quarta-feira, junho 2

MANUEL ALEGRE - HOJE


Não há vida sem diálogo. Mas o diálogo foi, hoje, na maior parte do mundo, substituído pela polémica. O século XX é o século da polémica e do insulto. Eles ocupam, entre as nações e os indivíduos, e mesmo ao nível das disciplinas outrora desinteressadas, o lugar que tradicionalmente cabia ao diálogo reflectido. Dia e noite, milhares de vozes, empenhadas, cada uma por seu lado, num tumultuoso monólogo, lançam sobre os povos uma torrente de palavras mistificadoras, de ataques, de defesas, de exaltações. Mas qual é o mecanismo da polémica? Consiste em considerar o adversário como inimigo, por conseguinte a simplificá-lo e a recusar vê-lo. Aquele que insulto, já não sei de que cor são os seus olhos, ou se acaso sorri, e como o faz. Tornados quase cegos por obra e graça da polémica, já não vivemos entre os homens, mas num mundo de sombras. (…)

Albert Camus – alocução feita na sala Pleyel em Novembro de 1948, in Actualidades - Contexto
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terça-feira, junho 1

MUNDIAL IV



Camarões fritos por um Portugal melhorzinho.
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FERREIRA GULLAR

Imagem daqui

Como vai longe o dia, Maninho,
em que a gente podia ser comum

Entre ervas burras, folhas molhadas de mamona
e salsa
a gente podia ser
simplesmente
nossas mãos nossos pés nossos cabelos
e o que queimava dentro
no escuro

Como vai longe o tempo como as águas
batendo na amurada
alegremente
como os peixes
vivendo no seu músculo
o mistério do mundo

Ferreira Gullar [Toda poesia /Dentro da noite veloz]

[Outros poemas de Ferreira Gullar.]
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segunda-feira, maio 31

FERREIRA GULLAR - Prémio Camões


O poeta e dramaturgo brasileiro Ferreira Gullar, nascido em 1930, venceu o Prémio Camões 2010, anunciou hoje a ministra da Cultura Gabriela Canavilhas em Lisboa acompanhada pelos membros do júri.

Um dia li, de um fôlego, “Toda a Poesia” de Ferreira Gullar e escrevi em cima das páginas impressas com a sua magnífica poesia uma série de 25 modestos poemas. Só assim acontece quando por detrás da leitura vive o gozo dela por ser voluptuosa a relação com a poesia mais do que com a técnica perfeita dela. No caso de Gullar é tudo mais do que perfeito mesmo quando se não entende, em suas linhas, perfeição alguma. É um ir mais além. Um nada que se subentende. Uma voz que se eleva por cima do pensamento.

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domingo, maio 30

FARENSE

O Farense subiu à 2ª Divisão. Eis uma notícia que me enche o coração de alegria. O clube da minha cidade, no qual me iniciei na prática desportiva, afundado pelos erros de gestão, e a má sorte, emerge devagar. Algo está a mudar e espero que a cidade e o futebol se não prejudiquem mutuamente e, pelo contrário, se engrandeçam. Uma tarefa difícil e exigente. Mas se no passado, tantas vezes, foi possível por que não no presente?
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In A Defesa de Faro
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Portugal Old, New and Undiscovered



MUNDIAL (III)

Conversa, relações públicas, publicidade, fazem parte do fenómeno do futebol. É a parte do negócio. As audiências, as transferências, as comissões, os empresários, a capacidade de gerar a paixão de que o povo precisa. No fim, se o jogo for limpo, o que duvido, vence a selecção que resistir melhor à pressão, recolhendo para si o maior reconhecimento público. Portugal vai iniciar o Mundial como a terceira selecção no ranking da FIFA. À nossa frente somente a Espanha e o Brasil. Mesmo que a glória seja efémera, ainda para mais em tempo de crise, a nossa obrigação é ganhar um lugar entre as quatro melhores.
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sábado, maio 29

JARDIM BORDALLO PINHEIRO


Fui visitar o Jardim Bordallo Pinheiro, criação de Joana Vasconcelos, no Museu da Cidade. Tão perto de minha casa, familiar à vista na passagem para o centro da cidade, mas pouco visitado. Mas valeu muito a pena a visita. O Jardim Bordallo Pinheiro é uma pequena jóia no género. Mas o museu merecia dispor de alguns equipamentos que o tornariam mais acolhedor e atraente. Pequenos detalhes e modernidades que não acarretam despesa … mas essa parte fica para as sugestões que vou enviar para a CML.
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terça-feira, maio 25

SINAIS DE GUERRA


Werner Bischof    -   SOUTH KOREA. Kaesong. South Korean soldiers. Located just below the 38th parallel, in 1951 Kaesong was chosen as the sight of the first truce talks between Northern and Southern Korea, and in 1953 it was incorporated into North Korea. Between 1950 and 1953 the Democratic People's Republic of Korea (North Korea) fought against the Republic of Korea (South Korea). The United Nations, with the United States as the principal participant, joined the war on the side of the South Koreans, and the People's Republic of China came to North Korea's aid. The armistice divided Korea into a Northern and a Southern part, along the 38th parallel. 1952.

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segunda-feira, maio 24

Mundial (II)



A coisa começou mal!
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'Património de Origem Portuguesa no Mundo'

A partir daqui uma verdadeira notícia do mundo da cultura. É hoje lançado, pelas 18,30 horas, na Fundação Gulbenkian, o primeiro de três volumes da obra 'Património de Origem Portuguesa no Mundo', dedicado à ‘América do Sul. Arquitetura e Urbanismo’. O projecto, que teve início em 2007, é coordenado pelo Prof. José Mattoso.
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sábado, maio 22

MOURINHO - MAIS UMA VEZ! ...



AI...AI ...


ALBERT CAMUS - “UNA VISIÓN Y UN PENSAMIENTO EN EVOLUCIÓN”


Hace 50 años, el 4 de enero de 1960, Albert Camus murió en un accidente de auto, lo que privó al mundo muy tempranamente de uno de los más eminentes escritores, Premio Nobel de Literatura 1957.

En conmemoración de este hecho se realizará en Buenos Aires, los días 23, 24 y 25 de agosto de 2010, el Coloquio Internacional : “Albert Camus, una visión y un pensamiento en evolución”.

Con el auspicio de la Société des Études Camusiennes,de la Alianza Francesa, de La Academia Nacional de Ciencias de Buenos Aires y de la Cancillería Argentina, con la adhesión de la Fundación Villa Ocampo, se organiza el COLOQUIO INTERNACIONAL ALBERT CAMUS “UNA VISIÓN Y UN PENSAMIENTO EN EVOLUCIÓN” que se llevará a cabo los días lunes 23, martes 24 y miércoles 25 de agosto de 2010 en la Ciudad Autónoma de Buenos Aires (República Argentina).

[Por informação de Maria Luísa Malato que me diz poder vir a realizar-se um Colóquio em Portugal no final do ano.]
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quinta-feira, maio 20

BANQUEIROS AOS SEUS LUGARES ...


Justine Reyes

Dá vontade de chorar - mais raiva do que tristeza - ouvir dizer isto àqueles mesmos que durante anos massacraram os portugueses com campanhas intensivas no sentido contrário àquilo que hoje apregoam em tom dramático senão provocatório. Lembro-me de um dia ter sido eu a massacrar um mensageiro qualquer, coitado, sediado algures num call-center, dando-lhe recado para transmitir ao chefe que não queria mais cartão de crédito nenhum, que estava farto de receber telefonemas com as mais incríveis ofertas, que não me telefonassem mais àquela hora, que as vantagens que me ofereciam eram impossíveis de cumprir, blá blá blá … há que tempos que o telefone não toca (!) mas os mandantes, hoje, não mostram arrependimento (nem se suicidam!), antes pelo contrário, escondem de forma agressiva, e grosseira, as suas responsabilidades como se os cidadãos, clientes … consumidores … tivessem nascido ontem. Honra seja feita aqueles poucos banqueiros que, certamente, por pudor, se mantêm em recato.
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quarta-feira, maio 19

LULA PARA QUÊ?


Uma vergonha os critérios editoriais da maior parte da nossa comunicação social. Estava a ver, e ouvir, agora mesmo, na RTPN o discurso, de improviso, e em directo, de Lula da Silva no final da última cerimónia pública da visita do presidente do Brasil a Portugal, que deverá ser a última nessa  qualidade, quando a voz do repórter se sobrepôs e a emissão passou para o estúdio. O discurso era muito interessante mas não cheirava a escândalo e Lula falava ao lado de Sócrates. Nos outros canais nada de Lula em directo pois que importância tem para os nossos pigmeus do jornalismo a opinião de um dos políticos mais influentes a nível global! Num outro canal estava Passos Coelho, noutro Bagão Félix e nos outros coisa nenhuma! E assim vamos andando!
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terça-feira, maio 18

AINDA O CASAMENTO ENTRE PESSOAS DO MESMO SEXO


Justine Reyes

In Da Literatura

Os sectores mais conservadores da direita (e de alguma esquerda) andaram anos a dizer que o casamento entre pessoas do mesmo sexo provocaria alarme social, fazendo desmoronar a família tradicional. (...)

Se houvesse alarme, a sociedade tradicional tinha-se mobilizado. Ora nem a Igreja, que se limitou a cumprir os mínimos, nem os partidos da direita, desobrigados de acção directa para lá da retórica parlamentar, fizeram mais do que salvar as aparências. Em Fevereiro, a marcha da indignação deu a medida do desinteresse do país real.

Dentro de dias, quando for publicada a Lei ontem promulgada pelo Presidente da República, Portugal tornar-se-á o oitavo país a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Para já, os outros sete são a África do Sul, a Bélgica, o Canadá, a Espanha, a Holanda, a Noruega e a Suécia (cinco monarquias!). Além destes, o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal em seis estados americanos: Connecticut, District of Columbia (Washington), Iowa, Massachusetts, New Hampshire e Vermont. E também na tribo Coquille da Nação Navajo. E ainda na cidade do México e no estado de Coahuila. Israel, por exemplo, não casa mas reconhece os casamentos efectuados noutros países. Estamos a falar de casamento. (...)
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segunda-feira, maio 17

domingo, maio 16

O RELATOR


A "JUSTIÇA"


Fotografia de Hélder Gonçalves

A justiça em Portugal não é feita pela hora do nosso tempo mas por uma hora antiga. São infindáveis os danos das penas aplicadas pela usura do tempo. A suspeita duradoira faz a vez do castigo. Assim se encobrem os culpados com o silêncio dos inocentes. O quarto poder decide a pena a aplicar a que se segue o silêncio da morte. Diz-se que só os ricos podem lutar contra a injustiça. Eu digo que nem os ricos. A justiça passeia-se impune perante os olhos da nossa sociedade impotente. Até quando? [A propósito, e apesar, do que aqui se escreve.]
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quarta-feira, maio 12

CRESCIMENTO - o ângulo da notícia


                                     Justine Reyes

O Expresso coloca este título para a notícia do dia acerca da economia: Portugal cresce 1% nos primeiros três meses. O JN utiliza este: Economia nacional com o maior crescimento da UE

Quais as razões do Expresso para esconder as boas notícias? Ou, se quiserem ser pessimistas, as notícias menos más? A economia em Portugal cresceu mais do que o previsto, registando o maior crescimento da UE. Ponto final. Mais tarde virão outras notícias e, certamente, algumas serão más notícias. Nem é preciso ser adivinho ou economista, mas cada notícia no seu galho ...
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O EUROSTAT confirma.
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segunda-feira, maio 10

BENFICA



Pronto! O Benfica é campeão. Os bastidores do futebol não devem ser melhores, nem piores, do que os bastidores da política ou de qualquer outra actividade humana. Não sei, na verdade, se vencem sempre os melhores. Acho, sinceramente, que não. Mas se os que vencem são os nossos somos capazes de, sem esforço, considerá-los os melhores do mundo. Fora do terreno do jogo - com suas regras - tantas vezes inexplicáveis, ou mal aplicadas, restam os adeptos, a massa associativa(!), espectadores, hoje mais telespectadores que, apaixonados, se degladiam. Fiquei contente, mas era excusada a violência que a inevitável paixão não justifica.  

domingo, maio 9

ANIVERSÁRIOS


Esperar é deixar o tempo passar, compreender que o tempo não nos espera. Não é o tempo que nos envelhece. O combate da nossa vida não é contra o tempo. É contra nós mesmos. O que somos para os outros e como nos vemos a nós próprios. É como nos sentimos quando nos olhamos ao espelho e nos vemos. Sós. Sem mais ninguém. Ver correr à desfilada as imagens dos que mais amamos. É isso viver. Na fronteira do vazio da vida que não deixa nada para contar. Uma memória apagada no dia da missa do sétimo dia. As vidas comuns. As vidas de milhões dos nossos irmãos de caminhada em levas sucessivas. Vidas com prazo. Finitas. Escreveu Camus: “a imortalidade é uma ideia sem futuro”. Observação certeira. 22/05/2008

                           Agostinho Roseta no jantar de extinção do MES (fragmento)
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sábado, maio 8

POR QUEM OS SINOS DOBRAM





































Fotografia de Hélder Gonçalves

Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.

John Donne

[Epígrafe a “Por Quem os Sinos Dobram” de Ernest Hemingway.]
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B.B. King

quinta-feira, maio 6

U.K. - ELEIÇÕES (HOJE)


Fotografia de Hélder Gonçalves

No Margens de Erro:

1. Conservadores deverão ter mais votos.
2. Impossível saber o que se passa entre Trabalhistas e Liberais Democratas.
3. Nenhum simulador sugere a possibilidade de uma maioria absoluta para os Conservadores.
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Exit poll gives Tories 307 seats, Labour 255 and the Lib Dems 59.
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quarta-feira, maio 5

Cristiano, un futbolista bestial, superlativo ...


Num dia de recolhimento por efeitos da alergia, que sempre me ataca pela primavera, para fechar este assunto antes do mundial, vi agora mesmo o Cristiano Ronaldo marcar três golos seguidos ao Maiorca, um hack-tric na linguagem dos futebóis. O El País escreve que Ronaldo é un futbolista bestial ...
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O PAPA E O PALCO


O palco para o Papa celebrar missa no renovado Terreiro do Paço ganhou forma. O Tomás Vasques tem razão: o cenário é espectacular.
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sábado, maio 1

FUTEBOL - CAMUS E OUTROS



Algumas imagens de Albert Camus a propósito de um assunto sério: o futebol.
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ALBERT CAMUS - Solitaire et Solidaire


Os meus amigos António Reis e Fátima fizeram-me chegar às mãos uma prenda escolhida em liberdade. Antes não me havia sido possível encontrar – por estar esgotado – este livro: Albert Camus, Solidaire et Solitaire, de autoria de sua filha Catherine Camus, edição Michel Lafon. Um livro composto por imagens, fotografias e não só, já conhecidas ou reveladas. Está lá o homem todo, sua vida e obra, uma luz que brilha por entre as sombras que povoam o nosso tempo.

« Mes enfants et mes petits-enfants, mes neveux et ma petite-nièce ne l’ont pas connu. Pour eux, j’ai voulu traverser toutes les images. Pour retrouver son rire, sa légèreté et sa générosité, pour retrouver cet homme attentif et chaleureux qui me laissait vivre. Pour montrer, comme l’écrit Séverine Gaspari, qu’Albert Camus était "un homme parmi les hommes et qui tenta, parmi ces hommes, d’être aussi homme qu’il le pouvait". » Catherine Camus
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quinta-feira, abril 29

FUTEBOL

O futebol é um fenómeno global e local ao mesmo tempo. Popular até ao tutano e mediático até à saciedade. Já perorei diversas vezes acerca do tema. Da terra batida dos campos da província mais remota até às relvas reluzentes dos grandes palcos há muitas diferenças mas também muitas semelhanças. Os heróis de um dia são os vilões do dia seguinte. A paixão pelo futebol entre as massas é um factor de alienação dirão os ortodoxos da esquerda, eles próprios seduzidos pelo fenómeno, mas libertador de tensões sociais e fautor de sentimentos de pertença cuja importância para a vida das comunidades e do indivíduo é difícil de explicar. Mourinho é um símbolo do líder odiado e idolatrado, vencedor mesmo quando vencido, desafiador do risco, conhecedor do mister a que dedica o seu tempo e saber. Muitos não sabem da profundidade do seu saber académico e da sua capacidade para gerir as virtualidades da chamada inteligência emocional na gestão dos grupos ou das equipas. O Prof. Manuel Sérgio – seu professor -um dia deu-se ao trabalho de me explicar o que iria ser Mourinho antes de ele atingir a notoriedade dos nossos dias.

E ainda a respeito de futebol assinale-se que a selecção portuguesa atingiu, pela primeira vez, um lugar no pódio do ranking mundial FIFA. Se eu fosse estratega dos desígnios nacionais, nesta hora de crise, colocava a vitória, mesmo que relativa, da selecção no Mundial da África do Sul entre as primeiras prioridades do investimento externo do país. Será uma oportunidade única de colocar o mundo, ou uma parte grande dele, a aplaudir de pé um pequeno país numa hora de dificuldades. Poucos países dispõem de uma tal oportunidade. E tudo devemos fazer para a não desperdiçar.
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quarta-feira, abril 28

ANIVERSÁRIO
























Naquele tempo de primícias sobrevoei o mundo cão que devorava a carne do povo sem liberdade nem pão. As mulheres assomavam à janela de casas térreas sem água nem pia a ver o tempo passar. A cidade crescera para fora das muralhas antigas subindo até junto das hortas. As ruas novas eram rectilíneas e os largos mais largos já não para dar passagem às carroças puxadas a cavalos mas às novas máquinas puxadas a motores de explosão. A casa era pequena e a janela principal era alta demais para mim. Um dia cheguei sem ajuda ao cimo dela e avistei a rua. O meu desejo foi tomar o meu lugar nela, correr ao pó, alisar as paredes com as mãos e sentir o cheiro da cal branca. O calor do sol diluía os odores das flores pela primavera quando ainda chovia e o ar subia às narinas com o perfume da vida eterna. O tempo era de silêncios entrecortados por palavras que sublinhavam as penas do quotidiano, alegrias breves, máscaras e enigmas, vidas com amor, mortes prematuras, caminhar, caminhar … ao encontro do futuro que sempre existe mesmo no seio da noite escura com a morte na alma. Havia o arco-íris tracejando o céu ou a caixa de cartão, as meias enroladas ou os girinos na poça do espaldão, sorrisos largos e mãos quentes, passeios nos quintais e as árvores frondosas ensombrando os animais com os frutos escorrendo seiva e colhidos à mão. Sou essa atmosfera feita de terra e de gente. [17/1/2008]
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sábado, abril 24

24 ABRIL




































À PORTA DE ARMAS

Na véspera do 36º aniversário do 25 de Abril tentei lembrar-me dos passos que terei dado nesse dia distante. Era uma 4ª feira. Basta consultar o calendário. Estava no tropa e devo ter frequentado, nesse dia, o quartel do Campo Grande. O chamado, na gíria, 2º Grupo (de Companhias de Administração Militar). Ontem, ao jantar, o Leite Pereira contou-me que, estando lá colocado, viu a minha ficha de suspeito quando ela lá chegou antecedendo o meu ingresso. Uma notícia nova acerca de uma rotina da época. Fervilhavam os boatos. Sabia que um golpe estava preparado para o dia seguinte. A fonte era credível. Acreditei. Fiz por acreditar. Temi um banho de sangue. Pensei nos meus pais. No meu irmão. Na minha namorada. Mas julgo que mantive a descrição. Como já contei, outras vezes, avisei os amigos civis mais íntimos. Organizei-me com os amigos militares que se haviam tornado conjurados. Não imaginava o que viria a passar-se após a arrancada da operação, um golpe militar, tornado revolução pela adesão popular. Um daqueles raros momentos de fusão que mudam o curso da história. Curto e fulminante. Hoje impressionam-me as notícias acerca das iniciativas e intervenções do Presidente da República pela celebração deste aniversário. Bem-haja. E ainda me impressiona mais não saber se terei em quem votar nas próximas eleições presidenciais.

sexta-feira, abril 23

ABRIL EM MAIO

Fotografia de Hélder Gonçalves

Neste dia, dois anos atrás, nas vésperas do 25 de Abril, escrevi acerca de Maio. Abril e Maio são, para mim, meses pejados de acontecimentos e efemérides, alegres e tristes, a primavera dos sentidos, os aniversários, as mortes, os cheiros, o brilho da luz …

A força das efemérides leva-nos ao Maio de 68. Passaram 40 anos. Àqueles que me questionam acerca das vivências desse tempo respondo, entre o sério e o irónico, que não me lembro de nada. Claro que me lembro mas as minhas vivências não me mobilizam para a reflexão. Frequentava a Universidade e, mesmo antes de nela ter ingressado, desde 1965, que participava dos movimentos de oposição ao regime.

Durante os acontecimentos de Maio de 68 devo ter feito tanta coisa … ajudei a elaborar, imprimir e distribuir cadernos que divulgavam abundante informação acerca do que estava a acontecer em França. Lembro-me deles mas não me lembro do título da colecção. Discutia-se, no fundo, porque éramos modestos, uma coisa comezinha que era … a tomada do poder na universidade. Que afinal não era utopia porque viria a tornar-se realidade pouco tempo depois. Uma das vítimas foi o jovem assistente Cavaco Silva.

Em Abril de 1968 lia os “Cadernos” de Albert Camus, disso tenho a certeza, pois neles escrevi a data exacta da primeira leitura apaixonada (Abril – 3 – 1968 – FARO – CAIS.) Tal só foi possível porque as minhas preferências, no pensamento e acção, pelos 20 anos, nada tinham a ver com o Partido Comunista ou com os grupos marxistas-leninistas emergentes.

Eu vinha das vivências culturais, ligadas ao teatro amador; li acerca de teatro e dramaturgos, nalguns casos como ofício prático, clássicos e não só, (Gil Vicente, Eugène Ionesco, Luigi Pirandello, Thornton Wilder…) e também poetas (José Gomes Ferreira, encantava-me …) romancistas, de várias correntes, também os neo-realistas (Urbano Tavares Rodrigues …). Filósofos, ícones da época, mais Gramsci que Marx, mais Lukács que Lenin, mais Camus que Sartre … mais Marcuse que Engels … Já para não entrar no encantamento por Mary Joplin, Jimmy Hendrix e outros, além dos francófonos e dos portuguesíssimos que todos sabem quais são!.. E ainda, sem saber, militava numa estrutura da LUAR no Algarve.

As minhas experiências, anteriores ao Maio de 68, por razões de geração, eram mais próximas do espírito do Maio do que eu próprio supunha. Estavam mais próximas dos ideais libertários do que da ortodoxia comunista, pró soviética ou pró chinesa. Nunca na vida militei, nem simpatizei, com o PCP nem com os diversos grupos marxistas-leninistas que estavam a desabrochar. Respeitava a tradição da luta do PCP mas não me interessavam os valores em que ela assentava.

Este desalinhamento político ideológico manteve-se ao longo do tempo e havia de desembocar na aventura colectiva na criação do MES (Movimento de Esquerda Socialista). Esta foi a resposta de muitos de nós à angústia de um desejo de empenhamento político que não encontrava resposta em qualquer das ideologias e organizações instaladas na esquerda que víamos como demasiado disciplinadoras na militância e ortodoxas nas ideias.

A gestação de um movimento autónomo de contestação ao regime – nas escolas, sindicatos, quartéis, igrejas, bairros e fábricas – correu antes e depois do Maio de 68 que incendiou essa vontade de construir uma alternativa.

A ideia da criação de um movimento político anti-autoritário, anti-fascista, anti-capitalista e anti-colonialista, ganhara corpo nos sucessos de muitas lutas sectoriais, na preparação de candidaturas independentes a direcções de sindicatos, associações de estudantes e recreativas, na experiência de criação de comités que desencadeavam greves e reivindicações à revelia das estruturas sindicais e associativas tradicionais.

Enfim estávamos confiantes que o caminho do futuro passava pela criação do nosso próprio movimento de contestação ao regime fascista, a partir das bases, sem obediência a chefes nem a hierarquias que, na verdade, nos repugnavam.

Entre os anos de 1965 a 1968 fiz a minha aprendizagem na luta política de base. Fui um soldado na revolta da juventude contra a tirania. No teatro amador, na secção cultural da associação de estudantes de económicas, ou na sua reprografia, (secção de folhas), que dirigi, na direcção da cooperativa livreira Livrelco; em comissões de curso; na organização de acções de propaganda e de manifestações (as relâmpago eram as melhores! …) contra o governo; na CDE de 1969, antecedida pela tentativa, falhada, e pouco conhecida, de aproximação à CEUD de Mário Soares …

Muitas e boas razões para me lembrar de coisas do passado que podem valer muito como memória mas valem pouco no cotejo com os desafios do presente e do futuro.

[23/4/2008]



quinta-feira, abril 22

SILÊNCIOS

Fighting Fish Studio

Dois silêncios. O silêncio bom, o silêncio mau. O silêncio do consenso é diferente do silêncio da revolta? Pode a casa da democracia tornar o silêncio em suspeita? Quantos silêncios ressoam nas palavras da casa da democracia? E quantos dos eleitos fazem do silêncio a sua profissão na casa da palavra? Como valorizar a palavra desvalorizando o silêncio? Como salvar a democracia condenando os homens à palavra? A última fronteira da liberdade é o silêncio.
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quarta-feira, abril 21

TRESLER
























De repente na voragem da leitura dos títulos, de tanto ler, percebi: Américo Tomás. Assustei-me! … Logo nas vésperas do 25 de Abril!
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sábado, abril 17

A NATUREZA TEM MUITA FORÇA

Ocorrem em diversos países simulacros de operações militares para resgate de políticos sitiados, longe dos seus povos, pela nuvem islandesa. Algumas questões interessantes que a nuvem coloca à vida no nosso tempo: a natureza tem muita força! Justificam-se as urgências impostas pelas agendas dos políticos? As estradas, auto-estradas, e todos os meios de transporte terrestres, fazem falta? As novas tecnologias dispensam um caloroso aperto de mão, uma conversa olhos nos olhos? O transporte ferroviário, incluindo a “alta velocidade”, é dispensável? Portugal – continente e ilhas atlânticas - é um valioso espaço estratégico na ligação entre continentes? Não foi encontrada nenhuma ligação de Sócrates à criação da nuvem islandesa? A chanceler alemã passou uma noite em Lisboa. João Garcia concluiu hoje um sonho - subir as 14 montanhas mais altas do mundo. A natureza nem sempre vence o homem. Talvez se devam – homem e natureza - respeitar mutuamente.
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sexta-feira, abril 16

LADY GAGA



Bad Romance - o vídeo mais visto da história do Youtube
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UMA SONDAGEM PÓS CONCLAVE SOCIAL DEMOCRATA

Volto às sondagens porque esta é bastante relevante considerando o que as sondagens podem ter de relevante. Dizem que sim, no mínimo na gestão das expectativas. Os trabalhos de campo desta, não certamente por acaso, coincidem com o Congresso de entronização de Passos Coelho como Presidente do PSD. Os seus resultados não alteram, apesar da transcendência do conclave social-democrata, sem ironia, o quadro geral da relação de forças no xadrez partidário. Está explicada a prudência de Passos Coelho a lidar com o calendário …
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quarta-feira, abril 14

O REBELDE

Para os apreciadores que mais não seja pela bela capa deste livro que tornou Camus um mal amado, talvez mesmo odiado, no seu tempo, pela sua defesa da liberdade contra todas as formas de tirania. 
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Camus says The Rebel is someone who says, “this has been going on too long” or “up to this point yes, beyond, no” or “you have gone too far” or “there is a limit beyond which you shall not go”. When the metaphorical slave turns and makes that statement to the master, the Rebellion has begun. A Rebellion may be one man against the world. Or, it may be a host of men and women against a corrupt thing that “has gone too far” or an unjust practice that “has been going on too long.”
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terça-feira, abril 13

BENFICA, ASSIM SEJA!



Nas lides domésticas dos futebóis com túneis, manigâncias, o que se sabe e o mais que nunca se saberá, como em tudo na vida, quer-me parecer que o Benfica vai quebrar o jejum. Assim seja! 
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