sábado, janeiro 31

Dedicatórias, leituras e políticas…


Aqueles que pensam que conhecem tudo e todos iludem-se com as aparências. Alguns amigos devem achar, no mínimo bizarro o meu interesse por Camus. Mas só a imagem que de nós fazem aqueles que nos amam é que se aproxima da nossa verdadeira alma. Esse círculo restrito não se esgota na família próxima mas não vai muito mais além. Criam-se estereótipos e cada um de nós carrega a vida toda com as penas próprias e as penas que os outros decidem que carreguemos para descanso da sua consciência (deles). Vem isto a propósito de um livro, o último, de Albert Camus - "O Primeiro Homem" (Edições Livros do Brasil) - que encontrei na estante do meu filho no qual escrevi a seguinte dedicatória:
" Para o MM:
A mãe comprou em Paris a edição francesa (1ª edição) e agora comprei a 1ª edição portuguesa. MM fez 4 anos no passado dia 27 e esta literatura à para ele com outras obras de Camus que tenho comprado ao longo do tempo, em particular, os "Cadernos". É, ao mesmo tempo, um acto de esperança na vida e no desejo de ler na era do áudio visual que vai ser cada vez mais esmagador na altura em que MM souber apreciar estas coisas.
Hino à vida, saudação àqueles que não têm voz activa, pensamento ligado à acção, defesa da justiça e da liberdade, alerta contra o fanatismo e o totalitarismo…
94/11/02"
Reparei na data e já passaram quase dez anos. MM ainda não leu o livro. Já tem 13 anos. Recebeu, por sinal, ontem as notas deste período (Escola Alemã) que foram razoáveis e eu fiquei muito contente pela nota máxima na disciplina de Música. É um bom sinal para que um dia venha a decidir, livremente, ler este livro. A música devia ser obrigatória, pelo menos até ao 9º ano, em todas as escolas portuguesas. Ia ajudar a melhorar o desempenho dos jovens em todas as disciplinas e, em particular, no português e na matemática. Tal seria possível. È necessário dinheiro mas principalmente capacidade de sonhar com o futuro. Dedicatórias, leituras e políticas …das verdadeiras são precisas!

Cavafy


DESEJOS

Como corpos belos dos que morrem sem ter envelhecido
- e são guardados, em lágrimas, num mausoléu magnífico,
com rosas na fronte e com jasmins nos pés -
assim os desejos são, desejos que esfriaram
sem serem consumados, sem que um só fruísse
uma noite de prazer, ou uma aurora que a lua inda ilumina.

[antes de 1911]

Já entrados no último dia de Janeiro de 2004 lembrei-me de divulgar um poema de Cavafy, na tradução de Jorge de Sena, acrescentando umas notas acerca da tradução para português da obra do grande poeta grego. Ainda a questão das traduções...Jorge de Sena descreve no livro "Constantino Cavafy 90 e mais quatro poemas", Edições ASA, o processo que o levou à tradução de parte da obra do poeta (conhecem-se 187 poemas de Cavafy; Sena traduziu 90 dos 154 poemas que "constituem o cânon de Cavafy"+quatro dos 33 "primeiros poemas", ulteriormente revelados).
Jorge de Sena descreve o contexto em que realiza a tradução: "As traduções apoiam-se nas de Mavrogordato e Dalven (em inglês), nas de Papoutsakis, Griva e Marguerite Yourcenar (em francês), nas de Steiner (em alemão), nas de Pontani (em italiano), todas cotejadas entre si e com o original grego da edição de Atenas, 1952".
Era intenção expressa de Sena traduzir os restantes 64 dos 154 poemas maiores de Cavafy, o que nunca veio a acontecer.
.


sexta-feira, janeiro 30

Imigração

Irlanda



Descobri que um estudo recente de um instituto de pesquisa Irlandes prevê que a Irlanda necessite, no período que decorre entre 2001 e 2010, de 300.000 novos licenciados para dar resposta ao crescimento da sua economia.

Desses 300.000 licenciados o estudo prevê que a Irlanda deva acolher, nesse período de 10 anos, cerca de 100.000 licenciados, oriundos de outros países.

Fazendo umas contas simples a Irlanda precisa, por ano, de cerca de 10.000 imigrantes licenciados que deverão ser recrutados, preferencialmente, nos países do leste da Europa. Tal situação deve-se ao facto de ser previsível que, até 2010, ocorra na Irlanda uma diminuição de 15% no número de jovens entre os 15 e os 24 anos.

Em Portugal também há estudos oficiais credíveis mas o governo anunciou uma quota de ingresso no país, em 2004, de 6.500 imigrantes indiferenciados.

A este propósito o Presidente da CIP, Francisco Van Zeller em entrevista, ao Diário Económico, de 29 de Janeiro, já deu uma resposta elucidativa ao significado daquela quota: " Ninguém faz caso dela, porque os imigrantes vão continuar a entrar ilegalmente e as empresas a empregá-los."

Nem mais!

quinta-feira, janeiro 29

Dr. Cadilhe - pessimismo e decadentismo


O Dr. Cadilhe surpreendeu. Julgava-o capaz de manter uma saudável distância face ao pensamento económico vulgar e à comunicação tablóide da qual, aliás, tem razões para sentir horror.

Mas estava enganado. O Dr. Cadilhe pisca o olho à esquerda social-democrata nas questões orçamentais, "mais déficit", investimento público "virtuoso" e não ostentatório,... Mas, ao mesmo tempo, quer enviar os desempregados e a tropa para as florestas. Os desempregados, para o Dr. Cadilhe, são um mero indicador macro económico e a tropa é uma inutilidade à espera de uma guerra que não vem.

O Dr. Cadilhe está contra a "EXPO 98", o "Euro 2004", a "Capital Europeia da Cultura", os submarinos...ou seja, o Dr. Cadilhe não resistiu à moda dos discursos populistas. O taxista que me transportava gostou de ouvir. Aquele discurso tem o sabor de um ajuste de contas com o passado. Mas a defesa de uma política social-democrata exigiria um pouco mais de distanciamento face às facilidades do discurso populista. Os desempregados são pessoas com família, filhos, aspirações profissionais... a tropa tem missões a cumprir, vertidas na Constituição e na lei... e o Dr. Cadilhe não percebe nada de florestas nem de logística. Mas mesmo que se julgue um génio da gestão e seja livre para emitir opiniões sinceras, no exercício de um direito que aplaudo, o problema do Dr. Cadilhe é que não é um cidadão qualquer. É um alto funcionário do Estado, foi Secretário de Estado e Ministro e, hoje, é o responsável máximo pela entidade nacional que tem como missão atrair o investimento estrangeiro para Portugal.

O estado de alma que o Dr. Cadilhe deixou transparecer, nas palavras que proferiu, não é compatível com a tarefa de atrair investidores estrangeiros para Portugal. Parecia um ex-ministro das Finanças no dia seguinte à sua própria demissão! Será este o discurso que o Dr. Cadilhe faz no exercício das suas funções? Compreendo que as declarações recentes do decano do Grupo Melo, acerca da inutilidade da independência de Portugal, tenham sido demasiado fortes. O Dr. Cadilhe não quis ficar atrás. Ao discurso pessimista do Grupo Melo juntou o Dr. Cadilhe uma pitada de decadentismo e miserabilismo tão ao "estilo português".

O problema destes discursos, eivados de um populismo ostensivamente irracional, é que não visam nem a integração em Castela nem a modernização do país. São o fermento de um ambiente político e social favorável à conquista do poder pelas correntes ultra conservadoras. Estes discursos não surgem por acaso. Eles servem uma estratégia de tomada do poder. E os mentores desta estratégia já estão no Governo e até já têm candidato à Presidência da República! E por estranha ironia o Dr. Cadilhe já foi, no passado, uma vítima daqueles que agora ajuda, espero que involuntariamente, com o seu discurso populista!

quarta-feira, janeiro 28

Cadernos de Camus - 5


Nos meus sublinhados de juventude destes Cadernos omito, pela primeira vez, dois excertos de diálogos que viriam a integrar a futura peça de teatro "Os Justos". A sua transcrição integral tornaria demasiadamente longa esta contribuição para o projecto Cadernos de Camus. Mantenho, no entanto, um excerto dos diálogos preparatórios dessa peça.
Esta é a penúltima série de excertos do Caderno nº 5, que constam do volume Cadernos III, respeitante ao período Setembro de1945/Abril de 1948:

"Há quem se remanseie numa mentira como os que se refugiam na religião."
(Esta frase sublinhada faz parte de um texto longo, que não transcrevo na íntegra, no qual, à margem, escrevi à mão: "cuidado!")

"Conheço-me bem de mais para crer na virtude completamente pura."

"O problema mais sério que se põe aos espíritos contemporâneos: o conformismo."

"O grande problema da vida é saber como viver entre os homens"
(Apresenta uma nota de pé de página onde se lê: "No manuscrito, encontra-se entre parênteses: A.F.")

"X. "Sou um homem que não crê em nada e que não ama ninguém, pelo menos no âmago. Há em mim um vazio, um deserto horrível..."

"Marc condenado à morte na prisão de Loos. Recusa que lhe tirem os ferros durante a Semana Santa para se parecer mais com o seu salvador. Antigamente disparava contra os crucifixos que encontrava nas estradas."

"Cristãos felizes: Guardaram a graça para si próprios e deixaram-nos a caridade."

"Peça.
D. - O que há de triste, Yanek, é que tudo isso nos envelhece. Nunca mais, nunca mais seremos crianças. Podemos morrer desde este instante, já esgotámos o homem (o homicídio é o limite.)
- Não, Yanek, se a única solução é a morte, então não seguimos a boa vida. A boa vida é a que leva à vida.
- Tomámos sobre nós o mal do mundo, este orgulho há-de ser castigado.
- Passámos dos amores infantis a essa inicial e derradeira amante que é a morte. Andámos depressa de mais. Não somos homens."

(Este excerto é o único que transcrevo daqueles que sublinhei dos textos preparatórios da peça de teatro "Os Justos". Esta peça foi concluída, após uma viagem à América Latina, no Verão de 1949, estando Camus gravemente doente. Nela é abordada a questão, fundamental para Camus, da violência política cujo debate requer, em qualquer circunstância, um adequado enquadramento filosófico e histórico.)

"Miséria deste século. Ainda não há muito tempo eram as más acções que precisavam de ser justificadas, hoje são as boas."

"A solidão perfeita. No urinol de uma grande estação à uma hora da manhã."
(Contém uma nota de pé de página onde se escreve. "Esta observação foi acrescentada à mão sobre a primeira redacção à máquina").

Bayle": pensamentos diversos sobre o cometa.
"Não de deve julgar a vida de um homem nem pelas suas crenças nem pelo que publica nos livros.""

"Como fazer compreender que uma criança pobre pode ter vergonha sem ter inveja"
(Clara referência à infância pobre do próprio Camus.)

Vigny (correspondência): " A ordem social é sempre má: de tempos a tempos é apenas suportável. Para se ir do mau ao suportável, a disputa não vale uma gota de sangue" Não, o suportável merece, se não o sangue, pelo menos o esforço de uma vida inteira.
Misantropo em grupo, o individualista perdoa ao indivíduo."

Sait-Beuve: "Sempre pensei que se as pessoas dissessem o que pensam durante um minuto apenas a sociedade ruiria."


Extractos, in "Cadernos" (1964-Editions Gallimard), tradução de António Ramos Rosa, Colecção Miniatura das Edições "Livros do Brasil", Caderno nº5 (Setembro de 1945/ Abril de 1948).







Liberdade 5



Liberdade



Como se de asas se tratasse
invoco teu nome liberdade.

Acendo silenciosamente no teu corpo
o gesto puro de apenas despir-te
e em ti encontrar-me.

Procuro nos teus seios de lava
palavras nuas à beira da morte.
Âncoras de sol,
frutos indistintos que prometam
um porto com a forma do corpo.

Casimiro de Brito
In Jardins de Guerra


(Transcrito da edição original editado pela Portugália Editora em Novembro de 1966.
Foi o primeiro livro de poesia que comprei em Março de 1967)

terça-feira, janeiro 27

Ambiente e Desenvolvimento Sustentável


Presidência Aberta


Em todos os países os recursos disponíveis são sempre, em cada tempo, escasso e, em todos os tempos, finitos. Portugal não é excepção.
O território do país é constituído por uma multiplicidade de recursos, naturais e culturais, que são o bem mais precioso que as gerações contemporâneas devem salvaguardar para legar às gerações do futuro. É este o princípio no qual se alicerça o conceito de desenvolvimento sustentável.
O Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, iniciou hoje uma Presidência Aberta dedicada ao tema do ambiente e desenvolvimento sustentável. Bem-haja.
Volto a ele para reafirmar que os desafios do crescimento contínuo e sustentável do turismo, não podem ser prosseguidos a "pensar pequeno", sem ambição de futuro, atropelando os valores ambientais e à margem de uma efectiva integração em projectos de desenvolvimento local e regional.
Estes são, em Portugal, princípios de aceitação geral mas de prática excepcional, situados fora da ortodoxia dominante, que carecem ser valorizados para que venham, num futuro próximo, de forma séria e estruturada, a servir de "grelha" de avaliação ao mérito dos projectos turísticos inclusivé para a obtenção de apoios e incentivos financeiros do Estado.
Que a cegueira do lucro rápido, a pretexto da actividade turística, não contribua para que se continue a delapidar, em extensão e profundidade, o património natural e cultural do país, inviabilizando o futuro de uma actividade em que Portugal pode ser competitivo à escala internacional.


segunda-feira, janeiro 26

Cadernos de Camus - 4


Os meus sublinhados da leitura de juventude dos Cadernos salta, por razões que não sou capaz de explicar, para o Caderno nº5. A edição portuguesa dos "Livros do Brasil" (Colecção Miniatura), apresenta uma configuração diferente da francesa, das Edition Gallimard, como é explicado no volume intitulado Cadernos III: "Por motivos de ordem técnica, Carnets II foi dividido, na edição portuguesa, em dois volumes: Cadernos II (já publicado nesta colecção sob o número 162) e Cadernos III, que é o presente volume".

Os extractos do Caderno 5 que se seguem constam, pois, dos Cadernos III dizendo respeito ao período Setembro de 1945/Abril de 1948.
Estes extractos são, por vezes, mais longos do que nas anteriores incursões por este registo de leitura o que se deve ao facto de terem sido leituras posteriores a Abril de 68, provavelmente de 69/70, no período da crise académica na qual participei activamente.

"O ar de pobres diabos que têm as pessoas nas salas de espera dos médicos".

"Conversações com Koestler. O fim não justifica os meios senão quando a ordem de grandeza recíproca for razoável. Posso mandar Saint-Exupéry em missão mortal para salvar um regimento. Mas não posso deportar milhões de pessoas e suprimir toda a liberdade por um resultado quantitativo equivalente e estipular previamente o sacrifício de três ou quatro gerações.
- O génio: Não existe.
- A grande miséria do criador começa quando se lhe reconhece talento (Já não tenho coragem de publicar os meus livros)."

"1947
Como todos os fracos, as suas decisões eram brutais e de uma firmeza insensata".


"Que vale o homem? Que é o homem? Depois de tudo o que vi, enquanto eu viver, hei-de ficar sempre com uma desconfiança e uma inquietação fundamental a seu respeito."


"Terrorismo.
A grande pureza do terrorista estilo Kalyaev, é que para ele o homicídio coincide com o suicídio (cf. Savinkov: Recordações de um terrorista). Uma vida paga-se com outra vida. O raciocínio é falso, mas respeitável. (Uma vida ceifada não vale uma vida dada.) Hoje o homicídio por procuração. Ninguém paga.
1905 Kaliayiev: o sacrifício do corpo. 1930: o sacrifício do espirito."

"Que é impossível, a respeito de quem quer que seja, dizer que é absolutamente culpado e, por conseguinte, impossível pronunciar um castigo total."


"25 de Junho de 1947
Tristeza do êxito. A adversidade é necessária. Se tudo me fosse mais difícil, como dantes, teria mais direito a dizer o que digo. O que vale é que posso ajudar muitas pessoas - entretanto."

(No ano de 1947 Camus abandona a redacção do jornal Combat e publica o romance "A Peste" que o torna célebre o que, sem dúvida, explica esta reflexão acerca do êxito. Nos meus sublinhados verifico a curiosidade de ter colocado entre aspas a frase "A adversidade é necessária". Um sublinhado do sublinhado).

Extractos, in "Cadernos" (1964-Editions Gallimard), tradução de António Ramos Rosa, Colecção Miniatura das Edições "Livros do Brasil", Caderno nº5 ( Setembro de 1945/ Abril de 1948).










D. Januário


Tenho reflectido e acompanhado, de perto, a questão da imigração como resultado de meu envolvimento pessoal e profissional na questão do envelhecimento demográfico. Hoje o bispo D. Januário Torgal Ferreira, numa entrevista ao Público , mostra o seu desconforto com as decisões recentes do Governo acerca desta matéria.
O próprio tom do discurso mostra, mais do que desconforto, discordância face ao que considera uma política restritiva, na contemplação do acolhimento de imigrantes em Portugal, contida na regulamentação da legislação recentemente aprovada.
Tenho da acção da Igreja no terreno da acção social, em particular, nas áreas da saúde e do apoio aos imigrantes, uma ideia muito positiva. Julgo que este sentimento é geral e resulta de um efectivo trabalho da Igreja no terreno ao lado das pessoas que carecem verdadeiramente de ser apoiadas.
D. Januário crítica os que se intitulam de cristãos (nos partidos do governo) afirmando que "esperava que aparecessem igualmente com a capacidade de utopia e de exigência que faz parte dos critérios do Evangelho".
Face à questão de um discurso político que identifica "os imigrantes com o espectro do desemprego dos portugueses", D. Januário diz o essencial: "Essa lógica restritiva é de pessoas que não conhecem o terreno...". A Igreja, não tenham dúvidas, conhece-o melhor do que ninguém. É certamente mais difícil trabalhar no terreno do que fomentar o populismo...

domingo, janeiro 25

Cadernos de Camus - 3



Em sequência dos meus sublinhados da primeira leitura de juventude dos Cadernos aqui deixo os excertos que mereceram a minha admiração no Caderno nº 2 (22 de Setembro de 1937/Abril de 1939).

Assinalo que Camus ingressou no Partido Comunista Argelino em 1934, no mesmo ano do seu casamento com Simone Hié. Entre 1934 e 1937 conclui a licenciatura em Filosofia, separa-se de Simone Hié e, em 1937, é expulso (ou abandona voluntariamente) o Partido Comunista. Este breve apontamento biográfico serve para chamar a atenção para o facto de, por vezes, num futuro aprofundamento deste projecto, ser necessário acompanhar a "acção" com a biografia pois não foi por acaso que Camus adoptou a designação de "Cadernos" e não de "Diário". Camus tinha uma verdadeira aversão a retratar a sua vida pessoal não existindo nos Cadernos quase nenhumas referências directas às suas vivências pessoais. Mas elas estão lá em abundantes referências indirectas e aos seus projectos de trabalho.
Eis os meus sublinhados neste Caderno nº2 que, por sinal, são escassos.

"Huxley."No fim de contas, vale mais ser um burguês igual aos outros que um mau boémio ou um falso aristocrata, ou que um intelectual de segunda ordem…""
(Deveria eu ter acabado de ler "O Admirável Mundo Novo" e uma enorme emoção resultou dessa leitura.)

"Aquele que ama neste mundo e aquela que o ama com a certeza de se lhe juntar na eternidade. Os seus amores não estão no mesmo plano."

"O parzinho no comboio. Ambos feios. Ela agarra-se a ele, ri, excitada, seduzindo-o. Ele, de olhar sombrio, sente-se embaraçado por ser amado diante de toda a gente por uma mulher da qual não se orgulha."

"A Argélia, país a um tempo medido e desmedido. Medido nas suas linhas, desmedido na sua luz."


"Aquela manhã cheia de sol. As ruas quentes e cheias de mulheres. Vendem-se flores a todas as esquinas das ruas. E esses rostos de raparigas que sorriem."
(Esta frase, com outras que constam neste Caderno, e que não sublinhei, manteve-se muito viva na minha memória pois despertou, e desperta, as mais fortes ressonâncias afectivas da minha infância, no campo, e na pequena cidade de Faro, na distante província que era o Algarve rural dos anos 50.)

Extractos, in "Cadernos" (1962-Editions Gallimard), tradução de Gina de Freitas, Colecção Miniatura das Edições "Livros do Brasil", Caderno nº2 ( Setembro de 1937/ Abril de 1939).

José Viale Moutinho


Recebi dois livros e um opúsculo do JVM com dedicatórias. Agradeço a atenção e retribuo com esta entrada que leva nas entrelinhas um abraço. As publicações são um opúsculo respeitante ao "Centenário da Publicação do In Illo Tempore de Trindade Coelho" (Câmara Municipal de Coimbra), uma antologia intitulada "Os Melhores Contos Portugueses do Século XIX", editada pela Landy Editora , por sinal, um belo livro para o mercado do Brasil que as (os) amigas (os) brasileiras (os) gostarão de ler, podendo procurá-lo a partir desta referência e finalmente um livro de belíssimos poemas, editado pela Afrontamento, "Outono: entre as máscaras", que já li, e do qual reproduzo este.

quinze

preparo-me para o regresso, revejo notas, roupas, afino o]
olhar cansado, conto as moedas, apago o sol, bebo um]
copo de água morna, o comprimido do coração]
afoga-se-me na garganta, arrumo a cabeça, digo adeus]

ao romance: as vozes do trabalho, são sempre vozes,]
fazem-me vibrar as têmporas, esfrego as mãos secas,]
começo a levantar-me, a apagar os silêncios, a boca]
atraiçoa-me, o travo amargo é uma lâmina de carne,]

nos bolsos procuro, em vão, um lenço branco limpo, para]
dizer adeus só um lenço assim, ou uma lágrima, mas do]
corpo apenas se afasta a mão fechada, a mão que faz o]
cimento e afaga as chamas, a mão do finado, de cera,]

fecho a janela, tanto tempo esteve aberta, corro a cortina,]
apaga-se a encosta, desaparecem o penedo branco, as aves,]
as árvores, os pratos sujos do almoço, o sol, as vacas, essa]
sórdida incomodidade da contemplação: é o outono, afinal.]




Experimentar


Ontem (sábado) foi um dia dedicado ás experiências destinadas a fazer avançar um pouco mais a qualidade do absorto. Foram dados alguns passos - em parte invisíveis - com as ajudas preciosas do turing e do Helder Gonçalves testando a introdução de imagens com algumas fotografias de sua autoria. O resultado não foi absolutamente brilhante mas resolvemos não esconder as dificuldades. Obrigado.

sábado, janeiro 24

Entardecer Urbano

Entardecer Urbano


Helder Gonçalves



Cadernos de Camus 2



Não há qualquer dúvida acerca da edição portuguesa da "Livros do Brasil" ao contrário do que um participante dos Cadernos de Camus parece fazer crer. Por outro lado a "Breve Nota Prefacial", de António Quadros, inserta nos "Cadernos II", com todo o respeito, não acrescenta nada de essencial ao trabalho de Camus, nem ao actual projecto "Cadernos de Camus" que tem como objecto essencial, ao que me parece, o próprio Camus e a sua "aventura" de criador de um blog "avant la lettre". Anoto que cada volume da edição portuguesa é traduzido por uma personalidade diferente: Gina de Freitas, António Quadros e…António Ramos Rosa.

O meu segundo contributo, na fase experimental do blog, é a transcrição do conjunto das frases sublinhadas, no próprio livro, aquando da minha primeira leitura. As restantes foram transcritas na anterior participação. Desta forma "invento" um critério para esta série de excertos do 1º caderno (Maio de 1935 a 15 de Setembro de 1937).

"Abril.
Primeiros dias de calor. Sufocante. Todos os animais estão deitados. Quando o dia começa a declinar, a natureza estranha da atmosfera por cima da cidade. Os ruídos que nela se elevam e se perdem como balões. Imobilidade das árvores e dos homens. Pelas esplanadas, mouros de conversa à espera que venha a noite. Café torrado, cujo aroma também se eleva. Hora suave e desesperada. Nada para abraçar. Nada onde ajoelhar, louco de reconhecimento.

(Nesta página escrevi à mão em frente a Abril: "3-1968-Faro-Cais". O ambiente da Argélia natal de Camus tem algo a ver com o ambiente de Faro, a minha cidade natal. Devia ser o período das Férias de Páscoa. Curiosamente nas vésperas do "Maio de 68")

"Os sentidos e o mundo - Os desejos confundem-se. E neste corpo que aperto contra o meu, aperto também essa alegria estranha que vem do céu em direcção ao mar"

"Perna partida do carregador. A um canto, um homem novo que ri silenciosamente."

"Maio.
Estes fins de tarde em Argel em que as mulheres são tão belas."

"Intelectual? Sim. E nunca renegar. Intelectual=aquele que se desdobra. Isto agrada-me. Sinto-me contente por ser ambos. "Se isto se adapta?" Questão prática. É preciso meter mãos à obra. "Eu desprezo a inteligência" significa na realidade: "não posso suportar as minhas dúvidas". Prefiro manter os olhos abertos."

"Fevereiro.
A civilização não reside num grau mais ou menos elevado de requinte. Mas numa consciência comum a todo um povo. E essa consciência nunca é requintada. Ela é mesmo completamente sincera. Fazer da civilização a obra de uma elite, é identificá-la à altura, que é uma coisa diferente. Há uma cultura mediterrânea. Pelo contrário, não confundir civilização e povo."
(Fevereiro de 1936)

"Narrativa - o homem que não se quer justificar. A ideia que se faz dele é a preferida. Ele morre, único a guardar consciência da sua verdade. Futilidade dessa consolação."
(Uma nota de pé de página assinala: "Tema de L´Etranger.")

"Maio.
Erro de uma psicologia de pormenor. Os homens que se procuram, que se analisam. Para nos conhecermos bem, temos que nos afirmar. A psicologia é acção - não reflexão sobre si próprio. Definimo-nos ao longo da vida. Conhecermo-nos perfeitamente, é morrer."

"Os casais: o homem tenta brilhar diante de terceiros. A mulher imediatamente: "Mas tu também…", e tenta diminui-lo, torná-lo solidário da sua mediocridade."

"Mulheres na rua. A besta arrebatada do desejo que trazemos enroscada na cavidade dos rins e que se agita com uma suavidade estranha."

Extractos, in "Cadernos" (1962-Editions Gallimard), tradução de Gina de Freitas, Colecção Miniatura das Edições "Livros do Brasil", Caderno nº1 (Maio de 1935/Setembro de 1937).





sexta-feira, janeiro 23

Cadernos de Camus


Enviei a primeira contribuição para o José Pacheco Pereira que tomou a iniciativa de criar os Cadernos de Camus , blog provisório destinado a dar corpo a este aliciante projecto. Aqui reproduzo o texto enviado.
Releio o Caderno nº 1 (Maio de 1935/Setembro de 1937) e anoto os meus sublinhados vigorosos, aquando da primeira leitura, na segunda metade dos anos 60. Achei que nesta primeira abordagem não os devia ignorar. Eis o meu primeiro sublinhado:
"Jovem eu pedia às pessoas mais do que elas me podiam dar: uma amizade contínua, uma emoção permanente.
Hoje sei pedir-lhes menos do que podem dar: uma companhia sem palavras. E as suas emoções, a sua amizade, os seus gestos nobres mantêm a meus olhos o seu autêntico valor de milagre: um absoluto resultado da graça."
Tenho dificuldade em interpretar as razões que me levaram, com 20 anos, a fazer esta escolha mas seria capaz, hoje, de sublinhar de novo com acrescidas razões.
Com respeito às escolhas de JPP é curioso que os meus sublinhados de juventude se situam imediatamente antes e depois das citações escolhidas por JPP. Sublinhei a frase imediatamente anterior à citação de JPP com o título "A civilização contra a cultura", ou seja,
"As filosofias valem aquilo que valem os filósofos. Maior é o homem, mais a filosofia é verdadeira."
E ainda mais extraordinário a coincidência de ter sublinhado as citações imediatamente anterior e posterior daquela outra que JPP escolheu com o título: "Poder consolador do inferno", quais sejam:
"Combate trágico do mundo sofredor. Futilidade do problema da imortalidade. Aquilo que nos interessa, é de facto o nosso destino. Mas não "depois", "antes"."
E esta outra:
"Regra lógica. O singular tem valor de universal.
-ilógica: o trágico é contraditório.
-prática: um homem inteligente em certo plano pode ser um imbecil noutros."
As minhas escolhas de juventude podiam ser as minhas escolhas actuais. As minhas escolhas actuais vão mais além mas encaminham-se, quase sempre, para uma faceta da reflexão em que Camus olha a natureza e os outros com assumido desprendimento pelas coisas materiais sempre deixando transparecer um problema nunca resolvido na sua vida: a sua relação com o sucesso. Como transparece no texto final deste Caderno nº 1 quando escreve:
"…Não é necessário entregarmo-nos para parecer mas apenas para dar. Há muito mais força num homem que não parece senão quando é preciso. Ir até ao fim, é saber guardar o seu segredo. Sofri por estar só, mas por ter guardado o meu segredo venci o sofrimento de estar só. E hoje não conheço maior glória que viver só e ignorado. Escrever, minha profunda alegria!..."
Extractos, in "Cadernos" (1962-Editions Gallimard), tradução de Gina de Freitas, Colecção Miniatura das Edições "Livros do Brasil", incluindo: Caderno nº1 (Maio de 1935/Setembro de 1937), Caderno nº2 (Setembro de 1937 a Abril de 1939) e Caderno nº3 (Abril de 1939 a Fevereiro de 1942).


O peregrino do optimismo


A imagem é interessante. Ela surgiu algures a propósito da visita do PR a alguns concelhos do distrito de Aveiro. Li também que o PR tinha "saído animadíssimo de Sever do Vouga" e que estava farto do pessimismo. Ainda bem. Conheço o peregrino, admiro-o, sei que é capaz de enfrentar as dificuldades e de honrar os compromissos. Peregrinar tem o sentido de viajar por terras distantes, "por países longínquos". De facto uma viagem ao Portugal profundo (que pode muito bem ser no litoral) assume, de certo modo, o sentido de peregrinação. Tempos atrás fiz uma viagem em que percorri todos os concelhos raianos de Vila Real de Santo António a Caminha. Foi uma experiência extraordinária pois perante nós se apresenta um país onde se vê a TV espanhola, as rádios idem, as redes de telemóveis, idem, o comércio, idem…o que nos permite, sem contemplações, compreender as razões do nosso relativo atraso. O pequeno Portugal de antanho torna-se imenso, quando as gentes envelhecem, minguam as actividades agrícolas, as escolas ficam vazias, os Correios vão para as Junta, etc., etc.… Por estas e por outras o peregrino do optimismo corre o risco de se transformar no peregrino do pessimismo ao contrário. É que a estratégia do pessimismo não é inocente. Ela, nos nossos dias, como sempre na história, trás no bojo a aspiração ao poder dos salvadores da pátria. Os déspotas. Não lhes ponho sinal ideológico. Os déspotas para atingirem os seus fins costumam inventar uma ideologia. Claro que demora o seu tempo, se lhes derem tempo. Nos nossos regimes de democracia representativa o despotismo apresenta-se em todo o seu esplendor através das denúncias anónimas, das fugas de informação, com origens diversas, da corrupção consentida, da promiscuidade entre o poder político e os media, que desemboca nos julgamentos populares com as televisões no lugar das câmaras de gáz, … Em democracia é preciso saber suportar os incómodos da diferença, prezar a opinião oposta, apreciar a honorabilidade dos cidadãos, as suas ideias e realizações, mesmo discordantes, assim como as opções dos governos que nos antecederam. É penoso construir um caminho virtuoso de progresso, em democracia, por cima da humilhação e do assassinato de carácter, ético ou, no limite, físico dos adversários. Mas é a política tradicional! Não é? O peregrino do optimismo corre, assim, o risco de se transformar, contra os desejos dos seus amigos e da maioria esmagadora do povo português, num figurante desta estranha situação portuguesa: uma espécie de regresso a casa depois do funeral de um familiar de que não se gostava muito mas que, afinal, nos fazia muita falta…

Blog - Cadernos de Camus


Surgiu o prometido tiro de partida para este estimulante projecto de que se não sabe, ao certo, o destino. Esse é um dos seus encantos. Os diversos interessados que venham a ser participantes terão os seus objectivos a atingir. A maioria será, certamente, constituída por "franco atiradores" como eu. Alguns outros (poucos) serão especialistas na obra de Camus, porque não há muitos. A "matéria-prima" (os cadernos propriamente ditos) é de primeira qualidade e ajustada ao jogo. Os jogadores/participantes não os conheço à partida. Mas isso não tem grande importância. São participantes disponíveis, como eu, é quanto basta. Resta formar a equipa coordenadora que é com o JPP que, através do abrupto, foi o mentor da ideia. Pela minha parte utilizarei a velha edição portuguesa, um bocado amarelecida, mas em bom estado, recentemente restaurada e encadernada, com capa dura, através da ajuda preciosa da Manuela EP que acompanha estas manobras lá do Porto. Vou procurar dar um contributo que gostaria que contivesse uma componente de criatividade e originalidade através do trabalho de uma equipa a dois. Já fiz o convite. Hoje só queria reafirmar a minha disponibilidade. Nos próximos dias dou mais notícias acerca do tema.
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quinta-feira, janeiro 22

Tradução 3


A carta de Roger Sulis publicada por JPP no abrupto esclarece, a partir de um artigo de Jorge de Sena, a questão da tradução que este realizou da obra poética de Cavafy (a partir do inglês). Acrescenta Sulis algumas considerações entre as quais uma referência ao longo poema de Sena "EM CRETA, COM O MINOTAURO" (1965) para comprovar, pelas palavras do próprio, a sua ignorância do grego.
Eis o "capítulo" integral do referido poema aliás extraordinariamente violento:

III
É aí que eu quero reencontrar-me de ter deixado]
a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia]
aquele pobre diabo que o Minotauro não leu, porque,]
como toda a gente, não sabe português.]
Também eu não sei grego, segundo as mais seguras informações.]
Conversaremos em volapuque, já]
que nenhum de nós o sabe. O Minotauro]
não falava grego, não era grego, viveu antes da Grécia,]
de toda esta merda douta que nos cobre há séculos,]
cagado pelos nossos escravos, ou por nós quando somos]
os escravos de outros. Ao café,]
diremos um ao outro as nossas mágoas.]
….






quarta-feira, janeiro 21

Tradução 2


A poesia dos poetas brasileiros não precisa de tradução? Nalguns casos sim, noutros não. A mesma língua pode não ser entendida por todos os falantes dessa língua. Quando um português fala para uma plateia de brasileiros, não eruditos, fica sempre a sensação de que os ouvintes não estão entendendo nada. Quase se poderia exigir tradução. O contrário não é tão evidente. São os mistérios da língua. Vejam como Adélia Prado (Divinópolis, Minas Gerais, 1935) poeta brasileira da minha predilecção, em Ensinamento, sem necessidade de tradução, valoriza o amor "essa palavra de luxo".

Ensinamento


Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

Ideias para o futuro 3


No dia da abertura da BTL (Bolsa de Turismo de Lisboa) é interessante recordar que Portugal, apesar da sua pequena dimensão territorial e demográfica, ocupou em 2002, o 17º lugar mundial (10º lugar europeu) acolhendo 11,6 milhões de turistas estrangeiros, sendo França, Espanha e Itália, por esta ordem, os países líderes mundiais.
As receitas geradas pelo turismo, em Portugal, no ano 2002, atingiram os 6.260 milhões de euros, tendo crescido 2,2 %, face a 2001, a que correspondeu, um decréscimo de 4,1 % no número de turistas estrangeiros que visitaram o país.
Todos sabem que Portugal não pode apostar indefinidamente no turismo de massas, mas na qualidade e na inovação, criando programas e projectos turísticos de excelência, que permitam disputar os mercados emergentes e os segmentos com maior poder de compra dos mercados tradicionais.
O reconhecimento desta realidade não obsta, no entanto, a que surjam tentativas de impor projectos "turísticos" que ameaçam os parques naturais como, por exemplo, o da costa vicentina, ou regiões, ainda relativamente "pouco desenvolvidas", como o sotavento algarvio.
Para assumir, com eficácia, o desafio do crescimento contínuo e sustentável da actividade turística Portugal deve adoptar políticas transparentes nas áreas do ambiente, ordenamento do território e transportes, assim como um novo enquadramento institucional, retirando o turismo da tutela do Ministério da Economia, através da criação de um Ministério autónomo ou integrando-o no Ministério do Equipamento que tutele, entre outras áreas, os transportes e o ordenamento do território (modelo francês).
Só esse caminho permitirá que os poderes, público, privado e associativo, nas próximas décadas, coordenem esforços e articulem políticas, assumindo o turismo como uma actividade estratégica, decisiva no processo de desenvolvimento económico do país, no contexto do aprofundamento dos processos de integração europeia e de globalização.






terça-feira, janeiro 20

Tradução


Ainda as traduções que são como os amores na observação ágil de JPP no abrupto que, no fundo, nos diz que a primeira tradução da obra que nos chega ao conhecimento é, para nós, a mais marcante. É capaz de ser assim mesmo. Diria que o problema é não sermos capazes de entender todas as línguas. É uma lástima esta incapacidade, esta saudável incapacidade, que me faz lembrar uma frase de Camus (mais uma vez) que dizia que "a imortalidade é uma ideia sem futuro". Não vale a pena querer abranger todo o conhecimento, ser capaz de tudo comparar, acerca de todos os acontecimentos emitir opinião fundamentada … mas talvez valha a pena tentar.
Para que o tema da tradução não fique sem ilustração aqui está o poema "Autobiographia Literaria" de Frank O´ Hara, publicado pela Editora "Assírio & Alvim", traduzido por José Alberto Oliveira:

Quando eu era criança
brincava sozinho
num canto do pátio
da escola.

Eu odiava bonecas e
odiava jogos, os animais
eram inamistosos e os pássaros
levantavam voo e fugiam.

Se alguém me procurava
escondia-me atrás de uma
árvore e gritava "Eu sou
um órfão".

E agora aqui estou, o
centro de toda a beleza!
escrevendo estes poemas!
quem diria!

segunda-feira, janeiro 19

POEMA DE EUGÉNIO DE ANDRADE


No dia do seu 81º aniversário



A JORGE DE SENA,
NO CHÃO DA CALIFÓRNIA

É por orgulho que já não sobes
as escadas? Terás adivinhado
que não gostei desse ajuste de contas
que foi a tua agonia?
É só por isso que não vieste
este verão bater-me à porta?
Não sabes já
que entre mim e ti
há só a noite e nunca haverá morte?

Não te faltou orgulho, eu sei;
orgulho de ergueres dia a dia
com mãos trementes
a vida à tua altura
-mas a outra face quem a suspeitou?
Quem amou em ti
o rapazito frágil, inseguro,
a irmã gentil que não tivemos?

Escreveste como o sangue canta:
de-ses-pe-ra-da-men-te.
e mostraste como não é fácil
neste país exíguo ser-se breve.
Talvez o tempo te faltasse
para pesar com mão feliz o ar
onde sobrou
um juvenil ardor até ao fim.

No que nos deixaste há de tudo,
desde o copo de água fresca
ao uivo de lobos acossados.
Há quem prefira ler-te os versos,
outros a prosa, alguns ainda
preferem o que sobre a liberdade
de ser homem
foste deixando por aí
em prosa ou verso, e tangível
brilha
onde antes parecia morta.

Às vezes orgulhavas-te
de ter, em vez de uma, duas pátrias;
pobre de ti: não tiveste nenhuma;
ou tiveste apenas essa
que te roía o coração
fiel às palavras da tribo.

Andaste por muito lado a ver se o mundo
era maior que tu - concluíste que não.
Tiveste mulher e filhos portuguesmente
repartidos pela terra,
e alguns amigos,
entre os quais me conto.
E se conta o vento.

Agosto, 1978









VÍCTOR CONSTÂNCIO - entrevista


A questão do envelhecimento da população tem sido abordada, no nosso país, de forma pontual, sem consequências práticas relevantes. Nem o discurso político nem os programas dos governos a consideram em todas as suas consequências. Vítor Constâncio, na entrevista hoje divulgada no Público, conseguiu ser bastante explícito: para combater o declínio da Europa é necessária a "disponibilidade dos países europeus para aceitarem mais imigrantes, implica que os europeus tenham de trabalhar mais anos do que hoje e supõe também um aumento da natalidade. As três coisas vão ser necessárias, se quisermos que a Europa não entre em declínio e tenha dificuldades crescentes para resolver os seus problemas sociais." Estas são questões estruturantes que exigem abordagens sérias e respostas determinadas de todas as forças sociais e políticas. Trata-se de uma questão nacional que deveria merecer um estudo integrado, multidisciplar e transversal que, a partir de um diagnóstico rigoroso, apontasse medidas a médio e longo prazo.

Cavafy-2


A minha referência a Constantino Cavafy suscitada pelo abrupto resultou do interesse pela obra do poeta que conheço, como leitor, na tradução de Jorge de Sena. Pelo que me têm dito alguns mais profundos conhecedores de Cavafy a melhor tradução será a de Marguerite Yourcenar e Constantion Dimaras na obra "Apresentação Crítica de Constantin Cavafy, seguida da tradução integral dos seus poemas" (Edições Gallimard, 1958). A minha apreciação acerca da qualidade das traduções em apreço não resulta, no entanto, de uma comparação mas da minha sensibilidade como leitor interessado. A obra de Cavafy merece, em qualquer caso, ser divulgada e se der origem a polémica tanto melhor. O mesmo se pode aplicar a Jorge de Sena ao qual pretendo continuar a dedicar bastante atenção e espaço. Uma das questões mais chocantes da nossa história, aliás, é o desprezo pelos grandes criadores - os fazedores de obra em todos os domínios - entre os quais se inclui Sena que, não esqueçamos, se exilou e, após a sua morte, ficou sepultado nos Estados Unidos.

domingo, janeiro 18

Turismo (mais uma vez)


Alguns inquéritos recentes revelam que os portugueses, em 2004, colocam a realização de viagens de lazer como primeira prioridade entre as suas expectativas de consumo. Surpreendente, ou talvez não, este indicador dá razão aqueles que, como nós, defendem a importância estratégica do turismo, e do lazer em geral, no desenvolvimento do país. Atente-se, entretanto, que esta é uma actividade recente, quer enquanto fenómeno social, quer cultural ou económico.
Foi em França, no ano de 1936, sob os auspícios do Governo da Frente Popular, logo seguida, no mesmo ano, pela Bélgica, que as "férias pagas" foram consagradas, sendo mesmo criado o Ministério dos Lazeres, resgatando para as políticas próprias dos regimes democráticos, o modelo de uma maior intervenção do Estado no domínio do que hoje entendemos ser o Lazer Social.
Após a segunda guerra mundial, este movimento foi precursor da democratização do Turismo, permitindo a milhares de trabalhadores e suas famílias descobrirem outros territórios, verificando-se uma autêntica transumância no mês de férias, materializando o que hoje conhecemos por "turismo de massas".
No entanto o apetrechamento do país para corresponder a este desafio coloca muitas questões que estão na ordem do dia sendo a mais relevante a do "desenvolvimento sustentável". O PR está preocupado com o tema e vai abordá-lo na Presidência Aberta, nos finais deste mês. Vamos tentar acompanhar essas preocupações, as questões que serão colocadas e as respostas do Governo e dos diversos parceiros, privados e públicos, com interesses nesta área de actividade.

sábado, janeiro 17

Cavafy


O abrupto publica um poema de Cavafy (poeta grego, nascido em Alexandria, no Egipto, a 17 de Abril de 1863; morreu em Atenas, em 1933). O que não entendi foi a necessidade de JPP justificar a publicação do original em grego. Aqui se publicam o mesmo poema na tradução (melhor no meu ponto de vista) de Jorge de Sena, a nota que o acompanha e o poema que se lhe segue:

O mar pela manhã


Deixem-me estar aqui. Que também eu contemple,
um pouco, a natureza - o mar, nesta manhã,
o céu azul sem nuvens, de um e de outro a luz
onde se alonga amarelada praia.

Deixem-me estar aqui. Que eu pense que isto vejo
(não é que o vi um instante, quando aqui parei?)
Tudo isto só - e não, também aqui, visões,
memórias, e os espectros do prazer antigo.

(1915)

Eis a nota de Jorge de Sena escreveu, a propósito deste poema, inserta na edição "90 e mais quatro poemas", Edições ASA:

"Este poema de 1915, que Cafavy fez preceder imediatamente o seu primeiro poema explicitamente erótico, é, por isso e pelo que diz, extremamente interessante, para lá da beleza excepcional que é a sua. O mar e as praias de Alexandria reaparecerão, indirectamente, noutro dos poemas pessoais, no fim da vida, o nº 153. Mas o importante é a declaração, que a obra confirma, de quanto a Natureza, em si, não interessa a Cavafy (logo as suas visões se interpõem); e também o modo como o poeta se refere às aventuras do seu passado, tratando-as de "espectros", pois que é precisamente da realidade que vai dar a esses espectros, que a sua poesia pessoal erótica se vai imediatamente construir."

Já agora o poema erótico a que se refere a nota:

À porta do café


Algo que ouvi junto de mim desviou-
-me a atenção para a porta do café.
E vi o corpo esplêndido que parecia
como se o próprio Eros o fizera com perícia extrema -
modelando-lhe com prazer a simetria dos membros,
erguendo ao alto a estátua do seu torso,
modelando o rosto dele com afecto,
e do toque deixando dos seus próprios dedos
um jeito na testa, nos olhos, e nos lábios.

(1915)


O discurso dos assassinos


Ouve-se e não dá para acreditar. O actual governo democrático de Israel adopta as práticas mais odiosas do fanatismo. Num contexto, é certo, em que o fanatismo surge de todos os lados. Mas Israel é uma democracia. Os governos democráticos que adoptam como programa a morte dos adversários (ou mesmo inimigos) não são dignos de apreço. Essas práticas são próprias das ditaduras. Ou eram? Hoje Mário Soares, no Expresso, a propósito da morte de Bobbio, refere que este grande pensador italiano, em 1987, preconizava "o aprofundamento democrático, no plano internacional, no pressuposto (que hoje se revela incerto) de que são as ditaduras que fazem as guerras e as democracias que asseguram a paz…" Os governantes democráticos que adoptam como programa a humilhação dos povos, incluindo o seu povo, não são dignos de apreço. O mesmo se pode dizer daqueles governos, e governantes, que praticam a suprema hipocrisia de fazer crer que defendem o interesse da comunidade e a paz, fazendo a guerra, e a prática do bem, fazendo o mal. Mas também como dizia um clássico: "É verdadeiramente real fazer o bem e ouvir dizer mal de nós". Se no Médio Oriente se está a viver uma situação de guerra que seja declarada a guerra. Em qualquer circunstância, concordo com Camus que, num texto de Novembro de 1948, dizia: "mais vale uma pessoa enganar-se, sem assassinar ninguém e permitindo que os outros falem, do que ter razão no meio do silêncio e pilhas de cadáveres."

Luther King


Vi há dias, na TV, um documentário extraordinário acerca da vida de Luther King. Nunca tinha visto as imagens, ao vivo, do seu último discurso, um dia antes de ser assassinado. Faz arrepiar. É um discurso de uma força arrasadora, ao mesmo tempo, um profundo grito de desespero e um desafio à justiça dos homens. As forças ultra conservadoras americanas (terão sido?) não lhe perdoaram a escolha da via pacífica na defesa dos direitos do homem e dos mais fracos. É interessante saber que figuras como Luther King possam ter existido e lutado por causas. Com as suas forças e fraquezas. É ainda mais interessante sentir a necessidade de afirmar isto mesmo. Quem, nos nossos dias, pode defender a causa da paz no Médio Oriente? Os "inimigos" de Israel são pura e simplesmente terroristas? Quem estimula o radicalismo e o fanatismo? Onde estão as forças moderadas e sensatas da sociedade israelita? Quem são os fortes e os fracos naquele conflito? Desde os inícios do século XX os portugueses nunca viveram uma guerra no seu território europeu. É, aparentemente, uma coisa boa mas retira-nos capacidade crítica para falar acerca dos assuntos da guerra e da paz de forma verdadeiramente séria. Que é feito dos comentaristas fardados, e à paisana, que surgiam todos os dias nas nossas TVs a comentar os acontecimentos da guerra do Iraque? Que é feito dos nossos jornalistas no terreno? Que é feito dos nossos GNRs? Ouve-se o silêncio...

sexta-feira, janeiro 16

Cruzamentos


O turing-machine revela que o quase clandestino absorto, que sou eu, tem revelado um interesse explícito pelos Cadernos de Camus. O abrupto , idem aspas. Acontece que o Absorto já se identifica pelas iniciais EG e já revelou ao abrupto, directamente, o seu interesse pelo tema do blogismo avant la lettre de Camus. Quando considerar que chegou ao fim esta fase experimental tudo se esclarecerá no que respeita à autoria do absorto. Quando o abrupto tomar a iniciativa prometida logo veremos qual o destino da ideia do JPP acerca do trabalho em torno dos Cadernos. A ideia é dele e muito interessante.

Imigração (de novo)


Somos um país de imigração, no presente e no futuro. Se há uma entidade que reconhece a importância desta questão é a Igreja Católica que a vai abordar, uma vez mais, no 4º Encontro de Apoio Social ao Imigrante A imigração não é uma questão de opção ideológica, de modelo económico ou de estratégia política. É uma realidade objectiva que resulta da evolução demográfica. O que não quer dizer que acerca desta realidade não se perfilem diversas opções ideológicas, económicas ou políticas. Os números são avassaladores. O estudo do Observatório da Imigração revela que, por ano, Portugal precisa de cerca de 200.000 imigrantes. È necessário sublinhar que se trata de um fluxo anual de cerca de 200.000 imigrantes...esta é, pois, uma questão dura que condiciona mesmo o futuro do país. O Eurostat aponta para Portugal uma estimativa, em Janeiro de 2004, de 10.840.000 habitantes, comparável com 10.408.000, em Janeiro de 2003. Observa-se um saldo demográfico positivo mas que se ficou a dever à imigração, ou seja, à relação entre o crescimento natural em 2003 (diferença entre o n.º de nascimento e o n.º de mortes) que foi de 0,9 p/ mil habitantes e a migração líquida (diferença entre o n.º de imigrantes e o n.º de emigrantes) que foi de 6,1 p/ mil habitantes.

quinta-feira, janeiro 15

Os Cadernos de Camus


A propósito das reflexões de JPP no abrupto acerca dos Cadernos de Camus (um blog avant la lettre) direi que sempre me interessou muito este tipo de literatura composta por um discurso fragmentado. A primeira referência escrita da minha leitura dos Cadernos de Camus data de 1968. Andava pelos meus 21 anos, mas essa leitura iniciou-se, certamente, antes dessa data. Tem algo a ver com o meu interesse, e participação directa, na actividade teatral. Na realidade aquele tipo de literatura está muito próxima do teatro e, em particular, de um certo tipo de cenas de teatro. Veja-se o teatro de Gil Vicente. Aliás Camus envolveu-se muito intensamente na actividade teatral, quer como dramaturgo, quer mesmo como "ajudante" de encenador das suas próprias peças. Lembra-me este tema uma outra leitura muito marcante para mim: "Roland Barthes por Roland Barthes". É sensivelmente o mesmo modelo de discurso fragmentado escrito como "uma espécie de gag, de pastiche de mim mesmo", como refere o autor e é, neste caso, uma obra muito mais recente e escrita num curto período de tempo, entre 6 de Agosto de 1973 e 3 de Setembro de 1974. Lembro-me de como apreciei também este livro mas os Cadernos de Camus são, no seu género, dificilmente igualáveis.

Alamal - Um projecto exemplar


A exposição da obra dos arquitectos Víctor Mestre e Sofia Aleixo na Ordem dos Arquitectos interessa-me muito pois integra, em lugar de destaque, o projecto da Pousada do Alamal, em Gavião, concelho do distrito de Portalegre.
O Centro Integrado de Lazer do Alamal foi inaugurado em 23 de Julho de 2001, como resultado de um protocolo celebrado entre o INATEL e a Câmara Municipal de Gavião.
Trata-se de um belíssimo equipamento de lazer, propriedade da Autarquia, sob gestão do INATEL, resultado da reabilitação da Quinta do Alamal, no qual se destaca a componente de alojamento, em parte, criada de raiz e, noutra parte, resultante da reabilitação de edifícios preexistentes num espaço que confina com o Tejo, frente ao Castelo de Belver.
Este projecto de arquitectura é um caso exemplar de integração de um conjunto de construções no meio envolvente fazendo conviver, de forma eficaz, a obra física com a natureza, respeitando o ambiente, sem abdicar do seu carácter utilitário destinado a ser usado pelo homem. Fui um entusiasta do modelo de parceria Autarquia/INATEL que permitiu que este projecto, que vale por si, se tornasse socialmente útil.
Gavião é, segundo dados de 2001, um dos 16 Concelhos mais envelhecidos do país, com mais de 400 idosos por 100 jovens.
Não estou seguro que o INATEL mantenha, no presente, a mesma filosofia de gestão deste tipo de equipamentos o que me merece uma observação atenta.
O projecto do Alamal é um caso exemplar de concretização de uma política de combate à desertificação do interior, criando emprego, gerando riqueza e alimentando a esperança de que seja possível tornar o nosso país mais justo, equilibrado e competitivo nos planos social e económico.


quarta-feira, janeiro 14

Um livro...simplesmente

A propósito da apresentação de um livro (a que ninguém atribui importância alguma) o Dr. Pedro Santana Lopes disse que não queria dizer nada acerca das presidenciais...neste semestre. O Primeiro Ministro disse que tinha aceite o convite, pois claro... o Dr. Portas disse que o país precisava de "autoridade e optimismo". Ouvi bem. Esta foi a única afirmação politicamente relevante. Dita com intencionalidade. "Autoridade", e não autoridade democrática, "optimismo" e não realismo. Não sei se alguém está verdadeiramente interessado, e tem capacidade, para questionar a deriva político/mediática do Dr. Pedro Santana Lopes e a sua ligação aos desígnios políticos futuros do Dr. Portas. Eles encarnam ambos o modelo dos políticos que nunca exercem, em pleno e a fundo, as funções para que foram eleitos mas que se mostram, sem subterfúgios, sempre interessados em saltar para "outro lugar". Não sei se estarei a ser injusto mas sei que o Dr. Jorge Sampaio, hoje Presidente da República, e antes Presidente da CM de Lisboa, nunca deixou transparecer, no exercício desta função, a aspiração ao exercício daquela outra. A função que lhe compete exercer, o Dr. Jorge Sampaio exerce-a, em cada momento, com determinação, honestidade e competência. Concorde-se, ou não, é um modelo de político que o país não pode dispensar. Esta questão do perfil pessoal e político do PR é uma questão de fundo. É cedo… É tarde… Por mais que se diga que ainda vêm longe as eleições presidenciais o Dr. Santana Lopes será a única hipótese de tornar o Dr. Portas maioritário…perceberam?

terça-feira, janeiro 13

LIBERDADE-4


A liberdade religiosa existe em Portugal. As actividades das diversas confissões são livres. As suas tomadas de posição públicas não são censuradas nem sujeitas a qualquer limitação. Enquanto um semanário de referência como o Expresso faz manchete com uma falsa "iniciativa" do Dr. Santana Lopes ver ( causa nossa ) a comunicação social, em geral, silenciou o conteúdo de um importantíssimo documento como a Carta Pastoral que pode ser consultada na íntegra em Conferência Episcopal
CARTA PASTORAL
As preocupações sociais da Igreja Católica foram vertidas na Carta Pastoral da Conferência Episcopal, de 15 de Setembro de 2003, intitulada: "Responsabilidade Solidária pelo Bem Comum". Eis alguns extractos significativos:
"Pelo princípio da dignidade da pessoa humana, todos os seres humanos são iguais e solidários, todos têm o direito e o dever de participar na construção do bem comum da sociedade. Não se pode reduzir a existência humana a um mero individualismo, nem limitá-la a um simples colectivismo. Este princípio é fundamento dos princípios da solidariedade e da subsidiariedade, e seu relacionamento recíproco. Além disso, é critério essencial para fundamentar todas as críticas às possíveis interpretações unilaterais desses princípios."

"Não se pode conceber um mercado livre sem limites. Tal é incompatível com os princípios orientadores da lei natural, da justiça social, dos direitos humanos e do bem comum, sempre afirmados pela doutrina social da Igreja. Um mercado assumido, na prática, sem qualquer limitação tem conduzido frequentemente à acumulação da riqueza por um pequeno grupo e, consequentemente, dando origem a fenómenos de opulência e de riqueza não solidariamente distribuída. Verificamos ainda um preocupante crescimento desmesurado e irresponsável do consumo e do endividamento, sem possibilidades de regularização, a par de um aumento de novas formas de pobreza, de miséria e de exclusão social.

A economia de mercado tem potencialidades para encorajar a criação de riqueza e para fazer crescer a prosperidade da comunidade, permitindo o combate à pobreza e à miséria. Esse objectivo só se consegue, e esperamos que a sociedade portuguesa evolua nesse sentido, quando se respeita a liberdade humana e o princípio da subsidiariedade, em união com o princípio da solidariedade. Na observância destes princípios é de louvar a iniciativa dos empresários que procuram a solidez das empresas do ponto de vista financeiro e estrutural.

O bom funcionamento do mercado requer um comportamento ético e a concretização de certos princípios éticos no quadro regulador e legislativo. Na afirmação do conceito de bem comum na nossa comunidade, cabe ao Estado distinguir e arbitrar entre exigências do mercado livre e do bem comum."


segunda-feira, janeiro 12

LIBERDADE-3


"Finalmente, escolho a liberdade. Pois que, mesmo se a justiça não for realizada, a liberdade preserva o poder de protesto contra a injustiça e salva a comunidade. A justiça num mundo silencioso, a justiça dos mundos destrói a cumplicidade, nega a revolta e devolve o consentimento, mas desta vez sob a mais baixa das formas. É aqui que se vê o primado que o valor da liberdade pouco a pouco recebe. Mas o difícil é nunca perder de vista que ele deve exigir ao mesmo tempo a justiça, como foi dito. (...)
A liberdade é poder defender o que não penso, mesmo num regime ou num mundo que aprovo. È poder dar razão ao adversário."
Camus, in Cadernos (na sequência de Liberdade-2)

domingo, janeiro 11

REENCONTRO


Na sexta-feira passada na Livraria Ler Devagar um reencontro feliz com o Antero Afonso. Apresentou ele o seu último romance "Ninguém Está Contente", da Raridade. O romance está em fase de início de leitura mas o Antero não carece, para mim, de se apresentar. O seu discurso irónico e a sua face luminosa mantêm-se dez anos passados. A iniciativas é uma simples afirmação de talento que não precisa de apresentação. No fim da leitura volto ao assunto. Boa noite Porto.

LEITURAS


A última leitura de 2003:"O Amor Natural", de Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais,1902-1987), o livro de poesia erótica publicado após a morte do grande poeta brasileiro. Assinalo, a propósito, um episódio marcante da sua vida, segundo as palavras do próprio: "A saída brusca do Colégio teve influência enorme no desenvolvimento dos meus estudos e de toda a minha vida. Perdi a fé. Perdi tempo. E sobretudo perdi a confiança na justiça dos que me julgavam." A expulsão referida ocorreu, em 1919, do Colégio Anchieta. Eis um poema de "O Amor Natural":

OH MINHA SENHORA Ó MINHA SENHORA
Oh minha senhora ó minha senhora oh não se incomode senho-
ra minha não faça isso eu lhe peço eu lhe suplico por Deus nosso
redentor minha senhora não dê importância a um simples mortal
vagabundo como eu que nem mereço a glória de quanto mais
de...não não não minha senhora não me desabotoe a braguilha
não precisa também de despir o que é isso é verdadeiramente fora
de normas e eu não estou absolutamente preparado para seme-
lhante emoção ou comoção sei lá minha senhora nem sei mais o
que digo eu disse alguma coisa? sinto-me sem palavras sem fôle-
gos sem saliva para molhar a língua e ensaiar um discurso coeren-
te na linha do desejo sinto-me desamparado do Divino Espírito
Santo minha senhora eu eu eu ó minha senh...esses seios são
seus ou é uma aparição e esses pêlos essas nád...tanta nudez me
deixa naufragado me mata me pulveriza louvado bendito seja
Deus é o fim do mundo desabando no meu fim eu eu...




sábado, janeiro 10

LIBERDADE-2


"Gosto imenso da liberdade. E para todo o intelectual, a liberdade acaba por confundir-se com a liberdade de expressão. Mas compreendo perfeitamente que esta preocupação não está em primeiro lugar para uma grande quantidade de Europeus, porque só a justiça lhes pode dar o mínimo material de que precisamos, e que, com ou sem razão, sacrificariam de bom grado a liberdade a essa justiça elementar.
Sei estas coisas há muito tempo. Se me parecia necessário defender a conciliação entre a justiça e a liberdade, era porque aí residia em meu entender a última esperança do Ocidente. Mas essa conciliação apenas pode efectivar-se num certo clima que hoje é praticamente utópico. Será preciso sacrificar um ou outro destes valores? Que devemos pensar, neste caso?"
Camus, in Cadernos
Texto escrito entre Setembro e Outubro de 1945.

sexta-feira, janeiro 9

LIBERDADE-1

A ideia dos iluminados parece ser a de banalizar a ideia de que a liberdade é um assunto banal. Esta é uma ideia para levar a sério. Os deputados da maioria asseguram que não pretendem reinstaurar a censura prévia. Obrigado. De facto a censura prévia dá uma trabalheira dos diabos e depois não fica bem na Europa dos 25, não ia cair bem, não sei...mas talvez ainda dê para pensar, é perguntar a opinião do parceiro da coligação. O problema é que a liberdade não é qualquer coisa assim que se possa vender bem, pois... como calcular o seu valor acrescentado ou a sua influência no PIB ou mesmo no PEC ou no déficit...ai a liberdade... é difícil lidar com a liberdade. Não se compra, não se vende, é um bocado imaterial demais a liberdade. Não está tempo para isso de aturar a liberdade. É isso mesmo um aborrecimento, uma seca, uma ideia um bocado vazia...não sei mas apetecia experimentar outro produto que desse mais segurança ao mercado. Ai a liberdade... faz lembrar o 25 de Abril, o dia foi muito animado, no princípio até parecia um golpe dos ultras, mas aquele período a seguir foi uma maçada em particular ter de aturar os esquerdistas do PSD...e o MRPP... ai a liberdade... uma palhaçada, é verdade que os americanos falam disso como princípio sagrado mas pensando bem são um país novo e ultrapassado. Ai a liberdade...os filósofos, os poetas e toda a espécie de iluminados, e mesmo os homens de negócios, antigos e modernizados, falam disso mas é um discurso especializado, sei lá do género, livre de impostos, livre circulação, liberdade de culto, liberdade de imprensa, ir apanhar ar livre... ai a liberdade... Mas os teóricos e os pragmáticos do passado não ouviram da maioria os nossos deputados. Se os ouvissem conheceriam a verdadeira luz da verdade: a liberdade, parece que não, mas pode ser negociada. Façam propostas, mas de frente e de viva voz, alguma coisa que se possa discutir sempre, sempre em liberdade, depois logo se verá o resultado!

quinta-feira, janeiro 8

POEMA-"A PORTUGAL", in TEMPO DE PEREGRINATIO AD LOCA INFECTA

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
a pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fátua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol caiada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

Eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
eu te pertenço: mas ser´s minha, não.

Jorge de Sena

Araraquara, 6/12/61
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PRESIDÊNCIA ABERTA

O Presidente da República vai realizar, no final de Janeiro, mais uma "Presidência Aberta". Esta é uma actividade muito mais saudável para o país do que discutir cartas anónimas. O Presidente, apesar de ser um advogado de grande gabarito, preocupado e profundo conhecedor das questões da justiça, é muito mais desejado e eficaz nas "Presidências Abertas". Nestas pode contribuir, de facto, para revelar os problemas e dificuldades do país e do seu povo, mas também para mostrar as suas facetas mais promissoras e encorajantes.

Um dos temas que será certamente abordado é o da falência das estratégias para conter a desertificação humana do interior e a escassez do investimento produtivo fora das grandes áreas metropolitanas de Lisboa e Porto.

Dois acontecimentos têm contribuído para esta situação: a perda brutal de peso da agricultura na economia nacional e o envelhecimento demográfico.

Nas últimas quatro décadas Portugal assistiu, em simultâneo, ao progressivo desaparecimento da população activa na agricultura, de 45% para 10%, ao crescimento acelerado da concentração da população nos centros urbanos do litoral e a um acentuado envelhecimento da população.

Entre 1981 e 2001, segundo o INE, o índice de envelhecimento aumentou de 45 para 103 idosos, por cada cem jovens, e as projecções apontam para que, em 2021, este índice atinja, em Portugal, 127 por cada 100 jovens, ao mesmo tempo que a população com 80 anos, ou mais, passará a representar quase 5% da população total.

Assiste-se, de facto, em todo o mundo a um duplo envelhecimento demográfico que consiste num fenómeno em que o prolongamento da vida, acompanhado pelo declínio recente da fecundidade, origina saldos demográficos que se aproximam do zero e, nalguns casos, são mesmo negativos.

A imigração é uma resposta parcial para este problema. Mas resta o mais difícil. Usando uma linguagem eventualmente chocante é preciso forjar e aplicar uma estratégia de repovoamento do território. O desenvolvimento sustentável exige a preservação do património natural, sem cedências nem ao protecionismo do Estado nem às leis do mercado, mas esta preservação não é viável com um território em dois terços despovoado.





quarta-feira, janeiro 7

CITAÇÕES

De facto os blogs são antigos. Sempre apreciei e gostei de ler blogs que, em todos os tempos, assumiram a forma de Cadernos ou Diários. O suporte tecnológico é que mudou. Para aqueles que possam ficar admirados com as citações, que vão surgindo, direi que elas resultam de escolhas que abrangem um universo relativamente restrito de autores que estou sempre a ler. No limite lemos sempre o mesmo texto da mesma forma que escrevemos, quando escrevemos, sempre o mesmo texto. Uma das minhas leituras apaixonadas de juventude incidiu na obra de Albert Camus (1913/1960), em particular, os “Cadernos”, em três volumes, editados, em Portugal, pela Editora “Livros do Brasil”. Não admira o prazer que sinto ao citar este autor. Mas vão surgir outros (poucos).

IMIGRAÇÃO

Tema muito interessante e importante no mundo contemporâneo que me tem interessado. Este interesse nasceu a partir de um trabalho empenhado que me obrigou a abordar, com frequência, a questão do designado "envelhecimento demográfico". Trata-se, pois, de uma abordagem que me levou à questão económica. As economias ditas desenvolvidas do ocidente são atingidas pelo fenómeno do envelhecimento das populações. Carecem de importar mão de obra. Não de forma pontual, localizada ou temporal, mas de forma continuada e massiva. É um processo irreversível. Nas sociedades ocidentais já não há capacidade de reposição das gerações. Por isso a nossa sociedade só pode rejuvenescer através da imigração. A nossa sociedade já é, e será cada vez mais, composta de diversas cores, religiões, ritos e culturas. Em Portugal existe uma forte tradição de emigração. Hoje, ao contrário, os portugueses são confrontados com um número crescente de estrangeiros com os quais têm de conviver. É sem dúvida um tema que tenderá a tornar-se central na disputa política. No debate dos direitos humanos e de cidadadia. Nas abordagens sociológicas. Sei que tem sido um tema debatido com intensidade na blogofera. Ninguém pense que existe uma qualquer saída radical para a questão da imigração. Tema a revisitar em breve.

terça-feira, janeiro 6

POEMA - NO PAÍS DOS SACANAS, in 40 ANOS DE SERVIDÃO(J. de Sena)

“Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos o são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para fazer funcionar fraternalmente
a humidade da próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então neste país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.”

Jorge de Sena
10/10/73
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segunda-feira, janeiro 5

sexta-feira, janeiro 2

2004

No iní­cio do ano a notícia que mais me impressionou: milhões de brasileiros saudaram o novo ano no Rio de Janeiro. Se fosse só no Rio.. no Brasil é verão. A tradição de vida na rua é muito forte. O calor abrasa os corpos e os espiritos se soltam. Em Portugal é inverno. A estação do ano mais fria. Mas o espirito dos povos não é determinado pelo clima. Em Portugal o inverno dos espiritos é a tentação da rendição à  voracidade dos aspirantes a ditadores. Lula, no Brasil, certamente com dificuldades e erros, é ainda uma esperança de construir, em democracia, um futuro mais feliz para o povo. Em Portugal, a abrir o ano, as notÃicias são inquietantes. Os assassinatos de carácter fazem as manchetes. O tema da pedofilia vende e é demolidor para a imagem pública de quem quer que seja. A mais valia de qualquer político é a sua imagem pública. Todos os media se renderam ao mercado. O quarto poder está nas mãos de 2 ou 3 grupos económicos. Talvez esteja a exagerar: todos os acontecimentos/notí­cia parecem programados com profissionalismo. O fogo é assoprado numa única direcção. Quem sopra o fogo? É inverno. O povo não sai à  rua. Os métodos polí­ticos próprios da tradição ultra conservadora portuguesa afeiçoaram-se às exigências da modernidade...

2003 - Fim

As leituras, por vezes, são mais difíceis do que parecem. Erros técnicos as tornam, por vezes, um exercício de adivinhação. Passemos à frente.