segunda-feira, agosto 26

Praia do Barril (Tavira)

Por momentos, quando se percorre a velha estrada que serpenteia por alfarrobeiras e oliveiras (algumas delas milenares) e que nos leva até Pedras del Rei, parece que somos devolvidos à ideia de Algarve como segredo mais bem guardado do nosso litoral. O contraste com o Algarve dos nossos dias é muito marcado. O aldeamento de Pedras del Rei – um dos primeiros da região – preserva um arejamento visual, com casas devidamente espaçadas, formando uma combinação agradável entre domínio público e privado. Por este Algarve, as construções mantêm uma integração perfeita na paisagem, e isso não ocorre à custa da vivência familiar, nem através da promoção de condomínios exclusivos. Não podemos deixar de imaginar o que teria sido o desenvolvimento sustentado e regrado do turismo se este exemplo tivesse sido replicado.

Para se alcançar a Praia do Barril é preciso tomar o pitoresco comboio que segue por cima do sapal durante um quilómetro, através de uma via única – que antes servia a armação de pesca do atum e tem agora como fim único transportar banhistas. No verão, o comboio é uma atração turística, mas está, sobretudo, ao serviço das famílias regulares, que ano após ano se voltam a encontrar nas pequenas carruagens do trem, para logo se dispersarem ao longo do extenso areal. O comboio é uma autêntica festa colorida, assente na combinação das vestes garridas dos veraneantes com o vermelho da automotora e o verde da ria. Esta mistura ganha um tom próprio quando a ela se juntam o cheiro incomparável do óleo diesel queimado e o som do motor do engenho.
Depois chega-se a uma praia que aparenta ser infinita: a poente o areal perde-se até à praia do Homem Nu; a nascente, até à Terra Estreita; e por fim até à Ilha de Tavira. As famílias habituais têm lugar cativo nos toldos junto do “jardim das âncoras”, uma perfeita “instalação artística” do que ficou da armação de pesca do atum que encerrou em meados dos anos sessenta, constituindo agora um cenário verdadeiramente curioso e emblemático desta praia. A longa extensão dos areais convida a grandes passeios na maré vazia até que as pegadas humanas se percam e abram espaço ao rasto das numerosas aves aquáticas que habitam o Parque Natural da Ria Formosa. (…)

In Tanto Mar, de Pedro Adão e Silva e João Catarino

[Último texto do último capítulo que se intitula: “Dez praias onde não pode deixar de mergulhar antes de morrer”. Não me dou ao trabalho de o transcrever, quase na íntegra, só por ser frequentador habitual do espaço descrito, mas também por ter sido esta a praia que primeiro frequentei ainda na barriga de minha mãe. Esta - assim como outras praias de Tavira a Vila Real de Santo António - era, uma vez por ano, onde a gente do campo visitava o mar na celebração do fim das colheitas. O languido mar azul dava aos pés descalços dos camponeses, por um dia, o sabor a sal, a outra face da frescura dos frutos – secos e verdes – que a terra quente gerava ano após ano.]

1 comentário:

Joel Carvalho disse...
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