Deixar uma marca no nosso tempo como se tudo se tivesse passado, sem nada de permeio, a não ser os outros e o que se fez e se não fez no encontro com eles,
Editado por Eduardo Graça
domingo, janeiro 14
LA PESTE
Imagem daquiCamus – Sublinhados de Leitura das Obras Completas – Introdução (1)
“Cette histoire nous concerne tous”*
Sous certains angles, Camus, semble vouloir, dans La Peste, prendre le contre-pied de L’Étranger ; à l’aventure d’un seul individu, brièvement relatés et jamais commentée, s’oppose la longue description d’une épidémie, dont le récit souligne sans cesse la dimension collective. (…)
« Je veux exprimer au moyen de la peste l’étouffement dont nous avons tous souffert et l’atmosphère de menace et d’exil dans laquelle nous avons vécu. Je veux du même coup étendre cette interprétation à la notion d’existence en général. La peste donnera l’image de ceux qui dans cette guerre ont eu la part de la réflexion, du silence – et celle de la souffrance morale. » *
La Peste propose une fresque des attitudes de l’homme devant le mal, et encourage la révolte qui tente de s’y opposer, sans cacher que le combat n’est jamais fini ; les personnages principaux ont en commun une même conscience des limites de leur action, un même refus de l’héroïsme spectaculaire, une même morale fondée sur l’évidence de la responsabilité et de la solidarité.
* Carnets
(1) In “Oeuvres complètes” – I (1931-1944) Gallimard, Introduction par Jacqueline Lévi-Valensi.
sábado, janeiro 13
UM EXERCÍCIO DE ADIVINHAÇÃO POLÍTICA
Fotografia daquiAs sondagens valem o que valem mas, na verdade, valem muito. É a gestão das chamadas expectativas. Na sondagem ontem divulgada reparei que o PSD subiu mas o dado mais extraordinário é este:
“Com 45,5%, o PS surge meio ponto percentual acima do resultado obtido nas legislativas de há dois anos.”
Partindo do princípio que é uma sondagem séria, considerando a margem de erro, que o PSD sobe mais do que o PS, que a popularidade do PM desce e a do PR também, tudo o que se quiser, o resultado significa que o PS voltaria a obter maioria absoluta.
Isto quer dizer – mesmo com todos os descontos – que as políticas prosseguidas pelo governo, até ao momento, ainda não provocaram uma erosão significativa nas expectativas positivas do eleitorado do partido do governo. Com quase dois anos de exercício do dito é obra!
Ou as medidas ainda não foram efectiva e plenamente aplicadas o que é, em parte, verdade; ou o eleitorado as aprecia mais do que as manifestações de desagrado aparentemente indiciam; ou a gestão politica da sua aplicação tem sido eficaz; ou o primeiro-ministro tem emanado uma imagem de autoridade que supera as fragilidades do governo; ou a “convergência estratégica” com o PR atenua o desgaste ou, o mais provável, um misto de todas estas razões explica a performance.
Vou arriscar fazer um exercício de adivinhação que ninguém vai levar a mal. Se o SIM vencer no “referendo ao aborto”, facto muito provável apesar dos receios dos apoiantes do SIM, a tendência para a liderança destacada do PS vai manter-se ou reforçar-se; se a presidência portuguesa da UE – no segundo semestre de 2007 – não fracassar, não levando o governo a descurar a politica interna, idem aspas; se o PM fizer uma remodelação governamental, cirúrgica, no início de 2008, idem aspas.
Se, nos inícios de 2008, os resultados das medidas anunciadas e, em parte já implementadas, quer naquelas áreas de que o PR falou no seu discurso, quais sejam economia, educação e justiça, mais o deficit, desemprego, inflação, incêndios de verão, … não desiludirem, mesmo que não encantem, idem aspas.
Se, por fim, a oposição de direita continuar com as mesmas lideranças partidárias, fragilizadas por querelas internas, idem aspas; se a oposição de esquerda continuar a agitar as suas bandeiras tradicionais, idem aspas; se o PS mantiver a unidade política no essencial e a divergência no acessório, idem aspas.
Salvo qualquer cataclismo imprevisível, se tudo isto acontecer, no ciclo eleitoral que vai iniciar-se em 2009 poder-se-á repetir um cenário semelhante ao que já ocorreu no passado quando o PSD de Cavaco apoiou a reeleição de Soares.
Maioria absoluta para Sócrates nas legislativas com o apoio de Cavaco e reeleição presidencial de Cavaco com o apoio do PS. Vamos a ver se um dia, mais tarde, não vou ter que engolir esta sopa de letras. Mas é interessante a percepção de que este cenário se banaliza na opinião pública. À cautela é melhor estarmos preparados!
sexta-feira, janeiro 12
MISSA À PARTE
Fotografia DaquiO Dr. Paulo Macedo director geral dos impostos é certamente um gestor competente e um homem de fé digo-o sem ironia no exercício de uma função pública à qual tem dedicado os maiores cuidados.
Não sei nada da sua vida privada nem das suas convicções ideológicas, credo religioso ou preferência política. Coloco-me face a ele como perante qualquer outro cidadão meu igual aceitando a sua liberdade que é, como a vida, um valor supremo.
Ler na íntegra no IR AO FUNDO E VOLTAR
quinta-feira, janeiro 11
quarta-feira, janeiro 10
A ASCENÇÃO POLÍTICA DA EXTREMA DIREITA
Com a entrada da Bulgária e da Roménia a extrema-direita reuniu as condições políticas para a formação de um grupo parlamentar no Parlamento Europeu. Ora aí está um acontecimento inédito para o curriculum do Dr. José Manuel Barroso cuja gravidade vai, aliás, na esteira da ascensão ao governo português em 2003, pela sua mão, da extrema direita pois é mesmo essa corrente que representa, em Portugal, com muito verniz mal disfarçado, o PP do Dr. Paulo.
Agora que o Dr. Barroso se coloca em bicos de pés para assegurar os apoios dos grandes para a sua recondução a um segundo mandato, desdobrando-se em iniciativas várias, é bom não esquecer a ascensão, no plano das instituições europeias, da extrema-direita. Para que conste ela aí está:
GABRIELA MISTRAL
dame la mano y me amarás.
Como una sola flor seremos,
como una flor, y nada más...
.
El mismo verso cantaremos,
al mismo paso bailarás.
Como una espiga ondularemos,
como una espiga, y nada más.
.
Te llamas Rosa y yo Esperanza;
pero tu nombre olvidarás,
porque seremos una danza
en la colina y nada más...
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DÁ-ME A MÃO
Dá-me essa mão e dançaremos;
dá-me essa mão e amar-me-ás.
Como uma só flor nós seremos,
como uma flor e nada mais.
O mesmo verso cantaremos
e ao mesmo ritmo dançarás.
Como uma espiga ondularemos,
como uma espiga e nada mais.
Chamas-me Rosa e eu Esperança;
mas o teu nome esquecerás,
Porque seremos uma dança
sobre a colina e nada mais.
Ternura (Madrid, 1924)
In Antologia Poética – Teorema
Tradução de Fernando Pinto do Amaral
[Um 4 de Setembro de 2005 publiquei a versão original do poema A CASA e um poema que escrevi a lápis no livro acima referido.]
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DÁ-ME A MÃO
Dá-me essa mão e dançaremos;
dá-me essa mão e amar-me-ás.
Como uma só flor nós seremos,
como uma flor e nada mais.
O mesmo verso cantaremos
e ao mesmo ritmo dançarás.
Como uma espiga ondularemos,
como uma espiga e nada mais.
Chamas-me Rosa e eu Esperança;
mas o teu nome esquecerás,
Porque seremos uma dança
sobre a colina e nada mais.
Ternura (Madrid, 1924)
In Antologia Poética – Teorema
Tradução de Fernando Pinto do Amaral
[Um 4 de Setembro de 2005 publiquei a versão original do poema A CASA e um poema que escrevi a lápis no livro acima referido.]
De Sisyphe à Prométhée
Imagem daquiCamus – Sublinhados de Leitura das Obras Completas – Introdução (1)
(…) Au moment de la remise du prix Nobel, Camus reviendra sur le dessein global de son œuvre, rappelant qu’il avait d’abord exprimé «la négation», sous les formes «romanesque», « dramatique», «idéologique». « Mais, ajoute-t-il, c’était pour moi le doute méthodique de Descartes. Je savais que l’on ne peut vivre dans la négation […] ; je prévoyais le positif sous les trois formes encore. Romanesque : La Peste. Dramatique : L’État de siège et Les Justes. Idéologique : L’Homme révolté ». Ce chemin qui part de la négation et d’une forme de nihilisme pour les dépasser et mener au positif, à l’action, à la fécondité de la «pensée de midi» est bien celui qu’a suivi Camus. Cependant son itinéraire, aussi personnel et profondément médité qu’il soit, est influencé par l’histoire en train de se faire. Il note dans ses Carnets, le 21 février 1941 : «Terminé Sisyphe. Les trois Absurdes sont achevée.» Et il ajoute : « Commencements de la liberté.»
Le sous-titre de Combat, «De la Résistance à la révolution» - qui n’est pas de Camus, mais qu’il a approuvée -, résume ces idéaux : une société plus juste, une politique plus morale et véritablement démocratique, un gouvernement où des hommes neufs, issus de la Résistance, remplacerait le personnel politique usé par des années de compromis et de lâcheté ; une presse libre et consciente de sa responsabilité, une Europe reconstruite sur le respect mutuel, des institutions internationales fondées sur la volonté des peuples, et non sur les accords hypocrites des dirigeants. (…)
(1) In “Oeuvres complètes” – I (1931-1944) Gallimard, Introduction par Jacqueline Lévi-Valensi.
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terça-feira, janeiro 9
ANIVERSÁRIO
Fotografia de famíliaAs suas mãos
As suas mãos sobre o seu peito
eram as mesmas mãos fraternas
que me acariciavam a face revolta
Eram umas mãos impensáveis
lindas de morrer, libertadoras
de tão gentis, generosas e boas
Tais mãos naquele dia que as vi
depositadas sobre o seu peito
eram as minhas mãos sem mim
As suas mãos frias e ausentes
deixaram de ser as minhas mãos
no dia em que sua vida se perdeu
In “Ir pela sua mão” – Editora Ausência
Maio 2003
Em memória de meu pai no aniversário da sua morte.
[Na fotografia adivinham-se o verde da vegetação e o cheiro próprio de uma ambiência mediterrânica. A minha avó paterna olha, embevecida, meu pai sorridente; eu aborrecido, de chapéu, recosto-me em minha mãe; minha tia Lucília, linda, com a filha mais velha ao colo junto a seu marido Graciano; logo atrás, de óculos, o meu irmão Dimas, entre outros, no quintal do palacete dos meus avós em Moncarapacho – Olhão.]
ACERCA DO DIRECTOR-GERAL DOS IMPOSTOS
Laetitia CastaSou contra a recondução do actual Director-Geral dos Impostos, Paulo Macedo, nas presentes condições e qualquer engenharia remuneratória para tornear o essencial da questão deixará ao governo um pesado encargo político para o futuro.
Ler na íntegra no IR AO FUNDO E VOLTAR
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segunda-feira, janeiro 8
A PROPÓSITO DO SINDICALISMO
Texto e Imagem do Divas & ContrabaixosA questão que colocamos todos os dias é como ajustar as políticas sociais à nova realidade socio-económica, considerando situações como a permanência do desemprego estrutural, a flexibilidade do trabalho e, em consequência, a maior mobilidade e o menor compromisso das empresas em relação aos seus empregados. Por outro lado, vivemos tempos de reformas neoliberais. Em Portugal, poucos analistas se debruçaram sobre as transformações do trabalho, e menos ainda na perspectiva do sindicalismo. No domínio da sociologia do trabalho não encontrei nenhum trabalho recente.
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Como têm as centrais sindicais enfrentado esta situação adversa? Vivem num mundo muito distinto daquele que deu origem ao sindicalismo revolucionário, mesmo se a evolução social não eliminou o problema fundamental da exploração dos trabalhadores. CGTP-IN e UGT têm adoptado posições e estratégias similares, encontraram vias distintas de acção, convergem em que matérias? Confesso que me sinto incapaz de tal análise, que qualquer opinião seria apenas "impressionista" (como diz o Vasco Graça Moura). Por exemplo, parece-me que existe nas duas centrais sindicais a crença de que a qualificação profissional seria uma boa maneira de enfrentar o desemprego (mas até que ponto a qualificação formal, sendo requisito importante na contratação, impede a demissão?).
A verdade é que mesmo nos media, e em particular nas televisões, são raras as oportunidades de discussão desta e outras matérias mais qualitativas.
Modelos de negociação, relações entre sindicatos (no seio das duas confederações), o peso da organização de trabalhadores nos locais de trabalho; e problemas de fundo relativos a higiene e segurança no trabalho, a doenças profissionais, à situação (segregação) das mulheres no trabalho, etc. não merecem, pelo que se (não) vê, suscitar interesse e reflexão. Os responsáveis sindicais são chamados a dar o seu testemunho apenas em ocasiões de greve e na origem destas estão, normalmente, reivindicações quantitativas, isto é, questões salariais.
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Com a maior diversificação de actividades que tem caracterizado o dinamismo dos sistemas económicos pós-industriais, não posso deixar ainda de sentir que são cada vez mais aqueles que não fazem parte dos grupos sociais tradicionalmente "protegidos" pelos sindicatos. Ficamos com a impressão de que, não sendo funcionário público, médico, jurista, professor ou jornalista, se está bem! Enfim, os jogadores de futebol, encontraram agora motivos para fazer uma greve, mas alguém ouviu falar dos direitos dos empregados domésticos, operários de construção, agricultores, empregados do comércio e hotelaria, actores, desenhadores técnicos, técnicos de estudos de mercado, tradutores, caixas de supermercados, etc., etc..
Não me vou alongar, mas cada uma destas profissões merecia algumas medidas legislativas dirigidas. Por exemplo, a maior parte dos funcionários domésticos não declaram actividade. Em França este problema foi atenuado quando os casais com filhos, em que mãe e pai trabalham, passaram a poder deduzir no IRS esses mesmos gastos. Todos ficaram a ganhar, o Estado também.
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Por cá, os protagonistas actuais, governo, empresas, sindicatos, são poucos eficazes na defesa dos nossos direitos. Ponho em causa esta concentração do poder político e social. A "descentralização" ou "democratização" das decisões relativas ao trabalho será um conceito pouco operacional?
Falávamos de sindicatos. Mas na minha área - Estudos de mercado e de opinião, as expectativas no sentido da legitimação dos interesses da classe são mais dirigidas às associações profissionais. A luta de classes passou para segundo plano. O eco do apelo "Operários de todo o mundo, uni-vos!" não encontrou ainda uma caixa de ressonância. E não é por falta de "operários" com contratos de trabalho precários.
[Maria do Rosário Fardilha a propósito do artigo “A luta de classes segue dentro de momentos …”, tema a retomar e desenvolver mais tarde.]
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