Deixar uma marca no nosso tempo como se tudo se tivesse passado, sem nada de permeio, a não ser os outros e o que se fez e se não fez no encontro com eles,
Editado por Eduardo Graça
terça-feira, abril 21
25 de abril - Mário Viegas
Mas o oficial miliciano mais fascinante do meu Quartel era o Mário Viegas. O seu estatuto no serviço militar era apropriado ao seu talento de actor.
Vivemos em comum aqueles momentos inesquecíveis em que a liberdade foi devolvida aos portugueses. Tinha por ele um natural fascínio que sempre me retribuiu até à sua morte prematura.
Por um daqueles dias entre o 25 de Abril e o 1 de Maio de 1974, se não erro, no Quartel do Campo Grande, assisti ao espectáculo mais extraordinário de toda a minha vida. Havia que festejar o que agora comemoramos com nostalgia. O refeitório foi transformado numa sala de espectáculos. Nele se reuniu toda a gente de serviço no quartel.
Imaginem o elenco daquela festa improvisada: Carlos Paredes, Zeca Afonso e Mário Viegas. Todos mestres geniais na sua arte. A certa altura o Mário Viegas subiu para o tampo de uma mesa e a poesia brotou, em palavras ditas, como se diante de nós se revelasse um novo mundo ou tivéssemos da vida renascido.
segunda-feira, abril 20
25 de abril - Salgueiro Maia
Afinal o Capitão Salgueiro Maia era um homem de coragem. No confronto decisivo da Rua do Arsenal foi o sangue frio de Salgueiro Maia que tornou vitoriosa a revolução. A sua serenidade face à força inimiga obrigou a que o soldado atirador, sob ordens de um subordinado do brigadeiro, não fosse capaz de premir o gatilho. A serenidade do Capitão Salgueiro Maia, sabendo que tinha a sua cabeça na mira do atirador, congelou a situação.
Acredito pelo que presenciei que só a conjugação da coragem do Comandante da força revoltosa de Santarém, o desespero do comandante da força do regime e a recusa do soldado em disparar permitiram o desenlace feliz daquela situação que, no plano militar, era absolutamente desfavorável aos revoltosos.
Assim se decidiu o destino da revolução
domingo, abril 19
25 de abril - Agostinho Roseta
No movimento operário e sindical o activista mais importante do MES foi Agostinho Roseta, já falecido. Ele associava juventude (ou talvez melhor, jovialidade), capacidade teórica e sentido prático de organização, era persuasivo, sedutor e desprendido do poder. Morreu num 9 de Maio, muitos anos depois do MES ter sido extinto, na plena pujança das suas qualidades humanas e intelectuais. A sua morte prematura impediu que tivesse, muito provavelmente, exercido uma influência marcante, a partir de 1995, no movimento sindical (UGT) e no Partido Socialista.
sábado, abril 18
25 abril - Capitão Teófilo Bento
Quando eclodiu o 25 de Abril, cumpria serviço militar, como oficial miliciano, desde finais de 1971, no quartel do Campo Grande, em Lisboa. Nunca soube a razão de não ter sido mobilizado para uma das frentes da guerra colonial. O destino reservou-me passar quase três anos a ministrar instrução militar a recrutas de toda a sorte, alguns deles, por sinal, bem ilustres.
Foi o Capitão Teófilo Bento que me contactou no início de 1974 e não sei já como chegou até mim. Talvez tenha sido após o «Golpe das Caldas», em 16 de Março, pois, nesse dia, foi-me dada ordem para permanecer no quarto. Na manhã do dia seguinte, se bem me lembro, lá me mandaram sair. O golpe tinha fracassado.
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Falei, por esses dias, com o Capitão Teófilo Bento num carro estacionado próximo do 2º GCAM, no Campo Grande. Ele queria saber se havia algum oficial miliciano de confiança no Quartel-general de Lisboa.
Tratava-se, pelo que percebi, de um ponto fraco na rede dos militares que preparavam o golpe. Mas não havia um único miliciano de confiança, que eu conhecesse, em serviço no Quartel-general. Após este encontro fiquei com a certeza da inevitabilidade de que algo de sério ia acontecer.
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Estava, de facto, em marcha uma acção de envergadura para derrubar o regime. Mantive a maior descrição. Não falei a ninguém acerca desse encontro. Mas tomei as minhas providências. O ambiente era de medir forças dentro dos quartéis. Após o fracassado «Golpe das Caldas» todos os movimentos eram observados e o ar que se respirava estava povoado de ameaças.
sexta-feira, abril 17
Doadores
Passam-se coisas estranhas na nossa vida pública. O debate acerca da ideia de adoptar o secretismo aos doadores no seu apoio aos partidos é uma delas. A democracia não se compedece com tal ideia além de ser ilegal. Quem não quiser ser escrutinado não se candidate a cargos públicos. O melhor seria mesmo que o financiamento dos partidos fosse exclusivamente público. É o preço da democcracia.
quarta-feira, abril 15
Abril
"Abril.
Primeiros dias de calor. Sufocante. Todos os animais estão deitados. Quando o dia começa a declinar, a natureza estranha da atmosfera por cima da cidade. Os ruídos que nela se elevam e se perdem como balões. Imobilidade das árvores e dos homens. Pelas esplanadas, mouros de conversa à espera que venha a noite. Café torrado, cujo aroma também se eleva. Hora suave e desesperada. Nada para abraçar. Nada onde ajoelhar, louco de reconhecimento."
Albert Camus ---
[Nesta página da edição portuguesa dos Cadernos da "Livros do Brasil" escrevi, à mão, em frente a Abril: “3-1968-Faro-Cais”, datando, com precisão, a primeira leitura. O ambiente da Argélia natal de Camus tem algo a ver com o ambiente de Faro, a minha cidade natal. Devia ser o período das Férias de Páscoa. Curiosamente nas vésperas do “Maio de 68”.]
domingo, abril 12
Seguro - um mês
Seguro será um presidente próximo das pessoas como mostrou neste primeiro mês de exercicio. O comentariado já começou a torcer o nariz. É demasiado pouco mediática esta postura, impacta nas pessoas mas não reverbera com estrondo nos écrans. seguro não deixa por mãos alheias a critica à propaganda do governo introduzindo nela um filtro poderoso de realidade. O magna de interesses que está por detrás da politica do governo tudo tentará para puxar Seguro para a irrelevância. Veremos o que acontece com os inúmeros diplomas que vão passar pela secretária de Seguro.
sábado, abril 11
Sempre a guerra
É horrivel assistir à guerra no sofá, o que nunca aconteceu com tamanha frequência e maldade. Sem falar das tareias de comentadores que nada sabem de guerra, mesmo sendo militares. A sensação é que a guerra não vai acabar mais por jamais o poder vir a ser exercido por pessoas normais.
quarta-feira, abril 8
Guerra sempre guerra
A guerra pode ser justa se servir para nos libertar da servidão. Resta saber o que é servidão, certamente ausência absoluta de liberdade. E o que é liberdade? Questão filosófica sempre discutida por vezes de forma exaltada. Entre uma democracia com defeitos e uma ditadura perfeita, escolho a democracia. Entre a liberdade absoluta própria dos ditadores que a tomam em exclusivo para si, e as escolhas livres do quotidiano do cidadão comum, escolho a vida comum. A questão de fundo da guerra é sempre a mesma com variantes. As oligarquias lutam pelo domínio dos recursos (riquezas) que as beneficiam em desfavor da maioria que morre em seu nome.
sexta-feira, abril 3
Guerra
“É sempre vão pretender quebrar um laço de solidariedade, apesar da estupidez e da crueldade dos outros. Não se pode dizer: “Ignoro-o”. Colabora-se ou combate-se. Nada é menos perdoável que a guerra e o apelo aos ódios nacionais. Mas uma vez surgida a guerra, é vão e cobarde querer afastar-se a pretexto de que se não é responsável. As torres de marfim acabaram. A benevolência é interdita. Por si própria e para os outros. Julgar um acontecimento é impossível e imoral se se está de fora. É no seio dessa absurda desgraça que se mantém o direito de a desprezar. A reacção de um indivíduo não tem qualquer importância. Pode servir para qualquer coisa mas nada a justifica. Pretender, por diletantismo, afastar-se e separar-se do seu ambiente, é dar prova da mais absurda das liberdades. Eis porque motivo era necessário que eu tentasse servir. E se não me quiserem, é igualmente necessário que eu aceite a posição do civil desprezado. Em ambos os casos estou no centro da guerra e tenho o direito de a julgar. De a julgar e de agir.” Albert Camus, in Caderno” n.º 3 (Abril de 1939/Fevereiro 1942). Para que se compreenda a problemática deste fragmento que muito me influenciou. Em Setembro de 1939, Camus está pronto para partir para a Grécia quando eclode a 2ª guerra mundial. Camus não quer escapar à guerra e apresenta-se como voluntário mas não é aceite devido à sua tuberculose.
quarta-feira, abril 1
Cartel
"Governador do BdP admite “comportamento ilícito” no “cartel da banca”, mas sacode responsabilidades para os tribunais", in Expresso. É hilariante próprio de uma boa tirada do Eça. A Banca foi condenada mas prescreveu. Ninguém assume responsabilidades e a banca goza com o pagode.
terça-feira, março 31
Inquisição
Há efemérides esquecidas como a do fim da inquisição.
Na sessão de 31 de março de 1821, as Cortes Constituintes decretavam a extinção do Tribunal do Santo Ofício, instituição criada em Portugal em 1536, com o objetivo de julgar e punir os crimes contra a religião católica.
Quantas pessoas morreram na Inquisição em Portugal?
Os registos existentes mostram que, entre 1543 e 1684, a Inquisição condenou 19.246 pessoas em Portugal. Destas, 1379 foram queimadas e centenas morreram na prisão enquanto esperavam julgamento. Ao todo, em Portugal, o Santo Ofício fez mais de 40 mil vítimas, das quais, cerca de 2 mil foram mortas na fogueira.
segunda-feira, março 30
Habitação
"Sete em cada dez novos proprietários com crédito à habitação vão pagar a casa até aos 70 anos", in Expresso de um relatório do Banco de Portugal. Ainda não foi debatida a mais relevante razão da crise da habitação em Portugal: a banca. A oferta de habitação pública e cooperativa é residual; o mercado de arrendamento sem fôlego; reina a especulação e o negócio do crédito que tornou Portugal num país de proprietários endividados para toda a vida.
domingo, março 29
Tempo de trevas
Está escrito nas estrelas que teremos guerra cada vez mais alargada e intensa, as palavras não são suficientes para descrever o horror da guerra, nunca foram. Mesmo eleitos os politicos não geram confiança, os povos descreem e a religião volta a ser estandarte da guerra. O Papa hoje ergueu a voz contra os que usam a religião como arma de guerra. O ambiente geral não é amigo da paz. As ambições imperiais, de conqistas pela força, e o discurso do ódio ganham terreno. Está aberto um novo tempo de trevas.
sábado, março 28
O Estrangeiro
Hoje fui ver O Estrangeiro filme em exibição que muito me supreendeu pela positiva. Belo, captando o ambiente da obra de Camus na qual se inspira. Vale a pena. Transcrevo excerto de um texto de Maria Luisa Malato em resposta à velha questão de qual o livro que levaria consigo para uma ilha deserta: Ou talvez seja O Estrangeiro. Releio agora sem professor, admirando cada vez mais a conotação indelével das coisas ditas com simplicidade. Disseram-me seca a frase “Hoje, a mamã morreu”. Mas se assim fosse, porquê a ternura da palavra “mamã”? Tento variantes: “Hoje, a minha mãe morreu”, mais seco. “Hoje, a mãe morreu”: mais seco ainda? O que é hoje evidente em Meursault é o percurso iniciático de um homem que aprende a sair da indiferença que nunca foi absoluta. O Estrangeiro é a história do caminho que vai do “para mim tanto faz” ao “não” final, forma extrema de compromisso solitário. Ensinou-me que Camus não é um filósofo do absurdo, mas um filósofo anti-absurdo, na medida em que constrói os sentidos da vida a partir da consciência indelével do absurdo.
sexta-feira, março 27
Dia Mundial do Teatro
O dia 27 de março é consagrado como Dia Mundial do Teatro. Sempre assinalo esta data não por mera celebração de uma efeméride mas porque o teatro desempenhou um papel muito importante na minha vida. Na alta adolescência, por altura do meu 6ª ano do liceu, num tempo de trevas culturais, o meu irmão deve ter impulsionado a minha aproximação à atividade teatral. As relações com o Dr. Emílio Campos Coroa haviam sido estreitadas e daí deve ter resultado a minha integração no Grupo de Teatro do Circulo Cultural do Algarve - mais tarde "Teatro Lethes" - após ter já sido iniciado pelo Dr. Joaquim Magalhães nas atividades teatrais do liceu. Foi uma oportunidade de intensa sociabilização, aprendizagem da arte do teatro e exigente exercício de enfrentamento dos públicos. Muita entrada em cena, muito palco e fala e necessário conhecimento de dramaturgos de referência. Somente a minha saída da cidade de Faro para Lisboa me separou desta experiência que marcou a minha formação pessoal e cultural para sempre. Bem hajam aqueles que me impulsionaram e acompanharam nessa formalizável experiência teatral.
quarta-feira, março 25
Nos limites ...
A situação do mundo (e da politica no mundo) é catastrófica, no limiar da destruição fisica e dos valores humanistas. Como bem sabemos pairam no ar ventos de guerra com ameaças de generalização e quem sabe com utilização de armas de destruição em massa. A crise económica é inevitável cuja profundidade está por ver onde chega e como se estende no tempo. Ao contrário de todas as aparências admiro Guterres que mantem em final de mandato um discurso claro em defesa da paz. E já agora de condenação do esclavagismo. Honra lhe seja feita.
sábado, março 21
sexta-feira, março 20
Felicidade
Depois de concluída a especialidade fiquei a dar instrução militar, o tempo todo, no 2º GCAM, no Campo Grande, em Lisboa. Passaram-me pelas mãos muitas centenas de jovens soldados recrutas aos quais industriei, o melhor que sabia, na área da administração militar. Foram sucessivas "semanas de campo" e incessantes sessões de instrução de tiro na Carregueira. Estas davam-me um prazer especial com excepção do "lançamento de granadas". Assim correu o tempo, desde meados de Abril de 1972, até ao 25 de Abril de 1974. A minha vida fazia-se entre o quartel e encontros de conspiração com os amigos e activistas que haveriam de confluir no MES (Movimento de Esquerda Socialista). Tinha a cabeça povoada de todas as ilusões que resultavam das leituras libertárias e marxistas, liberais e heróicas, sonhadoras e utópicas de Huxley, Camus, Gramsci, Luckac, Lenin, Marx, Rosa Luxemburgo, Mao, José Gomes Ferreira, Aquilino, António José Saraiva... As ideias da democracia directa, das comunas, da plena participação popular, tinham-se sobreposto à realidade, bem mais prosaica, da democracia representativa. Os ecos próximos da experiência do Maio de 68, em França, tinha dado asas à utopia de que o caminho para a felicidade se poderia encontrar na revolta contra o poder burguês. O tempo das ilusões...
quinta-feira, março 19
Pai
O meu pai Dimas era pessoa vertical e proba, assim o vejo tanto tempo passado. As gerações sucedem-se e hoje de madrugada nasceu a minha segunda neta que se vai chamar Mar. Uma notícia feliz no meio da desordem no mundo. Haja saúde.
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