quinta-feira, março 5

O meu último post António Lobo Antunes (reproduzo, que viva!)

Pelo menos duas vezes vi o António Lobo Antunes num pequeno café/restaurante de telheiras a almoçar há pouco tempo. Enquanto comia ditava sem parar e a acompanhante escrevia, por vezes interrogava e, aparentemente distraído, prosseguia como se o fio da sequência se pudesse quebrar. Li o artigo que hoje ele publicou na “Visão”. É pungente anunciar o que é mais difícil de anunciar: “Suceda o que suceder, uma coisa tenho por certa: isto alterou, de cabo a rabo, a minha vida. Ignoro em que sentido, ignoro como. Sei que alterou. Santa Maria. O que farei daqui para a frente, se existir daqui para a frente?” (…) “Estão sempre a dar-me prémios e claro que tenho prazer nisso, não sou mentiroso nem hipócrita. Toda a gente foi muito simpática. e sem que eles sonhassem (sonhava eu) o cancro ratando ratando, injusto, teimoso, cego. Mói e mata. Mata. Mata. Mata. Mata. Levou-me tantas das pessoas que mais queria. E eu, já agora, quero-me? Sim. Não. Sim. Não – sim. Por enquanto meço o meu espanto, à medida que nas árvores da cerca uns pardais fazem ninho. A primavera mal começou e eles truca, ninho. Obrigado, Senhor, por haver futuro para alguém.” Da última vez que o vi, talvez em Fevereiro, achei-o quebrado, mas quantos de nós, tanta vez, não surgimos, aos olhos dos outros, como virtualmente mortos. A vida reserva-nos surpresas tristes mas a sombra não é mais do que um recorte da luz e a esperança o sol que nunca abandona as nossas vidas. Até os comentários à auto notícia da doença de António Lobo Antunes são, ao contrário do costume, decentes e encorajadores. Por mim associo-me às vozes da esperança.

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