quinta-feira, fevereiro 19

Europa - jogos perigosos


A cimeira dos Grandes


Sejamos claros e realistas: a UE só existirá enquanto houver um entendimento entre os chamados grandes. Basta conhecer um pouco da história da Europa. O alargamento da UE (mais 10+2 países) não muda nada esta questão crucial. Só dá mais peso aos grandes, entre outras razões, porque "puxa para leste" o centro geográfico da UE. A Alemanha, "potência continental", por excelência, alarga a sua área de influência; a Inglaterra "potência marítima, por excelência", vê estreitar-se a sua capacidade de influência na Europa e procura minorar o desgaste de uma "parceria aventureira" com a Administração conservadora dos EUA e a França não tem outra saída, para alimentar o velho sonho da Grande Europa, senão ceder à Alemanha salvaguardando a aliança central que dá sentido estratégico à UE.

Se a Alemanha+França (+Inglaterra) são forem aliados, no essencial, não há garantia de paz na Europa. Fica aberta a porta ao regresso das tendências belicistas que estiveram na origem das duas terríveis guerras mundiais do Séc. XX.

Se a Alemanha+França (+Inglaterra) não estiverem de acordo acerca do modelo de desenvolvimento da UE não haverá condições para o progresso económico, social, científico e tecnológico da Europa e será aberta a porta da sua decadência inexorável.

Os governos que subscreveram a recente Declaração dos 6, valha a verdade, contam pouco para a definição do essencial do futuro da EU e da Europa: guerra ou paz, progresso ou decadência, independência ou subserviência face aos desígnios estratégicos dos EUA?

O problema é que os conservadores que governam, no presente, os países do sul da Europa escolheram o caminho da subserviência face aos EUA e dão-se mal com os temas da chamada "Agenda de Lisboa" que, paradoxalmente, ou talvez não, os "Grandes" citam sem qualquer constrangimento. Interessante!

Os "grandes" que são acusados, aberta ou veladamente, de prosseguirem objectivos detestáveis e egoístas, assumem a "Agenda de Lisboa", ou seja, a componente social do desenvolvimento da Europa como noticia hoje o Público:

"Schroeder, Chirac e Blair Relançam "Agenda de Lisboa" para as Reformas Económicas e Sociais

Oficialmente, a reunião na capital alemã visou sobretudo delinear uma estratégia comum contra os problemas económicos e sociais que afectam a Europa, dando um novo impulso aos objectivos estabelecidos pela "Agenda de Lisboa" , de alcançar , até 2010, o pleno emprego e que a economia comunitária se torne na mais dinâmica e competitiva a nível mundial . É esta estratégia que se explana numa carta de seis páginas dirigida à presidência irlandesa da União Europeia, ao presidente da Comissão Romano Prodi e aos restantes chefes de Estado e de Governo.

Para alcançar as ambiciosas metas de Lisboa é necessário, de acordo com o chanceler alemão, que se dê maior ênfase às políticas de investigação e desenvolvimento. O investimento europeu neste domínio ainda está distante do objectivo dos 3 por cento do PIB europeu, o que é insuficiente "para permitir as empresas europeias estar na vanguarda tecnológica". Por seu turno, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, defendeu a necessidade de reformar os sistemas de protecção social na UE "para que sejam sustentáveis a prazo", uma maior qualificação dos trabalhadores e uma "melhoria da competitividade das nossas empresas".

Ao iniciar a sua intervenção o presidente francês Jacques Chirac considerou ser "normal que os países que representam mais de 50 por cento do PIB da UE" se reunam para discutir em conjunto preocupações comuns". Efectivamente, os problemas domésticos com que se confrontam o Reino Unido, a Alemanha e a França são semelhantes e em todos está em curso um processo de reformas estruturais. Como analisava a edição de ontem do o "Financial Times" os líderes de Berlim , Londres e Paris partilham o objectivo de "inflectir a política europeia de acordo com as respectivas prioridades e num sentido que lhes permita marcar pontos em casa".

Questões mais "interessantes" em privado - Já sem jornalistas os líderes passaram as analisar os dossiers que mais interessavam a estes últimos: os "nomeáveis" para presidente da Comissão, o Iraque, o Afeganistão, o Médio Oriente, assim como novas relações euro-americanas e as perspectivas de adesão da Turquia.

A cimeira de ontem foi vista pelos comentadores como um sinal de que algo está a mudar na Europa e que a política de alianças está a ser reformulada. A edição de ontem do diário "Le Monde" citava Bernard Nivet, do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas em Paris, que frisava que a carta dos seis "demonstra uma degradação do clima de confiança entre os membros do Conselho europeu". Este mal-estar pode traduzir-se na passagem do casal franco-alemão a uma relação de "poligamia" germano-franco-britânica , a qual se juntará possivelmente mais tarde , isto segundo a diplomacia alemã, a Polónia."



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