sexta-feira, fevereiro 25

Cesário Verde


Cesário Verde (Aniversário)

Trabalho acerca do poeta no "Público".

O Livro de Cesário Verde (Primeira Edição)


O SENTIMENTO DE UM OCIDENTAL
(Fragmento)

I

AVE-MARIAS

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba-me;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, Sampetersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga, os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos,
Embrenho-me a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinido de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!


(Versão integral no ir ao fundo e voltar)

quinta-feira, fevereiro 24

A Dignidade Não Tem Preço

A direita já começou a entender alguma coisa do que aconteceu no passado dia 20. Mas o discurso da derrota é arrogante e contristado. Vai demorar muito tempo até que retire todas as consequências das políticas que realizou. E que “realize” os erros e as injustiças que, de forma consciente, cometeu.

Não falo de números, mas de pessoas. Um país não é um “grande número” resultante do somatório de cifras, taxas, pessoas, grupos, empresas, corporações, comentadores, amigos, conhecidos e quejandos.

É uma comunidade integrada, com passado e tradição, cidadãos e famílias, iniciativa e trabalho, alegrias e dores, humores e aflições, necessidades e desejos.

A dignidade não tem preço e, em democracia, a comunidade não perdoa a indignidade de quem governa.

José Afonso - 3

Há uns anos atrás, num bar, talvez em Madrid, reconheci Luís Pastor que pensava nunca mais vir a reencontrar. Dirigi-me a ele, dei-me a conhecer, e descrevi-lhe brevemente as circunstâncias do nosso primeiro encontro. Logo me reconheceu e reviveu as memórias desse momento descrevendo-o com detalhe e emoção.

Tinha sido um concerto em Serpa, em cuja organização devo ter participado, em que Luís Pastor acompanhou José Afonso.

Foi uma daquelas intervenções loucas dos tempos da revolução. José Afonso evocou-as, com orgulho, agora mesmo, no memorável concerto do Coliseu, de 1983, que a “RTP Memória” acaba de passar.

Que voz extraordinária também a de Luís Pastor felizmente, pelo que vejo, em plena actividade.

quarta-feira, fevereiro 23

"Contra a clorofila"



“A aridez desdobrada em cimento, pavimentos estéreis, fumegantes, como as avenidas novas que sobem da beira-rio para as estradas do norte e o aeroporto, cerros nus, talhados sobre as faixas de rodagem, a monstruosa ossatura das fábricas à mostra, quantidades colossais de gases num labirinto canalizado para o alto, e lá em cima a chama, a nuvem tóxica, que de quando em quando o vento espalha pela cidade. Vindo da lua, o cosmonauta diz que poluir o ar e as águas da terra é um crime inominável. Diz, depois de atravessar no seu escafandro o céu dum astro sem ar nem água: dêem-me a terra, é tudo o que desejo. E entretanto os empreiteiros, os lunificadores e os seus operários trabalham nesta praça, aplicadamente, contra a clorofila.”

“O Aprendiz de Feiticeiro” – Carlos de Oliveira
Fragmentos (Gás) – pág. 17, 18 e 19 (3 de 6)

Foto de Helder Gonçalves

José Afonso - 2

Grândola Vila Morena - ouça aqui.

Ainda Durão e Itália

No “Diário de Lisboa”
Os novos desenvolvimentos da fúria dos italianos.

José Afonso

O Almocreve das Petas ajudou-me a não esquecer o aniversário da morte de José Afonso. Tantas vezes o encontrei, muitas vezes, com a sua mulher – Zélia - em plena pujança de homem e artista ou já no tempo da sua doença.

José Afonso é um dos pilares mais vigorosos na formação cívica, estética e política da geração que fez a revolução de Abril.

Um homem vertical. Um grande poeta. Um músico de talento. Um extraordinário interprete.

Honra à sua memória.

Cantigas Do Maio
(Eu Fui Ver A Minha Amada)

Eu fui ver a minha amada
lá prós lados dum jardim
dei-lhe uma rosa encarnada
para se lembrar de mim

Eu fui ver o meu benzinho
lá prós lados dum paçal
dei-lhe o meu lenço de linho
que é do mais fino bragal

Minha mãe quando eu morrera
ai chore por quem muito amargou
para então dizer ao mundo
ai Deus mo deu ai Deus mo levou

Eu fui ver uma donzela
numa barquinha a dormir
dei-lhe uma colcha de seda
para nela se cobrir

Eu fui ver uma solteira
numa salinha a fiar
dei-lhe uma rosa vermelha
para de mim se encantar

Minha mãe quando eu morrer ...

Eu fui ver a minha amada
lä nos campos eu fui ver
dei-lhe uma rosa encarnada
para de mim se prender

Verdes prados verdes campos
onde está minha paixão
as andorinhas não param
umas voltam outras não

Minha mãe quando eu morrer...

PSD muda rápido

É assinalável a rapidez do processo de sucessão de Santana Lopes. Marques Mendes abre o caminho para Cavaco Silva avançar. É o mais importante episódio dos próximos capítulos da travessia do deserto do PSD.

Frank O´Hara



Poem (Lana Turner has collapsed!)

Lana Turner has collapsed!
I was trotting along and suddenly
it started raining and snowing
and you said it was hailing
but hailing hits you on the head
hard so it was really snowing and
raining and I was in such a hurry
to meet you but the traffic
was acting exactly like the sky
and suddenly I see a headline
LANA TURNER HAS COLLAPSED!
there is no snow in Hollywood
there is no rain in California
I have been to lots of parties
and acted perfectly disgraceful
but I never actually collapsed
oh Lana Turner we love you get up

1962


Poema

Lana Turner desmaiou!
Eu deambulava e de repente
começou a chover e a nevar
e tu disseste que caía granizo
mas o granizo acerta na cabeça
com força por isso estava a nevar
e a chover e eu tinha tanta pressa
ia ao teu encontro mas o tráfego
comportava-se exactamente como o céu
e subitamente vi um cabeçalho
LANA TURNER DESMAIOU!
não há neve em Hollywood
não há chuva na Califórnia
eu estive numa data de festas
e portei-me de forma desgraçada
mas nunca tive um desmaio
oh Lana Turner amamos-te levanta-te

Frank O'Hara

In “Vinte e Cinco Poemas à Hora do Almoço”
Assiro & Alvim
Tradução de José Alberto Oliveira

Fotografia de Helder Gonçalves (Nova York - Outubro de 2004)

terça-feira, fevereiro 22

"Matadores Furtivos"

“Não, não sou vegetalista, quer dizer, não sou nenhum exacerbado idólatra do bucolismo. Venho de famílias arenosas (pântanos, pinheiros, dunas), gente por assim dizer alimentada a cerne, avós carpinteiros de soalhos, pranchas, móveis trabalhados, grandes plantadores e lavrantes de madeira. Mas isso é outra coisa. Aqui, na pequena praça circular, a uma hora indecisa (falaremos um dia da forma como Lisboa anoitece no verão), os operários com os seus motores eléctricos ou de combustão levam a cabo uma tarefa de matadores furtivos, que ninguém sentiria se as máquinas fossem um pouco mais silenciosas.

James Joyce, “Ulisses”:
- Tão desmatados quanto Portugal estaremos em breve – fala Jonh Wyse – ou como a Heligolândia com a sua árvore única, se alguma coisa não se fizer para reflorestar a terra.”

“O Aprendiz de Feiticeiro” – Carlos de Oliveira
Fragmentos (Gás) – pág. 17, 18 e 19 (2 de 6)

Notícias de Fora

Decisão de Durão irrita Itália no “Diário de Lisboa”

Sondagens - Balanço Final

Pedro Magalhães no blog margens de erro faz um balanço acerca da fiabilidade das sondagens realizadas para as eleições legislativas de 20 de Fevereiro. Muito interessante.

Veja aqui o Rescaldo da "mega-fraude"

segunda-feira, fevereiro 21

Uma Questão de Decência


Uma imagem nostálgica dedicada a todos aqueles que ainda olham os resultados das eleições de ontem com escândalo: "a esquerda não tinha morrido?" ou "a esquerda nunca mudará"? Ou, pior, com gritinhos vindos das bandas do PP: "Estamos entregues aos bichos!".

Definitivamente muita gente de direita não entendeu nada do que se passou nestes três últimos anos: faltou decência, estúpidos! Bebam qualquer coisa para acalmar e esperem pelos erros do PS. Depois poderão dizer: "Os méritos próprios não contaram em nada para a nossa vitória, mas tão só os deméritos do adversário".

Mas, desta vez, parece-me que vão ter de esperar sentados uns largos anos!

(Inspirado nos comentários publicados no Abrupto a partir de uma reflexão séria de Pacheco Pereira).

Foto de Helder Gonçalves - Buenos Aires - 2003

A Ler

“Uma Trepa Histórica”, no almocreve das petas

Gás

“O arboricídio floresce (se me permitem a expressão). Algures, em misteriosos gabinetes. Surge nas pranchetas, nos estiradores, escorre da ponta gelada dos compassos, organiza-se a partir das réguas, dos esquadros. O papel deserto, a alma lunar dos urbanistas. Transmitida a sentença de morte às serras mecânicas, aos camiões de lixo que servem para transportar os troncos e os ramos decepados, a operação decorre ao anoitecer com a rapidez dum comando em acção. De modo que descemos, Gelnaa e eu, do nosso sexto andar para assistir ao derrube das árvores da praça.”

“O Aprendiz de Feiticeiro” – Carlos de Oliveira
Fragmentos (Gás) – pág. 17, 18 e 19 (1 de 6)

Vitórias e Derrotas

A deambulação pela noite eleitoral, com o meu filho, foi registada pela TVI. Uns segundos em directo na TV têm uma força inimaginável. Os sinais de ter sido visto emanam como um relâmpago na noite escura. Coisas de um novo “espaço público”.

Afinal brandir uma bandeira na rua é uma tradição que vem de longe. Seja festivo, seja de revolta é um acto próprio de uma cidadania activa.

Mais difícil foi brandir a bandeira do PS, partido vencido em 2002 (Ferro Rodrigues), doloroso em 1991 (Jorge Sampaio), dramático em 1985 (Almeida Santos) e romântico em 1987 (Vítor Constâncio).

Convém não esquecer: desde o 25 de Abril as vitórias, para o PS, são intervalos entre derrotas. As derrotas, para o PSD, são intervalos entre vitórias.

A Celebração da Vitória

Estive a celebrar a vitória do PS na rua, do lado de fora, o melhor sítio para sentir o pulsar do sentimento popular. As eleições ganharam racionalidade. A festa espontânea perdeu viço. A encenação da festa recobre o espaço onde antes ardiam as emoções. Tudo é diferente. Não é pelo facto de ter sido o PS a ganhar. É porque já ninguém acredita nos milagres da política para resolver os reais problemas do país. E muito menos para resolver os problemas individuais de cada um de nós. Valeu desta vez a saída à rua para iniciar o meu filho no exercício dos festejos políticos. Ele saberá, mais tarde, saborear o real valor desta saída à rua.

domingo, fevereiro 20

Vitória do PS - breves notas

O PS via obter hoje a sua maior votação de sempre. Entre os 46 e os 50% . Uma maioria absoluta para governar sozinho.

A esquerda, no seu conjunto, obterá cerca de 2/3 dos votos. O PSD terá um dos seus piores resultados de sempre. O PP sairá pela porta pequena e o BE passa a existir politicamente.

O PR provou que tinha razão ao decidir-se pela dissolução do parlamento.

Finalmente a direita deverá ter aprendido que o povo não dorme. Desde o discurso da “tanga”, ao da “pesada herança”, do desprezo pela opinião pública, ao favorecimento de interesses obscuros, do silenciamento das vozes críticas às campanhas persecutórias, visando a destruição pessoal e política de dirigentes da oposição e da administração pública.

Nada esqueceu, nem esquecerá. Associo a minha voz à voz da maioria do povo português. Esta é, no essencial, uma vitória do povo. Sinto-me feliz pela derrota de José Manuel Barroso e Santana Lopes, de Paulo Portas e Bagão Félix.

Uma nota pessoal: hoje, 20 de Fevereiro, seria o último dia do meu mandato como Presidente do INATEL, função da qual fui exonerado, por pura perseguição política, por Bagão Félix. Ora, neste dia exacto o povo português, de forma democrática, mas implacável e clarividente, exonerou Bagão Félix. Espero que para sempre.

Veja a evolução da contagem dos votos aqui.

Ainda Antes

A abstenção vai baixar. Às 16 horas quase 51% dos eleitores tinha votado. Em 2002, à mesma hora, 45,8%. Nos resultados finais a abstenção, nestas eleições, vai baixar 5% ou mais.

Afinal os portugueses estão mais participativos do que poderia parecer. O mais provável é que o PS beneficie com este fenómeno. Às 20 horas vamos ter a confirmação.

Ver aqui.

Bons Ventos - actualizado

A abstenção vai baixar. A democracia vai ganhar.

"Cerca de 22 por cento dos eleitores votaram até ao meio-dia
Nas últimas legislativas, a 17 de Março de 2002, a afluência às urnas registada até ao meio-dia era de 18 por cento."

Às 16 horas tinham votado 50,88% dos eleitores; nas eleições de 2002, à mesma hora, 45,8%. Seja qual for o resultado final a afluência às urnas será sempre, nestas eleições, pelo menos, 5% superior.

Para acompanhar os resultados ver aqui.

À espera


Fragmento de "Mulheres do Taiti (Na Praia)" - 1891
Paul Gauguin (1848-1903)

Sondagens

Se quiserem saber o que pensa Pedro Magalhães acerca de sondagens vejam o “margens de erro”.

Destaco:

“Três certezas a 99,9% (como quem diz)”

1. O PS ganha;
2. PSD e CDS-PP não fazem maioria;
3. Subida forte do BE em relação a 2002;
4. Se não tiver maioria absoluta, PS necessita apenas de um parceiro à esquerda para a formar."

"O Aprendiz de Feiticeiro"


Carlos de Oliveira

Em breve os últimos seis fragmentos
da narrativa intitulada "Gás" inserta
no meu livro artesanal criado a partir
de "O Aprendiz de Feiticeiro",
de Carlos de Oliveira, "publicado"
no verão de 1981.

sábado, fevereiro 19

A Partir de Amanhã



Como hoje é dia de reflexão decidi reflectir. Serão uma série de textos relativamente longos. Acerca de temas que têm incidência na governação “a partir de amanhã”. Uns mais estruturados, resultantes de estudo prévio, outros mais especulativos, provindos de ideias e experiências concretas. Publicados espaçadamente.

Deles fixarei aqui as primeiras linhas. O primeiro versa sobre o desemprego. Pode ser lido, na íntegra, no ir ao fundo e voltar.

Desemprego é uma palavra pesada. Na linguagem dos liberais já devia ter sido riscada do dicionário. Ela arrasta a ideia de emprego. Talvez tenha, para os liberais, a desprezível ressonância de “emprego para toda a vida”. A ideia de constância e não de temporalidade. A ideia de permanência e não de ocasião. O presságio de uma realidade que se afasta da ideia de trabalho temporário. O fantasma da rigidez dos custos e da não flexibilidade. A imagem da instalação fabril, associada a um espaço físico e comunitário, a não-deslocalização. Quando, no fundo, o que interessa é o trabalho! Mas não existe a palavra destrabalho. Nunca se diz de alguém que “ficou no destrabalho”.

Causas



A campanha eleitoral acabou. Já vi muitas. Esta pode ser a da primeira vitória absoluta do PS. Um dia teria de acontecer. Este seria o momento certo. Mas se não acontecer basta que o PS ganhe. Essa vitória destrói a coligação de direita. Restitui a decência à política portuguesa. Mostra que a maioria dos portugueses entendeu que a extrema-direita estava no coração do poder. E que a maioria quer ter um governo livre da extrema-direita. Reparei que o BE encerrou a campanha pedindo o voto da esquerda para retirar a maioria absoluta ao PS. Acho que não interessa nada ao país substituir a extrema-direita pela extrema-esquerda. São estas as palavras exactas que quero empregar. Os discursos “beatos” dos líderes do PP e do BE simulam uma "postura de estado", a concórdia nacional, o afecto pelos pobres e desfavorecidos, mas ocultam ideologias e programas fanáticos próprios das velhas autocracias. O PS, como sempre, continua a ser a esquerda possível. Capaz de vencer eleições e constituir governos aceitáveis pela maioria da opinião pública. É pouco? É muito? É o que é! Não é a chamada “esquerda das causas” mas a “esquerda dos compromissos”. Os compromissos que viabilizam as causas, pois as causas impostas sem compromissos são o princípio da barbárie. É preciso conhecer um pouco de história para perceber esta diferença essencial. Em 1979 deixei de votar na “esquerda das causas”, na qual militei, porque percebi que as causas não são propriedade da esquerda. As verdadeiras “causas” pelas quais vale a pena lutar são património dos democratas que estão presentes em todos os quadrantes políticos, ideológicos e partidários. Essas causas resumem-se em dois palavras simples: liberdade e justiça.

Foto de Helder Gonçalves - Chile

sexta-feira, fevereiro 18

Caos no Fisco

O Dr. Bagão Félix do alto da sua incomensurável competência técnica, sentido de justiça e capacidade de gestão política vai deixar a informática dos serviços fiscais no caos. Isto é mesmo verdade!

Sondagens: O Inferno Para a Direita

Hoje é um dia infernal para a direita. Todas as sondagens apontam para a vitória do PS nas eleições de domingo.

A única dúvida que persiste é a de saber se o PS chega à maioria absoluta. Salvo a sondagem do Expresso todas dão a maioria absoluta como adquirida.

Acho difícil que todas se enganem ao mesmo tempo. Mas esta unanimidade pode gerar um efeito perverso e resultar numa desmobilização prejudicial ao PS.

Aqui fica a sondagem que faltava: a do Correio da Manhã.

quinta-feira, fevereiro 17

Últimas Sondagens

Nem sempre tem acontecido mas, desta vez, verifica-se uma curiosa coincidência nas previsões dos resultados eleitorais das últimas sondagens.

Hoje a sondagem publicada pelo Público dá a maioria absoluta ao PS e a publicada pela TVI segue a mesma tendência

A do Diário deNotícias/TSF confirma a maioria absoluta do PS e uma muito fraca votação no PSD

Por sua vez a da SIC/Expresso/RR não desmente aquela tendência moderando a sua evidência.

Sondagem da Universidade católica publicada pelo Público:

"Em que partido tenciona votar para as próximas eleições legislativas (para a Assembleia da República)?

Intenção directa de voto/resultados brutos:

PS: 34 %
PSD: 22%
BE: 5%
CDS-PP: 4%
CDU: 3%
Outros: 1%
Não vai votar: 12%
Ainda não sabe: 14%
Não responde/brancos/nulos: 5%

Estimativa de resultados eleitorais:

(Obtida calculando a percentagem das intenções directas de voto em cada partido em relação ao total de votos válidos [excluindo abstenção e indecisos]. Estas estimativas reflectem o peso relativo que cada círculo eleitoral tem para os resultados nacionais, e têm valor meramente indicativo, dado que diferentes métodos de estimação poderão gerar resultados diferentes)

PS: 46% (118-124 deputados)
PSD: 31% (80-84)
CDU: 7% (8-12)
BE: 7% (8-12)
CDS-PP: 6% (6-10)
Outros: 1% (0)
Brancos/nulos: 2%

A grande vitória política da direita está reduzida, a partir de agora, a perder sem que o PS consiga alcançar a maioria absoluta. Interessante!

Eu Voto PS

Eu voto PS. O meu voto, no próximo domingo, não vai falhar como nunca falhou. Não vai mudar como nunca mudou.

Até 1979 votei MES e, a partir desse ano, sempre votei no PS. Aliás em 1979 o MES, antes ainda da sua original imolação político/festiva, aconselhou, expressamente, o voto no PS ou na APU. O meu voto, desde esse apelo, nunca sofreu qualquer desvio em eleições legislativas e presidenciais.

Alguns dos meus amigos alinharam nas “aventuras” de Pintassilgo ou de Zenha, do PRD ou UEDS, mas eu sempre votei no PS. É um voto pela liberdade e pela justiça. Não somente pelas utopias que nos alimentam os sonhos por uma vida e um mundo melhores, mas também pela defesa da concretização possível desses sonhos.

É uma opção tomada em consciência, formada através de muitas experiências, que deram para compreender que os valores supremos a defender pelo voto são a justiça e a liberdade. E o partido que melhor assegura a defesa desses valores, no nosso tempo, é o PS.

"Pensar noutra mulher, noutro romance."



“Horas depois, continuo em frente da janela. Na rua há um pouco de vento e a lâmpada balança, desnivela os telhados, desequilibra as paredes. Não consigo saber se os prédios pombalinos na realidade oscilam ou se a impressão me vem da vidraça embaciada que fechei quando Luciana desapareceu. Deixou de chover (inexplicavelmente aliás) e o luar surgiu, as estrelas também. Para quê, tão tarde?

Apesar deste tom de elegia a vida continua, não é verdade? Tenho de esquecer Luciana e o romance. Pensar noutra mulher, noutro romance.”

“O Aprendiz de Feiticeiro” – Carlos de Oliveira
Fragmentos (Chuva) – pág. 15, 16 e 17 (6 de 6)

Fotografia de Helder Gonçalves

As Últimas Revelações

Santana Lopes atribui aumento do desemprego à dissolução do Parlamento

quarta-feira, fevereiro 16

Serra da Estrela

O Nuno foi à neve na Serra da Estrela. E aconteceu o inevitável. Querer fazer da Serra da Estrela um destino turístico de neve, quase sem neve!...

"Desatou a Chover"



“ O tempo que demorou a descrição gastámo-lo nós a chegar. Exactamente o mesmo tempo. E então, as gotas esparsas engrossaram, precipitaram-se umas atrás das outras. Desatou a chover. Não confessei ainda que a chuva me fascina, mas é verdade. Desde a infância, quando dobrava as costas contra o peitoril da janela e deixava a água alagar-me a cara ou a bebia com todo o vagar, de olhos fechados. Foi essa mania inocente que perdeu Luciana. Abri a janela, estendi-me para fora e a chuva passou por mim à pressa escorregando-me no rosto, entrou no quarto, caiu como quis nas poucas folhas do rascunho poisadas sobre a mesa diante da vidraça aberta, dissolveu o perfil de Luciana ainda mal esboçado, apagou-lhe a voz rouca, desfez-lhe o cabelo azul, sumiu-a, sem eu dar por nada. Com que facilidade desaparecem as mulheres, as palavras, numa simples mancha de água e tinta. Frágeis, como a cor dos telhados ou a chama dum grão de areia que a chuva apaga.”

“O Aprendiz de Feiticeiro” – Carlos de Oliveira
Fragmentos (Chuva) – pág. 15, 16 e 17 (5 de 6)

Fotografia de Helder Gonçalves

Debate 4/5

Digam as simpatias que quiserem Jerónimo de Sousa não podia falhar, e falhou. Tinha que falar, não falou. Logo tinha a seu lado um concorrente directo, Louçã, falante de primeira, que não falhou.

O seu silêncio forçado assume o simbolismo da morte do PCP. Ou, pelo menos, o seu apagamento e, de certeza, um forte sinal de fraqueza. Em televisão, naquelas circunstâncias, é uma fatalidade cruel um líder ter de abandonar o palco. Só com Santana não teria a mesma importância. Porque simbolicamente Santana já o abandonou.

O episódio, certamente, não representa a morte do PCP, mas a representação da autenticidade pessoal de um líder em política tem limites. O BE ficou a ocupar o espaço do PCP. Surgiu, naquele momento, em cena, o que é o desenho político que muitos adivinham para o futuro. O BE ocupando todo o espaço da esquerda além do PS. Este acontecimento vai ter consequências eleitorais e políticas para o futuro próximo.

O resto foi conforme as expectativas salvo a declaração final de Portas que esteve fora do seu registo habitual. Inseguro. Nervoso. Desarticulado. Algo inexplicável.

terça-feira, fevereiro 15

A Carta de Santana

Não acreditei no que estava a ler mas depois fui confirmar e era verdade. O País Relativo divulga a carta de Santana Lopes aos eleitores.

Ela aqui está, na íntegra, para vergonha de todos nós e, em particular, dos eleitores social-democratas.

"Caro(a) Amigo(a),

Não pare de ler esta carta. Se o fizer, fará o mesmo que o Presidente da República fez a Portugal, ao interromper um conjunto de medidas que beneficiavam os portugueses e as portuguesas.

Portugal precisa do seu voto para fazer justiça. Só com o seu voto será possível prosseguir as políticas que favorecem os que menos ganham e que exigem mais dos que mais têm e mais recebem. Você não costuma votar, e não é por acaso. Afastou-se pelas mesmas razões que eles nos querem afastar.

E quem são eles? Alguns poderosos a quem interessa que tudo fique na mesma. Incluindo a velha maneira de fazer política. Eles acham que eu sou de fora do sistema que eles querem manter. Já pensou bem nisso? Provavelmente nós temos algo em comum: não nos damos bem com este sistema.

Tenho defeitos como todos os seres humanos, mas conhece algum político em Portugal que eles Tratem tão mal como a mim? Também o tratam mal a si. Já somos vários. Ajude-me a fazer-lhes frente. Desta vez, venha votar.

É um favor que lhe peço! Por todos nós,

Pedro Santana Lopes"

"As Primeiras Gotas"



“Entretanto caem as primeiras gotas. Luciana obriga-me a regressar. Quando a chuva chega o costume é um mês inteiro de água.
O rio pouco denso ganha dia a dia corpo, galga bruscamente as margens, rolam na espuma a fruta podre, os bichos arrancados às tocas, a lenha dos madeireiros, as árvores mais fracas a que a torrente mina o chão (a estabilidade). Nos caminhos barrentos, lutando contra o enxurro, os pastores e o gado voltam à serra. A cidade baixa fica inundada, há canoas nas vielas do Terreiro da Erva, esta Veneza de prostitutas ordenadas numa hierarquia instável, onde se começa quase sempre pelo alto da tabela: casas de cem, cinquenta, vinte e dez mil reis. A cheia bate no portal de Santa Cruz, torna a bater, invade a igreja, submerge o túmulo de Afonso o Fundador. E por fim, em torno das colinas enregeladas, há só um lago enorme com choupos, cegonhas, o frémito do frio.”

“O Aprendiz de Feiticeiro” – Carlos de Oliveira
Fragmentos – (Chuva) pág. 15, 16 e 17 (4 de 6)

Fotografia de Helder Gonçalves

Votar: Um Bem Essencial

Gostei desta notícia do Compromisso Portugal. Muitos vacilam no momento da decisão. Estes doutos empresários não. Ao menos deram-se ao trabalho de cotejar programas. Dar-lhes crédito. Encontram neles confluência de propósitos.

Valorizam a maioria absoluta. Absoluta, ou seja, que suplanta o somatório de todas as minorias juntas. Mas que as não elimina nem apaga a luz da liberdade. Em democracia as eleições são a batalha rainha. Os seus resultados são sagrados. Votando escolhemos.

Devíamos sentir orgulho na democracia portuguesa. Que nos deu essa extraordinária oportunidade de escolher. Liberdade de escolher, quase limpa de atropelos e violências. E digo quase porque a pureza, em si mesma, não existe. Passaram mais de 30 anos e as escolhas, em democracia, sucedem-se. Ainda bem. Antes assim que a tentação da tirania.

Outra coisa são os detalhes.

De hoje até domingo decidem-se detalhes. Muitos reclinam-se no voto de protesto, seja branco ou colorido ou, em alternativa, ausentam-se justificando a abstenção pela descrença nas alternativas partidárias. É o juízo final dos que olham o poder à imagem da realidade ideal que não existe. Nem na sociedade nem na vida de cada um de nós.

Os que exigem ao sistema político democrático a perfeição são os mesmos que a não exigem a nenhum outro sistema, nem ao seu próprio sistema individual de comportamento. Todos sabemos que é assim. É um detalhe mas que não põe em causa o essencial: a participação cívica da maioria dos portugueses nas eleições.

Se para uma minoria de iluminados votar é um bem supérfluo para a maioria dos portugueses votar é um bem essencial.


segunda-feira, fevereiro 14

Sigamos o Cherne

No domingo passado comprei um livro. “Quinze Poetas Portugueses do Século XX”, com selecção e prefácio de Gastão Cruz. Não sei se ainda me falta publicar ao menos um poema de cada um deles no Absorto. Talvez um ou dois.

Mas achei curioso que a série de poemas de autoria de Alexandre O´Neill (1924-1986) abra com um de que falou muito nas eleições legislativas de 2002.

Leiam-no agora a esta distância respeitável e da leitura retirem as lições que vos apetecer.

SIGAMOS O CHERNE

(Depois de ver o filme “O Mundo do Silêncio” de Jacques-Yves Cousteau)

Sigamos o cherne, minha Amiga!
Desçamos ao fundo do desejo
Atrás de muito mais que a fantasia
E aceitemos, até, do cherne um beijo,
Senão já com amor, com alegria…

Em cada um de nós circula o cherne,
Quase sempre mentido e olvidado.
Em água silenciosa de passado
Circula o cherne: traído
Peixe recalcado…

Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,
Já morto, boiar ao lume de água,
Nos olhos rasos de água,
Quando, mentido o cherne a vida inteira,
Não somos mais que solidão e mágoa…

Nomeações Sempre...

Os Estados da Nação revelam mais algumas…

Retrato


Cezanne - Retratto di Donna con Conffettiera

Os abutres

Morte da irmã Lúcia: D. Manuel Martins critica cancelamento da campanha eleitoral

A Morte da Irmã Lúcia e a Campanha Eleitoral

A exploração da morte para fins eleitorais é o fim do caminho. A morte de alguém é um acontecimento que deve ser respeitado. Que não deve ser aproveitada para fins egoístas.

Santana Lopes logo no anúncio da suspensão da campanha eleitoral do PSD, em Cabeceiras de Basto, aproveitou para fazer campanha. Foi recebido com algazarra quando todos os presentes já sabiam ao que ía. Fez um discurso quando se devia ter recolhido.

Diz que se vai remeter, 2ª e 3ª feira, á função de primeiro-ministro mas admite “algumas acções (de campanha) que não impliquem festa”. O CDS/PP anuncia uma posição semelhante. Se o luto de Santana e Portas (e dos respectivos partidos) pela morte da Irmã Lúcia fosse autêntico o seu silêncio não se faria ouvir. Seria um silêncio absoluto.

Mas o próprio anúncio do seu luto foi um acto de campanha. Eles sabem que a morte da Irmã Lúcia não pode, na prática, interromper a campanha. Torná-la-á, porventura, ainda mais ignóbil. Esperemos para ver como vão decorrer as exéquias, quais as orientações da hierarquia da Igreja, quais as presenças oficiais e oficiosas nas cerimónias, qual a cobertura das televisões, quais as palavras proferidas e quem as profere.

Este é um assunto de Estado. Haja decência. O Senhor Presidente da República não pode ficar a assistir impávido e sereno a uma segunda edição do que se passou na 2ª e 3ª feira da semana passada. Também aí Santana Lopes anunciou que não fazia campanha e, envergando o fato de primeiro ministro, praticou o seu contrário. Mas, desta vez, o caso é muito mais sério.

Por maioria de razão todos devemos seguir com muita atenção os acontecimentos destes dias.

"PSD e CDS suspendem campanha
O PSD e o CDS suspenderam as acções de campanha para segunda e terça-feira devido à morte, este domingo, de Irmã Lúcia. O PSD admite, no entanto, cumprir algumas acções que não impliquem «festa».

domingo, fevereiro 13

Reflexão Política a Prazo


Após a dramatização dos apelos à maioria absoluta do PS,
que também desejo, eis a provável imagem de Sócrates
vencedor, sem maioria absoluta, após a noite de 20 de Fevereiro.

Finalmente...

"CDS sonha ser «a primeira força política em Portugal»
Telmo Correia fez uma afirmação que há muito esperava ouvir: o CDS/PP quer conquistar o poder. Legítimo em democracia, megalómano para o CDS/PP, perigoso para o país. Mas alguma vez tinha que ser dito!

Humberto Delgado

Humberto Delgado – Em Memória

Para alguns será estranho que haja quem tenha necessidade de participar, intervir, comunicar. Para muitos, entre nós, sempre existe a tentação de associar a ocupação de um pequeno ponto do “espaço público” com a ideia de querer obter vantagens ilegítimas.

Lembro-me, no tempo da ditadura, de um escaparate, embutido numa parede, em Faro, onde era afixado, todos os dias, o jornal República. Aqueles que o afixavam queriam o quê? Ocupar o poder? Dar nas vistas?

Lembro-me da epopeia do General Humberto Delgado que se ofereceu em sacrifício para resgatar Portugal da ditadura. Que quereria ele? Mostrar a sua vaidade? O poder pelo poder?

Contou-me uma amiga, que acerca dele fez uma pesquisa, que Delgado, na clandestinidade, esteve alojado num quarto no Porto, frente a uma esquadra de polícia. E que se barbeava com o olhar nela poisado podendo, com facilidade, ser visto. Sempre com a farda de general pronta a ser envergada em caso de necessidade.

Os seus detractores diziam (e dizem) que era doido! Mas nas eleições presidenciais de1958, desafiou de frente a ditadura, arrebatou multidões, perdeu (roubado) nas urnas, deu um exemplo de coragem.

Coragem, isso mesmo, sabem o que é? Em 1965, neste dia exacto, 13 de Fevereiro, foi assassinado pela PIDE.

O que leva os homens a rebelar-se contra a injustiça? Em dar a vida pela liberdade?

Ainda "Saraband"



“Esse vento singular que corre sempre à borda da floresta. Curioso ideal do homem: no próprio seio da natureza, possuir uma casa."

A. Camus, in "Cadernos"

(Republicado com uma ilustração de meu filho, aos 12 anos, dedicada à mãe.)

sábado, fevereiro 12

"Diários de Motocicleta"


Ver este filme deu-me um enorme prazer.
Não se explicam certas coisas da alma, não é?
Já antes escrevi acerca dele.
Os grandes filmes só o são para quem os vê
e deles gosta. Mas este prémio é uma grande
notícia para o cinema brasileiro.

Melhor Filme Estrangeiro para «Diários de Motocicleta»
«Diários de motocicleta», do brasileiro Walter Salles,
recebeu hoje, em Londres, dois BAFTA, os prémios
do cinema britânico comparados aos Oscar de Hollywood.
A película conta a viagem que Che Guevera fez,
quando era jovem, pela América latina."

"O que será (À flor da pele)"



"O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo"

Chico Buarque

(in Pentimento)

É o Vale Tudo Final

Até dia 20 vão suceder-se os ataques sujos ao PS e ao seu líder. Apetece-me sempre recordar o que aconteceu com a liderança de Ferro. Espero que a queda da direita do governo ajude a desvendar esse mistério.

Seja qual for o líder do PS, o seu perfil pessoal e méritos políticos, surgem sempre ataques cirúrgicos, através de notícias "encomendadas", em momentos certos, com objectivos determinados.

No caso de Sócrates surgiram os boatos acerca da sua vida privada (incluindo vandalização, em curso, de cartazes de rua), agora acusações de “envolvimento em negócios”, “favorecimentos”, “enriquecimento sem causa” e sabe-se lá mais o quê ...

Na última semana de campanha eleitoral tudo se pode esperar. É o vale tudo final.

"Chamo-lhe desespero"


“Caminhamos entre os plátanos do parque. Inesperadamente,
mas da maneira habitual, insidiosa, começo a sentir o desespero
que me provoca a presença das mulheres amadas.
(Emanação, respiração, neblina e aroma, filtro que eu respiro
boca a boca sem me saciar). Chamo-lhe desespero porque
não acho outra palavra mas escrevo-a como se desenhasse
nesta página um pequeno firmamento de estrelas caligráficas:
ternura, língua, fogo, dentes, brevidade. Morde-se a vida,
prova-se apenas um instante e, pior ainda, com a sensação
antecipada de que a morte, duas mortes, estão metidas no caso.
Não me expliquei muito bem. Nem admira. Fantasmas pessoais,
intransmissíveis. E agora reparo: onde eu já vou. Luciana
por enquanto não passa da imagem vaga disto nas três
ou quatro páginas do romance que iniciei anteontem.”

“O Aprendiz de Feiticeiro” – Carlos de Oliveira

Fragmentos (Chuva) – pág. 15, 16 e 17 (3 de 6)

Fotografia de Helder Gonçalves