segunda-feira, julho 25

AMIGA, no te mueras.


AMIGA, no te mueras.
Óyeme estas palabras que me salen ardiendo,
y que nadie diría si yo no las dijera.

Amiga, no te mueras.

Yo soy el que te espera en la estrellada noche.
El que bajo el sangriento sol poniente te espera.

Miro caer los frutos en la tierra sombría.
Miro bailar las gotas del rocío en las hierbas.

En la noche al espeso perfume de las rosas,
cuando danza la ronda de las sombras inmensas.

Bajo el cielo del Sur, el que te espera cuando
el aire de la tarde como una boca besa.

Amiga, no te mueras.

Yo soy el que cortó las guirnaldas rebeldes
para el lecho selvático fragante a sol y a selva.
El que trajo en los brazos jacintos amarillos.
Y rosas desgarradas. Y amapolas sangrientas.

El que cruzó los brazos por esperarte, ahora.
El que quebró sus arcos. El que dobló sus flechas.

Yo soy el que en los labios guarda sabor de uvas.
Racimos refregados. Mordeduras bermejas.

El que te llama desde las llanuras brotadas.
Yo soy el que en la hora del amor te desea.

El aire de la tarde cimbra las ramas altas.
Ebrio, mi corazón. bajo Dios, tambalea.

El río desatado rompe a llorar y a veces
se adelgaza su voz y se hace pura y trémula.

Retumba, atardecida, la queja azul del agua.
Amiga, no te mueras!

Yo soy el que te espera en la estrella da noche,
sobre las playas áureas, sobre las rubias eras.

El que cortó jacintos para tu lecho, y rosas.
Tendido entre las hierbas yo soy el que te espera!

Pablo Neruda

domingo, julho 24

Presidenciais - Soares/Alegre/Cavaco

Notas breves acerca de um dia muito agitado no que respeita a candidaturas presidenciais
1- Ainda não há candidatos firmes mas tão somente movimentos, em força, para o posicionamento de candidatos;
2- O campo da esquerda que, para esta questão, é o campo socialista, está aparentemente dividido; está para ver se Alegre desiste de se apresentar e, no caso de desistir, quando e como desiste;
3- Parece ser evidente, face às posições públicas de Sócrates, Coelho e Ferro Rodrigues e do próprio Soares, que a sua intenção é de avançar como candidato presidencial e esta é uma verdadeira novidade;
4- As primeiras reacções da direita à provável candidatura de Soares demonstram muito nervosismo, receios evidentes da fragilidade de Cavaco num confronto político directo com Soares;
5- Marcelo Rebelo de Sousa, na RTP, agitado como poucas vezes se tem visto, assumiu uma posição de desvalorização de Soares evocando os seus 80 anos e a sua natureza de político puro. Marcelo quiz fazer passar a mensagem de um Soares candidato fora do nosso tempo (antiquado) contra Cavaco candidato do nosso tempo (moderno); Soares só teria passado, Cavaco só teria futuro; todos os argumentos foram demasiado redutores do real peso pessoal, político e cultural de Soares numa contenda eleitoral contra Cavaco; como Marcelo conhece os personagens de quem fala e sabe que eles também se conhecem reciprocamente o seu discurso tem o efeito de ricochete destinado a assustar Cavaco;
6- Pacheco Pereira no Abrupto trilha outro caminho: tenta colocar Soares no lugar da instabilidade em matéria política e no lugar da extrema esquerda em matérias de política externa e de desenvolvimento sócio-económico, contra Cavaco, factor de estabilidade politica e de apoio ao desenvolvimento; para Pacheco, com a vitória de Soares o governo socialista ganha um inimigo e com a derrota de Cavaco perde um amigo seguro; diria que se é verdade que os amigos em política podem ser os piores adversários, os inimigos são sempre péssimos aliados.
7- Resta saber o que decidirão os putativos candidatos, os partidos que são supostos apoiá-los e, por fim, o povo quando chegar a hora do voto.

ÚLTIMO SONETO

Que rosas fugitivas foste ali!
Requeriam-te os tapetes – e vieste ...
- Se me dói hoje o bem que me fizeste,
É justo, porque muito te devi.

Em que seda de afagos me envolvi
Quando entraste, nas tardes que apareceste!
Com fui de percal quando me deste
Tua boca a beijar, que remordi ...

Pensei que fosse o meu o teu cansaço –
Que seria entre nós um longo abraço.
O tédio que, tão esbelta, te curvava...

E fugiste ... Que importa? Se deixaste
A lembrança violeta que animaste,
Onde a minha saudade a Cor se trava? ...

Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)

Afinal, Mário Soares?

Gostaria de poder afirmar, sem ridículo, que a minha imaginação não tem limites. Mas precisaria cuidar de não a aplicar em nada de concreto. Afinal parece que a candidatura de Manuel Alegre era uma miragem. Aquela solução que, em tempos, tinha imaginado e defendido – como uma saudável provocação - a de Mário Soares ser candidato presidencial está prestes a tornar-se uma realidade. A imaginação, na política portuguesa, parece não conhecer os seus próprios limites. A acompanhar os próximos episódios.

"É preciso viver e criar."

“Setembro (1937)

(...) É preciso viver e criar. Viver e chorar – como diante desta casa de telhas arredondadas e portadas azuis sobre uma enorme encosta coberta de ciprestes.”
...
Montherland: Eu sou aquele a quem acontece qualquer coisa.”
...
“Em Marselha, felicidade e tristeza – Completamente no fundo de mim próprio. Cidade viva que eu amo. Mas, ao mesmo tempo, este gosto amargo da solidão.”

Albert Camus

“Caderno” n.º 1 (Maio d 1935/Setembro de 1937) – Tradução de Gina de Freitas. Edição “Livros do Brasil” (A partir da “Carnets”, 1962, Éditions Gallimard).

sábado, julho 23

Manuel Alegre - Candidato Presidencial

A candidatura de Manuel Alegre à Presidência da República é mais do que certa. Para que possa ser um clarão de esperança para os portugueses terá de ser capaz de olhar para o lado de lá. Compreender que a vida é muito difícil para muita gente. E que a vida é tanto mais difícil quanto menos se ouvem os protestos. Todos o sabem: os verdadeiros sofredores das nossas sociedades não têm voz. Sofrem em silêncio. A candidatura presidencial de Manuel Alegre tem de ser, em primeira linha, a voz da maioria dos sem voz.

"A descida para o Mediterrâneo."

“Agosto de 37
...
E ele entrou na água e nela lavou as imagens negras e contorcidas que o mundo lhe deixara na pele. De súbito renascia para ele o aroma da própria pele no jogo dos seus músculos. Talvez jamais tivesse sentido com tanta intensidade o seu acordo com o mundo, a sua marcha tão de acordo com a do sol. Àquela hora a que a noite transbordava de estrelas, os seus gestos desenhavam-se sobre o grande rosto mudo do céu. Se mexe um braço, desenha o espaço que separa aquele astro brilhante daquele que parece desaparecer por momentos, arrasta no seu impulso feixes de estrelas, filas de nuvens. Assim a água do céu agitada pelo seu braço e, à volta dele, a cidade como um manto de conchas resplandecentes.”

Albert Camus

“Caderno” n.º 1 (Maio d 1935/Setembro de 1937) – Tradução de Gina de Freitas. Edição “Livros do Brasil” (A partir da “Carnets”, 1962, Éditions Gallimard).

sexta-feira, julho 22

À volta da noite

Uma noite destas estava um calor abrasador. Fui arejar, dar uma volta ao quarteirão. Na rua um grupo de personagens, com ar respeitável, discutia. A mulher aos gritos: “mas quem é ele para querer ser tratado com mais cuidado?”. Mostrava-se irritada com qualquer constrangimento ao exercício do seu poder! O poder transtorna a maioria das pessoas.

Mário Cesariny de Vasconcelos


Fotografia (e retribuição) Pentimento

OUTRA COISA

Apresentar-te aos deuses e deixar-te
entre sombra de pedra e golpe de asa.
Exaltar-te perder-te desconfiar-te
seguir-te de helicóptero até casa

dizer-te que te amo amo amo
que por ti passo raias e fronteiras
que não me chamo Mário que me chamo
uma coisa que tens nas algibeiras

lançar a bomba onde vens no retrato
de dez anos de anjinho nacional
e nove de colégio terceiro acto

pôr-te na posição sexual
tirar-te todo o bem e todo o mal
esquecer-me de ti como do gato

(Inédito, Londres, 1965)

Mário Cesariny de Vasconcelos

In “Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica”
Selecção, prefácio e notas de Natália Correia,

"Antígona-Frenesi”

quinta-feira, julho 21

lembrar/esquecer


In sabor a sal

Aquilo que mais se quer esquecer
é aquilo que mais se lembra.
Porque querer esquecer é lembrar.
O que se não lembra é apenas
o que se esquece mas não se quer esquecer.

Vergilio Ferreira

Justificação


Fotografia de Camus jovem

Lutero: “É mil vezes mais importante acreditar firmemente na absolvição do que ser digno dela. Essa fé torna-nos dignos e constitui a verdadeira satisfação.”

(Sermão proferido em Leipzig, em 1519, sobre a Justificação).

Albert Camus

“Caderno” n.º 1 (Maio de 1935/Setembro de 1937) – Tradução de Gina de Freitas. Edição “Livros do Brasil” (A partir da “Carnets”, 1962, Éditions Gallimard).

Cruzeiro Seixas

Ao ler uma entrevista de Cruzeiro Seixas à pergunta : “A quem desejaria dar um grande abraço?”, respondeu: ”A muitos que morreram e me fazem tanta falta como o António Maria Lisboa, o Mário-Henrique Leiria, o Jose Pierre e os meus pais.”

Curiosa coincidência a nomeação de dois poetas aos quais , recentemente, fiz referência. Mas nunca tinha referido o próprio Cruzeiro Seixas.

Até quando
sementes
estaremos entregues
a este passar sobre a terra
exausta de nos esperar?

Até quando havemos de sonhar
ser flor e fruto
e não a dor infinita da morte
do teu olhar?

(Áfricas 957)

Cruzeiro Seixas, Poema Inédito (e entrevista) In “Poetas Visitados”, de Maria Augusta Silva – Edições Caixotim

A Demissão do Ministro das Finanças

O nosso atraso é ancestral. A educação é um seu revelador implacável. Mas, cuidado, que não são razões administrativas que o explicam. A administração é um reflexo de uma maneira de estar em sociedade, de uma mentalidade em que a condicionante central sempre foi, e ainda é, a miséria. Miséria moral e material. Ademais os ministros das finanças, em democracia, num país da UE, não podem reproduzir – nem sequer actualizado – o discurso de Salazar na sua tomada de posse, como ministro das finanças, em 27 de Abril de 1928. O problema é sempre o mesmo: falta a fazenda, onde sobra a cobiça. Sobra a intriga, onde falta a competência. Por isso, os ministros das finanças, sendo honestos, com eleições à vista, demitem-se.

quarta-feira, julho 20

O Interesse Público

Há dirigentes políticos que gostam de estragar a vida dos outros cuidando muito bem da sua. Os que gostam de cuidar da vida dos outros, sem cuidar da sua, são um perigo para o interesse público. Restam os tribunais para que se faça justiça.

Como um lábio húmido.

“13 de Fevereiro de 36

Eu peço às pessoas mais o que elas me podem dar. Vaidade de pretender o contrário. Mas que horror e que desesperança. E eu próprio talvez ..."
...

"Procurar os contactos. Todos os contactos Se pretendo escrever a respeito dos homens, como afastar-me da paisagem? E se o céu ou a luz me atrai, esquecerei eu os olhos ou a voz daqueles que amo? Dão-me, de cada vez, os elementos de uma amizade, os fragmentos de uma emoção, nunca a emoção, nunca a amizade.”

(...)

“Março

Dia atravessado por nuvens e pelo sol. Um frio salpicado de amarelo. Eu devia fazer um caderno do tempo de cada dia. Aquele belo sol transparente de ontem. A baía trémula de luz – como um lábio húmido. E trabalhei todo o dia.”

Albert Camus
“Caderno” n.º 1 (Maio de 1935/Setembro de 1937) – Tradução de Gina de Freitas. Edição “Livros do Brasil” (A partir da “Carnets”, 1962, Éditions Gallimard).

Arrastão?

São cada vez mais as notícias “muito importantes” que não me interessam nada. Na hora da notícia do “arrastão” de Carcavelos confirmei a bondade do meu desinteresse. Ninguém vai investigar nada acerca da origem da falsa notícia?

terça-feira, julho 19

CAMUS (Novos Sublinhados)

Camus produziu uma obra muito centrada nos temas da justiça e da liberdade. O homem torturado entre a revolta e a resignação ao seu destino: viver, simplesmente, a vida que se lhe oferece viver. O homem fraterno confrontado com o absurdo do mundo que o rodeia. Surgem nas suas reflexões inúmeras referências à verdade, à religião, à revolta e ao terror. As suas reflexões acerca destes, e outros temas, filosóficos com incidência literária, estão muito bem plasmadas num “diário” a que chamou “Cadernos”. É um blog autentico “avant la lettre”. Vou aproveitar as férias para fazer algo que me dá um especial prazer: reler e fazer novos sublinhados nestes “Cadernos”. Uma série pequena para não aborrecer. Para que se entenda o contexto, em 1935, Camus tem 22 anos e os Cadernos foram escritos entre Maio de 1935 e Março de 1951, ou seja, no período da sua juventude, ante, durante e pós- 2ª guerra mundial. Mas, na minha apreciação, o seu pensamento é muito actual. A partir de amanhã. Dedico-o à Manuela E.S., porque sim!

O ESPADA É UM CHATO

O Espada deve ser um dos gajos mais chatos da Europa Ocidental. Livre e democrática. Ainda bem que publica aquela crónica no "Expresso". De vez em quando estou de acordo com ele quando defende a superioridade da liberdade sobre a tirania. É que eu, que também fui esquerdista, li o Camus aí pelos meus 20 anos. Lembro-me dele (o Espada) dos tempos da UDP. E da sua descolagem do esquerdismo para a direita alta. Lembro-me que o Dr. Mário Soares ficou deslumbrado com as novas ideias do rapaz. Hoje o Soares é um “esquerdista” para a direita e o Espada um “direitista” para a esquerda. Este deve sentir pena, com todo o respeito, do velhote. A grande diferença está em que Soares é divertido, mesmo quando dele se discorda, e o Espada é um chato, mesmo quando com ele se concorda.

segunda-feira, julho 18

FÉRIAS


Entrada de férias. A escrita transferida para aqui será, muito provavelmente, menos extensa. Ganha a própria ideia inicial. As imagens serão escassas. O suporte tecnológico mais rudimentar. A corrente que faz mover o artefacto, no entanto, não para. Mesmo perante a escassez de justiça se alcançam pequenas vitórias. O sol, deste lado do hemisfério, ilumina as torres das igrejas e aquece os corpos. Como são tristes as sombras quando se aspira a alcançar a luz. Como somos todos diferentes mesmo quando não parecemos. É o nosso olhar sobre os outros que nos faz diferentes.

CESÁRIO VERDE


Cesário Verde - Morreu a 19 de Julho de 1886

Lúbrica

Mandaste-me dizer,
no teu bilhete ardente,
que hás-de por mim morrer,
morrer muito contente.

Lançaste no papel
as mais lascivas frases;
a carta era um painel
de cenas de rapazes!

Ó cálida mulher,
teus dedos delicados
traçaram do prazer
os quadros depravados!

Contudo, um teu olhar
é muito mais fogoso,
que a febre epistolar
do teu bilhete ansioso:

Do teu rostinho oval
os olhos tão nefandos
traduzem menos mal
os vícios execrandos.

Teus olhos sensuais
libidinosa Marta,
teus olhos dizem mais
que a tua própria carta.

As grandes comoções
tu, neles, sempre espelhas;
são lúbricas paixões
as vívidas centelhas...

Teus olhos imorais,
mulher, que me dissecas,
teus olhos dizem mais,
que muitas bibliotecas!