Deixar uma marca no nosso tempo como se tudo se tivesse passado, sem nada de permeio, a não ser os outros e o que se fez e se não fez no encontro com eles,
Editado por Eduardo Graça
sábado, setembro 9
ANTÓNIO SÉRGIO - ALOCUÇÃO AOS SOCIALISTAS
António SérgioUma ressonância de 9 de Setembro de 2004. Tinha acabado de ouvir Manuel Alegre certamente a propósito do Congresso Socialista. Como andava metido em trabalhos de limpar o pó aos livros tinha-me caído nas mãos a extraordinária peça oratória, de António Sérgio, chamada “Alocução aos Socialistas”, de Maio de 1947.
Ora lede a suprema ironia que o fino verbo de Sérgio derrama sobre a realidade da política socialista do presente.
"Na política, como sabeis, o comportamento rectilíneo, sem argúcia alguma, – sincero, aberto, desartificioso, claro, - usa ser censurado, como sendo ingénuo: e, nessa sua qualidade de comportamento ingénuo, como prejudicial, ou pateta. Paciência. Seja. (…) Os essencialmente habilidosos (não faço empenho em negá-lo) alcançam a sua hora de simulacro e de vista. Mas é uma hora e nada mais; mas é simulacro, e só vista. Logo a seguir a esse instante, comunica-se-lhes o fogo da sua iluminação de artifício, e fica tudo em fumaça, que pouco depois não é nada."
"Aos nossos socialistas, quanto a mim, compete-lhes resistirem ao tradicional costume de se empregarem espertezas e competições de pessoas para apressar o momento em que há-de chegar ao poder…"
"Antes de tudo, buscai prestigiar-vos ante a nação inteira pelo timbre moral da vossa alma cívica; porque (como acreditais, creio eu) não é indispensável conquistar o poder para se influir de facto na orientação do estado."
"Não tenhais a ânsia de vos alcandorar no poleiro com prejuízo das qualidades a que se tem chamado "ingénuas". As habilidades dissipam-se; os caracteres mantêm-se."
"Não existam ciúmes e invejas recíprocas entre os vários componentes da vossa grei socialista: nem tampouco os ciúmes, nem tampouco as invejas, para com os homens que compõem as outras facções da esquerda. Seja vosso lema a unidade. Por mim, quero trabalhar pela unidade, pelo entendimento recíproco, pela existência de convivência amável entre os homens políticos de orientações discordes. Incorrigivelmente "ingénuo", fraterno, cordial."
sexta-feira, setembro 8
CARLOS MARIGHELLA
Imagem DaquiNos cartazes da revolução surgem surpresas, ou seja, imagens das quais já não nos lembrávamos. É o caso deste cartaz em homenagem a CARLOS MARIGHELLA. Certamente um dos primeiros, após o 25 de Abril de 1974, em que surge a sigla do MES.
É necessário sublinhar o contexto político desta manifestação de solidariedade? Vivia-se uma época em que era possível evocar o impossível. Vale a pena esquecer os devaneios esquerdistas de uma revolução em que se evocaram os guerrilheiros e se pouparam os PIDES?
A lembrança é sempre melhor que o esquecimento. Para os mais esquecidos lembro os vinte anos de governos militares no Brasil: Marechal Castelo Branco (1964-1967) ; General Costa e Silva (1967-1969); General Médici (1969-1974); General Ernesto Geisel (1974-1979); General Figueiredo (1979-1985)
quinta-feira, setembro 7
BUSH LENDO CAMUS
Imagem DaquiJá está disponível, no site do “Semanário Económico” e no IR AO FUNDO E VOLTAR, o artigo, com o título em epígrafe, que será publicado na edição de amanhã daquele semanário.
O mesmo ostenta em epígrafe a seguinte citação de Albert Camus, respigada da sua obra “A Queda”: "Quando se meditou muito sobre o homem, por ofício ou vocação, acontece-nos sentirmos nostalgia dos primatas. Esses ao menos não têm segundas intenções."
CAMUS, AS OBRAS COMPLETAS E A ESQUERDA
Fotografia de AngèleJá me chegaram às mãos, trazidos de Paris por minha mulher, os dois primeiros volumes das “Obras Completas”, de Albert Camus, recentemente publicadas pela Gallimard. Obrigado.
Aproveitei para confirmar a exactidão de uma resposta dada por Camus acerca da questão crucial do seu posicionamento político. Num artigo que deverá ser publicado amanhã no “Semanário Económico” traduzi do espanhol uma pergunta que lhe foi formulada e a sua resposta:
Em 14 de Dezembro de 1959, poucos dias antes de morrer, num acidente de viação (4 de Janeiro de 60), falando a estudantes estrangeiros, em Aix-en-Provence, perguntam-lhe, por escrito: “considera-se um intelectual de esquerda?” Camus responde: “Não tenho a certeza de ser um intelectual [Pausa]. Quanto ao mais, sou a favor da esquerda, apesar de mim e apesar dela.” In Biografia de Albert Camus- por Olivier Todd (1996)
Verifico agora que a minha tradução, felizmente, não atraiçoou o sentido nem de uma nem de outra:
“14 décembre: entretien avec des étudiants étrangers à Aix-en-Provence (Êtes-vous un intellectuel de gauche? – Je ne suis pas sûr d’être un intellectuel. Quant au reste, je suis pour la gauche, malgré moi, et malgré elle”). In Chronologie – Oeuvres complètes – I
quarta-feira, setembro 6
LULA CONTINUA NA FRENTE
Fotografia DaquiA menos de um mês das presidenciais no Brasil, em 1 de Outubro, Lula está na frente em todas as sondagens mais recentes sem sinais de descida. Como sempre se diz sondagens são sondagens mas tudo leva a crer que … só um milagre levará a direita de volta à presidência. Eu sei que tudo é muito discutível acerca do que é direita e esquerda e sei que há direita na esquerda e esquerda na direita e sei que há gente honrada em todos os lados e vigaristas também. Mas quer-me parecer cada vez mais que Lula vai ganhar … é a vida!
O PICO DA PALMEIRA E OS SERVIÇOS PÚBLICOS DE SAÚDE
Fotografia DaquiHoje prosseguiu a odisseia da folhagem da palmeira ou melhor do pico da dita que se instalou no braço do meu filho. Corri o risco de ser obrigado a inverter o sentido da marcha da minha promoção do serviço público de saúde. Como proliferam os relatos mais macabros acerca das suas insuficiências e maldades! Mas não! Lá fui com ele à consulta de cirurgia do Pulido Valente. A coisa começou com um sobressalto. A marcação não deveria ter sido feita para aquele serviço pois o jovem não perfizera 16 anos. Confirmei que os 16 anos são uma barreira para além da qual se entra numa espécie de propedêutico para a idade adulta. Mas aconteceu que a burocracia cedeu o lugar ao bem senso e a médica resolveu de forma expedita manter a consulta tal qual. Aplausos. Sendo assim os horários marcados foram cumpridos quase a rigor. O atendimento dos serviços administrativos q.b. e dos serviços médicos eficientes e simpáticos. Devem pensar que estou a gozar com o pagode mas esta é a realidade dos factos. A taxa moderadora de pouco menos de 5 euros pois nunca se encontra maneira de fixar quantias certas é antipática e o azedume cresce quando o serviço é ineficaz ou pouco cordato. Não foi o caso. Saí do hospital com a sensação de uma estrutura que funciona e sem razões para qualquer crítica substantiva. O pico da palmeira a conselho médico vai ficar mais uns tempos. Entretanto vejam se desenvolvem esse site. Lá para Novembro dou mais notícias se antes não houver qualquer urgência. Desculpem lá estar sempre a falar bem de alguma coisa da qual se construiu a imagem porventura com montes de razão de que há que falar sempre mal. Nem falo de uma visita a uma empresa privada a Texto Editora na qual passei de caminho para comprar o livro de português para o meu filho cujo balcão de atendimento esse sim funcionava mal a valer certamente por azar meu. Se fosse um serviço publico!...
terça-feira, setembro 5
segunda-feira, setembro 4
SUAS EXCELÊNCIAS OS CTT's
Imagem daquiEste é o relato de um caso real de como em Portugal os “serviços de excelência” encobrem a captura de vantagens ilegítimas ao arrepio do interesse público. Ou de como os serviços postais prestados pelos CTT’s encobrem uma actividade financeira de porte duvidoso.
Como anteriormente já disse um dia destes no intervalo de uma venturosa ida a um centro de saúde com o meu filho a propósito da qual tive oportunidade de falar bem do dito o que acresce muito prazer ao meu quotidianos pois ser bem tratado é no fundo o nosso maior desejo fui aos CTT’s levantar uma encomenda à cobrança.
Ou seja para resgatar a mercadoria eu teria de pagar o preço da dita cujo fornecedor por sua vez já tinha pago o preço do serviço postal. Tudo bem. Normal. Regular. O acontecimento reporta ao venturoso dia 24 de Agosto do presente.
Para minha surpresa e diga-se profundo escândalo foi-me revelado no acto do levantamento da coisa que os CTT’s salvo na estação dos restauradores em Lisboa não dispõem dessa banalidade dos nossos dias que é um terminal Multibanco. Pagas a dinheiro ou em cheque e vais com sorte. É o progresso das novas tecnologias a todo o vapor empurradas pela estimável modernidade do Dr. Nazaré e dos seus antecessores.
Fui então cordialmente empurrado pela cordial funcionária porta fora para me dirigir à caixa Multibanco mais próxima enxofrado e ainda por cima zurzido pelas diatribes do meu filho que queria à viva força que eu exercesse o direito de protesto no livro de reclamações. Formou-se uma espécie de caravana – com outros infelizes clientes daquela modelar instituição – a caminho da dita caixa Multibanco da qual retirei os 200 euros para pagar em nota batida a dita mercadoria que importava em 195.
Ora no dia de hoje passados sete (7) dias úteis e 11 (onze) “corridos” tive de fazer um contacto telefónico com o fornecedor que curiosamente me informou que tinha acabado de receber a nota de pagamento dos CTT’s o que lhe permitia efectuar o depósito no seu banco e que na melhor das hipóteses demoraria quatro (4) dias a ver a cor do dinheirinho após o chamado processo da compensação.
O pícaro da questão está no facto extraordinário de só passados onze dias (11) após eu ter batido com a nota no dito balcão dos CTT’s o fornecedor ter recebido o documento que lhe permite realizar o depósito o que elevará para quinze dias (15) no mínimo o tempo durante o qual os CTT’s e o sistema financeiro estiveram na posse do dinheirinho destes seus incautos clientes.
Então dá para entender em toda a plenitude a esperteza saloia da administração dos ditos no que respeita à gestão das tecnologias nos processos de pagamento e fluxos financeiros. O negócio dos CTT’s já não é o de levar a “carta a Garcia” mas o do onzeneiro que se entrega a beneficiar de forma ilegítima do alheio resguardando-se certamente na lei e na boa vontade dos cidadãos clientes que assim são obrigados a financiar uma instituição que não sei por que carga de água agregou o prestígio que ostenta.
Ora os meus 195 euros aplicados pelo intermediário espertalhão durante x dias multiplicados por milhares de outras operações do género é um verdadeiro negócio da China. Os CTT’s dizem há muito que vão criar um banco postal. Cuidado! Devia o governo e o Banco de Portugal não largar de mão o assunto e já agora que Deus me perdoe! … Se for possível que se privatizem os CTT’s mas de forma a criar serviços postais em concorrência verdadeira.
domingo, setembro 3
ATENTADO
Atentado contra D. José – 3 de Setembro de 1758 Vieira Lusitano
O início do ano político em 1758 foi duro. Um pequeno contributo para lembrar um fragmento trágico da história política portuguesa.
ROBERT CAPA
Robert Capa – Mort d'un milicienDepois de amanhã passam 70 anos sobre o dia exacto em que Robert Capa [1913-1954] fez, na cobertura da Guerra Civil de Espanha, a fotografia mais conhecida da sua extraordinária obra de fotógrafo.
sábado, setembro 2
ABRANGENTE
Fotografia de AngèleNesta época de despedida de férias o Abrangente honra-me com uma referência de primeira linha. Obrigado. É interessante que os favores do abecedário também colocam o absorto no topo dos seus links. Hoje, de facto, não deu Albert Camus mas pedi a minha mulher, que parte amanhã para Paris, para me trazer os dois primeiros volumes da edição recente das suas Obras Completas.
RESSONÂNCIA POLÍTICA
Marilyn MonroeRessonância, em tom de reflexão política, de 2 de Setembro de 2004 nas vésperas do Congresso do PS. As notícias do presente, ironicamente, parecem sublinhar esta reflexão passada. É interessante como na política a abdicação pode ser uma ideia forte. Não se diga o mesmo da vida.
Hoje Alegre abdica de um combate futuro em nome de uma “vitória” passada. Mário Soares vem a publico revelar que não abdicou de um combate passado porque o não deixaram abdicar. Mas toda a gente entende que, quer um quer outro, já abdicaram, de facto, da política activa deixando livre o palco para Sócrates. The show must go on …
“A fraqueza de Sócrates é a sua força: não tem passado para esquecer, nem futuro para temer.”
“A fraqueza de Sócrates é a sua força: não tem passado para esquecer, nem futuro para temer.”
sexta-feira, setembro 1
EL ZARPAZO DE DIOS
Diego Valverde VillenaDe un zarpazo Dios te muestra el mundo.
Él lo hace así, como jugando,
y te inocula el veneno de la percepción.
Ya toda la belleza se ofrece ante tus ojos
y el amor posible
y la fe necesaria para que hagas milagros.
Tu piel muta y también tus colmillos
y la caza menor te deja insatisfecho.
Dios con su zarpazo te ha hecho de los suyos
y estás absoluta, tremendamente solo.
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DIEGO VALVERDE VILLENA (Lima, 1967)
Licenciado en Filología Hispánica, Filología Inglesa y Filología Alemana. Ha realizado estudios de especialización en Lengua y Literatura en las universidades de Edimburgo, Dublín, Wroclaw y Salamanca, y estudios de Doctorado en Literatura Medieval en las universidades de Oxford, Heidelberg, Tubinga, Chicago y Complutense de Madrid.
Ha sido profesor de literatura en diversas universidades de Europa y América. Colabora habitualmente con numerosas revistas literarias españolas e hispanoamericanas, y también con instituciones como el Instituto Cervantes, la Agencia Española de Cooperación Internacional, la Casa de América y la Residencia de Estudiantes.
Ha traducido, entre otros, a Arthur Conan Doyle, Rudyard Kipling, George Herbert, Nuno Judice y Paul Éluard, y ha llevado a cabo ediciones críticas de la poesía de Álvaro Mutis y de Luis Alberto de Cuenca.
Ha publicado los poemarios El difícil ejercicio del olvido (1997), Chicago West Barry 628 (2000), No olvides mi rostro (2001), Infierno del enamorado (2002) y El espejo que lleva mi nombre escrito (2006), y han aparecido poemas suyos en antologías y revistas de Europa, América y Asia. En su vertiente de ensayista ha prestado especial atención a Borges, Álvaro Mutis, la literatura medieval y la literatura comparada.
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[Quase dois anos passados sobre a publicação do poema Libros, Diego Valverde Villena acaba de me enviar um poema inédito que publico com uma pequena biografia do autor. A colaboração, que muito me honra, realiza-se a meu pedido e o atraso na correspondência é de minha responsabilidade. Os meus agradecimentos.]
quinta-feira, agosto 31
"BLOG DAY"
O “Catatau” incluiu o absorto na sua lista de preferidos a propósito do “dia do blog” – “blog day”, que se cumpriu hoje. Obrigado. Ao interagir conhecemo-nos mesmo sem nunca nos termos ”conhecido”. A blogosfera é uma comunidade com as suas regras próprias. Uma rede com virtualidades comunicacionais aparentemente ilimitadas. É o futuro que nos ultrapassa a cada momento. É o confronto brutal com a realidade da nossa própria ignorância. É o utensílio de trabalho. É a carta com a palavra. A grafonola com a música. O telegrama com a frase. A TV com a imagem. O filme com o enredo. Tudo isso, e muito mais, numa fusão de meios e de sinais que já mudaram a vida da comunidade mesmo quando o fogo da mudança arde e não se sente.
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