Deixar uma marca no nosso tempo como se tudo se tivesse passado, sem nada de permeio, a não ser os outros e o que se fez e se não fez no encontro com eles,
Editado por Eduardo Graça
quinta-feira, março 15
FANATISMO RAPADO
Fotografia de Hélder GonçalvesEstabas nun banco público
como a túa existencia.
O mundo envolvente como un cinerama
aseguraba o movemento
a consciencia de que a vida seguía
e ti con ela.
Os paxariños picoteaban ao teu redor.
Confiabas.
Inesperadamente
nunha pantalla plana
baten imaxes expresionistas
dun pesadelo que che xelou a vida
primeiros planos de ferros
ardor rapado
cabezas de odio enferrexudas
botas ferretoadas
insignias fraticidas
músculos de coiro
cadeas
ruídos fríos.
Golpearon a tua sinxeleza
com a feras autómatas de fanatismo pelado
para esmagar os miolos da diferencia
a túa fronteira interna.
Na confusión do corpo lacerado
na convulsión da morte
non podías concebir por que foras elexido.
Azar
indignante azar
alvo dun odio cego
enchido de ocos
dun odio masa
dun odio brutal
apaga vida
dun odio lato
que me inclúe.
Matáronme contigo.
Ardemos no fogón do desarraigo
e da impotencia.
Maria Xosé Queizán
(em língua Galega)
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quarta-feira, março 14
O LAVA MÃOS
Fotografia AngelleSeja o modelo alemão ou francês o caso de Bagão Félix é menos de ideologia e mais de carácter… claro que isto não tem importância nenhuma, cada um tem o seu, o problema é quando os homens de mau ou sem carácter acedem ao poder, claro que isto nada tem a ver com o Dr. Bagão Félix, podia ser com outro qualquer, mas o meu problema de momento, hoje exactamente hoje, é saber se algum dia se vai revelar a natureza do carácter dos governantes com mau ou sem carácter se por regra eles se encobrem todos uns aos outros mesmo que se encontrem nas antípodas das ideologias disponíveis ou seja para fazer uma aplicação prática: será possível que o Dr. Portas um caleidoscópio de reflexos de si próprio possa aspirar ao poder com a aquiescência dos políticos todos que aspiram ao poder e que se lavam mutuamente as mãos levando consigo de novo algumas figuras que andam por aí a balbuciar em público opiniões tais como Santana Lopes e Bagão Félix?
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terça-feira, março 13
ÚLTIMOS DIAS
Hitler – os últimos diasUns dias atrás deparei-me com esta notícia: Morreu Bernd Freytag von Loringhoven, último superviviente del búnker de Hitler. Será possível fazer sobreviver a memória da tirania?
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PARA QUANDO FOR MESMO
Fotografia de Hélder Gonçalvesvinte e cinco de abril,
agora que vinte e cinco anos sobre ti
são passados,
parece que já só como memória
em nós subsistes.
e que o abraço que demos
em plena rua,
já só cabe dentro
da semi-clandestinidade do texto.
decerto os novos senhores
que vieram repor a ordem
já não cortam a palavra;
são bem educados,
deixam falar toda a gente,
e como enriquecem,
ou se sentam nas luminosas
cadeiras do poder,
chamam a isto liberdade.
a liberdade de os podermos admirar
no seu esplendor.
mas nós ainda estamos cá,
e somos cada vez mais.
e um dia vamo-nos fartar de novo
de só estar a ver o espectáculo.
pode ser daqui a vinte e cinco anos,
pode ser daqui a vinte e cinco séculos.
mas o vinte e cinco de abril
há-de acontecer outra vez.
quando toda a humanidade
se levantar sobre a terra
num novo abraço solidário.
quando um clamor imenso
se erguer no espaço,
e até os anjos e os poetas não forem mais
do que uma recordação.
Porto, Portugal, finais do ano de 1998 da era Cristã
Vitor Oliveira Jorge
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segunda-feira, março 12
DOIS ANOS
Passam hoje dois anos desde que Sócrates tomou posse como primeiro-ministro. Por estes dias chovem os comentários críticos acerca das medidas do governo na área da segurança: revelam temores acerca da concentração de poder nas mãos do primeiro-ministro. O argumentário dos críticos tem assumido contornos, por vezes, dantescos. Mas estes críticos não são, na verdade, adversários do governo mas os seus melhores aliados. Pois o que a opinião pública quer ouvir dizer, em matéria de segurança, é exactamente aquilo que os críticos apontam de errado na estratégia do governo.
domingo, março 11
CONSELHO EUROPEU
Imagem daquiConclusões do Conselho Europeu de Bruxelas, elaboradas pela Presidência (8/9 de Março de 2007).
Interessante o título da abertura deste documento não desmentindo a influência do passado maoista de José Manuel Barroso:
Europa – juntos venceremos:
"A Europa está actualmente a beneficiar de uma ascensão económica e as reformas começam a traduzir-se em crescimento e emprego. Esta evolução positiva deve ser aproveitada para acelerar o ritmo da modernização da Europa e da sua economia e permitir assim à UE alcançar níveis de prosperidade mais elevados, criar mais empregos e reforçar a coesão social. A União está decidida a demonstrar que, num mundo globalizado, é capaz de definir as suas políticas – interna e externa – de acordo com os seus valores, em benefício dos seus cidadãos."
Sublinhe-se o anexo no qual se apresenta o PLANO DE ACÇÃO DO CONSELHO EUROPEU (2007-2009) – POLÍTICA ENERGÉTICA PARA A EUROPA (PEE)
NA TASCA
Fotografia de Hélder Gonçalves(fragmento)
O esgar de deus
num idiota;
as nossas criações
troçam de nós.
Sebastião Alba
[No dia do seu aniversário.]
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sábado, março 10
François Bayrou
François BayrouNas eleições presidenciais francesas François Bayrou sobe nas sondagens. O resultado final – mesmo o da primeira volta – vai depender da capacidade de Bayrou em atrair o voto do eleitorado do centro.
Ver aqui, aqui e aqui.
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LEITURAS
“O Primeiro Homem”Por estes dias conclui a releitura de “O Primeiro Homem”, obra póstuma de Albert Camus, cujo manuscrito foi encontrado ao lado do corpo aquando da sua morte num acidente de automóvel.
“O Primeiro Homem” é a única obra de Camus com um cariz marcadamente autobiográfico e esta nova leitura, na tradução portuguesa, fez-me provar o gosto da transfiguração. Como se fosse a primeira vez que a tivesse lido, ou fosse uma outra obra ou, porventura, um outro leitor.
Com muitas outras leituras de permeio a releitura de uma obra é, afinal, uma leitura inaugural. É muito interessante sentir esta transfiguração do entendimento de uma obra a cada nova leitura.
Desta vez fui capaz de reconhecer, quase ao detalhe, os meandros da vida que respira por detrás das palavras.
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À MESA
Fotografia de Família (clicar para ampliar)Esta fotografia, publicada no “A Defesa de Faro”, tem a particularidade de mostrar o meu irmão Dimas à mesa com um grupo de amigos nalguma comemoração. É o sexto, mais debruçado sobre a mesa e, na sua expressão tranquila, ostenta a transparência do seu carácter. O perfil do seu rosto traz-me à memória o perfil dos rostos da família: todos diferentes, todos iguais.
sexta-feira, março 9
”COMUNICAÇÃO A UMA ACADEMIA”
Fotografia de Hélder GonçalvesOs cães espreguiçavam-se nos campos muito frios
que levavam a um rio de peixes muito nítidos.
A manhã cumpria-se e os salgueiros,
evidentemente os salgueiros seriam imprescindíveis.
Como devia ser o moço que pescava
não com cana de prata e anzol de ouro,
mas cabelos revoltos, rosto talvez sardento
antes do “Acidente”, muito antes
da “Morte em Veneza”, de Visconti.
(falo já se vê de Dirk Bogard)
A senhora passou pelo rapaz,
sorriu-lhe de passagem.
Um pássaro arrepiado nesse instante,
pipilaria entre as folhas de um choupo,
uma pequena aranha iniciaria
o trabalho da teia,
seu excessivo momento de glória,
e a luz, cristal estilhaçado,
pararia, de súbito, no rosto de Virgínia.
Dona Virgínia Woolf que levava nos bolsos,
cheios de âncoras, pedras,
talvez alguns papéis e se tornava água.
António Rebordão Navarro
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SIM
Imagem daquiO PS conduziu a elaboração da nova “lei do aborto” no sentido do consenso com a oposição de esquerda. A votação da lei correspondeu a esta orientação e ainda obteve a adesão de 21 deputados do PSD. Para um “governo de direita” não está nada mal. O PS fez a separação das águas, honrou um compromisso e fez coincidir a aprovação da lei com o “Dia Internacional da Mulher”. “Jack-pot político”. Fim de um capítulo negro da nossa história contemporânea.
quinta-feira, março 8
8 DE MARÇO
"Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.
(…)
(…)
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PASCOELA BARRETO
Pascoela BarretoUm dia fui convidado para presidir a uma comissão que o governo achou necessário criar para cuidar do “Acolhimento e Inserção Social da Comunidade Timorense em Portugal”. Vivia-se a época difícil da chegada a Portugal, em vagas sucessivas, de timorenses resultante, em grande medida, das ocupações de embaixadas no âmbito da luta do povo timorense pela independência.
Assumi e desempenhei a função durante alguns anos, a título gracioso, em acumulação com a Presidência do INATEL. Senti-me a cumprir um dever e, além disso, foi um prazer trabalhar com os restantes membros da Comissão, representantes de diversos ministérios, e com os timorenses que foram destacados para colaborar com a Comissão.
Uma das pessoas que se juntou aos trabalhos, em funções técnicas, foi a Pascoela Barreto que era quadro técnico do estado, se não erro, da área dos Transportes Terrestres, e que muito se destacou na tarefa complexa de aplacar as dificuldades da comunidade timorense em Portugal que, de um dia para o outro, cresceu de forma exponencial.
Lembrei-me dela hoje, “Dia Internacional da Mulher”, ao receber este email:
A Pascoela Barreto teve hoje uma grande surpresa quando, devido ao fim do seu posto como Embaixadora da República Democrática de Timor-Leste em Portugal, foi apresentar cumprimentos de despedida ao Presidente da República e o Sr. Prof. Cavaco Silva a agraciou com a Grã-cruz da Ordem do Infante D. Henrique.
Ora aqui está como o Estado português, de quando em vez, faz justiça agraciando aqueles que o merecem. Pela parte que me toca associo-me à distinção e manifesto o meu júbilo por ela.
DIA INTERNACIONAL DA MULHER
Florbela EspancaNo Dia Internacional da Mulher rendo a minha homenagem a todas as mulheres através de Florbela Espanca e da sua poesia.
Estava visitando os meus favoritos quando descobri no “Reino de Copas”, surpresa minha, um link que me levou a Florbela Espanca.
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ANTÓNIO RAMOS ROSA
Fotografia de Hélder GonçalvesEsta é a hora. Mas nunca é a hora.
Só quando os braços se entrelaçam e o vermelho ascende
entre a folhagem. Há uma clareira
metade verde metade branca. E os nomes que se dizem
são felizes em consonância com as folhas.
Não é a hora mas é a hora, mas a hora é esta.
Que poderemos fazer? Um sopro de sílabas
de água ou de um fogo azul pode acender a página
e iluminar o espaço da morada.
A palavra aleatória virá ou não da nascente
mas será sóbria e atenta à nudez da existência
para além da sua opacidade. E será tão frágil
como a teia de espuma sobre um rosto de areia.
António Ramos Rosa
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quarta-feira, março 7
EDUCAÇÃO: MAIS MEDIDAS OU MEDIDAS NOVAS?
Philippe PacheEste programa destina-se a cumprir a primeira das dez prioridades que o governo estabeleceu no âmbito do QREN:
“Preparar os jovens para o futuro e modernizar o nosso ensino” correspondendo, aliás, a uma das prioridades estabelecidas no próprio programa do governo: “Queremos um país em que todos os nossos jovens concluam o ensino secundário. Um país que vença o abandono escolar. Um país que dê a todos os jovens uma educação de qualidade, a oportunidade para se qualificarem e para triunfarem num mundo global e exigente. Para serem cidadãos conscientes, activos, participativos, inovadores.”
Já pratiquei e escrevi acerca destas medidas que exigem, para que tenham sucesso, no mínimo, três condições: coordenação efectiva entre os Ministérios da Educação e do Trabalho e Solidariedade Social, uma criteriosa aplicação dos fundos comunitários que lhes estão afectos e a adopção de um modelo exigente de monitorização e auditoria ao longo do tempo face a objectivos qualitativos e quantitativos previamente definidos.
De qualquer forma tudo parece apontar para que o governo socialista quebre uma estranha tradição de segregação do ensino profissional e enverede pela montagem de uma oferta educativa, na rede pública, que o considere e valorize, aproveitando os recursos disponíveis em instalações, equipamentos e competências profissionais.
Esta oferta não é a panaceia universal capaz de resolver todos os males da educação em Portugal mas, em conjunto com outras medidas, pode ajudar muito na luta contra o abandono escolar precoce e o insucesso escolar que em Portugal atingem níveis inaceitáveis.
É preciso, por último, deixar um alerta e uma pergunta. O alerta vem ao desencontro de uma “exigência” recente do Presidente da República reclamando resultados no final de 2007. Ora é uma verdade reconhecida por todos que na área das políticas da educação/formação os resultados carecem de tempo e de estabilidade política. A pergunta resulta da consciência da erosão das expectativas públicas acerca do sucesso das reformas da educação que, de tão anunciadas sem cumprir seu ideal, geram as maiores interrogações e perplexidades entre todos os agentes envolvidos: estamos perante mais medidas ou medidas novas?
A CASA
Fotografia de Hélder GonçalvesUm pátio vazio, inúteis carregamentos de pedras,
sobrescritos rasgados,
eis a minha casa.
Noites a fio leituras até altas horas
uvas
sonhos que pouco a pouco se aproximam de
escarpas
sem pronunciar palavra.
Chegaste. Na televisão alguém
parecia muito só
ao sorrir para os teus olhos.
Jorge Gomes Miranda
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PENA DE MORTE
Paula Rego – Pieta, 2002Todas as pessoas têm uma vida para viver e não merecem, seja qual for a sua atitude perante ela, que lha tirem. Seja qual for o seu comportamento social cada um merece que a sociedade lhe reconheça a inocência antes que se prove, com o máximo de prudência, a culpa.
Todos os seres humanos merecem a vida mesmo que, nos limites do desespero ou do ódio, a não respeitem. Os julgamentos na praça pública, antes circunscritos ao diz que se disse na rua, no bairro ou no trabalho são hoje, impune e sistematicamente, executados pela comunicação social tornando-se na maior vergonha da nossa vida pública dita civilizada.
A pena de morte foi abolida em muitos países, e no nosso em primeiro lugar, mas subsiste um extraordinário sucedâneo da pena capital, aplicada com crueldade e cinismo, a notícia assassina que uma vez proclamada, e repetida à saciedade, visando eliminar alguém, permite a sobrevivência do corpo mas mata a liberdade do espírito. Lembrei-me, vezes sem conta, por estes dias, desta realidade macabra a propósito dos chamados processos judiciais mediáticos.
Escrevo a propósito do que diz CATATAU e acrescento, alargando ao universo das condenações mediáticas do nosso tempo, o que Camus escreveu, no seu tempo, acerca da pena de morte nas “Reflexões acerca da Guilhotina”: “Il éclate au contraire qu’elle [la peine de mort] n’est pas moins révoltante que le crime, et que ce nouveau meurtre, loin de réparer l’offense faite au corps social, ajoute une nouvelle souillure à la première […]
Nos nossos dias as notícias publicadas que insinuam ou acusam de criminoso alguém antes de qualquer acto probatório da justiça formal são, mais do que calúnias, novas formas de pena de morte que os cidadãos livres devem combater por todos os meios e com todas as suas forças.
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