sábado, abril 2

O PAPA MORREU


O Papa João Paulo II morreu. No seu pontificado, longo e intenso, afirmou-se como uma figura notável. Concretizou um pontificado universalista, em particular, em prol do reencontro entre as religiões. Viajou ao encontro dos povos e usou a palavra como uma arma pela reconciliação e pela paz. Era um conservador em muitas questões que atormentam a vida dos cidadãos e das sociedades contemporâneas como é o caso, por exemplo, da “interrupção voluntária da gravidez”, do uso de métodos contraceptivos e da ordenação das mulheres.

Mas impressionou-me sempre e, em particular, na fase final da sua vida, a forma desassombrada como encarou a velhice, a doença e a morte. Foi até ao fim um protagonista da sua própria vida impregnando de esperança no futuro os desafortunados pela marginalização, pela tirania, pela doença e pela pobreza.

Professemos, ou não, da sua fé, concordemos, ou não, com as orientações do seu pontificado, reconheçamos, humildemente, que foi um grande homem entre os homens do nosso tempo e de todos os tempos.

Uma nota dissonante e, porventura, menor para lastimar como, em Portugal, a RTP, canal público de televisão, realizou a cobertura dos últimos momentos da vida do Papa. No momento em que era anunciada oficialmente a morte do Papa a RTP transmitia um anúncio comercial.

Mais tarde quando o Presidente da República pronunciou a comunicação pública de condolências, em nome do povo português, a RTP não entrou no ar senão quando a comunicação já decorria e, mesmo durante a mesma, mostrou uma imperdoável displicência, sem a presença de um jornalista no acto e partilhando, quase todo o tempo, a imagem do Presidente da República com outras imagens.

A SIC, um canal privado, pelo contrário, cumpriu plenamente o serviço público que deveria competir à RTP. Face a este comportamento indigno a administração da RTP deveria ser exonerada já amanhã.

JOÃO PAULO II



No fim da vida o Papa polaco, João Paulo, Karol, quis, de vontade própria, dizer ao mundo dos homens que a vida deve ser vivida até ao fim.

Exagero, dizem alguns. Nos últimos dias as imagens das aparições públicas do Papa eram chocantes. E as imagens das guerras e de massacres de civis inocentes? E as imagens da “Quinta das Celebridades”? E as imagens dos corpos amortalhados das vítimas de desastres de viação? E as imagens dos aviões a embaterem nas Torres Gémeas ? ...

No caso deste Papa as imagens do seu sofrimento destinavam-se, por vontade do próprio, a destronar a imagem do efémero atingindo, em plenitude, o coração e a inteligência dos homens. É assim que as entendo.

O Papa quis mostrar que a velhice não é um impedimento para o desempenho de uma profissão, de uma missão, de um trabalho. Que a terceira ou quarta idade, o fim da caminhada pela vida, não é um estigma que justifique o abandono do homem pelos outros homens e a sua condenação à solidão.

Que a doença não é uma fatalidade que se deva aceitar com resignação. O Papa quis, de vontade própria, mostrar ao mundo dos homens, que o sofrimento não é motivo de vergonha e faz parte integrante da vida.

O Papa quis utilizar o poder da sua imagem pública, a sedução que a sua figura exerce em católicos e não católicos, para nos dizer: vivam a vida até ao fim, sem abdicação de nada a que tenham direito, partilhando com a comunidade não só a parte radiosa da criação humana, sempre associada à juventude, como a sua parte mais dolorosa: a dor, a doença e a morte.

Este ritual de exposição pública do sofrimento físico de João Paulo II– anunciando o fim da vida, sem subterfúgios – é uma novidade absoluta que marca uma postura corajosa acerca da vida e, quiçá, o princípio de uma nova era.

Imagem de Cibertulia

sexta-feira, abril 1

SECA



É precisa uma estratégia nacional para a água. E, por conseguinte, para a seca. De alto a baixo. De cabo a rabo. Uma tarefa de fundo, a médio/longo prazo, para o governo. Esta é mesmo uma função do governo.

Se o governo socialista a concretizar já basta para ficar na história. Eu disse concretizar. É difícil mas possível. E tem apoio popular. Garantido à partida. Mas não façam prédicas anunciatórias para empatar tempo e adormecer o auditório.
Acção. Acção.

"A SECA - PEQUENA DISSERTAÇÃO LIVRE"
(Texto integral no IRAOFUNDO E VOLTAR)

Fotografia de Helder Gonçalves

"Diário do Governo" - 7


"UMA LÂMPADA DE SALA QUE ILUMINE A TODOS"

Já está disponível no site do “Semanário Económico” o artigo com o titulo em epígrafe que hoje publico na edição daquele semanário.

O mesmo pode ainda ser lido no IRAOFUNDO EVOLTAR.

quinta-feira, março 31

O "Ti Mimoso" Morreu

O “Ti Mimoso” morreu hoje. Acabo de receber a notícia, via email da Patagónia, do Pedro Pedrosa. O “Ti Mimoso” era, com a sua mulher Helena, a referência física e humana de todos os que se deslocam à Aldeia Histórica de Linhares da Beira.

Nela viveram pelo menos dois anos os membros de uma equipa do INATEL que produziram no terreno uma obra de grande alcance chamada “Carta do Lazer das Aldeias Históricas”

Nela se realizou, promovida pelo INATEL, anos a fio a mais consagrada das provas de Parapente de Portugal: o “Open de Linhares da Beira”.

O “Ti Mimoso” era uma âncora humana insubstituível de todas as inúmeras iniciativas e actividades, planeadas e estruturadas, que o INATEL realizou, pelo menos desde 1996 a 2002, em prol do desenvolvimento socio-económico da Linhares da Beira e de toda a região da Beira Interior de Portugal. Um verdadeiro projecto, bem sucedido, de apoio ao desenvolvimento sustentável da região contrariando desconfianças, imobilismos e atavismos.

Nas muitas visitas que fiz aquela aldeia, durante sete anos, era ponto de honra visitar em primeiro lugar o “Ti Mimoso" e a D. Helena na sua “tasca”. Eram figuras de referência de todos os parapentistas nacionais e dos estrangeiros que nos visitavam.

Uma noite cheguei à sua beira, por milagre, debaixo de um nevão incrível conduzido de Jeep pelo Valentim, já de noite, através de uma estrada que era necessário adivinhar, sem avistar vivalma, nos limites da sobrevivência (pelo menos era essa a minha sensação, que não a do Valentim) mas com a determinação de cumprir o programa. E cumprimos.

O “Ti Mimoso” lá estava na sua “tasca” para nos receber não escondendo a surpresa pela visita inesperada e quase impossível.

Eu tinha levado calçados uns sapatos que não resistiram à travessia a pé do jeep à tasca. O "Ti Mimoso" e a D. Helena tiveram a gentileza de me oferecer, na hora, uma botas que me serviam a preceito. Retribui mais tarde oferecendo-lhe um relógio. Sei que ele o ficou a adorar de tal forma que o poupava ao uso não fosse estragar-se. Nunca mais esqueci o "Ti Mimoso", nem esquecerei.

Sempre amável e pronto a ajudar guardo dele, afinal, a memória próxima e fraterna de um companheiro de estrada e de viagem. Honra à sua memória.

CARANGUEJOLA



- Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores.

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira -
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado,
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
- Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar...

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho- que amor!
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
- Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo - e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?...
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co'a breca! levem-me prà enfermaria! -
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará.

Justo. Um quarto de hospital - higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda -
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...

- Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras...
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

Paris, Novembro de 1915

Mário de Sá-Carneiro

Atenção à Coreia do Norte e ao Irão

Una comisión impulsada por Bush reconoce que la guerra se basó en información totalmente errónea

Los expertos recomiendan en su informe cambios sustanciales en los servicios de inteligencia

EE UU lanzó la guerra de Irak y embarcó en ella a medio mundo basándose en informaciones "totalmente erróneas".

Ése ha sido el rotundo diagnóstico de la comisión designada por el propio presidente Bush para investigar los fallos de las agencias de inteligencia en los meses previos al ataque.

El informe recomienda una reforma en profundidad de los servicios secretos y advierte además de que la información que se maneja sobre Corea o Irán tiene la misma fiabilidad que la que se tenía entonces sobre las armas de Sadam.

El País

quarta-feira, março 30

Resultados Oficiais das Eleições Legislativas

O site do STAPE não apresenta ainda o resultado final das eleições legislativas de 20 de Fevereiro. Faltam os resultados dos “círculos da emigração”. Ainda há contencioso ? Há atraso ? É erro meu? O que se passa?

Sondagens no Reino Unido

Com eleições gerais, muito provavelmente em 5 de Maio, no Reino Unido são importantes as reflexões do MARGENS DE ERRO em que se afirma, por exemplo, que “uma votação 35%-34% favorável aos Trabalhistas, como a que resulta da última sondagem YouGov (24 Março), por exemplo, significa, na prática, uma vantagem muito maior em termos de deputados. Ou para ser mais preciso: o Labour pode até perder em número de votos e ganhar confortavelmente em deputados.”

Faro - "Capital da Cultura 2005"



Faro, minha cidade natal, parece aturdida com a ingente tarefa de acolher e organizar a “Capital Nacional da Cultura” - 2005.

A cidade sempre foi arredia a essas coisas da cultura. Cidade natal de muitos artistas, só grandes poetas contemporâneos, assim de repente, me lembro de António Ramos Rosa, Gastão Cruz e Casimiro de Brito...

Mas a cidade não acolhe dos seus grandes artistas senão quase só a sua lembrança.

Não admira que a directoria do certame, com sede ali no “Clube Farense”, paredes meias com uma janela do quarto onde eu me sentava na minha adolescência estudando e lendo enquanto ouvia os sons da mesa da batota que se jogava do lado de lá, encontre o caminho eivado de escolhos.

Morei na Rua de Santo António, a rua principal da cidade, na casa que serviu de lançamento para o negócio no qual o meu irmão – em ambiente familiar - havia de prosperar até à sua recente e dolorosa morte.

Dormimos longos anos os dois no mesmo quarto exactamente à beira da tal janela. Ele era o irmão mais velho e foi-me interessando pelas coisas da cultura. A cidade provinciana olhava esses interesses culturais com desconfiança e julgo, em abono da verdade, que nada de essencial mudou, ao longo dos anos, no espírito da cidade.

A “Capital Nacional da Cultura” em Faro seria algo muito fácil de organizar se tivesse sido pensada antes de ser organizada. E se o tivesse sido teria havido um espírito de buscar o que de mais profundo, na cidade e na província, no que respeita à dita cultura (erudita e popular), existe para estudar, aprofundar e divulgar.

Não foi. Os que conhecem as raízes culturais do Algarve, desde a antiguidade até aos nossos dias, sabem muito bem do que falo. Um dia destes volto ao tema. Por agora fico-me pela recordação daquela janela através da qual me interroguei, vezes sem conta, acerca do porquê das vozes que falavam a linguagem da batota.

A mesma palavra, batota, de que se falo agora, no mesmo exacto lugar, a propósito de Faro "Capital da Cultura - 2005".

Imagem da rua de acesso ao Largo da Sé de Faro

INSANUS

A Blogosfera marca o ritmo. Vejam aqui insanus do Brasil.

Personalidade do ano - 2004

O Carlos Paredes foi “embrulhado” na homenagem que o Ramon Font quis prestar, por interposta imprensa estrangeira, ao Dr. José Manuel Barroso.

Tenho a maior estima pelo Ramon mas o Carlos Paredes não merecia um tal “embrulho”. O Carlos Paredes era um génio na sua arte. O maior virtuoso da guitarra portuguesa – pelo menos - das últimas décadas. Um artista comprometido com a defesa de ideias dos quais nunca abdicou. Foi comunista até ao fim.

O Dr. José Manuel Barroso, com todo o respeito e consideração, é o seu perfeito oposto. Colocar Carlos Paredes como uma pena no chapéu de José Manuel Barroso é, no mínimo, indecoroso.

A hora das cegonhas - Faro

segunda-feira, março 28

Areia

Areia pisada,
areia dorida,
areia beijada,
areia batida,
areia doirada,
areia estendida,
areia rolada,
rolada na vida.

Frescura abraçada
ao mar que se vai,
e os braços crispados
pregados num ai.

E a areia rolada
nos olhos profundos,
e as matas de sombra
ao fundo dos mundos…

E o paço de pedra
Erguido no espaço
e as capelas tristes,
que perco e abraço…

E o sonho do vento,
que gela e que deixa,
e a voz que ergo e calo
e é vida e é queixa…

Os degraus que subo
e são mais de cem,
e os cisnes vogando
nos lagos de além…

E as estradas brandas
onde correm fontes,
e as moças que sonham
sem verem os montes…

E os bancos abertos
aos corpos cansados,
e a chuva da tarde
nos parques molhados…

E os riscos de luz
que bordam o Céu,
e a cortina branca
que ao Sol me escondeu…

E os quartos alheios
que giram à roda,
e as vozes na estrada
que me tolhem toda…

E eu dentro de um sonho
suspensa e vibrante
- areia beijada num mar mais distante –
e rica e mais longa,
e presa e mais livre
- sem mal e sem vida…

Areia doirada,
areia estendida,
areia rolada,
rolada na vida!

Natércia Freire

In "Horizonte Fechado" - 1942

Dia Mundial do Teatro

Não me esqueci do Dia Mundial do Teatro que se celebrou ontem. A minha formação humana deve muito ao teatro, em particular, ao teatro amador, para que esqueça uma data destas.

Mas reparei que a modéstia das celebrações foi coberta pelo manto das explicações apressadas acerca da coincidência com o período pascal.

A verdade, nua e crua, é que o teatro não é uma prioridade dos governos de Portugal não tanto por penúria mas por falta de vontade política.

Os teatros nacionais, em geral, arrastam-se com programações sem chama, as companhias independentes, na sua maioria, são cada mais dependentes de subsídios públicos e o teatro amador – nas escolas, nas sociedades culturais e recreativas ou nos CCDs de empresa, é quase uma peça de museu. Mas há excepções.

A efeméride fica assinalada com esta notícia que descreve com argúcia a real situação do teatro em Portugal.

E aproveito para dar a conhecer o BLOGAMEMUNCHO.

Lenga-Lenga em Homenagem aos Ilustres Emigrantes

Queriam um frémito um solavanco democrático algo que mexesse com o que estava mal e agora parece que afinal não está, queriam alguma mudança substancial não digo um grito de guerra: aos abrigos! mas um estugar do passo, um esforço, um ranger de cordas nas amarras, queriam festa pá! não foram à rua como eu fui na noite do dia 20 de fevereiro! se se tivessem dado à maçada de levantar uma bandeira no largo do rato teriam percebido que a democracia está consolidada, estão a ver com – solidada! o entusiasmo nem sorria na cara dos vencedores quanto mais na dos vendedores de cachorros quentes e salvo o meu filho que precisava de experimentar uma celebração destas para conhecer o que pode ser uma celebração no futuro, uma celebração a sério, vi logo que estávamos tramados pá! a direita nem precisa de se reorganizar que a esquerda toma conta dela, a esquerda nem precisa de existir que a direita toma conta dela, todos reunidos na grande praça central à espera que se organize uma sociedade que por ela própria, sem mais nada, se organize, é o mercado, é o mercado, abaixo o estado! clamam uma legião de liberais libertadores da pátria em perigo sempre naquele seu gesto emblemático de mão estendida às benesses do estado, enquanto a associação da imprensa estrangeira louva josé manuel barroso como o homem que em 2004 mais estendeu o nome da pátria no mundo e eu a pensar que tinham sido o figo e o scolari, mas eles lá sabem o que lhes coze o estômago, estamos tramados pá! o barroso um dia vai voltar com o peito cheio de comendas e o guterres também, se passar na prova, e aposto que passa que ele é aluno de 19, a tratar dos refugiados pobres do mundo, isto para mim é uma estratégia montada pelo bush que já arrumou com o santana e pensa que arrumou com o ferro, para pôr ordem no mundo, estão a ver um português a tratar dos ricos da europa e outro portugês a tratar dos pobres do mundo, uma estratégia a nível global para dar sentido à diáspora, uma regressão pós-moderna aos píncaros gloriosos do século XV português com o vasco graça moura a fazer de camões (desculpa lá a letra pequena, pá!) e o eng.º sócrates a fazer de vasco da gama, a nova novíssima ínclita geração ao leme do mundo outra vez e voltamos a libertar o imaginário e a sonhar além da calçada à portuguesa e já não vai ser preciso fazer guerra à armada espanhola, nem posar para a fotografia com o Bush nas lages, vão dando notícias que nós, como sempre, cá nos arranjaremos ... com que então queriam um frémito, um solavanco democrático ...

domingo, março 27

O Corvo


Edgar Allan Poe

1

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

"O Corvo", de Edgar Allan Poe, Tradução de Fernando Pessoa.

Versão integral no IRAOFUNDOEVOLTAR

A Direita Pensa Mas Pouco

Não se pense que a direita não pensa. Pensa mas pouco. É que em Portugal a direita carrega ainda o estigma do Salazarismo.

No exercício do poder, em democracia, a direita esbarra na sua proverbial intolerância. A mistura de intolerância, populismo e promiscuidade entre interesse “público” e “privado” é explosiva. Denega a democracia.

O PP no governo foi um exemplo vivo dessa denegação como o episódio do retrato de Freitas do Amaral e dos negócios de última hora, “abençoados” por Bagão Félix, evidenciam.

São os próprios pensadores da direita que levantam a ponta do véu acerca da crise de identidade da direita em Portugal.

Mas, como assinala Vasco Pulido Valente, nem sequer se lembraram do papel da igreja católica.

sábado, março 26


Dorso
terso
morno
denso
Corpo
nu

Horto
Berço
Torso
tenso
Torre
Tu

David Mourão-Ferreira


Num mundo que já não crê no pecado, é o artista que está encarregado da pregação. Mas se as palavras do padre produziam efeito era porque o exemplo as alimentava. O artista esforça-se por se tornar num exemplo. Eis porque o fuzilam ou o deportam, com grande escândalo seu. E depois a virtude não se aprende tão depressa como o manejo da metralhadora. O combate é desigual.
Cito Camus a propósito da tragédia de Bobby Fischer
Fotografia de Hélder Gonçalves

ELEGIA DAS ÁGUAS NEGRAS
PARA CHE GUEVARA

Atado ao silêncio, o coração ainda
pesado de amor, jazes de perfil,
escutando, por assim dizer, as águas
negras da nossa aflição.

Pálidas vozes procuram-te na bruma;
de prado em prado procuram
um potro, a palmeira mais alta
sobre o lago, um barco talvez
ou o mel entornado da nossa alegria.

Olhos apertados pelo medo
aguardam na noite o sol onde cresces,
onde te confundes com os ramos
de sangue do verão ou o rumor
dos pés brancos da chuva nas areias.

A palavra, como tu dizias, chega
húmida dos bosques: temos que semeá-la;
chega húmida da terra: temos que defendê-la;
chega com as andorinhas
que a beberam sílaba a sílaba na tua boca.

Cada palavra tua é um homem de pé,
cada palavra tua faz do orvalho uma faca,
faz do ódio um vinho inocente
para bebermos, contigo
no coração, em redor do fogo.

Eugénio de Andrade

1971






sexta-feira, março 25

O "Público" Faz-se Pagar

O “Público” vai começar a cobrar pelo acesso à sua versão em papel em condições ainda mal esclarecidas.

É um modelo já adoptado, por exemplo, pelo “Expresso” e muito utilizado no acesso às publicações em papel de todos os países.

Por mim não vou assinar. Por vezes reproduzo as suas notícias mas, em boa verdade, não preciso do “Público” para nada. Eles também não precisam de mim. É o negócio deles e que lhes faça bom proveito.

É interessante a coincidência desta decisão com a entrada em funções do governo socialista. Nos tempos da Dra. Manuela Ferreira Leite não de lembraram da coisa.

Aproveito para divulgar o JORNALISMO E COMUNICAÇÃO onde catrapisquei esta notícia.

Breves Despedidas

“Lê-se no «Público» que o antigo (bela palavra) ministro da Defesa Paulo Portas resolveu ter como último acto público a atribuição de medalhas da Defesa Nacional, criadas pelo Governo de Durão Barroso em 2002 (e ainda dizem que o homem nunca fez nada por Portugal).

Curiosamente, o antigo ministro resolveu condecorar o seu antigo (que bela palavra) ministro das Finanças, Bagão Félix (o que só lhe fica bem) e, surpresa das surpresas ou talvez não, deu mais uma medalha ao antigo (que belíssima palavra) embaixador americano em Portugal Frank Carlucci.

O que fez Frank Carlucci por Portugal nos últimos tempos que justifique esta medalha? Ou melhor, o que fez o Grupo Carlyle por Portugal nos últimos tempos que justifique esta medalha (a não ser tratar-nos como uma coutada)? Ou melhor, o que fez o Grupo Carlyle nos últimos tempos por Paulo Portas que justifique esta medalha (perguntar não ofende)?

Recorde-se que já Santana Lopes, a mando e em substituição do (defunto) Barroso, tinha aproveitado uma ida a Nova Iorque para, num intervalo discreto, condecorar o mesmo Frank Carlucci (isto foi há meses) com uma daquelas medalhas grandes e pesadas do Presidente da República, tendo o mesmo Presidente da República aceite a sugestão do (defunto) Barroso para condecorar Carlucci. Porquê agora?”

Extracto do artigo “Breves Despedidas”, de Clara Ferreira Alves, publicado, hoje, na “Única”, revista do Expresso.

Versão integral, que vale a pena, no IRAOFUNDOEVOLTAR.

GUERNICA

Compacto
cego

ao ar

falta-lhe só o gume.

Eugénio de Andrade

O Dr. Bagão Ainda Governa (3)

O governo socialista já governa.

O anterior governo fica “destapado”. O que se vai sabendo das suas acções é aterrador. Mais tarde se perceberá melhor o sentido da acção de alguns dos seus ministros.

Nicolau Santos, no “Expresso”, a propósito de “Um negócio demasiado nebuloso” escreve:

Há que dizer-se das coisas o somenos que elas são, escreveu Natália Correia. E o mínimo que se pode dizer é que Daniel Sanches e Bagão Félix foram demasiado imprudentes ao assinar este contrato com a Sociedade Lusa de Negócios. Será que não se interrogaram porque os melhores fabricantes europeus, como a Nokia, EADS e Siemens, que levantaram o caderno de encargos, se recusaram a apresentar propostas? Será que não tiveram conhecimento que o mesmo sistema poderia ser fornecido por 200 milhões de euros?

Às vezes, há coisas tão nebulosas, que não só o novo Governo as deve deitar para o caixote de lixo e começar tudo de novo, como investigar as razões de quem decidiu.

DA IGNORÂNCIA

A mão
que entregava à tua
os primeiros sinais de verão
já não sabe o caminho - é como se
em vez de aprender fosse cada vez mais
e mais ignorante. Ou ignorar
fosse todo o saber.

Eugénio de Andrade

Governo e Crítica

É verdade que o PS nunca tinha alcançado uma maioria absoluta em eleições legislativas. A maioria absoluta de deputados no parlamento não dispensa, como foi afirmado, pelo primeiro-ministro, a audição dos partidos minoritários nas questões essenciais da governação. Essa vontade não pode, no entanto, constranger o partido do governo de afirmar os seus valores e a sua ideologia.

O pior erro que o PS poderia cometer seria o de abdicar de se afirmar como partido de causas assentes nos valores da esquerda que se podem sintetizar em duas palavras antigas para uma esquerda moderna: justiça e liberdade.

O governo pode “governar ao centro”, encontrar soluções de governação de natureza social-democrata na área social, adoptar posturas liberais de esquerda, na área da economia, concertar negócios e conceber benefícios que atraiam o investimento estrangeiro, assumir o primado de uma função reguladora e defensora dos consumidores e por aí fora, obtendo, momentaneamente, o apoio daqueles que ainda dias atrás fustigavam os socialistas com as críticas mais ferozes.

Mas o PS, sendo a base de apoio do governo, não pode deixar de ser um partido crítico do próprio governo.

Tudo o que agora são medidas reluzentes e sorrisos radiosos nas faces dos membros do governo se transformarão, a médio prazo, em penosas justificações de insucessos e atrasos e em faces crispadas no momento das respostas às perguntas implacáveis das oposições e da comunicação social.

Tudo o que na fase inicial da governação são despesas virtuosas se transformará, na fase seguinte, em desperdícios evitáveis na boca dos opositores da governação socialista.

Mais valia ao governo dispor de um PS que afirmasse a sua autonomia com uma postura de crítica construtiva desde o início. Vêm estas palavras a propósito da prestação de Jorge Coelho no programa “Quadratura do Círculo”, na SIC Notícias, da noite passada e de muitas outras atitudes de apoio entusiástico e voluntarista que têm surgido nestes primeiros dias da acção do governo.

Ao governo o que é do governo, ao partido do governo o que é do partido do governo. Ao governo cabe cumprir o seu programa, ao partido do governo compete, naturalmente, apoiá-lo sem descurar a vigilância crítica desde a primeira hora.

O ambiente político, nesta fase inicial, não tem apontado para esta dialéctica saudável o que, na minha opinião, pode pressagiar um enfraquecimento do governo a médio prazo. Mais valia começar desde já a preparar o terreno para as dificuldades da concretização de muitas das medidas anunciadas e de outras medidas difíceis que aí virão.

O país real, que dá pelo nome de Portugal, é exactamente o mesmo que no dia 19 de Fevereiro de 2005. Mudou o governo, o que já não é nada pouco, mas não mudaram as dificuldades, os constrangimentos e, como consequência, as condições objectivas da governação. Cuidado que a memória das gentes é curta, a gratidão morreu solteira e o pecúlio escasso.

“Diário do Governo” – 6

quinta-feira, março 24


LÍNGUA DOS VERSOS

Língua;
língua da fala;
língua recebida lábio
a lábio; beijo
ou sílaba;
clara, leve, limpa;
língua
da água, da terra, da cal;
materna casa da alegria
e da mágoa;
dança do sol e do sal;
língua em que escrevo;
ou antes: falo.

Eugénio de Andrade

O Dr. Bagão Ainda Governa (2)

No Expresso online surge a notícia "Impostos sobem ainda este ano". Mas o aspecto mais importante está no último parágrafo, que sublinho, dando conta que o défice implícito do Orçamento de Estado/2005 está nos 7%. O Dr. Bagão ainda governa!

"O GOVERNO vai apresentar em Maio um Orçamento Rectificativo, que contempla um conjunto de medidas fiscais destinadas a fazer face à «situação particularmente difícil» e ao «irrealismo» do Orçamento do Estado para 2005. O Ministério das Finanças não descarta que entre essas medidas esteja contemplada a subida de alguns impostos e o congelamento de despesas.

Os impostos que fazem entrar dinheiro imediatamente nos cofres públicos são essencialmente o IVA, imposto sobre combustíveis (ISP) e Imposto Automóvel (IA). Quanto aos cortes nas despesas serão detalhados no Programa Plurianual de Redução da Despesa Corrente (PPRDC), a apresentar pelo Governo dentro de seis meses e visando um horizonte de quatro anos.


Estas medidas visam responder ao défice implícito do Orçamento do Estado/2005, que está nos 7% devido a: crescimento económico 50% abaixo do previsto; preço do barril de petróleo acima dos 39 dólares; não contemplação dos encargos de 500 milhões de euros com as SCUT; 250 milhões de euros da dotação provisional para aumentos salariais; suborçamentação dos serviços, mais 1.700 milhões de euros; medidas extraordinárias de 2.300 milhões de euros; contas da Saúde."

O Dr. Bagão Ainda Governa

O Dr. Bagão Félix ainda publica legislação, despachos e portarias.

Um dia destes recebi uma citação das finanças com ameaça de penhora de bens. Como descrevi num post anterior fui a correr às finanças saber de que se tratava. Era uma quantia irrisória que resultou, conforme me foi dito, de um acerto provocado por questões informáticas. Não havia, de facto, dívida alguma. A quantia era pequena e para evitar o calvário das reclamações a que o contribuinte se sujeita paguei.

Mas, a partir de agora, olharei os funcionários das finanças como patrões com interesse directo nos resultados das cobranças. Como responsáveis directos pelos erros e omissões. Desconfiarei sempre da boa fé das suas contas. Não perdoarei as desatenções e as esperas. Nenhum erro se pode perdoar a quem dele pode beneficiar.

ENQUANTO HÁ FORÇA



Enquanto há força
No braço que vinga
Que venham ventos
Virar-nos as quilhas
Seremos muitos
Seremos alguém
Cantai rapazes
Dançai raparigas
E vós altivas
Cantai também

Levanta o braço
Faz dele uma barra
Que venha a brisa
Lavar-nos a cara
Seremos muitos
Seremos alguém
Cantai rapazes
Dançai raparigas
E vós altivas
Dançai também

José Afonso

quarta-feira, março 23

Gracias a la vida



Gracias a la vida (Mercedes Sosa)

Gracias a la vida que me ha dado tanto
me dio dos luceros que cuando los abro
perfecto distingo lo negro del blanco
y en el alto cielo su fondo estrellado
y en las multitudes el hombre que yo amo

Gracias a la vida que me ha dado tanto
me ha dado el sonido y el abecedario
con él, las palabras que pienso y declaro
madre, amigo, hermano
y luz alumbrando la ruta del alma del que estoy amando

Gracias a la vida que me ha dado tanto
me ha dado la marcha de mis pies cansados
con ellos anduve ciudades y charcos
playas y desiertos, montañas y llanos
y la casa tuya, tu calle y tu patio

Gracias a la vida que me ha dado tanto
me dio el corazón que agita su marco
cuando miro el fruto del cerebro humano
cuando miro el bueno tan lejos del malo
cuando miro el fondo de tus ojos claros

Gracias a la vida que me ha dado tanto
me ha dado la risa y me ha dado el llanto
así yo distingo dicha de quebranto
los dos materiales que forman mi canto
y el canto de ustedes que es el mismo canto
y el canto de todos que es mi propio canto

Gracias a la vida, gracias a la vida

(Agradecendo à Colombina)

Faz-me cócegas

Um exercício de descontracção.

Subtraído do Azenhas do Mar.

terça-feira, março 22


DO SUL

O branco branquíssimo do muro;
a beleza concreta, acidulada,
do rigoroso espírito do sul.

Eugénio de Andrade


Haverá quem ache estranho as minhas deambulações pelas memórias, pelos antepassados, pelos caminhos e lugares da infância.
Essa estranheza não me estranha. Mas nenhum percurso se faz sem passado, sem enlaçar outros percursos, sem comunicação, sem resposta mesmo quando nos julgamos imortais.
Alguém, além de nós, que nos compreenda e acredite é o maior anseio do homem.
Creio nos meus porque sei que me acompanham sempre mesmo quando parece que os não acompanho.
Poucos desses estão fora da família natural. Nela reside o segredo da minha crença no futuro do homem.

Fotografia de Hélder Gonçalves

Em homenagem às corporações da justiça.

Em homenagem às corporações farmacêuticas.

No Cimo do Monte

Subi este fim-de-semana ao cimo do monte onde brilha a casa
dos meus avós maternos José Fernandes de Brito (7/11/1891- 12/10/1979)
e Rosa da Conceição Marques (1/1/1892 - 7/12/1984)
no sítio de Sinagoga, Santo Estêvão, Tavira. Do terraço,
ao alto, pintado de branco puro, avista-se a costa algarvia,
de lés a lés, desde Espanha às cercanias de Olhão.
Muita terra, arvoredos, céu azul, lugares camponeses,
aldeias piscatórios e as praias todas. No sentido do norte o
barrocal com a sua vegetação característica a que sempre ouvi
chamar de mato. Tomei o compromisso, para com a minha mãe,
de manter aquela casa, através das gerações, para que os vindouros
possam nela rever-se na vida dos seus antepassados camponeses.
Para que com essa memória se não perca o sentido do tempo e
da honra da pertença a uma família camponesa honrada e a um
povo e dela se possa imaginar até a vista das sandálias que a minha
mulher um dia fotografou abandonadas numa daquelas praias à
distância de um golpe de olhar à mistura com as copas das árvores.

segunda-feira, março 21

Viva o Retrocesso !

Hoje é dia de apresentação e discussão do programa do governo socialista no Parlamento.
Passam para a opinião pública bastantes boas ideias. Retive algumas. Orçamento de estado plurianual a partir de 2006. Uma revolução. Podem crer! Se for para fazer.

Combate à pobreza a começar pelos idosos com 80 anos ou mais e a "deslizar", anualmente, até aos 65 anos. Boa ideia para medir sensatamente o impacto social e financeiro da medida.

Redução das férias judiciais de dois para um mês. E outras, muitas outras, no terreno da economia. Talvez tenham saltado para a opinião pública ideias demais. Mas se o governo não apresentasse ideias no princípio de vida ...

Assim o governo acredita-se desde que seja capaz de acompanhar os anúncios com as concretizações. Os representantes das corporações atacam.

Os representantes dos sindicatos resignam-se e esperam. Aliás são sempre os mesmos e já seria hora de mudarem de elenco! É o Carvalho e o Proença, o Proença e o Carvalho. Bolas!

Desta vez o representante dos farmacêuticos deu um ar da sua graça. Denunciou o "retrocesso" da venda de medicamentos fora das farmácias. Que falta de imaginação!

Os agentes da justiça atacam a redução das férias judiciais.

Não acreditam? Se as corporações estão contra as medidas anunciadas pelo governo é porque elas devem ser boas. É um critério um pouco grosseiro mas, infelizmente, com grandes hipóteses de ser justo.

"Diário do Governo" - 5

Naveguei

Naveguei o teu corpo um mar
De vagas assobiando ao vento.
.

domingo, março 20


As terras a sul estão da mesma cor como sempre as conheci. Aqui e ali despontam uns tímidos tons de verde. Todos estão conformados ao castanho tisnado da descrença. Agora já não é a "pesada herança" mas o presságio futuro da desgraça. Mudam os tempos mas não mudam as vontades. Fotografia de Helder Gonçalves

Crise Lamentável

Gostava tanto de mexer na vida,
De ser quem sou – mas de poder tocar-lhe...
E não há forma: cada vez perdida
Mais a destreza de saber pegar-lhe.

Viver em casa como toda a gente,
Não ter juízo nos meus livros - mas
Chegar ao fim do mês sempre com as
Despesas pagas religiosamente.

Não ter receio de seguir pequenas
E convidá-las para me pôr nelas –
À minha Torre ebúrnea abrir janelas,
Numa palavra, e não fazer mais cenas.

Ter força um dia para quebrar as roscas
Desta engrenagem que emperrando vai.
- Não mandar telegramas ao meu Pai,
- Não andar por Paris, como ando, às moscas.

Levantar-me e sair - não precisar
De hora e meia antes de vir prà rua.
- Pôr termo a isto de viver na lua,
- Perder a “frousse” das correntes de ar.

Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
Por casa dos amigos que frequento -
Não me embrenhar por histórias melindrosas
Que em fantasia apenas argumento.

Que tudo em mim é fantasia alada,
Um crime ou bem que nunca se comete
E sempre o Oiro em chumbo se derrete
Por meu Azar ou minha Zoina suada...

Paris, Janeiro de 1916

Mário de Sá-Carneiro

O LIVRO - Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria. Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido. No entanto, as pessoas que entravam na livraria estavam todas muito bem vestidas de quem precisa salvar-se. Almada Negreiros In "A invenção do dia claro" - 1921

sábado, março 19

Seca

Ao descer o caminho do campo da minha infância vi as figueiras secas que parecem peças de uma arte por inventar. Percebi uns laivos de rebentos nas pontas dos ramos, uma esperança de redenção. A seca é muito mais grave que Pedro Santana Lopes. A seca veio para ficar, todos já percebemos. Santana já partiu, mas ainda não percebeu. Ele e o Expresso que lhe dá direito a manchete.

Hoje a Sul

Um passeio pelas ruas da minha infância. Coelho de Melo, Brito Cabreira, Emiliano da Costa. A meio das ruas caminho e reparo nas portas e janelas que me separam da vivência dos seus interiores. Alumínio no lugar da madeira. Alcatrão no lugar da terra batida. Sem gente, sem alma, sem vozes, sem murmúrios. Um deserto.

Comprei 4 livros (em Faro compro sempre livros de poesia)

- João Lúcio – Poesias Completas - toda a gente se esqueceu deste poeta algarvio (1880/1918);
- Poesia de Vítor Matos de Sá (1926/1975)– Desconhecia a sua poesia belíssima;
- Natércia Freire -Obra poética –Vol I Poesias escolhidas 1942-52 ;
- Obra Poética Completa de Federico Garcia Lorca – edição brasileira da Martins Fontes (bilingue).

Deu-me prazer esta incursão pelas memórias e pelas compras.

sexta-feira, março 18

A Imigração no Programa de Governo do PS

"Portugal optou por uma política de abertura regulada à imigração, adoptando uma estratégia em torno de três eixos: regulação, fiscalização e integração. Esta estratégia foi inspirada na estratégia da União Europeia de criação de políticas comuns de estrangeiros e de asilo, a qual merece total adesão do Governo."

Esta é a primeira frase do programa de governo do PS respeitante à imigração. O capítulo integral referente a este tema pode ser lido no IR AO FUNDO E VOLTAR.

quinta-feira, março 17

Primavera


"É preciso atravessar todo o país do amor antes de encontrar a chama do desejo."

Albert Camus

Fotografia de Hélder Gonçalves

Programa

Aqui está o Programa do Governo do Partido Socialista

Imigração

Portugal surgiu num inquérito de opinião como um país xenófobo.

Os imigrantes seriam malqueridos pelo povo português. O inquérito é de 2003. Será que existe alguma relação entre esta revelação e o facto de Portugal ter sido governado, até há dias atrás, por uma coligação de direita que integrava o PP?

Se o povo português é xenófobo porque razão não votou em massa no PP? Nenhum partido assumiu politicamente, de forma aberta, a xenofobia! Ou o povo português não é xenófobo? Os inquéritos são muito traiçoeiros! O Presidente da República ficou surpreendido? A legislação não é adequada? Não havia política para a imigração? E vai haver, no futuro, política para a imigração?

O partido socialista apresentou, no seu programa eleitoral, uma política muito bem estruturada para a imigração. O programa do governo socialista foi aprovado hoje. Todos os portugueses esperam que seja para cumprir. O programa não é xenófobo antes se fundamenta na integração social dos imigrantes e na aceitação da diversidade étnica e cultural.

"Diário do Governo" - 4

quarta-feira, março 16


Augusto Pinochet tinha contas no Banco Espírito Santo da Florida, entre outras 125 encontradas nos Estados Unidos. Uma investigação do Senado concluiu que o antigo ditador chileno movimentou um total de 2,9 milhões de euros na subsidiária do grupo português.

Fotografia de Hélder Gonçalves