarmo-nos, quando se aproximasse a noite, em casa do Cavalheiro Dias, em Benfica. Ao final da tarde saí do quartel, devo ter passado por casa e de seguida fui a casa do Ferro Rodrigues, na Travessa do Ferreiro, avisá-lo(s). O Sporting jogava para as competições europeias, se não erro, com uma equipa da Alemanha de Leste. Tudo parecia, apesar da tentativa falhada do 16 de março, bastante inverosímil. Um golpe de estado militar? Uma revolução? Regressei a Benfica, sempre em transportes públicos, para me juntar aos companheiros de armas. A espera valeu a pena. Seguiu-se a madrugada mais longa, e inesperada, da minha vida. Muitos haviam lutado, sem sucesso, pelo advento da liberdade e, finalmente, fez-se-lhes justiça. Lembro o General Humberto Delgado.

sexta-feira, abril 22

25 ABRIL

Não me lembro do nascer do dia. Andávamos na rua à procura de entender se era mesmo verdade. Com o António Cavalheiro Dias e o José Mário Anjos percorri a cidade, de lés a lés, atrás da coluna de Salgueiro Maia, olhando cada esquina e movimento, com uma atenção fulminante, não fosse falhar tudo outra vez. Não me lembro de ter visto nascer o dia. Naquela noite não houve madrugada. Os telefones devem ter começado a tocar a partir de determinada hora: “Olha parece que houve um golpe militar!”, “dizem que há tropa na rua!”. A minha preocupação era telefonar a meus pais. No quartel pude fazê-lo já a manhã tinha despontado. Que alegria. Afinal não era um golpe dos ultras! Era um golpe militar mesmo daqueles com que sonharam Humberto Delgado e tantos que morreram sem conhecerem a cor da liberdade. 48 anos de ditadura é muito tempo! Que pena não poder ver os sonhadores da liberdade nesse dia. Observar a comoção nos seus rostos e ouvir as suas primeiras palavras. Mas não me lembro do despontar daquela madrugada. Ouço os sons, cheiro os cheiros, vejo os camaradas de armas, o povo a passar defronte do quartel, bandeiras desfraldadas ao vento, as vozes enrouquecidas e as lágrimas a cair-lhes pelas faces, mas não me lembro do despontar do dia 25 de Abril de 1974. Mas o que interessa é que estava lá. E vencemos! [Escrito em 22 de abril de 2005. Postado agora com uma fotografia do Hélder Gonçalves.]

quarta-feira, abril 20

O PCP TEM QUE SE LHE DIGA

Assinalo a posição do PCP acerca da intervenção do Presidente da Ucrânia amanhã na Assembleia da República. Não tanto pela ausência dos deputados do PCP na sessão que não é inédita mas pelo argumentário justificativo. Trata-se afinal do discurso de Putin traduzido para português sem qualquer alteração. Surpreendente apesar de tudo, pelo seguidismo, mimetismo, o simétrico oposto da verdade. Um verdadeiro caso de estudo para os que se interessam pela chamada ciência politica. No mesmo dia da declaração da incipiente porta voz do PCP a Rússia fez gala de exibir as suas ameaças testando um missíl balístico de longo alcançe que pode ser portador de várias ogivas nucleares. O PCP de regresso à clandestinidade perante a ameaça ucraniana? Ou a caminho da irrelevância politica?

terça-feira, abril 19

EDUARDO FERRO RODRIGUES

Ontem, 18 abril, pelas 21h, passou na RTP1 uma entrevista/retrato com o Eduardo Ferro Rodrigues na qual, além de uma contextualização no tempo e das circunstãncias do tempo dos acontecimentos, ele não se excusou a responder a algumas perguntas difíceis. Suspeito que o discurso de algumas respostas, francas e diretas, não deve ter agradado a algumas pessoas. Mas, a meu ver, não havia volta a dar e aportou à memória, mesmo dos sem memória, alguns acontecimentos que tendo incidência na personalidade do entrevistado, interessam sobremaneira à história politica recente do país... que esquece facilmente as benfeitorias, e malfeitorias, dos seus atores politicos e não só. Como não conheia o guião, e muito menos a peça, fui surpreendido por uma referência direta e a exibição de duas fotografias que me tocam. Bem vistas as coisas a entrevista/retrato, de autoria da Fátima Campos Ferreira, foi elaborada com sensibilidade e boa informação, e ficará como precioso testemunho da vida e envolvimento politico do Eduardo Ferro Rodrigues, nas circunstâncias do seu tempo, um raro momento de autenticidade. A nossa geração não deixa os seus pergaminhos nas mãos dos profetas da desgraça, nem dos inimigos da liberdade e da democracia. Amigos para sempre, e que viva!
Uma das fotografias exibidas com o João Mário Anjos (à esquerda), Eduardo Ferro Rodrigues (ao centro) e o subscritor (à direita).

domingo, abril 17

IR À RUA

A rua é uma instituição urbana. Os meus antepassados próximos, de origem rural, conheciam mal este conceito. O advento da sociedade urbana atribuiu um estatuto especial a “ir ao campo”. Mas, durante séculos, para os rurais o grande dia era o da feira que os levava a “ir à cidade”. A geração dos “babby-boomers”, de que faço parte, experimentou a fase final desta contradição. Lembro-me da impressão que me causou o filme de Renoir, “Passeio ao Campo”. Lembro-me dos meus passeios ao monte dos meus avós maternos que, ainda nos anos 70, não tinham energia eléctrica em casa tendo assistido, impotentes, à instalação, mesmo ao pé da porta, de dois postes que suportavam a linha que fornecia a energia a Tavira mas não os alimentava a eles. Senti o encanto da grande urbe de Lisboa ainda mal tinha resolvido a contradição “cidade/campo”. Nos primeiros dias, após a minha chegada definitiva a Lisboa, caminhei a pé pela Baixa, calcorreei as ruas dos bairros da Estrela, Campo de Ourique e da Lapa. Até que os pés aguentassem. Só. Fiz a carreira do eléctrico 28 dos Prazeres à Graça e da Graça aos Prazeres. Lindas as palavras que identificam estes dois bairros de Lisboa. Caminhar pelas ruas da cidade de Lisboa era uma alegria. A partir de certo momento tornou-se uma aventura e um risco. Não pelo trânsito nem sequer pela delinquência que, em Lisboa, sempre foi uma brincadeira de crianças se comparada com outras urbes da Europa ou das Américas. Mas porque em certas esquinas, à noite, nas saídas tardias das tertúlias ou das actividades associativas (subversivas?), surgiam vozes cavas e anónimas que pronunciavam o nosso nome em tom ameaçador. Porque ao caminhar pela rua surgiam interpelações ameaçadoras de desconhecidos que nos acotovelavam. Porque o regresso a casa, à noite, tinha de ser cuidadosamente preparado prevendo a arremetida que nos levaria ao hospital ou à prisão. Muitas destas caminhadas fi-las acompanhado pelo Eduardo Ferro Rodrigues. Nunca nos deixamos intimidar mas estávamos longe de prever como seria possível que, nos tempos da democracia, pela qual lutamos a vida toda, ressurgirem as mesmas ameaças à liberdade revestidas de novas e mais subtis formas. Ir à rua, para mim, sempre foi um verdadeiro exercício de liberdade. Como sabemos “ir à rua” pode ser até uma manifestação espontânea, ou organizada, de protesto. Mas há quanto tempo não vamos à rua? Em tempo: ir às urnas, em democracia, também é um salutar exercício de liberdade! (Dezembro de 2004, pelo 1º aniversário deste blog)
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sexta-feira, abril 15

A EUROPA EM GUERRA

A crise politico militar na Europa aprofunda-se dia após dia. Mas o mais importante até 25 abril é o resultado das presidenciais francesas. Nelas se joga em boa parte o destino da Europa e, em particular, da UE.
"Moscovo adverte no documento que os envios de armas dos EUA e da NATO para a Ucrânia estão "a adicionar combustível" ao conflito e podem estar a desencadear "consequências imprevisíveis"" (In "Expresso").

segunda-feira, abril 11

Cavaco Silva é um “amorfocrata”

Quando Cavaco fala ou escreve algo para o público é sinal de que temos a esquerda no poder, no caso português, pasme-se, os socialistas a solo, caso raro, mesmo único, na Europa. Logo me apetece, conhecendo a criatura, escrever também algo pois a conheço de tempos idos, e de todos os tempos, mesmo de muito antes de ter emergido na politica. Assim tendo ele escrito hoje um artigo no Público reproduzo um pequeno escrito de 2021.
"Cavaco Silva enquanto vivo nunca perdoará à esquerda e aos socialistas a ousadia de ser governo (eleito). Mais ainda quando está em causa gerir recursos financeiros que se estimam abundantes. Não admira assim que uma vez mais venha a terreiro escrever contra o "perigo vermelho", quando na Europa e não só a esquerda recupera posições desde a Alemanha à Itália, dos USA ao Brasil. Haja paciência. Como escrevi faz anos Cavaco Silva é um “amorfocrata”: um democrata com ausência de forma definida. Tolera os partidos e aceita a constituição."

domingo, abril 10

REGRESSO À BARBÁRIE ?

Em 3 de setembro de 2014 publiquei aqui o post que reproduzo pensando neste momento no resultado das eleições presidenciais em França e sua coincidência com a guerra na Ucrânia:
"Regresso à barbárie. Abundam sinais alarmantes de ascensão de novas formas de totalitarismo. Não em forma de doutrina livresca ou de acções isoladas, e pontuais, levadas a cabo por tresloucados. O que está a acontecer sob os nossos olhos, desde a Ucrânia ao Iraque, um pouco por todo o mundo, com formas diversas de expressão, é o alastramento de fanatismos, novos fascismos, difíceis de caracterizar em toda a sua extensão e profundidade. Não nos deixemos ficar pelo horror das execuções mediáticas perpetradas por radicais islâmicos. Interroguemo-nos acerca da origem do apoio politico e militar, ou seja, que forças sustentam estas forças? Qual a origem dos recursos que as tornam tão letais? Ainda mais, será necessário chamar a atenção para as ideologias totalitárias que, sob as mais variadas capas ideológicas, e crenças religiosas, atraem jovens e intelectuais um pouco por todo o mundo ocidental. Notam-se esses sinais, além da indiferença que toma o lugar da condenação da barbárie, em tomadas de posição de cidadãos que connosco convivem no dia a dia e não se coíbem de acolher, expressamente, processos e medidas politicas limitativas da liberdade individual em todas as suas dimensões. Os princípios e valores nos quais assenta a nossa vida em sociedade, por mais banal que pareça a sua evocação e defesa, não podem ser menosprezados e, muito menos, espezinhados. "Liberdade, liberdade, tem cuidado que te matam ... " escreveu Jorge de Sena a propósito, noutro contexto, deste mesmo perigo. Alerta, pois, para as posturas moles, complacentes, no combate a todas as formas de totalitarismo, seja qual for a sua matriz ideológica."

sábado, abril 9

A RÚSSIA TOTALITÁRIA

A Rússia de Putin passa da doutrina estratégica dos anúncios à ação mostrando ao mundo a sua faceta e ambição imperial. O assunto é sério e coloca frente a frente duas conceções do mundo e do governo dos povos: totalitarismo ou democracia. Uma contraposição antiga e que nos tempos modernos é nossa conhecida em muitos confrontos sangrentos. Até este dia não se devisam os caminhos do cessar fogo e da concórdia em diração à paz. Por ora as palavras e as ações são de guerra e por isso mesmo, além da interpretação da torrente das notícias, não podemos nem devemos, os democratas e pacifistas lúcidos, deixar de tomar partido. O totalitarismo é o modelo, proposto através da força e da chantagem nuclear, pela Rússia e seus aliados declarados ou acobertados no clássico abstencionismo. Se a guerra alastrar e tomar novas formas preparemos as nossas defesas para as suas consequências e sejamos honrados tomando o partido e lutando pela democracia e liberdade.
"El Kremlin reorganiza su cúpula militar en Ucrania y pone al frente a un general con experiencia en Siria Rusia encarga a Alexánder Dvornikov la coordinación de los batallones desplegados en el país vecino, según la BBC" (In "El Pais"

sexta-feira, abril 8

O LEITE PEREIRA MORREU

O Leite Pereira morreu ontem. Recordo-o com a sua amizade serena (com a Julieta), que não mais vou poder retribuir, de viagens memoráveis em especial ao país basco espanhol e francês, com suas peripécias sempre no contexto de uma organização em que era perito, dos convivios fraternais, da tropa (em que o refiro neste post antigo), do MES e da minha cidade de Faro onde residia nos últimos anos (apesar de ser natural de Espinho). Deixo-lhe um adeus e estas palavras em sua memória com um abraço para a Julieta.
"Na véspera do 36º aniversário do 25 de Abril tentei lembrar-me dos passos que terei dado nesse dia distante. Era uma 4ª feira. Basta consultar o calendário. Estava no tropa e devo ter frequentado, nesse dia, o quartel do Campo Grande. O chamado, na gíria, 2º Grupo (de Companhias de Administração Militar). Ontem, ao jantar, o Leite Pereira contou-me que, estando lá colocado, viu a minha ficha de suspeito quando ela lá chegou antecedendo o meu ingresso. Uma notícia nova acerca de uma rotina da época. Fervilhavam os boatos. Sabia que um golpe estava preparado para o dia seguinte. A fonte era credível. Acreditei. Fiz por acreditar. Temi um banho de sangue. Pensei nos meus pais. No meu irmão. Na minha namorada. Mas julgo que mantive a descrição. Como já contei, outras vezes, avisei os amigos civis mais íntimos. Organizei-me com os amigos militares que se haviam tornado conjurados. Não imaginava o que viria a passar-se após a arrancada da operação, um golpe militar, tornado revolução pela adesão popular. Um daqueles raros momentos de fusão que mudam o curso da história. Curto e fulminante. Hoje impressionam-me as notícias acerca das iniciativas e intervenções do Presidente da República pela celebração deste aniversário. Bem-haja. E ainda me impressiona mais não saber se terei em quem votar nas próximas eleições presidenciais."

terça-feira, abril 5

OS MAIS VELHOS

Os mais velhos face ao trabalho. É um tema antigo mas pouco abordado e escassamente tratado a todos os níveis. Trata-se não só de olhar para o lado do chamado "envelhecimento ativo", como para o lado da economia em toda a sua extensão, desde a criação de riqueza à sustentabilidade da segurança social pública.
"O país tem de discutir o trabalho das pessoas mais velhas. Tem de discutir o nosso contributo enquanto indivíduos mais velhos para a sociedade, também como trabalhadores, não apenas como avós, cuidadores, voluntários. Isso é muito pouco. O país tem de discutir o nosso potencial contributo como profissionais. Está a olhar para a imigração como uma solução para os actuais problemas de mão-de-obra ao mesmo tempo que descarta as pessoas que têm 55 anos e uma perspectiva de longevidade. O Presidente da República tem 73 anos. O Alexandre Quintanilha, que tem 76 anos, vai ser novamente deputado. Dirão que são excepções. Porquê? Não têm de ser vistos como excepções." "António Fonseca, in entrevista ao Público"

domingo, abril 3

Na peugada da coluna de Salgueiro Maia - no dia do 30º aniversário da sua morte

Nessa espera sem fim, na madrugada de 24 de Abril de 1974, a certa altura alguém me acordou com incontida emoção. Tinha passado a canção. Era mesmo a sério. A noite ia alta. Saímos os três. Eu e o João Mário Anjos metemo-nos no carro do António Dias que, conduzido por ele, caminhou para a 2ª Circular a caminho do Campo Grande. O António Mil-homens saiu para a baixa da cidade. O nosso objectivo era tomar posição dentro do 2º GCAM (2º Grupo de Companhias de Administração Militar) o mais cedo possível. Mas, ao contrário do que aconselhava a prudência, não o fizemos logo. Antes fomos dar uma volta de carro pelas redondezas a ver o que se estaria a passar na EPAM. Passamos defronte da EPAM (Escola Prática de Administração Militar) e conseguimos ver o Teixeirinha junto ao muro, equipado de arreios, preparado para integrar o grupo que ocuparia a RTP. Não observámos nenhum outro sinal da acção iminente. Regressámos à 2ª Circular para reforçar a observação do movimento começando a desconfiar que ia ser um novo 16 de Março. Um fracasso. Encetamos, de novo, o caminho do quartel do Campo Grande. Ao entrar no Campo Grande surgiu, inesperadamente, diante de nós, uma coluna militar. Retenho muito viva na memória a imagem do carro do combate que encabeçava a coluna irrompendo diante de nós. Tinha surgido da escuridão uma coluna militar que tomaria a direcção do centro da cidade. Vislumbramos um carro «nívea» da polícia na penumbra que não esboçou qualquer movimento. O Campo Grande não era como hoje. Havia um desnível e o carro de combate que vinha na nossa direcção deu um salto rápido para tomar contacto de novo com o chão. Foi uma espécie de salto mágico que desde esse momento, com frequência, me assalta a memória. A emoção que senti é indescritível. Era um sonho que se tornara realidade. Fomos, certamente, os únicos que assistimos, ao vivo, a esse momento. . Soubemos, mais tarde, que aquela era a coluna, oriunda de Santarém, comandada pelo Capitão Salgueiro Maia. Naquele momento colocava-se a opção de cumprir o nosso objectivo e entrar no quartel ou seguir atrás daquela surpresa entusiasmante. Perante o dilema de entrar, de imediato, no Quartel do Campo Grande, ou seguir atrás da coluna militar, tomamos a opção de nos incorporarmos na coluna. Mas antes deixámos o João Mário Anjos no quartel. Eu com o António Dias ao volante do Datsun 1200, matrícula HA-79-46, segui atrás da coluna de Salgueiro Maia. A caminho da Avenida da República pensei com os meus botões na fraqueza aparente da força militar que havia de ser decisiva no destino do 25 de Abril. Um soldado que era visível num dos carros apresentava um aspecto de uma fragilidade impressionante. Era uma coluna militar pouco convincente, pelo aspecto exterior, ostentando sinais de fraca capacidade militar. Na Avenida da Liberdade lembro-me de ter visto um polícia tomar a iniciativa de mandar parar um ou outro carro para não perturbar o avanço da coluna. A madrugada ia alta e saíam clientes do «Cantinho do Artista» no Parque Mayer. Éramos, certamente, os únicos perseguidores da coluna cuja missão concreta desconhecíamos.
Tomada a decisão de ver com os próprios olhos o desenvolvimento da acção militar, fomos sempre atrás da coluna atravessando a baixa no sentido do Terreiro do Paço. Chegada à Rua do Arsenal a coluna parou. Os tanques posicionaram-se no terreno. Havia um vaso de guerra no Tejo e a discussão era se estava a favor ou contra o movimento revoltoso. Decidimos que chegara a hora de abandonar o local pois não era aquela a nossa guerra. Não podíamos ficar mais tempo sacrificando a nossa própria missão. Ultrapassámos a coluna facilmente e seguimos em frente. Sempre fiquei com a convicção que a vitória da Revolução foi decidida na Rua do Arsenal antes dos acontecimentos do Largo do Carmo. O povo ainda não tinha descido à rua. Estávamos na fase das puras operações militares, propriamente ditas, sem as quais não seria possível desencadear o verdadeiro processo político que precipitaria a queda do regime. Afinal as forças armadas estavam a prestar um serviço público que poderia redundar num pesadelo para os seus protagonistas.

sábado, abril 2

SALGUEIRO MAIA - pelo 30º aniversário da sua morte

Pelo 30º aniversário da morte de Salgueiro Maia - 3 de abril. O tempo faz esquecer. O tempo é malicioso. O tempo mata a memória. Salgueiro Maia não era um oficial crente nos amanhãs que cantam, dizem até que era conservador mas, perdoem-me o plebeísmo, “tinha-os no sítio”, estão a compreender! Para dar lume a uma revolução mais vale um conservador com “eles no sítio” do que um revolucionário desertor da coragem no momento da verdade. Mas, na verdade, todos os testemunhos confirmam que não era um conservador. Quem fez triunfar a revolução não foi Ramalho Eanes, nem Spínola, nem Costa Gomes, não foi nenhum General estrelado pelo Antigo Regime, ou promovido administrativamente pelo novo, quem decidiu o triunfo da revolução foram os “capitães” e o povo, que alargaram à rua o posto de comando e que tomando a rua para si tudo decidiram.
E entre todos os heróis anónimos, foi a coragem serena de Salgueiro Maia naquele momento breve, na Rua do Arsenal, enfrentando o atirador do tanque da coluna de Junqueira dos Reis, fazendo-o desobedecer às ordens, que decidiu a sorte da revolução. É prudente que, para preservar a liberdade, a democracia - seguindo o exemplo de Salgueiro Maia - não vacile no combate aos seus inimigos.