sexta-feira, julho 25

CURSO DE MEDICINA NO ALGARVE

Nubar Alexanian

Um dia, ao jantar, ainda recentemente, um médico amigo deu-se ao trabalho de me explicar o processo de blindagem do acesso aos cursos de medicina. Trata-se, em breves palavras, de pura usurpação do poder por uma corporação ou, ainda mais fininho, por uma geração dentro dessa corporação. A manobra tem contornos dantescos, como tantas outras que ocorrem no nosso país, grotescos e irreais. Mas que existem, existem … Mariano Gago qualifica a situação a que se chegou de irresponsabilidade social: uma elite de médicos, estabelecidos na praça, com as suas ligações em rede, amarrando todos poderes, “secou” o acesso aos cursos de medicina. A ponta do iceberg, que todos podemos observar, em todo o esplendor, são as notas de acesso aos cursos de medicina que podem catrapiscar por aqui. Apesar das evidências do disparate, a roçar as raias do criminoso, a abertura de um curso de medicina na Universidade do Algarve, suscita vagas de comentários desprimorosos, ou mesmo insultuosos, comprovando a força social da corporação, ou de alguns dos seus ilustres membros, que mesmo com os pés para a cova, movem o céu e a terra para manterem a coutada protegida de intrusos que lhes estraguem o negócio. Talvez viesse a propósito ouvir uma palavrinha de Sua Excelência o Senhor Presidente da República acerca do tema. É muito simples: apoia Sua Excelência a expansão da oferta de vagas nos cursos de medicina? Apoia a abertura de um novo curso de medicina na universidade da sua região de origem?
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4 comentários:

enfermeiro-mór disse...

Os médicos não andam "em roda livre". O poder político tem poderes para (des)regularizar a situação. Porque não o faz? Porque é conivente com a situação. Não é preciso a "intervenção" do PR para nada. Mais coragem e menos palavreado.

addiragram disse...

Longe vão os tempos, ( e isto não é saudosismo)em que se podia optar pelo
curso que se sonhava gostar.A confusão, oportunisticamente aproveitada, de empenho,investimento,paixão, com notas altas,foi e é uma tragédia.Os alunos actuais de medicina estão mais interessados na investigação, na produção de nº elevado de artigos, do que mexer nos doentes.
E isto tudo e muito mais até quando?

Francisco Clamote disse...

"Post" bem oportuno e boa pergunta. Cumprimentos

Anónimo disse...

Os médicos andaram por aí à solta, melhor dito à rédea solta. Sem controle de horários, sem controle de produtividade, sem controle da promiscuidade entre público e privado, sem controle da pouca vergonha de operar pouquinho no público, para engordar até à obesidade no privado. Todos os governos, nas últimas décadas, estiveram reféns da ordem dos médicos e desta classe, que também inclui gente honesta, cuja distinção das médias altíssimas também se traduziu nos melhores cuidados de saúde do mundo prestados à população, expressos nas listas de espera para uma cirurgia ou consulta de especialidade de anos. Houve até um médico, que já morreu, que alguém apelidou "Príncipe da Medicina" que teve a "ideia genial e eterna" de que não seria possível formar médicos fora de Lisboa, Porto e Coimbra. Várias foram as reformas da saúde. As listas de espera persistem, os custos desproporcionais com o nível de vida da população são evidentes. Só quando tivermos algumas centenas de médicos no desemprego, como temos das outras profissões, então as coisas mudarão. É cruel, mas é verdade. Reformar a saúde sem reformar a formação de médicos pouco alcance terá. Deixem formar médicos no sector privado e deixem que a população possa escolher. É como a hipocrisia nos medicamentos: o médico manda, o farmacéutico manda, mas o utente, que é quem paga a ambos e não manda nada. A população continua refém destas sábias e poderosas hipocrisias.