Deixar uma marca no nosso tempo como se tudo se tivesse passado, sem nada de permeio, a não ser os outros e o que se fez e se não fez no encontro com eles,
Editado por Eduardo Graça
sexta-feira, novembro 6
O Estado do Estado
Compreendo a ideia de "bloco central" que poderia ser concretizada sob diversos formatos, tendo subjacente a manutenção do acordo de regime que vem da Constituição de 76. Mas... tudo aponta para que PSD e PS sejam hoje partidos com programas aparentemente irreconciáveis com as atuais lideranças. Repare-se como o PSD e o governo que nele assenta tem vindo sistemáticamente a responsabilizar o PS por todos os males do país rompendo com qualquer ideia de continuidade de politicas centrais na governação. A parte social democrata do PSD perdeu influencia no próprio partido que guinou para a direita, sendo hoje dominado por ideias e interesses liberais e nalguns aspetos ultramontanos em coincidência com ideias de extrema direita. Além do mais a respeito do pessoal dirigente da administração pública, a todos os níveis, o PSD executou, num curto periodo de tempo, uma purga que deixa um lastro de ressentimento dificil de tornear, viabilizando no terreno qualquer aliança PSD/PS. Só mesmo através de mudanças profundas nos próprios partidos (todos), desde logo nas suas lideranças, o que está longe do horizonte, a não ser os movimentos sociais em fase de ensaio, como aconteceu diversas vezes ao longo da história se apresentem de forma poderosa. Ao contrário de algumas inefáveis vozes de democratas de vários quadrantes não está em curso nem se vislumbra qualque revolução. Em Portugal todas as revoluções, desde, pelo menos, 1640, tiveram sempre na sua génese, e modo operacional, os militares. Hoje a tropa não tem massa critica para mexer um dedo. Assim fiquem descansados...o Estado vai continuar na sua profunda letargia e os grandes interesses economico/finaceiros prosperarão.
quarta-feira, novembro 4
Eleições
Um grande dia para a humanidade, o dia das eleições intercalares nos Estados Unidos, ontem, 3 de novembro. Parece uma coisa pequena. A vitória clara dos democratas, na sua enorme diversidade, assinala uma saída para o interregno autoritário da administração Trump. Será que a Europa aprende a lição?
terça-feira, novembro 3
Mulheres
Em qualquer lugar, no tempo da memória, as mulheres ocupam o meu imaginário são o centro do mundo. O ponto cardeal em torno do qual volteiam todos os devaneios. Desfilam pela minha memória os seus rostos, vozes e cheiros. Na família tradicional que era (e é) a minha, as mulheres parece que nunca desertam dos seus deveres, nunca morrem, permanecem no centro da vida, lugar da vida, origem da vida. Se tivesse sido iluminado pelo dom de uma qualquer arte dedicar-lhes-ia um monumento, uma obra-prima, um prolongado aplauso.
domingo, novembro 1
Raízes
Deitei-me a pensar da razão de escrever nesta fase tardia da vida, longe de me debater com preconceitos idiotas, e de me fugir a pena tantas vezes para as memórias. A razão resume-se numa palavra: raízes. A família está na primeira linha da memória neste divertimento sério, avesso da obrigação, que é a escrita. Do lado da ascendência materna é o campo, a terra, o chão da minha memória. Eram camponeses e imperava a família alargada da qual a minha mãe foi a primeira a sair, pelo casamento, para a cidade. A memória fotográfica que me chegou remonta ao inicio do século XX e nela estão todas e todos retratados a propósito de um qualquer dia de festa.
sexta-feira, outubro 30
A minha gente
No campo da escassez eu via abundância no cuidado com o que se colhia, punha na mesa, guardava, o pão, mais que tudo o pão, banha, figos, melancia, cavala, brados à estrada para encomendar o peixe, água fresca dos cântaros, de vez em quando caça, perdiz, lebre, coelho, bravos, o meu tio Ventura era um bom caçador, Fernandes todos, José, Rosa, Ventura, Adélia, Ezequiel, Gervásio, avós, tios, primos, das suas mãos provinha o meu céu, minha religião sagrada, terra, céu, sol, lua, estrelas, mar, a natureza derramada em suas vozes temperadas pelas duras tarefas da sobrevivência honrada. A marca do seu nome ficou gravada no meu, todo um mundo de gente com o mundo dentro.
quinta-feira, outubro 29
A escassez
Os tempos eram de escassez, hoje à distância de pelo menos uma geração reconheço-o em pequenos estilhaços da memória e por escassas imagens que, entendo-o hoje, eram evitadas em favor das dos dias de festa. O que resta? Os lugares, sol, terra, água, rostos, animais, árvores. A natureza resplandecente povoada a duras penas pelos descendentes dos mouros que ficaram da reconquista. Nunca me libertei dessa memória antes a guardei cultivando-a acima das curvas da vida. E não esqueço o amor que me foi dedicado pelos ancestrais com gestos de profunda humanidade. Como explicar que a bondade não seja um valor reconhecido como inerente à vida, num lugar supremo entre todos os valores.
terça-feira, outubro 27
Aniversário
Chegou a hora de me preocupar mais comigo do que com os outros. Neste início de outubro de 2026 a longa jornada de trabalho chegou ao fim. Não sei se serei capaz de escrever mais do que banalidades. O tempo faz mossa, essa ideia de que se ganha experiência com a passagem do tempo é uma treta. Pode ser, em parte, verdade, mas quem manda é a memória. A propósito quase todos os dias faço exercícios de memória. As mais longínquas surgem naturalmente. As mais próximas exigem um esforço suplementar. Mas faço-o. Lembro nomes de pessoas. Antes de deitar ou já deitado, inquieto-me quando não me surgem rápido os nomes que inscrevo na lista, mas acabam por emergir, sem mnemónica. Também vejo o que não está presente, um pequeno cobertor enrolado em cima do sofá, olhei-o de relance e vi o meu gato morto faz anos. Seria mais o gato do meu filho ausente que hoje faz 36 anos. A memória deles abraçados fez o meu dia feliz.
Desgoverno
Não me espanta o silêncio de Seguro, supondo que lhe compete tomar posição, os acordos de regime que proconiza não passam pela rua, suposto lugar de refúgio de todos os radicalismos. Mas as manifestações a que assistimos até ao presente são menos radicias do que muitos comportamentos no parlamento, incluindo insultos e assaltos. Assim como na administração da coisa pública onde se passam coisas inomináveis. Como diria o outro, isto anda tudo ligado. Desgoverno!
segunda-feira, outubro 26
domingo, outubro 25
Governo a caminho do fim
A administração deste governo é desastrosa, mais tarde saberemos o resultado, hoje as impressões ainda são difusas. O MAI é um polícia, está tudo dito, sob um véu de palavras democráticas, esconde-se um ego autoritário. Aconteceu inúmeras vezes na história. Adivinho o racional das medidas repressivas diretas e espetaculares: mostrar força bruta para manter a ordem, exemplar para a rua do protesto e, ao mesmo tempo, corresponder aos instintos primários dos adeptos da extrema direita. E, no momento certo, amealhar argumentos para a comissão parlamentar de inquérito ao próprio MAI que fez intervir a polícia que tutela. É uma pescadinha com rabo na boca. Resta saber se o governo não deu um sinal decisivo do seu declínio. (Fotografia de manifestação em Lisboa num dos dias do imediato pós 2ª guerra.)
quinta-feira, outubro 22
Memórias de família
Pedra tumular do meu primo Pedro Eurico Nery Graça assassinado, e sepultado, em Angra do Heroísmo em outubro de 1954. Cumpria serviço militar.
quarta-feira, outubro 21
A direita treme com pouco
A direita através de seus arautos, em todos os meios, treme de medo com meia dúzia de manifestações pacificas, nem sequer muito imaginativas. Imaginem se o chão tremer a sério...
segunda-feira, outubro 19
Ronaldo
Tinha dito a mim mesmo que não diria nada acerca do tema mais mediático deste nosso tempo. Há razões para isso atenta a portentosa carreira de Ronaldo e o impato global da sua imagem. A nossa triste tradição despreza o sucesso individual, a inveja reina, destroi o consenso em torno dos vencedores. Carregado de defeitos, que não a sua fortuna não herdada, mas construida a pulso, Ronaldo não pode ser apeado do pedestal onde se ergueu por mérito próprio. Mas o futebol profissional é um antro de mentiras e negociatas das quais nasceu o castigo irrisório que lhe foi aplicado mais parecendo um perdão envergonhado. O final não vai ser feliz e perdemos todos, mas Ronaldo é o único que fica na história.
sábado, outubro 17
Habitação/especulação
"Sete em cada dez novos proprietários com crédito à habitação vão pagar a casa até aos 70 anos", in Expresso de um relatório do Banco de Portugal. Ainda não foi debatida a mais relevante razão da crise da habitação em Portugal: a banca. A oferta de habitação pública e cooperativa é residual; o mercado de arrendamento sem fôlego; reina a especulação e o negócio do crédito que tornou Portugal num país de proprietários endividados para toda a vida. (Janeiro de 2025).
sexta-feira, outubro 16
Um nódulo da crise
Coisas simples. A crise da habitação: o incentivo à procura sem aumento da oferta faz subir os preços. Aumentar a despesa na defesa faz com que aumente o deficit, ou mingue o estado social ou cresça a dívida (ou um hibrido de todas, é escolher). Dois mega problemas para qualquer governo nos próximos tempos, em modo explosivo no tempo e na dimensão. (Março de 2025)
quinta-feira, outubro 15
Incompetência
O governo em funções é de uma incompetência confrangedora,certamente que acerta algumas vezes, mas é assustador um governo minoritário assumir compromissos de longo prazo, em particular, no que respeita a investimentos vultuosos.
terça-feira, outubro 13
segunda-feira, outubro 12
Passos Coelho - entrevista
Passos afirmou estar pronto para subir ao palco. Com escrevi já em 2017, a propósito de uma intervenção de Passos nas autárquicas: "Preparar uma aliança com a extrema direita para aceder ao poder. Claro como a água contrariando a posição declarada por Montenegro."
domingo, outubro 11
Obama
O que mais me impressionou no discurso de posse de Obama, 44º Presidente dos Estados Unidos, foi a coragem de enunciar velhos valores que receava terem sido arredados para sempre do centro do discurso político. São os valores que orientaram a vida de meus pais, e dos pais dos meus pais, e que quero deixar de herança a meu filho. Pode ser que a palavra, ao mesmo tempo, erudita e cidadã, de Obama, Presidente, seja a semente da qual nasça uma nova esperança para o futuro do homem: “trabalho árduo e honestidade, coragem e fair play, tolerância e curiosidade, lealdade e patriotismo”. Que viva! (Quando da posse de Obama como Presidente dos USA).
sexta-feira, outubro 9
segunda-feira, outubro 5
A República
Às 8,30 da manhã passava pela Rua do Ouro, em triunfo, a artilharia, que era delirantemente ovacionada pelo povo. As ruas acham-se repletas de gente, que se abraça. O júbilo é indescritível! A essa hora, no Castelo de S. Jorge, que tinha a bandeira azul e branca, foi içada a bandeira republicana. O povo dirigiu-se para a Câmara Municipal, dando muitos vivas à REPÚBLICA, içando também a bandeira republicana. (…) Vê-se muita gente no castelo de S. Jorge acenando com lenços para o povo que anda na baixa. Os membros do directório foram às 8,40 para a Câmara Municipal, onde proclamaram a República com as aclamações entusiásticas do povo. O governo provisório consta será assim constituído: presidente, Teófilo Braga; interior, António José de Almeida; guerra, Coronel Barreto; marinha, Azevedo Gomes; obras públicas, António Luís Gomes, fazenda, Basílio Telles; justiça, Afonso Costa; estrangeiros, Bernardino Machado. Governador Civil, Eusébio Leão. Em quase todos os edifícios públicos estão tremulando bandeiras republicanas. A polícia faz causa comum com o povo, que percorre as ruas conduzindo bandeiras e dando vivas à República. (Transcrito de O Século, quarta feira, 5 de Outubro de 1910, publicação de última hora.) Raúl Brandão, in Memórias “O meu diário” – Volume II Perspectivas & Realidades
quinta-feira, outubro 1
Cessar
Cessei funções a partir de hoje, ao fim de um longo percurso de trabalho que tudo fiz para ser o mais frutuoso e feliz para mim e para os que comigo partilharam os desafios. Ao contrário da comum perceção das vantagens de se sair cedo da vida ativa, sempre mantive, e mantenho, a convição de que quanto mais tarde melhor. Mas tudo depende do tempo e das circunstâncias de cada um. Em breve passarei à aposentação efetiva, ultrapassando as dificulddaes do despojamento das obrigações laborais.
terça-feira, setembro 29
Manicómio
Se a PJ vai ser alvo de uma CPI, situação original própria de manicómio, e se não deslindar o assalto ao gabinete da AR, então será necessária uma CPI à AR!!!
domingo, setembro 27
Burros ao poder
Cada vez se entende menos o discurso dos politicos, pois na politica o discurso é essencial, e a quem se dirigem? A fragmentação social é esmagadora, acelerada pelos novos meios de comunicação social. A cereja no topo do bolo: com a IA mesmo pessoas muito burras apresentam ideias e propostas que parecem muito inteligentes! A democratização da ignorância e da burrice é uma tragédia!
sábado, setembro 26
terça-feira, setembro 22
Jorge Palma
No meio da miséria moral em que nos mergulharam os politicos que nos governam morreu o Jorge Palma. Uma luz bruxuleante, como diria Sena, que se apaga. Um trovador contemporâneo, impulso de felicidade, uma vida inteira a elevar os espiritos mais alto.
segunda-feira, setembro 21
18 anos
Escrevo nas vésperas da mais que provável dissolução da Cooperativa António Sérgio para a Economia Social (CASES) por decisão da Assembleia Geral mas, na verdade, decidida pelo governo, medida tomada no contexto da modernização do Estado, mas cujas verdadeiras razões e alcance não entendo, nem conheço quem as tenha entendido. Esta medida representa, objetivamente, a eliminação de um centro de competências, de natureza pública, na área do cooperativismo, da economia social e do voluntariado que sempre existiu pós 25 de abril de 1974, primeiro sob a forma de instituto público (INSCOOP – 1977-2010) e a partir de 2010 como CASES. A referência a esta questão explica-se pelo facto de o autor destas linhas ter assumido, por decisão de sucessivos governos, a responsabilidade de conduzir o processo criação da CASES e gestão das suas atividades. Por esta razão e, em qualquer caso, estamos em condições de prestar testemunho já que Portugal realizou nos últimos anos um extraordinário progresso na estruturação e desenvolvimento do setor da economia social. (Parágrafo inicial de um longo artigo escrito para uma publicação espanhola, testemunho pessoal acerca de uma longa caminhada de 18 anos. Divulgarei aqui mais alguns excertos.)
sexta-feira, setembro 18
CASES
Hoje a Assembleia Geral da Cooperativa António Sérgio para a Economia Social (CASES), a cuja direção tenho presidido, decidiu pela sua dissolução. Esta decisão vem na decorrência de uma medida do governo que consistiu na designada "exoneração da participação pública" na CASES, ou seja, da saída do Estado. Fui um dos principais construtores deste projeto que alcançou no âmbito das suas atribuições um elevado prestígio nacional e internacional. Ninguém entendeu os fundamentos da decisão do governo. Voltarei ao assunto.
quinta-feira, setembro 17
Crise
O Estado Social tal como o conhecemos está em risco. Por todo o lado em todo o tempo e por todos os meios chovem discursos e informações acerca da queda do Estado Social, uma extraordinária conquista do pós guerra. Os liberais radicias do nosso tempo não toleram a ideia da ascensão social nem querem saber, a não ser por deveres de aparência, dos mais pobres e desfavorecidos. A guerra e os seus negócios fala mais alto e o esbulho dos recursos públicos em beneficio dos privados apresenta-se de forma descarada. A subida vertiginosa dos preços dos combustíveis é uma bomba que, se não for contrariada a tempo, acentuará a crise económica social, abrindo o campo aos mais desvairados movimentos anti democráticos. O resultado das eleições na Suécia é uma luz de esperança neste mundo distópico
segunda-feira, setembro 14
Atoleiro
Estranho mundo em que cada vez mais vigaristas assumem o poder. Por cá a direita clama por reformas, quem as não defende!, o diretor da PJ em funções sob investigação da PGR, um Ministro em funções, anterior diretor da PJ, sob investigação, o atual PM sob investigação, o anterior PM sob investigação (estas meio adormecidas), um grande atoleiro, no entretanto os negócios seguem o seu curso ... e a sociedade civil assiste impávida e serena ...
domingo, setembro 13
sábado, setembro 12
Jornal Esquerda Socialista - 52 anos
Em épocas de revolução o tempo ganha uma dimensão proporcionalmente inversa ao empolgamento dos protagonistas. Quanto mais fervor revolucionário mais o tempo parece escasso. Todos os sonhos parecem realizáveis e as vozes conciliadoras, ou que se atrevam a apelar ao realismo, tendem a ser silenciadas ou desprezadas.
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Apesar do seu temperamento afectuoso e, ao mesmo tempo, irascível, César de Oliveira, uma grande figura de intelectual da esquerda portuguesa do século passado, abandonou a direcção interina do “Esquerda Socialista”, após a edição dos seus seis primeiros números, sob a pressão de uma maioria radicalizada que, considerava o jornal ”politicamente ambíguo”, “graficamente confuso” e “financeiramente desastroso”.
Acusações tanto mais injustas, digo-o hoje sem contemplações, atentas as dificuldades em reunir, à época, as condições para erguer qualquer órgão de imprensa partidária (e mesmo generalista!), fora da esfera de influência do PCP e dos grupos marxistas-leninistas-maoistas, ainda por cima, em oposição, ideológica e política, aos princípios essenciais da orientação político-partidária daquelas organizações.
Foram aliás essas dificuldades que explicam o longo tempo, quatro meses e dez dias (uma eternidade!), que mediou entre o surgimento público do MES, anunciado no pano artesanal que desfilou na grande manifestação do 1º de Maio de 1974, e o dia 11 de Setembro desse ano quando saiu do prelo o nº 0 do “Esquerda Socialista”. O cartaz dizia “Movimento de Esquerda Socialista (em organização) ”, uma fórmula impensável à luz das regras tradicionais do marketing político, mas que explica, em duas palavras, as delongas no surgimento do jornal.
Era preciso dar corpo a uma ideia que andava no ar, ou seja, estabelecer as bases programáticas e organizativas de um partido, criando-o de raiz, a quente, na bigorna da revolução, não deixando perder as energias de tantos e tão promissores movimentos de luta sectorial e o entusiasmo dos militantes que exigiam aderir a um movimento político que nem os seus fundadores sabiam muito bem ao que vinha e nos quais não constava, que me lembre, uma única personalidade relevante ligada à imprensa.
Que experiência mais apaixonante se poderia desejar na volúpia da revolução, que fervilhava nas ruas, do que responder ao desafio de criar um partido de “esquerda socialista” despojado, à partida, de recursos materiais e de apoios internacionais? Mas como encontrar energias para fundar, do nada, o mais depressa possível, um órgão de imprensa que lhe desse rosto e voz?
Ao fim de muitas, e acesas, discussões, nas quais o César de Oliveira se enfurecia amiúde, lançaram-se as bases de uma equipa de trabalho para elaborar o “Esquerda Socialista”, arranjou-se uma sede provisória na Rua Garrett, que a partir do nº 8 passou para a Rua Rodrigues Sampaio e a partir do nº 30 para a Av. D. Carlos I, convenceu-se a Renascença Gráfica a vender “fiado” os trabalhos de edição e impressão, contratou-se uma distribuidora e o “Esquerda Socialista” foi para a rua.
Esta aventura, FAÇA-SE JUSTIÇA, não teria sido possível sem o empenho do José Manuel Galvão Teles e como, ainda hoje, não sei se alguém lhe agradeceu o suficiente daqui lhe envio o meu tardio obrigado!
No decurso da 2ª fase da sua existência, de Dezembro de 1974 a Julho de 1975, a direcção do “Esquerda Socialista” foi atribuída, pela Comissão Política Nacional (CPN) a Augusto Mateus, tendo sido editados mais 27 números, do nº 12 ao 38, com periodicidade semanal, compostos por 12 páginas a 2 cores e ao preço de venda ao público de 3$00. (a única excepção foi um nº especial, a propósito do 11 de Março de 1975, que saiu apenas com 4 páginas ao preço de 1$00).
Se não erro, pois não tenho a colecção completa na minha frente (não sei que é feito dela), foram editados, contando com o nº 0, quarenta números do “Esquerda Socialista”, com uma tiragem, no seu ocaso, entre 17.000 e 20. 000 exemplares, mesmo assim bastante relevante acerca da presença política do MES no processo revolucionário em curso, como era da praxe dizer-se.
O jornal “Esquerda Socialista”, carregando, em particular, nesta derradeira fase, as marcas próprias da sua época, mais criativo e anarquizante, na sua primeira fase, constitui um testemunho interessante para uma análise política, e cronológica, do período revolucionário compreendido entre o 28 de Setembro de 1974 e a aprovação do “Plano Aliança Povo-MFA, em Junho de 1975.
Mas ainda não tinha acabado a aventura do “Esquerda Socialista” e já tinha sido criado o “Poder Popular”, o outro órgão de imprensa do MES, que se pretendia mais próximo da luta das classes populares, porta-voz de um programa político do MES que nunca deixou de reflectir, a partir do final de 1976, embora sem expressão pública, a luta interna entre facções que se digladiavam no seu seio.
PUBLICADO EM 29 DE DEZEMBRO DE 2008
sexta-feira, setembro 11
quinta-feira, setembro 10
Governo?
Como li num titulo algures o governo passou à oposição, a propósito de medidas anunciadas recentemente e que implicam aumento da despesa. Parafraseando a senhora Ministra do ambiente a propósito dos combustíveis, um dia acordamos e não há governo ...
segunda-feira, setembro 7
Uma singela nota de descrença
O governo minoritário do PSD odeia os socialistas. Esse ódio dimanado do partido está presente no quotidiano das suas práticas. Pode ser que um dia destes quem conheça os meandros das decisões faça relatos pungentes. Sabemos que o regime politico vigente assenta nos partidos e nas maiorias que se formam em eleições livres. O nosso regime é, pois, um regime de partidos e muito bem. Mas daí até à mais primária das partidocracias vai uma grande distância. Dirão que sempre assim foi e será, mas hoje por hoje é paradoxal que um partido que odeia os socialistas careça do seu apoio para sobreviver. Sempre se suscitarão dúvidas acerca da bondade deste apoio sem que se anteveja a vontade para celebrar um acordo de regime em bases progressistas que minimize a ameaça da extrema direita. O poder presidencial neste regime é fraco por natureza e Seguro pela sua persona não lhe acrescenta força. Receia-se o pior.
domingo, setembro 6
Citações (in) atuais
"O governo está gasto, sem autoridade, sem prestígio, sem crédito, sem vigor, sem alma para actuar com um ar de quem tem as malas feitas, a conta do hotel paga, e aguarda na gare a partida do comboio ..." Franco Nogueira, diário 28 de julho de 1968, in "Os dias e os anos", Marcello Duarte Mathias
quinta-feira, setembro 3
O meu pai Dimas
Amanhã 4 de setembro é o dia de aniversário do meu pai Dimas. Nunca esqueço este dia ao contrário de tantos outros dias. O meu pai nem era homem de muitas conversas e ainda menos de confidências. Guardava prudente reserva dos afetos mas os seus gestos não me enganavam. Levava-me pela mão às mais incriveis aventuras como a de acompanhar o cortejo de Humberto Delgado na sua campanha eleitoral no Algarve. Aspirar à liberdade era um grande e dificil desafio e ele, de diversas e subtis formas, ensinou-me esse caminho.
quarta-feira, setembro 2
Glória
O elevador da glória é toda uma tragédia. O numero de indeminizações entregues às vitimas é minimo. O inquérito está atrasado à espera das atrasadas pericias. O anúncio da entrada em função de um novo aponta para 2029... Parece uma linha de TGV...
domingo, agosto 30
Nepal
As notícias acerca da tragédia do Nepal são abundantes, e justificadas, pela dimensão ambiental e humana. Sabemos da existência no nosso país de uma considerável comunidade nepalesa acerca da qual a opinião geral é muito positiva. No entanto o Estado português face aquela tragédia limitou-se aos minimos protocolares. Talvez um pouco mais de empatia e de apoio concreto, ou seja, mais gestos próprios da solidariedade de um país de emigrantes.
sábado, agosto 29
Assalto em toda a linha
Assistimos a um assalto em toda a linha, o roubo e a pilhagem ganham foros de cidade. A criminalidade vulgar que se apresenta nos grandes meios de comunicação instiga ao discurso securitário, mas os grandes golpes mansos ou rudes não precisam nem desejam divulgação. Regressamos séculos atrás, veja-se o saque do petróleo venezuelano pelos USA, a saque, com governo tutelado e entre nós, a propósito de petróleo, o preço dos combustíveis ...
quarta-feira, agosto 26
A força de uma minoria
Os dirigentes máximos das confederações patronais (exceto a do comércio) ainda não perceberam que perderam todo o crédito para clamar em favor das propostas diretas, ou indiretas, da Ministra do Trabalho? Tudo pode, e deve, ser debatido mas não imposto pela força de uma minoria, suprema ironia, que usa e abusa do "quero, posso e mando", ao arrepio das regras próprias de uma democracia. Vai acabar mal!
terça-feira, agosto 25
Politica menos
Quem buscam influenciar e convencer os discursos dos politicoa tradicionais? E são todos os discursos politicos presentes no mercado. Deixaram de ser criadores de esperança num mundo e numa vida melhor. Anunciam, proclamam ou encobrem guerras e violências, negócios em circuitos curtos e fechados, cada vez mais longe do interesse geral e do bem comum. (Fotografia com vista de Arcos de Valdevez, tirada por mim faz muitos anos.)
quarta-feira, agosto 19
segunda-feira, agosto 10
Politica/negócios
Os negócios estão a atravessar, e condicionar, a politica com cada vez mais intensidade. É verdade que sempre existiram relações intimas entre negócios e politica. Mas os politicos serem eles próprios parte diretamente interessada em negócios que as suas politicas propiciam é um fenómeno novo. Que se estende por todo o lado. ( Na fotografia Eu a Francisca Moura e a Guida, faz tempo, algures no Algarve.)
quinta-feira, agosto 6
O bom governo
O que carateriza o bom governo? 1- empatia; 2 - verdade; 3 - justiça; 4 - equidade. Somente um apontamento em tanto que já se escreveu e debateu acerca do tema. Exige-se ao menos a vontade de aproximação aos padrões exigíveis numa sociedade moderna. Na verdade ninguém quer saber acerca da qualidade do governo, ou somente uma infima minoria. (Na fotografia: eu numa equipa de junior de basquete do Farense).
segunda-feira, agosto 3
Deserto
Regressei à terra (Algarve) para quatro dias de férias repartidas. Olhando a rua, e o olhar não engana: sem turistas e imigrantes seria um deserto. (Na fotografia, imagem do interior do café "A Brasileira" na esquina da rua João Lúcio, em Faro, onde os Pides confraternizavam).
sábado, agosto 1
Arquive-se
Tenho uma pessoa conhecida que, por acaso, trabalha comigo (ainda trabalho!), que foi questionada vezes sem conta pelo TC acerca da sua declaração de interesses. Trata-se de alguém com um património reduzido ... e uma só fonte de rendimento ... A cigana vendedeira de rua no café da esquina sociabiliza e o grupo de policias municipais após beberem café ao balcão questionam-na por que lhes pagou o café ... mas pagou, "não posso?", segue... O PR espera o resultado dos inquéritos, espere... "arquive-se"!
quinta-feira, julho 30
As futuras gerações
Não há motivos para preocupação, mais ministro menos ministro nada vai mudar. Tenhamos, no entanto, atenção aos negócios da defesa e das PPPs. As distrações podem ser muito prejudicias para as futuras gerações. (Na fotografia Maria Casarés.)
quarta-feira, julho 29
A mentira
“O privilégio da mentira é de vencer sempre aqueles que querem servir-se dela. (…) A liberdade não é dizer o que nos apetece […] nem instaurar a ditadura em nome de uma liberdade futura. A liberdade consiste, portanto, em não mentir.” - Albert Camus
sábado, julho 25
A confiança
Existem bastantes obras publicadas acerca das instituições, da importância da sua credibilidade e da confiança que geram e inspiram. Este aspeto da vida em sociedade é mais importante para a riqueza das nações do que as riquezas materiais de que possam dispor. Desta forma fica dito o essencial acerca dos acontecimentos que têm marcado a atualidade nacional.
quinta-feira, julho 23
quarta-feira, julho 22
terça-feira, julho 21
O meu exame de filosofia
Kant, "o filósofo dos direitos humanos", morreu a 12 de fevereiro de 1804. Pelo aniversário da sua morte vou voltar a contar uma "pequena história" pessoal na qual Kant tem o lugar de protagonista. "Foi uma das maiores humilhações da minha vida. Explico em duas palavras. No meu 7º ano de liceu, à época, ano terminal do secundário, faziam-se exames finais em algumas disciplinas incluindo filosofia. A nota da prova escrita necessária para dispensar da oral era 16. Obtive, na escrita, 15. Estranho! Na realidade ninguém obtinha, na escrita, 15. Ou se obtinha 14 ou então 16. Fui, assim, "condenado" a ir à oral com 15. Na oral fui confrontado com a primeira (e única) pergunta: fale-me do "imperativo categórico" de Kant. Iniciei uma dissertação acerca do tema! A examinadora considerou a resposta insuficiente. Insistiu no tema. Eu titubeie. Não era (nem sou) um especialista em Kant mas - que diabo - tinha estudado a matéria. Mas a examinadora é que não mudava de tema! Fale-me do "imperativo categórico" de Kant! Se bem me lembro tentei de novo satisfazer a exigência. Em vão! Percebi, então, que nada iria resultar. Estava condenado a chumbar fosse qual fosse o meu desempenho! Levantei-me e saí da sala perante o espanto dos meus colegas que assistiam à cena. Desci a avenida e fui tomar um café na esplanada da Gardy, que ainda lá está apesar dos factos se terem passado à quase 40 anos, na baixa de Faro. O chumbo era certo! Não valia a pena ir ver a pauta. Eu era um pouco irreverente (talvez mesmo bastante irreverente) é verdade! Não dominava de cor as matérias todas! É verdade! Mas na segunda época de exames obtive na escrita a nota de 18 na mesmíssima disciplina de filosofia! Assunto arrumado. A professora que me sujeitou aquela humilhação oral já faleceu. Nunca cheguei a saber, nem saberei, das verdadeiras razões daquele inusitado chumbo! Mas hoje ao ler o trabalho, limpo e clarividente, do Público, acerca de Kant, a minha memória retomou o caminho da explicação para o chumbo: "Com o seu "Imperativo Categórico" Kant estabeleceu um novo princípio ético: introduziu a ideia de que a moral é algo inerente à estrutura da razão, não decorrendo portanto, por exemplo, de imperativos religiosos. Segundo ele, cada homem deverá actuar de forma a que cada um dos seus actos possa ser tomado como princípio universal. Cada um desses gestos é um objectivo e um fim em si mesmo, não um meio para um outro fim (como o "Bem" praticado na religião católica que surge como uma forma de atingir a salvação). Para Kant, o gesto imoral acontece quando alguém tenta estabelecer para os outros um padrão de comportamento diferente daquele que ele próprio adopta." Hoje estou convicto (não me atrevo a dizer: estou certo!) que a razão do chumbo naquela oral está sintetizado neste texto, de Vanessa Rato, no Público, acerca do "imperativo categórico". Hoje, como ontem, o mundo está repleto de "gestos imorais", ou seja, de gente que julga o comportamento do outros por critérios que se dispensam de aplicar a si próprios." (Um post antigo, mas muito atual.)
segunda-feira, julho 20
A revisão das provas
Vivemos tempos estranhos. O país dispõe de uma elite com escassa dimensão e excessivamente exposta à atração externa. O tema atual dos exames do secundário tem sido abordado do lado dos erros politicos e operacionais do governo. Mas ninguém o aborda do lado do prejuizo para a formação de uma elite que este jovens constituem, uma das maiores riquezas do país, que se confrontam numa fase decisiva da sua formação com um processo distópico próprio destes estranhos tempos. Fiquemo-nos pois pelo debate acerca dos 25€ da "taxa moderadora" para fazer a revisão das provas... Nem o PM nem o PR têm uma palavra acerca da forma como a elite jovem do país é tratada!
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