quinta-feira, abril 23

25 de abril - Vitor Wengorovius

O mais brilhante tribuno do movimento estudantil durante a crise académica de 1961/62. Eu não tinha idade para o conhecer nessa época mas os testemunhos dos seus contemporâneos são eloquentes. Só o conheci como veterano no processo de criação do MES bastante antes do 25 de Abril. Era uma figura pujante de energia e criatividade, prolixo, solidário e desprendido. Era a personificação do excesso para seu prejuízo pessoal e benefício da comunidade. Um socialista católico puro e impoluto, crente e destemido, desprendido do poder e amante da partilha. Privei com ele, nele confiava em pleno, com ele aprendi a confiar, talvez a confiar demais. Não me arrependo de ter acreditado na luz que emanava da sua dedicação às causas utópicas que as suas palavras nunca eram capazes de desenhar até ao fim. As suas palavras perseguiam a realidade que se escapava como um permanente exercício de criação. Com ele fui a encontros clandestinos com o Pedro Ramos de Almeida, representante do PCP, buscando as alianças necessárias ao sucesso da luta anti fascista e nunca fomos apanhados pela polícia política. Ouvi horas das suas conversas, intervenções e discursos, aprendi a ouvir, aprendi a faceta fascinante do excesso da palavra (não só com ele) e sofri, em silêncio, o lancinante drama do seu percurso pessoal perdido no labirinto das rupturas intelectuais e sentimentais. Morreu a 27 de Fevereiro de 2005 mas viverá para sempre no coração daqueles que, verdadeiramente, o conheceram.

quarta-feira, abril 22

25 de abril - António Santos Júnior

No movimento operário de base destacou-se, emergindo das lutas da TAP, que antecederam o 25 de Abril, António Santos Júnior. Ele liderou um movimento de novo tipo, associando as reivindicações tradicionais do operariado urbano com os novos desígnios da participação do movimento operário na acção política. Era um admirável homem de acção e de organização, persuasivo e generoso. Aliás Santos Júnior deveria ter discursado na grande manifestação, em Lisboa, do 1º de Maio de 1974, em representação do MES, mas foi boicotado em cima da hora (não sei ao certo o que se passou nos bastidores). Foi nessa manifestação que surgiu, pela primeira vez, em público a sigla MES inscrita num pano onde se podia ler "Movimento de Esquerda Socialista - em organização". Outros dois destacados activistas do movimento operário e sindical, com relevante participação no MES, foram Manuel Lopes (sindicalista que aderiu à CGTP) e o ideólogo das lutas da TAP, Jerónimo Franco. (António Santos Júnior morreu no dia 27 de Janeiro de 2017. Segundo um camarada seu do movimento sindical de então, Jerónimo Franco, "sob a direcção de Santos Júnior as transformações atingiram tal amplitude que se iniciou uma nova era no sindicalismo português".)

terça-feira, abril 21

25 de abril - Mário Viegas

Mas o oficial miliciano mais fascinante do meu Quartel era o Mário Viegas. O seu estatuto no serviço militar era apropriado ao seu talento de actor. Vivemos em comum aqueles momentos inesquecíveis em que a liberdade foi devolvida aos portugueses. Tinha por ele um natural fascínio que sempre me retribuiu até à sua morte prematura. Por um daqueles dias entre o 25 de Abril e o 1 de Maio de 1974, se não erro, no Quartel do Campo Grande, assisti ao espectáculo mais extraordinário de toda a minha vida. Havia que festejar o que agora comemoramos com nostalgia. O refeitório foi transformado numa sala de espectáculos. Nele se reuniu toda a gente de serviço no quartel. Imaginem o elenco daquela festa improvisada: Carlos Paredes, Zeca Afonso e Mário Viegas. Todos mestres geniais na sua arte. A certa altura o Mário Viegas subiu para o tampo de uma mesa e a poesia brotou, em palavras ditas, como se diante de nós se revelasse um novo mundo ou tivéssemos da vida renascido.

segunda-feira, abril 20

25 de abril - Salgueiro Maia

Afinal o Capitão Salgueiro Maia era um homem de coragem. No confronto decisivo da Rua do Arsenal foi o sangue frio de Salgueiro Maia que tornou vitoriosa a revolução. A sua serenidade face à força inimiga obrigou a que o soldado atirador, sob ordens de um subordinado do brigadeiro, não fosse capaz de premir o gatilho. A serenidade do Capitão Salgueiro Maia, sabendo que tinha a sua cabeça na mira do atirador, congelou a situação. Acredito pelo que presenciei que só a conjugação da coragem do Comandante da força revoltosa de Santarém, o desespero do comandante da força do regime e a recusa do soldado em disparar permitiram o desenlace feliz daquela situação que, no plano militar, era absolutamente desfavorável aos revoltosos. Assim se decidiu o destino da revolução

domingo, abril 19

25 de abril - Agostinho Roseta

No movimento operário e sindical o activista mais importante do MES foi Agostinho Roseta, já falecido. Ele associava juventude (ou talvez melhor, jovialidade), capacidade teórica e sentido prático de organização, era persuasivo, sedutor e desprendido do poder. Morreu num 9 de Maio, muitos anos depois do MES ter sido extinto, na plena pujança das suas qualidades humanas e intelectuais. A sua morte prematura impediu que tivesse, muito provavelmente, exercido uma influência marcante, a partir de 1995, no movimento sindical (UGT) e no Partido Socialista.

sábado, abril 18

25 abril - Capitão Teófilo Bento

Quando eclodiu o 25 de Abril, cumpria serviço militar, como oficial miliciano, desde finais de 1971, no quartel do Campo Grande, em Lisboa. Nunca soube a razão de não ter sido mobilizado para uma das frentes da guerra colonial. O destino reservou-me passar quase três anos a ministrar instrução militar a recrutas de toda a sorte, alguns deles, por sinal, bem ilustres. Foi o Capitão Teófilo Bento que me contactou no início de 1974 e não sei já como chegou até mim. Talvez tenha sido após o «Golpe das Caldas», em 16 de Março, pois, nesse dia, foi-me dada ordem para permanecer no quarto. Na manhã do dia seguinte, se bem me lembro, lá me mandaram sair. O golpe tinha fracassado. . Falei, por esses dias, com o Capitão Teófilo Bento num carro estacionado próximo do 2º GCAM, no Campo Grande. Ele queria saber se havia algum oficial miliciano de confiança no Quartel-general de Lisboa. Tratava-se, pelo que percebi, de um ponto fraco na rede dos militares que preparavam o golpe. Mas não havia um único miliciano de confiança, que eu conhecesse, em serviço no Quartel-general. Após este encontro fiquei com a certeza da inevitabilidade de que algo de sério ia acontecer. . Estava, de facto, em marcha uma acção de envergadura para derrubar o regime. Mantive a maior descrição. Não falei a ninguém acerca desse encontro. Mas tomei as minhas providências. O ambiente era de medir forças dentro dos quartéis. Após o fracassado «Golpe das Caldas» todos os movimentos eram observados e o ar que se respirava estava povoado de ameaças.

sexta-feira, abril 17

Doadores

Passam-se coisas estranhas na nossa vida pública. O debate acerca da ideia de adoptar o secretismo aos doadores no seu apoio aos partidos é uma delas. A democracia não se compedece com tal ideia além de ser ilegal. Quem não quiser ser escrutinado não se candidate a cargos públicos. O melhor seria mesmo que o financiamento dos partidos fosse exclusivamente público. É o preço da democcracia.

quarta-feira, abril 15

Abril

"Abril. Primeiros dias de calor. Sufocante. Todos os animais estão deitados. Quando o dia começa a declinar, a natureza estranha da atmosfera por cima da cidade. Os ruídos que nela se elevam e se perdem como balões. Imobilidade das árvores e dos homens. Pelas esplanadas, mouros de conversa à espera que venha a noite. Café torrado, cujo aroma também se eleva. Hora suave e desesperada. Nada para abraçar. Nada onde ajoelhar, louco de reconhecimento." Albert Camus --- [Nesta página da edição portuguesa dos Cadernos da "Livros do Brasil" escrevi, à mão, em frente a Abril: “3-1968-Faro-Cais”, datando, com precisão, a primeira leitura. O ambiente da Argélia natal de Camus tem algo a ver com o ambiente de Faro, a minha cidade natal. Devia ser o período das Férias de Páscoa. Curiosamente nas vésperas do “Maio de 68”.]

domingo, abril 12

Seguro - um mês

Seguro será um presidente próximo das pessoas como mostrou neste primeiro mês de exercicio. O comentariado já começou a torcer o nariz. É demasiado pouco mediática esta postura, impacta nas pessoas mas não reverbera com estrondo nos écrans. seguro não deixa por mãos alheias a critica à propaganda do governo introduzindo nela um filtro poderoso de realidade. O magna de interesses que está por detrás da politica do governo tudo tentará para puxar Seguro para a irrelevância. Veremos o que acontece com os inúmeros diplomas que vão passar pela secretária de Seguro.

sábado, abril 11

Sempre a guerra

É horrivel assistir à guerra no sofá, o que nunca aconteceu com tamanha frequência e maldade. Sem falar das tareias de comentadores que nada sabem de guerra, mesmo sendo militares. A sensação é que a guerra não vai acabar mais por jamais o poder vir a ser exercido por pessoas normais.

quarta-feira, abril 8

Guerra sempre guerra

A guerra pode ser justa se servir para nos libertar da servidão. Resta saber o que é servidão, certamente ausência absoluta de liberdade. E o que é liberdade? Questão filosófica sempre discutida por vezes de forma exaltada. Entre uma democracia com defeitos e uma ditadura perfeita, escolho a democracia. Entre a liberdade absoluta própria dos ditadores que a tomam em exclusivo para si, e as escolhas livres do quotidiano do cidadão comum, escolho a vida comum. A questão de fundo da guerra é sempre a mesma com variantes. As oligarquias lutam pelo domínio dos recursos (riquezas) que as beneficiam em desfavor da maioria que morre em seu nome.

sexta-feira, abril 3

Guerra

“É sempre vão pretender quebrar um laço de solidariedade, apesar da estupidez e da crueldade dos outros. Não se pode dizer: “Ignoro-o”. Colabora-se ou combate-se. Nada é menos perdoável que a guerra e o apelo aos ódios nacionais. Mas uma vez surgida a guerra, é vão e cobarde querer afastar-se a pretexto de que se não é responsável. As torres de marfim acabaram. A benevolência é interdita. Por si própria e para os outros. Julgar um acontecimento é impossível e imoral se se está de fora. É no seio dessa absurda desgraça que se mantém o direito de a desprezar. A reacção de um indivíduo não tem qualquer importância. Pode servir para qualquer coisa mas nada a justifica. Pretender, por diletantismo, afastar-se e separar-se do seu ambiente, é dar prova da mais absurda das liberdades. Eis porque motivo era necessário que eu tentasse servir. E se não me quiserem, é igualmente necessário que eu aceite a posição do civil desprezado. Em ambos os casos estou no centro da guerra e tenho o direito de a julgar. De a julgar e de agir.” Albert Camus, in Caderno” n.º 3 (Abril de 1939/Fevereiro 1942). Para que se compreenda a problemática deste fragmento que muito me influenciou. Em Setembro de 1939, Camus está pronto para partir para a Grécia quando eclode a 2ª guerra mundial. Camus não quer escapar à guerra e apresenta-se como voluntário mas não é aceite devido à sua tuberculose.

quarta-feira, abril 1

Cartel

"Governador do BdP admite “comportamento ilícito” no “cartel da banca”, mas sacode responsabilidades para os tribunais", in Expresso. É hilariante próprio de uma boa tirada do Eça. A Banca foi condenada mas prescreveu. Ninguém assume responsabilidades e a banca goza com o pagode.