Deixar uma marca no nosso tempo como se tudo se tivesse passado, sem nada de permeio, a não ser os outros e o que se fez e se não fez no encontro com eles,
Editado por Eduardo Graça
domingo, maio 8
CAPITULAÇÃO
Ver Fotos aqui.
Kapitulation in Berlin-Karlshorst 9. Mai 1945 um 00.16 Uhr: Generalfeldmarschall Wilhelm Keitel unterzeichnet die bedingungslose Kapitulation des Deutschen Reiches.
Capitulação em Berlim – 9 de Maio de 1945 – 00,16 horas. O Marechal Wilhelm Keitel assina a declaração de rendição incondicional do Reich.
A rendição do Reich deu-se a 7 de Maio de 1945; a Guerra terminou, de facto, a 8 e a capitulação ocorreu a 9. São os detalhes cronológicos de um acontecimento verdadeiramente dramático e fundamental para o futuro da vida dos povos, nações e cidadãos da Europa e do todo o mundo. A barbárie tinha cedido perante a luta determinada dos defensores da liberdade e da democracia.
sábado, maio 7
Luiz Pacheco
A entrevista com Luiz Pacheco, no Esplanar, uma peça extraordinária. Chorei a bem chorar, a rir. Libertador.
Deixo, com a devida vénia, alguns extractos:
(…)
“Por exemplo, as giletes que eles dão aqui algumas já barbearam mortos. Tu não fazes ideia... Isto é um armazém de pré-cadaveres, é uma parada de monstros. Há um gajo que não tem uma perna, anda de cadeira de rodas empurrado por um velhinho de 88 anos, há outro que é cego, tem glaucoma, mais a namorada, que é horrorosa, mas como ele não vê também não faz mal... outro tem alzheimer, o sr. Américo, entra aqui, de boné e pijama, dá uma volta pelo quarto, às vezes vai à casa de banho, sai, não repara em ninguém, não diz nada... há outro que é o sr. Vergílio, anda pelos corredores a rir e a assobiar, são dois fantasmas... Há uma que anda aqui a passear de um lado para o outro, diz “ai, ai, ai”, depois vai bater na outra que está sempre sentada na cama, vai lá mexer... não têm mão nela... com estes gajos não se pode estar a discutir, é comprimido, água para o bucho, não vai um vão dois, fica a dormir dois dias seguintes... Isto agora aqui são os últimos dia do condenado. Aqui a lei é morrer devagar. Está uma a morrer ali, ou já morreu, não sei, estou eu a morrer aqui, está outra a morrer ali... A ver quem morre primeiro… “Já foi”, é o que dizem quando alguém morre. Agora já sei o que vão dizer quando eu morrer.”
(…)
“Operado? Nem penses nisso. O que é que eu quero ver com 80 anos? Eu quando vou ali à sala, onde estão os velhos todos, tiro os óculos para ver tudo nublado, para não me ver ao espelho... Aquilo é um pavor! A Isabel da Nóbrega, o Artur Ramos e a Fernanda, cunhada do Manuel Alegre, queriam levar-me a Coimbra para ser operado as cataratas. Não quero. Eu é que sei. Isso é suicidário. Quando eu quiser morrer vou a Coimbra. Depois levaram-me a um oftalmologista na Av. da Liberdade. Diagnosticaram-me as cataratas. Tive que largar 1000 paus para umas gotas. Não servem de nada. Caem-me para o nariz. Já tenho o quarto todo o cor... e o quarto está reduzido ao essencial... É uma experiência nova, não ver é uma experiência nova.”
(…)
“Esse rapazola (EPC), esse merdas, era um gajo terrível do partido. Não foi por acaso que o gajo veio de Paris para cá quando o Carrilho se tornou ministro. Está a mexer nos cordelinhos do Carrilho e da Bárbara...”
(…)
“[Batem à porta, entra uma empregada do lar, brasileira]
Pacheco: “Ó minha senhora, desculpe que lhe diga, é uma lindíssima mulher…
Empregada: “ahhh?”
Pacheco: “ahhh? O que é que ela diz?”
Empregada: “Isso é a minha filha”.
Pacheco (pega nas mãos da empregada): “Olha, tem as mãos quentes. Tu não fazes ideia, esta senhora e as outras acordam a velhinha ali do lado todas as manhãs, sabes como? Dando beliscões na velhinha…o barulho que elas fazem a rir… Olha, ontem vi uma… não estava nua… estava a vestir-se…”
Empregada: E o senhor gosta de ver, né, e o senhor gosta…
Pacheco: Eu não vejo quase nada, ó minha senhora… eu não vejo quase nada… chegue-se aqui... olha para este espanto... é uma mulher linda... anda é muito vestida... quero vê-la na praia...”
Empregada: “Ele é fogo, o sôr Luiz é fogo…”
Pacheco: O quê? pego fogo…? Queres levar um livro? Não te faz mal nenhum…”
(…)
“Eu não te vou ensinar, eu ensino-te é a combater o meio... opá, um tipo que quer fazer carreira, se não for parvo de todo e for um bocadinho filho da puta... é facílimo... O meio literário é de cortar à faca, é muito fácil de penetrar. Eu, que nasci em Lisboa, via-os chegar da província, os Namoras, os Amândios César, os Paço d’Arcos, etc., andavam por aí a borbulhar, a deslizar, a ver quem chega primeiro. É como os espermatozóides. Agora combater o meio, isso é que é difícil, é o mais difícil... a questão é esta, estúpidos, conformistas, cobardes, é a maioria da malta...”
(A não perder!)
Deixo, com a devida vénia, alguns extractos:
(…)
“Por exemplo, as giletes que eles dão aqui algumas já barbearam mortos. Tu não fazes ideia... Isto é um armazém de pré-cadaveres, é uma parada de monstros. Há um gajo que não tem uma perna, anda de cadeira de rodas empurrado por um velhinho de 88 anos, há outro que é cego, tem glaucoma, mais a namorada, que é horrorosa, mas como ele não vê também não faz mal... outro tem alzheimer, o sr. Américo, entra aqui, de boné e pijama, dá uma volta pelo quarto, às vezes vai à casa de banho, sai, não repara em ninguém, não diz nada... há outro que é o sr. Vergílio, anda pelos corredores a rir e a assobiar, são dois fantasmas... Há uma que anda aqui a passear de um lado para o outro, diz “ai, ai, ai”, depois vai bater na outra que está sempre sentada na cama, vai lá mexer... não têm mão nela... com estes gajos não se pode estar a discutir, é comprimido, água para o bucho, não vai um vão dois, fica a dormir dois dias seguintes... Isto agora aqui são os últimos dia do condenado. Aqui a lei é morrer devagar. Está uma a morrer ali, ou já morreu, não sei, estou eu a morrer aqui, está outra a morrer ali... A ver quem morre primeiro… “Já foi”, é o que dizem quando alguém morre. Agora já sei o que vão dizer quando eu morrer.”
(…)
“Operado? Nem penses nisso. O que é que eu quero ver com 80 anos? Eu quando vou ali à sala, onde estão os velhos todos, tiro os óculos para ver tudo nublado, para não me ver ao espelho... Aquilo é um pavor! A Isabel da Nóbrega, o Artur Ramos e a Fernanda, cunhada do Manuel Alegre, queriam levar-me a Coimbra para ser operado as cataratas. Não quero. Eu é que sei. Isso é suicidário. Quando eu quiser morrer vou a Coimbra. Depois levaram-me a um oftalmologista na Av. da Liberdade. Diagnosticaram-me as cataratas. Tive que largar 1000 paus para umas gotas. Não servem de nada. Caem-me para o nariz. Já tenho o quarto todo o cor... e o quarto está reduzido ao essencial... É uma experiência nova, não ver é uma experiência nova.”
(…)
“Esse rapazola (EPC), esse merdas, era um gajo terrível do partido. Não foi por acaso que o gajo veio de Paris para cá quando o Carrilho se tornou ministro. Está a mexer nos cordelinhos do Carrilho e da Bárbara...”
(…)
“[Batem à porta, entra uma empregada do lar, brasileira]
Pacheco: “Ó minha senhora, desculpe que lhe diga, é uma lindíssima mulher…
Empregada: “ahhh?”
Pacheco: “ahhh? O que é que ela diz?”
Empregada: “Isso é a minha filha”.
Pacheco (pega nas mãos da empregada): “Olha, tem as mãos quentes. Tu não fazes ideia, esta senhora e as outras acordam a velhinha ali do lado todas as manhãs, sabes como? Dando beliscões na velhinha…o barulho que elas fazem a rir… Olha, ontem vi uma… não estava nua… estava a vestir-se…”
Empregada: E o senhor gosta de ver, né, e o senhor gosta…
Pacheco: Eu não vejo quase nada, ó minha senhora… eu não vejo quase nada… chegue-se aqui... olha para este espanto... é uma mulher linda... anda é muito vestida... quero vê-la na praia...”
Empregada: “Ele é fogo, o sôr Luiz é fogo…”
Pacheco: O quê? pego fogo…? Queres levar um livro? Não te faz mal nenhum…”
(…)
“Eu não te vou ensinar, eu ensino-te é a combater o meio... opá, um tipo que quer fazer carreira, se não for parvo de todo e for um bocadinho filho da puta... é facílimo... O meio literário é de cortar à faca, é muito fácil de penetrar. Eu, que nasci em Lisboa, via-os chegar da província, os Namoras, os Amândios César, os Paço d’Arcos, etc., andavam por aí a borbulhar, a deslizar, a ver quem chega primeiro. É como os espermatozóides. Agora combater o meio, isso é que é difícil, é o mais difícil... a questão é esta, estúpidos, conformistas, cobardes, é a maioria da malta...”
(A não perder!)
Novos Links
Adicionei uma primeira leva de novos links, a partir dos meus favoritos, incluindo a reposição do adormecido: Cadernos de Camus.
Aqui estão eles:
finisterra
Miniscente
E Deus Criou a Mulher
amistad
Cadernos de Camus
Aqui estão eles:
finisterra
Miniscente
E Deus Criou a Mulher
amistad
Cadernos de Camus
"Quisera Adormecer"
“Foto de António José Alegria, do amistad”
Quisera adormecer
como a criança acorda,
à beira de outro tempo, que é o nosso.
Só quero o que não posso.
Jorge de Sena
In “Tempo de Fidelidade” (1951-1958)
Lugares de Infância
Faro - Caminhando Para a Sé
Quando em criança frequentava a escola, na minha cidade natal, fazia o caminho a pé de casa para a escola e da escola para casa. Nesses percursos sempre me impressionou a carroça dos cães que percorria as ruas da cidade.
Os homens laçavam os “cães vadios”, entre ganidos de desvairado sofrimento, prendiam-nos nas celas e conduziam-nos ao canil. A morte era o seu destino. Senti impotência e uma profunda compaixão pelo destino dos “cães vadios” antes de sentir compaixão pelo destino dos homens.
A escola de “S. Luiz” situa-se num bairro pacato entre o mercado e a baixa da cidade. Para frequentar a escola, um acontecimento notável na vida da família, percorri dois caminhos. O primeiro era o mais saboroso e ia da casa em que nasci, na Rua Coelho de Melo, que desce do Espaldão para o Largo da Caganita, percorrendo a Rua de Brito Cabreira.
O segundo vinha desde o Bairro de S. Luiz, construído nas hortas a norte da cidade, da Rua Dr. Emiliano da Costa (poeta consagrado, mas esquecido), residência para onde se tinha mudado a família, passando ao lado do mercado. A distância seria a mesma mas o encanto do primeiro era, em afectos e surpresas, superior ao segundo.
A mudança da casa em que nasci, por volta de 1955, foi um acontecimento marcante assinalando o fim do tempo da inocência.
Vivia no casulo feliz
até que um dia sem
saber porquê o desfiz
tratava-se de uma obra
fina de rendilhado puro
com virtudes de sobra
eu não soube a razão
de tal desaforo nem
talvez o meu coração
....
Dizia-o com a noção de não ter feito uma descoberta original pois todos os que reflectem acerca da origem da sua arte o dizem e os que se aventuram, ao menos uma vez, a encontrar as motivações do seu percurso de vida, o dizem também.
REVOLTA – NOTAS AUTOBIOGRÁFICAS (6 de 10)
RENDIÇÃO
In “O Portal da História”
Rendição das Forças Armadas Alemãs. [O Coronel General Jodl, acompanhado pelo Almirante General Friedeburg e pelo Major Oxenius, assina o documento de rendição incondicional das Forças Armadas alemãs, no Quartel-General Aliado, em Rheims, França, a 7 de Maio de 1945.]
sexta-feira, maio 6
BLAIR OK
As sondagens acertaram em cheio. Ver no Margens de Erro.
Resultados não definitivos UK (maioria absoluta para os trabalhistas):
Labour: 36,2%
Conservative: 33,2%
Lib Dems: 22,5%
Resultados não definitivos UK (maioria absoluta para os trabalhistas):
Labour: 36,2%
Conservative: 33,2%
Lib Dems: 22,5%
"É necessário não nos perdermos e não renunciarmos".
Camus com a sua segunda mulher: Francine.
O mês de Julho de 2004 caminhava para o fim. No dia 22 desse mês escrevi um post adivinhando o “caos que se desenha no horizonte” ao pensar na governação de Santana Lopes ainda no seu início.
A minha previsão, infelizmente, bateu certa. E vinham-me à memória as citações mais desencantadas de Camus acerca da política e dos homens da política.
Nesse contexto escrevi:
As trapalhadas do governo Santana Lopes começam na sua própria formação.
Constrangedor. O PR empossa em silêncio da mesma forma que, em silêncio, ouviu as atoardas de Alberto João Jardim e, logo depois, os seus elogios.
Será que no Conselho de Estado, o PR, na presença do dito, lhe "puxou as orelhas"? Aposto que não. O PR deixou, no dia 9 de Julho, cair a sua autoridade. Tudo o que se passou, diante dos seus olhos, e sob a sua responsabilidade, nas tomadas de posse, é um exemplo flagrante de falta de autoridade.
É um detalhe do caos que se desenha no horizonte e avivam-se, na minha memória, as citações, radicais e desencantadas, de Camus acerca da política.
"A política e o destino dos homens são organizados por homens sem ideal e sem grandeza. Aqueles que têm uma grandeza neles próprios não se ocupam de política. Assim em todas as coisas. Mas trata-se de criar agora em si próprio um novo homem. Seria preciso que os homens de acção fossem também homens de ideal e poetas industriais. Trata-se de viver os próprios sonhos - de os pôr em movimento. Outrora, renunciávamos ou perdíamo-nos. É necessário não nos perdermos e não renunciarmos." (Dezembro de 37)
Albert Camus, in Cadernos, "Caderno n.º 2 (Setembro de 1937/Abril de 1939) - Edição Livros do Brasil
Sem Abrigo
In Catedral
"Não haja medo que a sociedade se desmorone sob um excesso de altruísmo. Não há perigo desse excesso."
Fernando Pessoa - "Aforismos e Afins"
GRANDE SPORTING!...
Lutar, lutar até vencer.
O Sporting prestigiou o nome de Portugal e mostrou, mais uma vez, que o futebol é, em Portugal, apesar de todos os "casos", uma actividade competitiva ao nível europeu e mundial.
A qualificação do Sporting para a final da Taça UEFA foi um caso exemplar. A vontade de vencer ultrapassou todas as dificuldades. Ainda bem que comprei bilhetes para a final que vai realizar-se aqui ao lado de casa. O meu filho, mais do que eu, merece essa alegria seja qual for o resultado final.
"Sporting e CSKA de Moscovo na final
O Sporting qualificou-se, esta quita-feira, para a final da Taça UEFA, apesar de ter perdido com o AZ Alkmaar por 3-2 após prolongamento. A formação de José Peseiro acabou por conseguir o apuramento com um tento apontado aos 122 minutos por Miguel Garcia. A final está agendada para o dia 18 de Maio no Estádio José Alvalade."
O Sporting prestigiou o nome de Portugal e mostrou, mais uma vez, que o futebol é, em Portugal, apesar de todos os "casos", uma actividade competitiva ao nível europeu e mundial.
A qualificação do Sporting para a final da Taça UEFA foi um caso exemplar. A vontade de vencer ultrapassou todas as dificuldades. Ainda bem que comprei bilhetes para a final que vai realizar-se aqui ao lado de casa. O meu filho, mais do que eu, merece essa alegria seja qual for o resultado final.
"Sporting e CSKA de Moscovo na final
O Sporting qualificou-se, esta quita-feira, para a final da Taça UEFA, apesar de ter perdido com o AZ Alkmaar por 3-2 após prolongamento. A formação de José Peseiro acabou por conseguir o apuramento com um tento apontado aos 122 minutos por Miguel Garcia. A final está agendada para o dia 18 de Maio no Estádio José Alvalade."
quinta-feira, maio 5
SALVADOR DALI
Salvador Dali. Antes que me esqueça. Nasceu a 11 de Maio de 1904.
«Pintores, não temam a perfeição.
Nunca a conseguireis! Se fordes medíocres,
E se vos esforçardes por pintar muito, muito mal
Ver-se-á sempre que sois medíocres.»
Salvador Dali
Revolta
Com razon ó sin ella - Goya
Nasceu assim o despontar da minha consciência para a vida e a revolta no seu estado puro.
Depois tomei consciência de que a revolta é o berço da criação e a criação é o traço que define a fronteira definitiva entre os homens livres e dignos, assumindo plenamente as suas diferenças, e
os homens torturados pela suprema humilhação de ideologias absurdas que Camus resumiu nesta definição universal do fascismo:“como não tinham carácter, arranjaram uma doutrina”.
A criação é uma forma de afirmação das diferenças que não das desigualdades. As origens da revolta não as encontrei na leitura dos clássicos mas na observação da vida dos meus avós.
Eles não encontraram facilidades no caminho para o progresso e eu encontrei um sopro de inspiração na medida das minhas escassas forças para combater o conformismo e o aviltamento dos valores essenciais que salvaguardam a humanidade da barbárie.
Esses valores são as velhas bandeiras do pensamento humanista e liberal dos últimos séculos, quais sejam, o direito à vida e a defesa da liberdade individual e da democracia, assim como a
igualdade de oportunidades para todos no acesso aos benefícios do progresso económico, cientifico, tecnológico e social.
Na vertigem deste caminho muitas interrogações sempre se colocaram aos homens dos tempos modernos: o humanismo é um pensamento limitado? O liberalismo é um pensamento
pervertido? O progresso uma aspiração antiquada?
A revolta do homem talvez aconselhasse a adoptar sempre os princípios de um pensamento que tudo tomasse em conta. Sem sublinhados nem os encargos de múltiplas heranças filosóficas ou históricas.
Mas a maioria, salvo os assassinos, que estão sempre prontos a sujar as mãos de sangue e a lançar para a valeta os corpos das suas vitimas, executadas à vista de todos os homens de boa vontade, aceitam certamente, de forma consensual, que fiquem de pé, na luta contra a barbárie, os princípios do direito à vida, à liberdade e à justiça.
REVOLTA – NOTAS AUTOBIOGRÁFICAS (5 de 10)
Felicidade
Do Pentimento
Felicidade: 1. invólucro onde se guardam sorrisos; 2. momento em que os ponteiros do relógio decidem dançar valsa; 3. líquido viscoso que escorrega por entre os dedos; 4. pedaço de gente com cheiro de talco; 5. movimento espontâneo dos cantos da boca em direção às orelhas; 6. sobrenome do azul; 7. olodum dentro do peito; 8. conjunto de círculos concêntricos em rubro e branco para onde se atiram dardos em forma de coração; 9. roçar de pés por sob o cobertor em noites com temperatura inferior a 18 graus; 10. tia-avó da alegria; 11. erva da qual se faz um chá afrodisíaco; 12. movimento elíptico do Sol em torno do ser amado; 13. nome dado à gota salgada que despenca dos olhos em dia de festa; 14. sensação de se ter feito o que se deveria ter feito; 15. oitava cor do arco-íris; 16. retângulo onde se inserem flagrantes registrados em nitrato de prata; 17. desejo súbito de voar; 18. distúrbio psicológico que causa avalanche de gargalhadas; 19. silêncio que se segue à trovoada; 20. exibição permanente da arcada dentária sem motivos justificados aos olhos dos desprovidos de inocência.
P.S. Este e outros verbetes bacanas e inspirados sobre sexo, mar, boca, sorriso, lágrima, entre outras palavras, estão no blog Cambalhota de irrealidades, onde André Gonçalves postou o seu Dicionário Lúdico Brasileiro. A dica foi da Moniquitcha.
quarta-feira, maio 4
"DRUMMOND FAZENDEIRO" ...
“Foto de António José Alegria, do amistad”
Drummond, fazendeiro
do ar, mas bem sentes
que as dores da poesia
são as evidentes.
Jorge de Sena
8/2/55
In “Tempo de Fidelidade” (1951-1958)
"Ir até ao fim, não é apenas resistir mas também não resistir."
História trágico marítima. [1944, óleo sobre tela, 81 x 100 cm - Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, Lisboa, Portugal] Quadro de Vieira da Silva (1908-1992), pintado no Brasil e parte de um grupo de quadros que abordaram a temática da guerra e da violência. O chamado período brasileiro (1940-1947), época em que Helena Vieira da Silva e o seu marido, Arpad Szenes, viveram no Rio de Janeiro, caracteriza-se pelo regresso à figuração abandonando, por um tempo, o abstraccionismo, sendo por isso considerado um período de reflexão na obra da pintora. Vieira da Silva morreu em 6 de Março de 1992, em Paris. O Portal da História
Em “Citações-14”, faço uma abordagem da renúncia de Ferro Rodrigues e, hoje, à distância, concluo que fez bem em ter renunciado. Da mesma forma que fez bem em não ter aceite o desafio da candidatura à presidência da Câmara Municipal de Lisboa. É preciso deixar passar o tempo.
Por outro lado verifica-se que, para já, Sócrates se não deixou aprisionar pela “política espectáculo” ... o que é uma tragédia para as pretensões da direita.
Eis o que escrevi, em "Citações-14", a 20 de Julho de 2004:
A propósito da renúncia de Ferro Rodrigues ao cargo de secretário geral do PS têm sido proferidas opiniões sem fim. Mesmo a direita continua a abordar o tema com uma ganância aparentemente despropositada. Lá terão as suas razões.
O director do Expresso escreveu um texto ignóbil, ou decrépito, acompanhado de uma foto propositadamente descuidada. A abordagem do percurso de Ferro, num trabalho "de fundo", publicado na "Única", seguia o mesmo caminho não tanto no texto mas na escolha das fotos.
Esta voragem para destruir a imagem pública de Ferro é, como todos já entenderam, parte de uma estratégia de fundo da direita. Começou, porventura, ainda antes de Ferro ter ascendido à liderança do PS.
No dia 9 de Julho, de um só golpe, o PR consagrou essa estratégia. Mas a direita não parece estar saciada com o sucesso da operação "destruição de Ferro". O assumido combate ideológico da direita, dirigido pelo PP, é aniquilar a esquerda, fazendo dela uma oposição colaboracionista com os seus objectivos estratégicos.
A direita, dirigida pelo PP, quer o poder absoluto. Ferro era um obstáculo a essa estratégia. Sócrates, se se deixar aprisionar pela "política espectáculo", talvez lhes sirva. Só tempo o dirá.
Mas, por outro lado, em política, os que renunciam nem sempre são os perdedores.
"Ir até ao fim, não é apenas resistir mas também não resistir"
Albert Camus, in Cadernos, "Caderno n.º 1 (Maio de 1935/Setembro de 1937) - Edição Livros do Brasil
terça-feira, maio 3
"Densa e Profunda Flor..."
"Foto de António José Alegria, do amistad"
“....
Profunda flor, malícia de existir,
os perigos passam, as traições diluem-se,
um riso ecoa ao longe, que se perde,
e o teu jardim, meu coração tão frio,
meu gosto de viver, minha mágoa extensa,
minha memória de jardins e estrelas.”
Jorge de Sena
“Densa e Profunda Flor...” in Amor
Lugares Luminosos
O gato e eu próprio no monte dos meus avós maternos.
Senti sempre as casas de meus avós como lugares luminosos, afastados do mundo, varandas com vista para o mar azul florido. Eles eram certamente mais adeptos de Franco do que apreciadores de Lorca. Talvez conhecessem alguns versos da sua poesia popular:
“Verde que te quero verde
Verde vento. Verdes ramos.
O navio sobre o mar,
o cavalo na montanha.”
Mas não conheciam, quase pela certa, o poeta. No tempo distante das minhas andanças de juventude pelas terras dos meus avós maternos senti o seu conformismo que não nascia de uma postura intelectual mas era o resultado de uma existência sofrida longe do progresso que a ditadura abominava.
A pura existência da natureza ditava as leis da vida. A família, pequena para a época, não cresceu na miséria mas o apego à vida dos seus antepassados deu-lhe o sentido da dimensão humana. Eram os tempos da luta pela sobrevivência.
Observei a dignidade dessa extraordinária empresa de fazer face à escassez da água, às agruras do tempo, à inexistência de electricidade, aos fracassos das colheita, às doenças das mulheres, homens e animais, à falta de dinheiro...
REVOLTA – NOTAS AUTOBIOGRÁFICAS (4 de 10)
segunda-feira, maio 2
Fernando Pessoa
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